
Primeiras Publicaes Psicanalticas
















VOLUME III
(1893-1899)















Dr. Sigmund Freud


         
       PREFCIO AOS ESCRITOS BREVES DE FREUD 1893-1906 (1906)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         PREFCIO A SAMMLUNG KLEINER SCHRIFTEN ZUR NEUROSENLEHRE AUS DEN JAHREN
         1893-1906
         
         (a)EDIES ALEMS:
         1906 S.K.S.N., 1, iii. (1911, 2 ed.; 1920, 3 ed.; 1922, 4 ed.)
         1925 G.S.,  1, 241-2.
         1952 G.W., 1, 557-8.
         
         Esta traduo do prefcio por James Strachey parece ser a primeira em ingls.
         
         O livro que leva esse prefcio foi o primeiro dos cinco volumes-coletneas de artigos breves de Freud, tendo os demais aparecido em 1909, 1913, 1918 e 1922. 
O presente volume da Standard Edition inclui a maior parte do contedo dessa primeira coletnea. Entretanto, o primeiro dos artigos em francs, que compara a paralisia 
orgnica com a histrica (1893c), foi includo no Volume I da Standard Edition, como pertencendo quase inteiramente  fase pr-psicanaltica. Do mesmo modo, seus 
trs ltimos itens (dois artigos que figuram nos volumes de Loewenfeld, 1904a e 1906a, e o artigo "Sobre a Psicoterapia", 1905a), que tm data posterior aos demais, 
sero encontrados no Volume VII da Standard Edition. Alm do mais, a "Comunicao Preliminar" (1893a), reimpressa em Estudos sobre a Histeria (1895d), est includa 
no Volume II da Standard Edition, no se repetindo aqui. No entanto, seu lugar  tomado por uma conferncia (1893h) recentemente descoberta, contempornea da "Comunicao 
Preliminar" e cobrindo o mesmo campo, da qual h uma transcrio estenografada corrigida por Freud. Este volume contm ainda dois artigos que Freud omitira de sua 
coletnea: a discusso sobre o esquecimento (1898b), depois desenvolvida no primeiro captulo de Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana, e o artigo sobre as "Lembranas 
Encobridoras" (1899a). Inclui tambm a lista das sinopses dos primeiros trabalhos de Freud (1897b), elaboradas por ele mesmo com vistas a sua pretenso ao cargo 
de Professor.
         Em razo da precedncia dada por Freud, entre esses artigos, a seu obiturio de Charcot, parece adequado introduzir o presente volume da Standard Edition 
com uma reproduo da fotografia autografada com que Charcot o presenteou quando ele deixou Paris em fevereiro de 1886.
         
         
         
         
         PREFCIO DE FREUD  COLETNEA DOS ESCRITOS BREVES SOBRE A TEORIA DAS NEUROSES DE 1893 A 1906
         
         Atendendo a muitas solicitaes que me tm chegado, decidi apresentar a meus colegas, em forma de coletnea, os pequenos trabalhos sobre as neuroses que 
venho publicando desde 1893. Consistem em quatorze artigos curtos, que em sua maior parte tm o carter de comunicaes preliminares, publicados em boletins cientficos 
ou em peridicos mdicos - trs deles em francs. Os dois ltimos (XIII e XIV), que apresentam em termos sucintos minha atual posio quanto  etiologia e ao tratamento 
das neuroses, foram extrados dos conhecidos volumes de Loewenfeld, Die psychischen Zwangserscheinungen |Sintomas Psquicos Obsessivos|, 1904, e da 4 edio de 
Sexualleben und Nervenleiden |Vida Sexual e Doena Nervosa|, 1906, e foram escritos por mim a pedido de seu autor, que  meu amigo. |Ver em. [1].|
         Esta coletnea serve como introduo e suplemento a minhas publicaes de maior envergadura versando sobre os mesmos tpicos - Estudos sobre a Histeria 
(com o Dr. J. Breuer), 1895; A Interpretao dos Sonhos, 1900; Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana, 1901 e 1904; O Chiste e sua Relao com o Inconsciente, 
1905; Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, 1905; e Fragmento da Anlise de um Caso de Histeria, 1905. O fato de ter posto meu Obiturio de J.-M. Charcot  
frente desta coletnea de artigos de minha autoria deve ser considerado no apenas como o resgate de uma dvida de gratido, mas tambm como um marco do ponto em 
que meu prprio trabalho se separa do trabalho do mestre.
         Nenhuma pessoa familiarizada com o processo de desenvolvimento do saber humano ficar surpresa ao constatar que, neste nterim, ultrapassei algumas das 
opinies aqui expressas, ao mesmo tempo que venho modificando outras. No obstante, consegui manter inalterada a maior parte delas e, de fato, no senti necessidade 
de eliminar coisa alguma como totalmente errnea ou completamente desprezvel.
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       CHARCOT (1893)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1893 Wien. med. Wschr., 43 (37), 1513-20. (9 de setembro).
         1906 S.K.S.N., 1, 1-13. (1911, 2 ed.; 1920, 3 ed.; 1922, 4 ed.)
         1925 G.S., 1, 243-57.
         1952 G.W., 1, 21-35.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         "Charcot"
         1924 C.P., 1, 9-23. (Trad. de J. Bernays.)
         
         Includo (N XXII) na coleo de sinopses dos primeiros trabalhos de Freud elaborada por ele mesmo (1897b). A presente traduo  baseada na de 1924.
         
         De outubro de 1885 a fevereiro de 1886, Freud trabalhou na Salptrire, em Paris, sob a direo de Charcot. Esse foi o ponto crucial de sua carreira, pois 
foi durante esse perodo que seu interesse transferiu-se da neuropatologia para a psicopatologia - da cincia fsica para a psicologia. Ainda que outros fatores 
mais profundos possam ter interferido na mudana, o determinante imediato foi, sem sombra de dvida, a personalidade de Charcot. Como escreveu ele a sua futura esposa, 
logo aps ter chegado a Paris (em 24 de novembro de 1885). "Acho que estou mudando muito. Vou dizer-lhe detalhadamente o que me est afetando. Charcot, que  um 
dos maiores mdicos e um homem cujo senso comum tem um toque de gnio, est simplesmente desarraigando minhas metas e opinies. Por vezes, saio de suas aulas como 
se estivesse saindo da Notre Dame, com uma nova idia de perfeio. Mas ele me exaure; quando me afasto, no sinto mais nenhuma vontade de trabalhar em minhas prprias 
bobagens; h trs dias inteiros no fao qualquer trabalho, e no tenho nenhum sentimento de culpa. Meu crebro est saciado, como se eu tivesse passado uma noite 
no teatro. Se a semente frutificar algum dia, no sei; o que sei  que ningum jamais me afetou dessa maneira..."
         Este obiturio, escrito poucos dias aps a morte de Charcot,  uma evidncia adicional da enorme admirao de Freud por ele, admirao que no perdeu at 
o fim de sua vida. Os ditos de Charcot afloram constantemente nos textos de Freud e, em todos os relatos de seu prprio desenvolvimento, nunca foi esquecido o papel 
desempenhado por Charcot.
         Embora este seja o mais longo estudo de Freud sobre ele, dois ou trs outros trabalhos podem complement-lo: o relatrio oficial de Freud s autoridades 
da Universidade de Viena sobre o curso de seus estudos em Paris (1956a |1886|), fonte de parte do material de tal obiturio; a "Histria do Movimento Psicanaltico" 
(1914d), Standard Edition, Vol. XIV, (ver em [1]), o Estudo Autobiogrfico (1925d), ibid., Vol. XX ( 12-4), e tambm o primeiro volume da biografia de Ernest Jones 
(1953, 202-5).
         
         CHARCOT
         
         A 16 de agosto deste ano, J,-M. Charcot morreu subitamente, sem dor ou doena, aps uma vida de felicidade e fama. Nele, prematuramente, a jovem cincia 
neurolgica perdeu seu maior lder, os neurologistas de todos os pases perderam seu grande mestre e a Frana perdeu um de seus mais destacados cidados. Tinha apenas 
sessenta e oito anos; sua fora fsica e seu vigor mental, ao lado das esperanas que ele expressava to abertamente, pareciam prometer-lhe a longevidade de que 
desfrutaram no poucos dos intelectuais deste sculo. Os nove volumes imponentes de suas Oeuvres compltes, em que seus discpulos reuniram suas contribuies  
medicina e  neuropatologia, suas Leons du mardi, os relatrios anuais de sua clnica no Salptrire, e outros trabalhos mais - todas essas publicaes permanecero 
preciosas para a cincia e para seus alunos; mas no podem substituir o homem, que tinha ainda muito mais a dar e a ensinar, e de cuja pessoa e cujos textos ningum 
jamais se aproximou sem que aprendesse alguma coisa.
         Seu grande sucesso trazia-lhe um honesto e humanssimo prazer, e ele gostava de conversar sobre o comeo de sua trajetria e sobre o caminho j percorrido. 
Sua curiosidade cientfica, dizia, cedo fora despertada, quando ele era ainda um jovem interne, pelo abundante material apresentado pelos fatos da neuropatologia, 
material sequer compreendido quele tempo. Nessa poca, sempre que fazia a ronda com o mdico-assistente num dos departamentos do Salptrire (instituio hospitalar 
encarregada de mulheres), em meio a toda a profuso de paralisias, espasmos e convulses para os quais, h quarenta anos, no havia nome nem compreenso, ele dizia: 
"Faudrait y retourner et y rester"; e manteve sua palavra. Quando se tornou mdecin des hpitaux, imediatamente providenciou seu ingresso num dos departamentos de 
pacientes nervosos do Salptrire. Tendo-o conseguido, l permaneceu, ao invs de fazer o que se permitia aos mdicos franceses - transferir-se, em sucesso regular, 
de um departamento para outro e de hospital para hospital, mudando ao mesmo tempo de especialidade.
         Assim, sua primeira impresso e a resoluo da resultante foram decisivas para a totalidade de seu desenvolvimento ulterior. Dispor de um grande nmero 
de pacientes nervosos crnicos permitiu-lhe utilizar seus prprios dotes especiais. No era Charcot um homem dado a reflexes excessivas, um pensador: tinha, antes, 
a natureza de um artista - era, como ele mesmo dizia, um "visuel", um homem que v. Eis o que nos falou sobre seu mtodo de trabalho. Costumava olhar repetidamente 
as coisas que no compreendia, para aprofundar sua impresso delas dia-a-dia, at que subitamente a compreenso raiava nele. Em sua viso mental, o aparente caos 
apresentado pela repetio contnua dos mesmos sintomas cedia ento lugar  ordem: os novos quadros nosolgicos emergiam, caracterizados pela combinao constante 
de certos grupos de sintomas. Os casos extremos e completos, os "tipos", podiam ser destacados com a ajuda de uma espcie de planejamento esquemtico e, tomando 
esses tipos como ponto de partida, a mente podia viajar pela longa srie de casos mal definidos - as "formes frustes" - que, bifurcando-se a partir de um ou outro 
trao caracterstico do tipo, desvaneciam-se na indistino. Ele chamava essa espcie de trabalho intelectual, no qual ningum o igualava, de "nosografia prtica", 
e se orgulhava dele. Podia-se ouvi-lo dizer que a maior satisfao humana era ver alguma coisa nova - isto , reconhec-la como nova; e insistia repetidamente na 
dificuldade e na importncia dessa espcie de "viso". Costumava indagar por que, na medicina, as pessoas enxergavam apenas o que tinham aprendido a ver. Falava 
em como era maravilhoso que algum pudesse subitamente ver coisas novas - novos estados de doena - provavelmente to velhas quanto a raa humana, e em como tinha 
que confessar a si mesmo que via agora nas enfermarias hospitalares inmeras coisas que lhe haviam passado despercebidas durante trinta anos. No  preciso falar 
a nenhum mdico a respeito da riqueza de formas que a neuropatologia adquiriu atravs dele, nem do aumento de preciso e segurana de diagnstico que suas observaes 
tornaram possvel. Mas um aluno que passasse com ele muitas horas, acompanhando-o nas inspees das enfermarias do Salptrire - aquele museu de fatos clnicos cujos 
nomes e caractersticas peculiares, em sua maior parte, provieram dele -, haveria de se lembrar de Cuvier, cuja esttua, erguendo-se em frente do Jardin des Plantes, 
exibe esse grande entendedor e descritor do mundo animal cercado por uma multido de figuras animais; ou ento se lembraria do mito de Ado, que, diante das criaturas 
do Paraso que Deus lhe trouxera para serem distinguidas e nomeadas, deve ter experimentado no mais alto grau o prazer intelectual que Charcot tanto louvava, que 
Deus lhe trouxera para serem distinguidas e nomeadas, deve ter experimentado no mais alto grau o prazer intelectual que Charcot tanto louvava.
         De fato, Charcot era infatigvel na defesa dos direitos do trabalho puramente clnico, que consiste em observar e ordenar as coisas, contrariando as usurpaes 
da medicina terica. Em certa ocasio, ramos um pequeno grupo de estudantes estrangeiros que, educados na tradio da fisiologia acadmica alem, esgotvamos sua 
pacincia com nossas dvidas quanto s suas inovaes clnicas. "Mas isso no pode ser verdade", objetou um de ns, "pois contradiz a teoria de Young-Helmholtz". 
Ele no retrucou com um "tanto pior para a teoria; primeiro os fatos clnicos", ou qualquer outra expresso no mesmo sentido; disse-nos, entretanto, uma coisa que 
nos causou enorme impresso: "La thorie, c'est bon, mas a n'empche pas d'exister."
         Por muitos anos Charcot ocupou a Ctedra de Anatomia Patolgica em Paris, tendo prosseguido, voluntariamente e como ocupao secundria, em seus estudos 
e cursos de neuropatologia, que rapidamente o tornaram famoso tanto no exterior quanto na Frana. Foi um acaso fortuito para a neuropatologia que o mesmo homem pudesse 
encarregar-se do desempenho de duas funes: por um lado, criou a descrio nosolgica atravs da observao clnica e, por outro, demonstrou que as mesmas mudanas 
anatmicas subjaziam  doena, quer esta aparecesse como tpica, quer como forme fruste. O xito desse mtodo antomo-clnico de Charcot  amplamente reconhecido 
no campo das doenas nervosas orgnicas - tabe, esclerose mltipla, esclerose amiotrfica lateral etc. Freqentemente foram necessrios anos de espera paciente antes 
que se pudesse comprovar a presena da mutao orgnica nessas molstias crnicas que no so diretamente fatais, e somente num hospital para casos incurveis, como 
era o Salptrire, seria possvel manter os pacientes em observao por perodos to longos de tempo. Charcot fez a primeira demonstrao desse gnero antes de se 
encarregar de um departamento. Quando era ainda estudante, aconteceu-lhe contratar uma criada que sofria de um tremor singular e no conseguia arranjar colocao 
devido  sua falta de jeito. Charcot reconheceu em seu estado uma paralysie choriforme, enfermidade que j fora descrita por Duchenne, mas cujo fundamento era desconhecido. 
Charcot conservou essa curiosa criada, embora ela lhe custasse, no correr dos anos, uma pequena fortuna em pratos e travessas. Quando ela finalmente faleceu, ele 
estava em condies de demonstrar, a partir desse caso, que a paralysie choriforme era a expresso clnica da esclerose crebro-espinhal mltipla.
         A anatomia patolgica deve servir  neuropatologia de duas maneiras. Alm de demonstrar a presena de uma alterao mrbida, deve estabelecer a localizao 
dessa mudana; e todos sabemos que, nas duas ltimas dcadas, a segunda dessas tarefas foi a que despertou maior interesse, sendo a mais ativamente empreendida. 
Charcot desempenhou tambm nessa empresa um papel extremamente destacado, embora as descobertas pioneiras no tenham sido feitas por ele. De incio ele seguiu a 
trilha de nosso compatriota Trck, que se diz ter vivido e pesquisado em relativo isolamento entre ns. Quando emergiram as duas grandes inovaes - as experincias 
de estimulao de Hitzig-Fritsch e as descobertas de Flechsig sobre o desenvolvimento da medula espinhal - que anunciaram uma nova poca no nosso conhecimento da 
"localizao das doenas nervosas", as aulas de Charcot sobre esse assunto desempenharam o maior e mais importante papel na aproximao entre as novas teorias e 
o trabalho clnico, tornando-as frutferas para este. No que concerne especialmente  relao do aparelho somtico muscular com a rea motora do crebro humano, 
posso lembrar ao leitor o longo perodo de tempo durante o qual estiveram em questo a natureza mais exata dessa relao, assim como sua topografia. (Haveria uma 
representao comum de ambas as extremidades nas mesmas reas? Ou haveria uma representao da extremidade superior na circunvoluo central anterior e da extremidade 
inferior na posterior - isto , uma disposio vertical?) Afinal, as contnuas observaes clnicas e as experincias com estimulao e extirpao em pacientes vivos, 
durante operaes cirrgicas, decidiram a questo em favor da concepo de Charcot e Pitres, segundo a qual o tero mdio das circunvolues centrais serve principalmente 
 representao do brao, enquanto o tero superior e a poro medial servem  da perna - ou seja, a disposio da rea motora  horizontal.
         Uma enumerao das contribuies isoladas de Charcot no nos capacitaria a demonstrar sua importncia para a neuropatologia, pois durante as duas ltimas 
dcadas no houve tema, qualquer que fosse sua importncia, em cuja formulao e discusso a escola do Salptrire no tivesse uma significativa participao; e 
a "escola do Salptrire" era, naturalmente, o prprio Charcot, que, com a riqueza de sua experincia, a transparente clareza de suas exposies e a plasticidade 
de suas descries, era facilmente reconhecvel em todas as publicaes da escola. Do crculo de jovens que ele assim reuniu a seu redor e transformou em participantes 
de suas pesquisas, alguns acabaram adquirindo uma conscincia da prpria individualidade e conseguiram uma reputao brilhante. Vez por outra, acontecia mesmo a 
um deles apresentar ao mestre uma assero que parecia a este mais engenhosa que correta; ele ento retorquia com grande sarcasmo em suas conversas e prelees, 
mas sem causar nenhum prejuzo  relao afetuosa que mantinha com o aluno. De fato, Charcot deixa atrs de si uma legio de discpulos cuja qualidade intelectual 
e cujas realizaes constituem, at agora, uma garantia de que o estudo e a prtica da neuropatologia em Paris to cedo no descero do alto nvel a que Charcot 
os conduziu.
         Em Viena, temos tido freqentes oportunidades de reconhecer que o valor intelectual de um professor no se combina necessariamente com a influncia pessoal 
direta que ele possa exercer sobre os mais jovens, levando  criao de uma grande e importante escola. Se Charcot foi muito mais afortunado a este respeito, devemos 
atribuir isso s qualidades pessoais do homem -  magia que emanava de sua aparncia e de sua voz,  cordial franqueza que caracterizava seu trato social, to logo 
suas relaes com algum transpunham a etapa de constrangimento inicial,  boa vontade com que punha tudo  disposio de seus discpulos e  sua perene lealdade 
para com eles. As horas que passava em suas enfermarias eram horas de companheirismo e de troca de idias com a totalidade de sua equipe mdica. L, nunca se isolava 
dela. O mais jovem dos mdicos recm-graduados, percorrendo as enfermarias, tinha oportunidade de observ-lo em seu trabalho e podia interromp-lo; e a mesma liberdade 
era desfrutada pelos estudantes estrangeiros, que, nos ltimos anos, nunca estavam ausentes de suas rondas hospitalares. E, por fim, nas noites em que Madame Charcot, 
auxiliada por uma filha altamente dotada e cada vez mais parecida com o pai, recebia uma seleta sociedade, os convidados encontravam os discpulos e assistentes 
mdicos, sempre presentes, como parte da famlia.
         Em 1882 ou 1883, as circunstncias da vida e do trabalho de Charcot assumiram sua forma final. As pessoas haviam-se apercebido de que as atividades desse 
homem faziam parte do patrimnio da "gloire" nacional, que, aps a lastimvel guerra de 1870-1, era ainda mais zelosamente guardado. O governo,  frente do qual 
se achava Gambetta, um velho amigo de Charcot, criou para ele uma Ctedra de Neuropatologia na Faculdade de Medicina (para que ele pudesse abandonar a Ctedra de 
Anatomia Patolgica) e tambm uma clnica, com departamentos cientficos auxiliares, no Salptrire. "Le service de M. Charcot" agora inclua, alm das antigas enfermarias 
para enfermas crnicas, vrios consultrios clnicos onde tambm eram recebidos pacientes masculinos, um amplo ambulatrio para pacientes externos - a "consultation 
externe" -, um laboratrio histolgico, um museu, um departamento eletroteraputico, um departamento de olhos e ouvidos e um estdio fotogrfico especial. Todas 
essas coisas eram mltiplas maneiras de manter os antigos discpulos e assistentes permanentemente ligados  clnica, em postos seguros. Os edifcios de dois andares, 
com sua aparncia desgastada pelo tempo e seus ptios internos, lembravam vivamente ao estrangeiro nosso Allgemeines Krankenhaus, mas sem dvida a semelhana no 
ia alm disso. "Aqui pode no ser bonito", dizia Charcot ao mostrar seus domnios a um visitante, "mas h espao para fazer tudo o que se quiser."
         Charcot estava bem no auge de sua vida quando essas inmeras facilidades para o ensino e a pesquisa foram postas  sua disposio. Era um trabalhador infatigvel 
e, creio eu, sempre o mais ocupado de todo o instituto. Suas consultas particulares, s quais ocorriam pacientes "de Samarcndia e das Antilhas", no conseguiam 
afast-lo de suas atividades de ensino ou de suas pesquisas. Sem dvida, essa multido no o procurava exclusivamente por ele ser um descobridor famoso, mas tambm 
por ser um grande mdico e filantropo, que sempre achava a soluo dos problemas e era capaz de dar bons palpites nos casos em que o estado atual da cincia no 
lhe permitia saber. Freqentemente o censuraram por seu mtodo teraputico, que, com sua multiplicidade de receitas, no podia deixar de ofender as conscincias 
racionalistas. Mas ele estava apenas dando continuidade aos procedimentos correntes naquela poca e lugar, sem se iludir muito quanto a sua eficcia. Contudo, no 
era pessimista em suas expectativas teraputicas, e repetidamente se mostrava pronto a experimentar novos mtodos de tratamento em sua clnica: os xitos pouco duradouros 
destes teriam explicao em outro lugar.
         Como professor, Charcot era positivamente fascinante. Cada uma de suas aulas era uma pequena obra de arte em construo e composio; era perfeita na forma 
e to marcante que, pelo resto do dia, no conseguamos expulsar de nossos ouvidos o som de suas palavras nem de nossas mentes a idia que ele demonstrara. Raras 
vezes fazia demonstraes com pacientes isolados; antes, expunha uma srie de casos similares ou contrastantes e comparava-os entre si. Na sala em que dava suas 
aulas havia um quadro do "cidado" Pinel removendo as correntes dos pobres loucos do Salptrire. O Salptrire, que testemunhara tantos horrores durante a Revoluo, 
foi tambm cenrio da mais humana de todas as revolues. Nessas aulas, o prprio Mestre Charcot causava uma curiosa impresso. Ele, que noutras ocasies borbulhava 
de vivacidade e bom humor, e que tinha sempre uma brincadeira nos lbios, parecia ento srio e solene com seu pequeno barrete de veludo verde; de fato, chegava 
mesmo a parecer mais velho. Sua voz soava abrandada. Quase conseguamos compreender por que os estranhos mal-intencionados criticavam toda a exposio como sendo 
teatral. Os que assim falavam estavam sem dvida acostumados  natureza amorfa das conferncias clnicas alems, ou ento se esqueciam de que Charcot dava apenas 
uma aula por semana e, portanto, podia prepar-la cuidadosamente.
         Nessa exposio formal, em que tudo estava preparado e todas as coisas tinham que ter seu lugar, Charcot indubitavelmente seguia uma tradio profundamente 
enraizada; mas sentia tambm necessidade de apresentar a sua audincia um quadro menos esmerado de suas atividades. Esse propsito era cumprido por sua clnica de 
pacientes externos, da qual se encarregava pessoalmente nas chamadas "leons du mardi". Ali levantara casos que lhe eram completamente desconhecidos; expunha-se 
a todas as casualidades de um exame, a todos os erros de uma primeira investigao; ocasionalmente, punha de lado sua autoridade e admitia, num caso, que no conseguia 
chegar a qualquer diagnstico, e noutro, que fora enganado pelas aparncias; e nunca parecia maior  sua audincia do que nos momentos em que, fornecendo o mais 
detalhado relato de seus processos de pensamento e mostrando a mxima franqueza sobre suas dvidas e hesitaes, procurava estreitar dessa forma a distncia entre 
professor e aluno. A publicao dessas aulas improvisadas, dadas nos anos de 1887 e 1888, primeiro em francs e agora tambm em alemo, ampliou tambm imensuravelmente 
o crculo de seus admiradores; nunca antes um trabalho de neuropatologia alcanou tanto sucesso quanto esse junto ao pblico mdico.
         Mais ou menos na poca em que a clnica foi fundada e em que ele abandonou a ctedra de Anatomia Patolgica, houve uma mudana no sentido das investigaes 
cientficas de Charcot, fato ao qual devemos o melhor de seu trabalho. Ele declarou que a teoria das doenas nervosas orgnicas estava ento bastante completa e 
comeou a voltar sua ateno quase exclusivamente para a histeria, que assim se tornou de imediato o foco do interesse geral. Esta, a mais enigmtica de todas as 
doenas nervosas, para cuja avaliao a medicina ainda no achara nenhum ngulo de enfoque aproveitvel, acabara ento de cair no mais completo descrdito, e esse 
descrdito se estendia no s aos pacientes, mas tambm aos mdicos que se interessassem pela neurose. Sustentava-se que na histeria qualquer coisa era possvel 
e no se dava crdito aos histricos em relao a nada. A primeira coisa feita pelo trabalho de Charcot foi a restaurao da dignidade desse tpico. Pouco a pouco, 
as pessoas abandonaram o sorriso desdenhoso com que uma paciente podia ter certeza de ser recebida naquele tempo. Ela no era mais necessariamente uma simuladora 
de doena, pois Charcot jogara todo o peso de sua autoridade em favor da autenticidade e objetividade dos fenmenos histricos. Charcot repetira, em menor escala, 
o ato de libertao em cuja memria o retrato de Pinel pendia da parede da sala de conferncias do Salptrire. Uma vez abandonado o temor cego de ser feito de tolo 
por algum infortunado paciente - medo que at ento bloqueara o caminho de um estudo srio da neurose -, podia-se levantar a questo de qual mtodo de abordagem 
levaria mais rapidamente  soluo do problema. Um observador sem nenhum preconceito poderia chegar a esta concluso: se encontro algum num estado tal que manifesta 
todos os sintomas de um afeto doloroso - chorando, gritando e se enfurecendo -, parece provvel a concluso de que est ocorrendo nele um processo mental cuja expresso 
apropriada so estes fenmenos fsicos. Uma pessoa saudvel, se indagada, estaria em condies de dizer que impresso a estava atormentando; o histrico, porm, 
responderia que no sabe. Logo surgiria o problema de saber como  que um paciente histrico  dominado por um afeto em relao a cuja causa afirma nada saber. Se 
nos ativermos a nossa concluso de que deve existir um processo psquico correspondente, e se, ainda assim, acreditarmos no paciente quando ele o nega; se reunirmos 
as mltiplas indicaes de que o paciente se comporta como se de fato soubesse disso; e se penetrarmos na histria da vida do paciente e descobrirmos alguma ocasio, 
algum trauma, que pudesse evocar de maneira adequada exatamente aquelas expresses de sentimento - ento tudo apontar para uma soluo: a paciente se acha num estado 
de nimo especial em que todas as suas impresses, ou suas lembranas das mesmas, no mais se mantm reunidas numa cadeia associativa, um estado de nimo em que 
 possvel a uma lembrana expressar seu afeto atravs de fenmenos somticos, sem que o grupo dos outros processos mentais, o eu, tome conhecimento disso ou possa 
interferir para evit-lo. Se tivssemos evocado a conhecida diferena psicolgica entre o sono e a viglia, a estranheza de nossa hiptese talvez parecesse menor. 
Ningum deve objetar que a teoria de uma diviso (splitting) da conscincia como soluo para o enigma da histeria seja demasiado remota para impressionar um observador 
destreinado e imparcial, pois, na realidade, ao declarar a possesso demonaca como causa dos fenmenos histricos, a Idade Mdia escolheu essa soluo; seria apenas 
uma questo de trocar a terminologia religiosa daquela era obscurantista e supersticiosa pela linguagem cientfica de nossos dias.
         Charcot, entretanto, no seguiu esse caminho para uma explicao da histeria, embora se valesse copiosamente dos relatos remanescentes de julgamentos de 
bruxas e de casos de possesso, a fim de mostrar que as manifestaes da neurose naquela poca eram idnticas s de hoje. Ele tratou a histeria como sendo apenas 
mais um tpico da neuropatologia; forneceu uma descrio completa de seus fenmenos, demonstrou que estes tinham suas prprias leis e regularidades, e mostrou como 
reconhecer os sintomas que possibilitam a feitura de um diagnstico de histeria. As mais trabalhosas investigaes, iniciadas por ele mesmo e por seus discpulos, 
estenderam-se aos distrbios histricos da sensibilidade da pele e dos tecidos mais profundos, ao comportamento dos rgos dos sentidos e s peculiaridades das contraturas 
e paralisias histricas, dos distrbios trficos e das alteraes do metabolismo. Descreveram-se as muitas formas diferentes do ataque histrico e delineou-se um 
plano esquemtico, retratando a configurao tpica do grande ataque histrico |"grande hystrie"| como ocorrendo em quatro estgios, o que permitiu rastrear os 
ataques "menores" comumente observados |"petite hystrie"| at essa mesma configurao tpica. Estudaram-se tambm a localizao e a freqncia da ocorrncia das 
chamadas "zonas histerognicas", e a relao destas com os ataques, e assim por diante. Uma vez que se chegou a todas essas informaes sobre as manifestaes da 
histeria, fez-se uma quantidade de descobertas surpreendentes. Descobriu-se que a histeria nos homens, especialmente nos da classe trabalhadora, era muito mais freqente 
do que se esperava; demonstrou-se convincentemente que certos estados atribudos  intoxicao alcolica ou ao envenenamento por chumbo eram de natureza histrica; 
foi possvel incluir na histeria um conjunto de afeces at ento no compreendidas nem classificadas; e nos casos em que a neurose se juntara a outros distrbios 
de modo a formar quadros complexos, foi possvel distinguir o papel desempenhado pela histeria. As investigaes de maior alcance foram aquelas votadas s doenas 
nervosas decorrentes de traumas graves - as "neuroses traumticas" -, a respeito das quais os pontos de vista ainda so controvertidos e em relao s quais Charcot 
propusera com xito os argumentos a favor da histeria.
         Depois que as ltimas extenses do conceito de histeria levaram com tanta freqncia a uma rejeio do diagnstico etiolgico, tornou-se necessrio esmiuar 
a etiologia da prpria histeria. Charcot props uma frmula simples para esta: devia-se considerar a hereditariedade como causa nica. Conseqentemente, a histeria 
seria uma forma de degenerao, um membro da "famille nvropathique". Todos os outros fatores etiolgicos desempenhariam o papel de causas incidentais, de "agents 
provocateurs".
         Naturalmente, a construo desse grande edifcio no foi alcanada sem oposio violenta. Mas foi a oposio estril de uma velha gerao que no queria 
ter suas convices mudadas. Os neuropatologistas mais jovens, inclusive os da Alemanha, aceitaram os ensinamentos de Charcot em maior ou menor grau. O prprio Charcot 
estava absolutamente certo de que suas teorias sobre a histeria triunfariam. Quando se objetou que os quatro estgios da histeria, a histeria masculina etc., no 
eram observveis fora da Frana, ele indicou por quanto tempo essas coisas haviam passado despercebidas para ele prprio, e disse uma vez mais que a histeria era 
a mesma em todas as pocas e lugares. Era muito sensvel  acusao de que a Frana era uma nao muito mais neurtica que qualquer outra e de que a histeria era 
uma espcie de mau hbito nacional; e ficou muito satisfeito quando o artigo "Sobre um Caso de Epilepsia Reflexa", que versava sobre o caso de um granadeiro prussiano, 
permitiu-lhe fazer um diagnstico mais abrangente da histeria.
         A certa altura de seu trabalho, Charcot elevou-se a um nvel mais alto at mesmo do que o de seu tratamento usual da histeria. O passo que deu tambm lhe 
assegurou para sempre a fama de ter sido o primeiro a explicar a histeria. Enquanto estava empenhado no estudo das paralisias histricas decorrentes de traumas, 
teve a idia de reproduzir artificialmente essas paralisias, que antes diferenciara das orgnicas com todo cuidado. Para esse propsito, utilizou pacientes histricos 
que colocava em estado de sonambulismo, hipnotizando-os. Teve xito em provar, atravs de uma slida cadeia de argumentos, que essas paralisias eram o resultado 
de idias que tinham dominado o crebro do paciente em momentos de disposio especial. Desse modo, o mecanismo de um fenmeno histrico foi explicado pela primeira 
vez. Essa amostra incomparavelmente arguta de investigao clnica foi depois retomada por seu discpulo, Pierre Janet, assim como por Breuer e outros, que desenvolveram 
a partir dela uma teoria da neurose que coincidia com a viso medieval - depois de eles terem substitudo o "demnio" da fantasia clerical por uma frmula psicolgica.
         O interesse de Charcot pelos fenmenos hipnticos nos pacientes histricos levou a enormes avanos nessa importante rea de fatos at ento negligenciados 
e desprezados, pois o peso de seu nome ps fim de uma vez por todas a qualquer dvida sobre a realidade das manifestaes hipnticas. Mas a abordagem exclusivamente 
nosogrfica adotada na escola do Salptrire no foi suficiente para um assunto puramente psicolgico. A limitao do estudo da hipnose aos pacientes histricos, 
a diferenciao entre grande e pequeno hipnotismo, a hiptese sobre os trs estgios da "grande hipnose" e a caracterizao desses estgios por fenmenos somticos 
- tudo isso declinou no conceito dos contemporneos de Charcot, quando Bernheim, discpulo de Libeault, passou a elaborar a teoria do hipnotismo a partir de fundamentos 
psicolgicos mais abrangentes e a fazer da sugesto o ponto central da hipnose. Os opositores do hipnotismo, satisfeitos em poder ocultar sua falta de experincia 
pessoal por trs de um apelo  autoridade, so os nicos que ainda se prendem s asseres de Charcot e gostam de tirar proveito de uma declarao feita por ele 
em seus ltimos anos, na qual negava  hipnose qualquer valor como mtodo teraputico.
         Alm disso, as teorias etiolgicas sustentadas por Charcot em sua doutrina da "famille nvropathique", base de todo o seu conceito dos distrbios nervosos, 
requerer brevemente, sem dvida, um minucioso exame e algumas retificaes. A tal ponto Charcot superestimou a hereditariedade como agente causativo, que no deixou 
espao algum para a aquisio da doena nervosa.  sfilis conferiu apenas um modesto lugar entre os "agents provocateurs"; tampouco fez uma distino suficientemente 
clara entre as afeces nervosas orgnicas e as neuroses, tanto no que toca a sua etiologia como no que toca a outros aspectos.  inevitvel que o avano da cincia, 
na medida em que aumenta nosso conhecimento, deva ao mesmo tempo reduzir o valor de inmeras coisas que Charcot nos ensinou; mas nem os tempos mutveis nem as concepes 
mutveis podem diminuir a reputao do homem que - na Frana e em toda parte - estamos hoje pranteando.
         
         VIENA, agosto de 1893.
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       SOBRE O MECANISMO PSQUICO DOS FENMENOS HISTRICOS: UMA CONFERNCIA (1893)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         BER DEN PSYCHISCHEN MECHANISMUS
         HYSTERISCHER PHAENOMENE
         
         (a) EDIO ALEM:
         1893 Wien. med. Presse, 34 (4), 121-6 e (5), 165-7. (22 e 29 de janeiro).
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         "On the Psychical Mechanism of Hysterical Phenomena"
         1956 Int. J. Psycho-Anal., 37 (1), 8-13. (Trad. de James Strachey.)
         
         O original alemo parece nunca ter sido reeditado. A presente traduo  uma verso levemente corrigida da de 1956.
         O original alemo  encabeado pelas palavras "Pelo Dr. Josef Breuer e Dr. Sigm. Freud de Viena". Na verdade, porm, est  uma transcrio estenografada 
de uma conferncia proferida por Freud e por este revista. Embora verse sobre o mesmo assunto (e freqentemente em termos similares) da famosa "Comunicao Preliminar" 
(1893a), que tem seu lugar prprio no Volume II da Standard Edition no incio dos Estudos sobre a Histeria (1895d), esta conferncia apresenta todos os indcios 
de ser um trabalho apenas de Freud.
         A "Comunicao Preliminar" de Breuer e Freud foi publicada num peridico de Berlim, o Neurologisches Zentralblatt, em duas partes, a 1 e a 15 de janeiro 
de 1893. (Imediatamente depois foi republicada em Viena no Wiener medizinische Blaetter de 19 e 26 janeiro.) A conferncia aqui publicada foi profetizada por Freud 
numa reunio do Clube Mdico de Viena em 11 de janeiro - isto , antes que a segunda parte da "Comunicao Preliminar" fosse publicada.
         Talvez o aspecto mais notvel desta conferncia seja a predominncia do fator traumtico entre as causas presumveis da histeria. Isso constitui, naturalmente, 
uma prova da fora da influncia de Charcot sobre as idias de Freud. A mudana em direo ao reconhecimento do papel desempenhado pelas "moes pulsionais" estava 
ainda no futuro.
         
         
         SOBRE O MECANISMO PSQUICO DOS FENMENOS HISTRICOS
         
         Senhores: Venho hoje a sua presena com o objetivo de inform-los sobre um trabalho cuja primeira parte j foi publicada no Zentralblatt fr Neurologie, 
assinada por Josef Breuer e por mim. Como se pode depreender do ttulo do trabalho, ele versa sobre a patognese dos sintomas histricos e sugere que as razes imediatas 
do desenvolvimento dos sintomas histricos devem ser buscadas na esfera da vida psquica.
         Antes de passar ao contedo deste trabalho conjunto, entretanto, devo esclarecer a posio que ele ocupa, bem como nomear o autor e a descoberta que, ao 
menos em substncia, tomamos como ponto de partida, embora nossa contribuio tenha-se desenvolvido de modo bastante independente.
         Como os senhores sabem, todos os modernos avanos na compreenso e no conhecimento da histeria derivam do trabalho de Charcot. Na primeira metade dos anos 
oitenta, Charcot comeou a voltar sua ateno para a "neurose maior", que  como os franceses chamam a histeria. Numa srie de pesquisas, ele obteve xito em provar 
a presena de regularidades e leis onde as observaes clnicas insuficientes ou apticas de outras pessoas viam apenas simulao de doena ou uma intrigante falta 
de conformidade  regra. Pode-se afirmar, com segurana, que tudo o que se tem aprendido de indito sobre a histeria nos ltimos anos procede, direta ou indiretamente, 
de suas sugestes. Contudo, entre os numerosos trabalhos de Charcot, nenhum a meu ver  mais valioso do que aquele onde nos ensinou a compreender as paralisias traumticas 
que aparecem na histeria; e como este  precisamente o trabalho que o nosso vem continuar, espero que os senhores me permitam apresentar-lhes esse assunto, uma vez 
mais, com algum detalhe.
         Consideraremos o caso de uma pessoa sujeita a um trauma, sem antes ter estado doente e, talvez, mesmo sem ter qualquer predisposio hereditria. O trauma 
deve satisfazer a certas condies. Deve ser grave - isto , ser de uma espcie que envolva a idia de perigo mortal, de uma ameaa  vida. Mas no deve ser grave 
no sentido de pr termo  atividade psquica. De outra forma, no produziria o resultado que esperamos dele. Assim, por exemplo, no deve envolver concusso cerebral 
ou qualquer ferimento realmente srio. Alm disso, o trauma deve ter uma relao especial com alguma parte do corpo. Suponhamos que uma pesada tora de madeira caia 
sobre o ombro de um trabalhador. O golpe o derruba, mas ele logo verifica que nada ocorreu e vai para casa com uma ligeira contuso. Passadas algumas semanas ou 
meses, ele acorda certa manh e observa que o brao submetido ao trauma pende flcido e paralisado, embora, no intervalo, que poderamos chamar de perodo de incubao, 
ele o tenha utilizado perfeitamente bem. Se se tratar de um caso tpico,  possvel que sobrevenham ataques peculiares - que, depois de uma aura, o sujeito desfalea 
repentinamente, fique muito agitado e se torne delirante: e, se falar em seu delrio, sua fala talvez mostre que a cena do acidente est sendo repetida nele, acrescida 
talvez de vrios quadros imaginrios. O que estar acontecendo aqui? Como se deve explicar esse fenmeno?
         Charcot explica o processo reproduzindo-o, induzindo artificialmente o paciente  paralisia. Para promover isso, ele precisa de um paciente que j se encontre 
num estado histrico; requer ainda o estado de hipnose e o mtodo da sugesto. Ele hipnotiza profundamente um paciente desse tipo e ento golpeia seu brao levemente. 
O brao pende; fica paralisado e exibe precisamente os mesmos sintomas que ocorrem na paralisia traumtica espontnea. O golpe tambm pode ser substitudo por uma 
sugesto verbal direta: "Veja! Seu brao est paralisado!" Tambm nesse caso a paralisia apresenta as mesmas caractersticas.
         Tentemos comparar os dois casos: de um lado, um trauma, de outro, uma sugesto traumtica. O resultado final, a paralisia,  exatamente o mesmo em ambos 
os casos. Se o trauma num deles pode ser substitudo, no outro, por uma sugesto verbal,  plausvel supor que uma idia dessa natureza seja responsvel pelo desenvolvimento 
da paralisia tambm no caso de paralisia traumtica espontnea. E, de fato, muitos pacientes relatam que, no momento do trauma, tiveram realmente a sensao de que 
seu brao estava esmagado. Se assim for,  realmente possvel considerar o trauma como equivalente completo da sugesto verbal. Entretanto, para completar a analogia, 
requer-se um terceiro fator. Para que a idia "seu brao est paralisado" pudesse provocar uma paralisia no paciente, seria necessrio que ele estivesse em estado 
hipntico. Mas o trabalhador no se achava em estado hipntico. Ainda assim, podemos presumir que se encontrasse num estado de esprito especial durante o trauma; 
e Charcot se inclina a equiparar esse afeto com o estado de hipnose artificialmente induzido. Sendo assim, a paralisia traumtica espontnea fica completamente explicada 
e se torna paralela  paralisia produzida por sugesto; e a gnese do sintoma  determinada de modo inequvoco pelas circunstncias do trauma.
         Alm disso, Charcot repetiu a mesma experincia a fim de explicar as contraturas e dores que aparecem na histeria traumtica; em minha opinio, dificilmente 
haver algum outro ponto em que sua compreenso da histeria tenha avanado mais profundamente. Todavia, sua anlise no vai adiante: no ficamos sabendo como so 
gerados os outros sintomas e, acima de tudo, no aprendemos como os sintomas histricos aparecem na histeria comum, no-traumtica.
         Aproximadamente na mesma poca, senhores, em que Charcot assim lanava luz sobre as paralisias histerotraumticas, o Dr. Breuer, entre 1880 e 1882, empreendia 
o tratamento mdico de uma jovem senhora que - com uma etiologia no-traumtica - fora acometida de uma histeria aguda e complicada (acompanhada de paralisias, contraturas, 
distrbios da fala e da viso e toda sorte de peculiaridades psquicas) enquanto tratava de seu pai enfermo. Esse caso conservar um lugar importante na histria 
da histeria, j que foi o primeiro em que um mdico teve xito em elucidar todos os sintomas do estado histrico, desvendando a origem de cada sintoma e descobrindo, 
ao mesmo tempo, os meios de fazer cada sintoma desaparecer. Podemos dizer que foi o primeiro caso de histeria a se tornar inteligvel. O Dr. Breuer guardou para 
si as concluses derivadas desse caso at certificar-se de que no se tratava de um caso isolado. Depois de retornar, em 1886, de um curso com Charcot, comecei a 
fazer, com a constante cooperao do Dr. Breuer, observaes detalhadas sobre um nmero bastante grande de pacientes histricos, examinando-os a partir desse ponto 
de vista; descobri ento que o comportamento dessa primeira paciente fora de fato tpico e que as inferncias justificadas por aquele caso podiam ser estendidas 
a um nmero considervel de pacientes histricos, se no a todos.
         Nosso material consistia em casos da histeria comum, isto , no-traumtica. Nosso procedimento era a considerao de cada sintoma, em separado, e a indagao 
das circunstncias em que ele tinha aparecido pela primeira vez; esforvamos-nos, desse modo, por chegar a uma idia clara da causa precipitante que talvez tivesse 
determinado aquele sintoma. Mas no se deve supor que essa seja uma tarefa simples. Para comear, quando interrogamos os pacientes dentro dessa orientao, em geral 
no obtemos nenhuma resposta. Num pequeno grupo de casos, os pacientes tm suas razes para no dizer o que sabem. Em um nmero maior de casos, porm, os pacientes 
no tm qualquer noo do contexto de seus sintomas. O mtodo pelo qual se consegue alguma coisa  rduo.  assim: os pacientes devem ser colocados em hipnose e 
ento indagados sobre a origem de algum sintoma particular - quando apareceu e o que lembram em conexo com ele. Enquanto se acham nesse estado, a memria, que no 
lhes era acessvel no estado de viglia, retorna. Assim aprendemos, para diz-lo em termos grosseiros, que h uma experincia afetivamente marcante por trs da maioria 
dos fenmenos da histeria, se no de todos; e mais, que essa experincia  de tal ordem que torna imediatamente inteligvel o sintoma com que se relaciona, mostrando 
uma vez mais, por conseguinte, que o sintoma  inequivocamente determinado. Se os senhores me permitem comparar essa experincia afetivamente marcante com a grande 
experincia traumtica subjacente  histeria traumtica, posso desde j formular a primeira tese a que chegamos: "H uma analogia total entre a paralisia traumtica 
e a histeria comum, no-traumtica". A nica diferena  que, na primeira, h um grande trauma em ao, ao passo que, na segunda raramente h um nico evento principal 
a ser assinalado, operando antes uma srie de impresses afetivas - toda uma histria de sofrimentos. Mas no  nada forado equiparar essa histria, que aparece 
como o fator determinante nos pacientes histricos, ao acidente que ocorre na histeria traumtica, pois hoje no restam dvidas de que, mesmo no caso do grande trauma 
mecnico da histeria traumtica, o que produz o resultado no  o fator mecnico, mas o afeto de terror, o trauma psquico. A primeira coisa que se deduz disso, 
portanto,  que o padro da histeria traumtica, tal como exposto por Charcot nas paralisias histricas, aplica-se de maneira geral a todos os fenmenos histricos, 
ou pelo menos  sua grande maioria. Na totalidade dos casos, aquilo com que temos de lidar  a atuao de traumas psquicos, que determinam inequivocamente a natureza 
dos sintomas emergentes.
         Apresentarei agora aos senhores alguns exemplos disso. Primeiro, vejamos um caso de ocorrncia de contraturas. Durante todo o perodo de sua doena, a paciente 
de Breuer, que j mencionei, exibia uma contratura do brao direito. Durante a hipnose, veio  tona o fato de que, algum tempo antes de adoecer, ela fora submetida 
ao seguinte trauma: estava sentada, semi-adormecida, ao lado do leito de seu pai enfermo; seu brao direito pendia sobre as costas da cadeira e ficou dormente. Nesse 
momento, ela teve uma alucinao apavorante; tentou afast-la com um movimento do brao, mas foi incapaz de faz-lo. Ela lhe deu um susto violento, mas, de momento, 
o assunto terminou por ali. S quando da irrupo da histeria  que se instalou a contratura do brao. Em outra paciente, observei que a fala era interrompida por 
um "estalido" peculiar da lngua, semelhante ao grito de um tetraz-das-serras. Eu j me familiarizara h meses com esse sintoma e o encarava como um tique. S quando 
me ocorreu perguntar-lhe sob hipnose sobre a origem dele foi que descobri que o rudo aparecera primeiramente em duas ocasies. Em cada uma destas, ela tomara a 
firme deciso de se manter absolutamente silenciosa. Isso lhe ocorreu, numa das vezes, ao cuidar de um de seus filhos, que estava seriamente doente. (Tratar de pessoas 
doentes  um fator que freqentemente atua na etiologia da histeria.) A criana adormecera e ela se havia determinado no fazer qualquer barulho que pudesse acord-la. 
Mas o medo de fazer barulho transformou-se efetivamente na produo de um rudo - um exemplo de "contravontade histrica"; ela apertou os lbios e fez o estalido 
com a lngua. Muitos anos depois, o mesmo sintoma se manifestou uma segunda vez, novamente numa ocasio em que ela decidira ficar absolutamente quieta, e desde ento 
havia persistido. Muitas vezes, uma nica causa precipitante no basta para fixar um sintoma; mas, quando esse mesmo sintoma aparece reiteradamente, acompanhado 
por um afeto especfico, torna-se fixado e crnico.
         Um dos sintomas mais comuns da histeria  a combinao de anorexia e vmito. Sei de um grande nmero de casos em que a ocorrncia desse sintoma  explicada 
de maneira bastante simples. Assim, numa paciente o vmito persistiu depois de ela ter lido uma carta humilhante pouco antes de uma refeio e ter ficado violentamente 
nauseada com isso. Em outros casos, a repulsa pela comida pode ser claramente relacionada ao fato de que; graas  instituio da "mesa comum", uma pessoa pode ser 
compelida a fazer uma refeio em companhia de algum que detesta. A repulsa  ento transferida da pessoa para os alimentos. A mulher com o tique, que mencionei 
h pouco, era particularmente interessante a esse respeito. Comia excepcionalmente pouco e apenas sob presso. Ela me informou, sob hipnose, que uma srie de traumas 
psquicos havia acabado por produzir esse sintoma de repulsa  comida. Quando era ainda criana, sua me, muito severa, insistia para que ela comesse toda a carne 
que tivesse deixado no almoo duas horas depois, quando a carne estava fria e a gordura, toda congelada. Ela o fazia com enorme asco e guardou a lembrana disso; 
mais tarde, quando j no estava sujeita a essa punio, sentia regularmente enjo na hora das refeies. Dez anos depois, costumava sentar-se  mesa com um parente 
tuberculoso que escarrava constantemente, durante as refeies, numa escarradeira postada do outro lado da mesa. Pouco tempo depois, foi obrigada a partilhar suas 
refeies com um parente que ela sabia ser portador de uma doena contagiosa. Tambm a paciente de Breuer comportou-se por algum tempo como se sofresse de hidrofobia. 
Durante a hipnose, revelou-se que ela uma vez surpreendera um cachorro bebendo gua em um copo seu.
         A insnia ou o sono perturbado so tambm sintomas usualmente passveis de uma explicao extremamente precisa. Assim, por anos a fio uma mulher jamais 
conseguia dormir antes da seis da manh. Durante muito tempo, dormira num quarto contguo ao do marido doente, que costumava levantar-se s seis horas. Depois desse 
horrio, ela podia dormir tranqilamente; e voltou a se comportar da mesma maneira muito anos depois, durante uma doena histrica. Outro caso foi o de um paciente 
histrico que vinha dormindo pessimamente nos ltimos doze anos. Sua insnia, porm, era de um tipo muito especial. No vero, dormia esplendidamente, mas no inverno, 
muito mal; e em novembro dormia particularmente mal. No tinha a menor idia do fator responsvel por isso. A investigao revelou que num ms de novembro, doze 
anos antes, ele passara muitas noites em claro velando junto ao leito de seu filho, que estava acamado com difteria.
         A paciente de Breuer, a quem me tenho referido com tanta freqncia, forneceu um exemplo de distrbio da fala. Por um longo perodo de sua doena, falava 
apenas ingls e no conseguia falar nem entender o alemo. Esse sintoma remeteu a um evento que ocorrera antes da irrupo da doena. Em certa ocasio, em estado 
de grande angstia, ela tentara rezar mas no conseguira encontrar as palavras. Finalmente, ocorreram-lhe algumas palavras de uma prece infantil em ingls. Ao adoecer, 
posteriormente, o ingls tornou-se a nica lngua que dominava.
         A determinao do sintoma pelo trauma psquico no  to transparente em todos os casos. Freqentemente, s encontramos o que se pode descrever como uma 
relao "simblica" entre a causa determinante e o sintoma histrico. Isso se aplica especialmente s dores. Uma paciente, por exemplo, sofria de dores penetrantes 
entre as sobrancelhas. A razo era que uma vez, quando criana, sua av lhe dirigira um olhar inquisitrio, "penetrante". A mesma paciente sofreu por algum tempo 
dores violentas no calcanhar direito, para as quais no havia explicao. Essas dores, ficou-se sabendo, estavam ligadas a uma idia que ocorrera  paciente quando 
esta aparecera pela primeira vez em sociedade. Ficara dominada pelo medo de no "acertar o passo" naquele meio. Tais simbolizaes foram empregadas por muitos pacientes 
num enorme conjunto das chamadas nevralgias e dores.  como se houvesse a inteno de expressar o estado mental atravs de um estado fsico; e o uso lingstico 
fornece uma ponte pela qual isso pode ser efetuado. No caso, entretanto, daqueles que so afinal os sintomas tpicos da histeria - tais como hemianestesia, restrio 
do campo visual, convulses epileptiformes etc. - no se pode demonstrar um mecanismo psquico dessa ordem. Por outro lado, pode-se faz-lo freqentemente com respeito 
s zonas histergenas.
         Esses exemplos, que escolhi entre inmeras observaes, parecem provar que os fenmenos da histeria comum podem ser seguramente considerados como seguindo 
o mesmo modelo da histeria traumtica, e que, portanto, toda histeria pode ser encarada como histeria traumtica, no sentido de que implica um trauma psquico e 
de que todo fenmeno histrico  determinado pela natureza do trauma.
         A questo adicional a que ento se deveria responder refere-se  natureza da conexo causal entre o fator determinante que tenhamos descoberto durante a 
hipnose e o fenmeno que persiste posteriormente como sintoma crnico. Essa conexo pode ser de vrios tipos. Pode ser da espcie que descreveramos como fator "desencadeante". 
Por exemplo, quando algum com predisposio  tuberculose recebe um golpe no joelho, em conseqncia do qual se desenvolve uma inflamao tuberculosa na junta, 
o golpe  uma simples causa desencadeante. Mas no  isso que ocorre na histeria. H uma outra espcie de causao - a saber, a causao direta. Podemos elucid-la 
tendo por base o quadro de um corpo estranho, que continua a atuar incessantemente como causa estimulante de doena at nos livrarmos dele. Cessante causa cessat 
effectus. A observao de Breuer mostra-nos que h uma conexo deste segundo tipo entre o trauma psquico e o fenmeno histrico, pois Breuer aprendeu com sua primeira 
paciente que a tentativa de descobrir a causa determinante de um sintoma era, ao mesmo tempo, uma manobra teraputica. O momento em que o mdico desvenda a ocasio 
da primeira ocorrncia do sintoma e a razo de seu aparecimento  tambm o momento em que o sintoma se desfaz. Quando, por exemplo, o sintoma apresentado pelo paciente 
consiste em dores, e quando lhe indagamos sob hipnose sobre sua origem, ele evoca uma srie de lembranas ligadas a elas. Se conseguirmos suscitar nele uma lembrana 
realmente vvida e se ele vir as coisas diante de si com toda a sua realidade original, observaremos que est completamente dominado por algum afeto. E se ento 
o compelirmos a exprimir verbalmente esse afeto, verificaremos que, ao mesmo tempo em que ele manifesta esse afeto violento, o fenmeno de suas dores desponta marcantemente 
uma vez mais e, da por diante, o sintoma, em seu carter crnico, desaparece. Assim se passaram os fatos em todos os exemplos que mencionei. Foi interessante notar 
que a lembrana desse acontecimento especfico era extraordinariamente mais vvida que a lembrana de quaisquer outros, e que o afeto concomitante era to intenso, 
talvez, quanto o fora no momento da ocorrncia efetiva do evento. S restava supor que o trauma psquico de fato continua a atuar no sujeito e sustenta o fenmeno 
histrico, sendo eliminado to logo o paciente fala sobre ele.
         Como acabei de dizer, quando, de acordo com nosso procedimento, se chega ao trauma psquico fazendo perguntas ao paciente sob hipnose, descobre-se que a 
lembrana envolvida  excepcionalmente forte e preserva a totalidade de seu afeto. A questo que agora se coloca  de que modo um evento ocorrido h tanto tempo 
- talvez dez ou vinte anos - pode continuar exercendo poder sobre o sujeito, e como foi que tais lembranas no foram submetidas ao processos de desgaste e esquecimento.
         Com o objetivo de responder a essa questo, eu gostaria de comear por alguns comentrios sobre as condies que regem o desgaste dos contedos de nossa 
vida representativa. Partiremos de uma tese que pode ser formulada nos seguintes termos. Quando uma pessoa experimenta uma impresso psquica, alguma coisa em seu 
sistema nervoso, que chamaremos provisoriamente de soma de excitao, aumenta. Ora, em todo indivduo existe uma tendncia a tornar a diminuir essa soma de excitao, 
a fim de preservar a sade. O aumento da soma de excitao ocorre por vias sensoriais, e sua diminuio, por vias motoras. Assim, podemos dizer que quando alguma 
coisa atinge algum, esse algum reage de maneira motora. Podemos agora afirmar com segurana que depende dessa reao o quanto restar de uma impresso psquica 
inicial. Consideremos isso em relao a um exemplo especfico. Suponhamos que um homem seja insultado, esmurrado, ou qualquer coisa desse gnero. Esse trauma psquico 
est ligado a um aumento da soma de excitao de seu sistema nervoso. Surge ento instintivamente uma inclinao a diminuir de imediato a excitao aumentada. Ele 
revida a ofensa, e ento sente-se melhor; talvez tenha reagido adequadamente - isto , talvez se haja livrado de tanto quanto foi introduzido nele. Ora, essa reao 
pode assumir vrias formas. Para os aumentos muito ligeiros da excitao, as alteraes corporais talvez sejam suficientes: chorar, insultar, esbravejar etc. Quanto 
mais intenso o trauma, maior a reao suficiente. A reao mais adequada, entretanto,  sempre uma tomada de atitude. Mas como observou espirituosamente um escrito 
ingls, o primeiro homem a desfechar contra seu inimigo um insulto, em vez de uma lana, foi o fundador da civilizao. Portanto, as palavras so substitutas das 
aes e, em alguns casos (por exemplo, na confisso) as nicas substitutas. Dessa maneira, paralelamente  reao adequada, h aquela que  menos adequada. Quando, 
porm, no h nenhuma reao a um trauma psquico, a lembrana dele preserva o afeto que lhe coube originalmente. Assim, quando algum que foi insultado no pode 
vingar o insulto com um golpe retaliatrio ou uma ofensa verbal, surge a possibilidade de que a lembrana desse evento torne a evocar nele o afeto originalmente 
presente. Um insulto revidado, mesmo que apenas com palavras,  recordado de maneira muito diversa de outro que tenha sido forosamente aceito; e o uso lingstico 
descreve caracteristicamente o insulto sofrido em silncio como uma "mortificao" |"Kraenkung", literalmente, "adoecimento"|. Assim, quando por qualquer motivo 
no pode haver reao a um trauma psquico, ele retm seu afeto original, e quando a pessoa no consegue livrar-se do acrscimo de estmulo atravs de sua "ab-reao", 
deparamos com a possibilidade de que o evento em questo permanea como um trauma psquico. A propsito, um mecanismo psquico sadio tem outros mtodos de lidar 
com o afeto de um trauma psquico mesmo que lhe sejam negadas a reao motora e a reao por palavras - a saber, elaborando-o associativamente e produzindo idias 
contrastantes. Mesmo que a pessoa insultada no retribua o golpe, nem retruque com uma grosseira, ela pode ainda assim reduzir o afeto ligado ao insulto pela evocao 
de idias contrastantes, tais como a de seu valor pessoal, da indignidade de seu inimigo, e assim por diante. Quer um homem sadio lide com o insulto de um modo ou 
de outro, ele sempre consegue chegar ao resultado de que o afeto originalmente intenso em sua memria acabe perdendo a intensidade e finalmente, tendo perdido seu 
afeto, a lembrana caia vtima do esquecimento e do processo de desgaste.        
         Ora, descobrimos que no h nos pacientes histricos nada alm de impresses que no perderam seu afeto e cuja lembrana permaneceu vvida. Da decorre, 
portanto, que essas lembranas dos pacientes histricos, que se tornaram patognicas, ocupam uma posio excepcional com respeito ao processo de desgaste; e a observao 
mostra que, no caso de todos os eventos que se tornaram determinantes dos fenmenos histricos, estamos lidando com traumas psquicos que no foram totalmente ab-reagidos, 
ou completamente tratados. Podemos, pois, afirmar que os pacientes histricos sofrem de traumas psquicos incompletamente ab-reagidos.
         Constatamos dois grupos de condies sob as quais as lembranas se tornaram patognicas. No primeiro, as lembranas a que se podem vincular os fenmenos 
histricos tm como contedo representaes que envolveram um trauma to grande que o sintoma nervoso no teve foras para manipul-lo de nenhuma forma, ou representaes 
s quais foi vedada a reao por motivos sociais (isso se aplica amide  vida conjugal); ou, por fim, o sujeito pode simplesmente recusar-se a reagir, pode no 
querer reagir ao trauma psquico. Neste ltimo caso, o contedo dos delrios histricos freqentemente revela ser o prprio crculo de representaes que o paciente 
em seu estado normal rejeitou, inibiu e suprimiu com todas as suas foras. (Por exemplo, ocorrem blasfmias e representaes erticas nos delrios histricos de 
freiras.) No entanto, num segundo grupo de casos, a razo da ausncia de reao no est no teor do trauma psquico, mas em outras circunstncias, pois  muito freqente 
constatarmos que o contedo e os fatores determinantes dos fenmenos histricos so eventos em si mesmos bastante triviais, mas que adquiriram alta significao 
pelo fato de terem ocorrido em momentos especialmente importantes, quando a predisposio do paciente havia aumentado patologicamente. Por exemplo, o afeto de pavor 
pode assomar no curso de algum outro afeto intenso e por isso adquirir enorme importncia. Os estados dessa ordem so de curta durao e esto, por assim dizer, 
isolados do resto da vida mental do sujeito. Enquanto se encontra num estado de auto-hipnose como esse, ele no consegue livrar-se associativamente de uma representao 
que lhe ocorra, tal como faria estando acordado. Depois de considervel experincia com esses fenmenos, julgamos provvel que em toda histeria estejamos lidando 
com um rudimento do que  chamado "double conscience" - conscincia dupla - e que o fenmeno bsico da histeria seja uma tendncia para tal dissociao e, com ela, 
para a emergncia de estados da conscincia anormais, que propomos chamar de "hipnides".
         Consideremos agora a maneira como funciona nossa terapia. Ela se coaduna com um dos mais ardentes desejos humanos - o desejo de poder refazer alguma coisa. 
Algum experimentou um trauma psquico sem reao suficiente a ele. Ns o levamos a experiment-lo de novo, dessa vez sob hipnose, e o foramos a completar sua reao. 
Assim ele pode livrar-se do afeto ligado  representao que estava, por assim dizer, "estrangulado", e uma vez feito isso, pe-se termo  atuao da representao. 
Desse modo, curamos no a histeria, mas alguns de seus sintomas individuais, fazendo com que uma reao incompleta se conclua.
         Os senhores, portanto, no devem supor que se tenha tirado disso um enorme proveito para a teraputica da histeria. A histeria, como as neuroses, tem causas 
mais profundas; e so essas causas mais profundas que estabelecem limites, muitas vezes bem apreciveis, ao sucesso de nosso tratamento.
         
       
       
       
       
       
       
       AS NEUROPSICOSES DE DEFESA (1894)
         
         
         DIE ABWEHR-NEUROPSYCHOSEN
         
         (a)EDIES ALEMS:
         1894 Neurol. Zbl., 13 (10), 362-4, e (11), 402-9. (15 de maio e 1 de junho).
         1906 S.K.S.N., l, 45-59. (1911, 2 ed.; 1920, 3 ed.; 1922, 4 ed.)
         1925 G.S., l, 290-305.
         1952 G.W., l, 59-74.
         
         (b)TRADUES INGLESAS:
         "The Defense Neuro-Psychoses"
         1909 S.P.H., 121-32. (Trad. de A. A. Brill.) (1912, 2 ed.; 1920, 3 ed.)
         "The Defence Neuro-Psychoses"
         1924 C.P., l, 59-75. (Trad. de J. Rickman.)
         
         Includo (N XXIX) na coletnea das sinopses dos primeiros trabalhos de Freud, elaborada por ele mesmo (1897b). A presente traduo, com o ttulo modificado, 
baseia-se na de 1924
         Quando Freud terminou este artigo, em janeiro de 1894, passara-se um ano desde o aparecimento de seu ltimo trabalho psicopatolgico - a "Comunicao Preliminar", 
escrita juntamente com Breuer. (As nicas excees foram o artigo sobre as paralisias histricas, planejado e rascunhado anos antes, e o obiturio de Charcot). E 
mais um ano haveria de passar antes que quaisquer outros fossem publicados. No entanto, os anos de 1893 e 1894 estiveram longe de ser ociosos. Em 1893, Freud estava 
ainda produzindo intenso trabalho neurolgico, enquanto, em 1894, preparava sua contribuio aos Estudos sobre a Histeria. Mas durante esses dois anos, como podemos 
constatar por suas cartas a Fliess, ele estava profundamente engajado na investigao daquilo que ento afastara completamente a neurologia de seu foco de interesse 
- os problemas das neuroses. Esses problemas enquadravam-se em dois grupos bastante distintos, respectivamente relacionados com o que mais tarde se tornaria conhecido 
(ver em. [1], adiante) como as "neuroses atuais" e as "psiconeuroses". Freud no se sentiu preparado para publicarcoisa alguma sobre as primeiras - a neurastenia 
e os estados de angstia - at o incio de 1895. Quanto  histeria e s obsesses, porm, j estava apto a demarcar o campo, da resultando o presente artigo.
         Aqui,  claro, ele tinha ainda um profundo dbito para com Charcot e Breuer; entretanto,  possvel detectar tambm um primeiro surgimento de muito do que 
se iria transformar numa parte essencial de suas prprias concepes. Por exemplo, embora a teoria da defesa tivesse sido mencionada muito brevemente na "Comunicao 
Preliminar", ela  aqui longamente discutida pela primeira vez. O prprio termo "defesa" ocorre aqui pela primeira vez (ver em. [1]), o mesmo ocorrendo com "converso" 
(ver em. [1]) e "fuga para a psicose" (ver em. [1]). A importncia do papel desempenhado pela sexualidade comea a emergir (ver em. [1]); alude-se  questo da natureza 
do "inconsciente" (ver em. [1]). Talvez o mais importante seja, na segunda seo, o levantamento de toda a teoria fundamental da catexia e sua possibilidade de deslocamento 
e, no penltimo pargrafo do artigo, a clara enunciao da hiptese em que se baseou o esquema de Freud. Uma discusso mais completa desse primeiro surgimento das 
concepes tericas fundamentais de Freud aparece no Apndice do Editor Ingls a este artigo, ver. [1] e segs., adiante.
         
         AS NEUROPSICOSES DE DEFESA (TENTATIVA DE FORMULAO DE UMA TEORIA DA HISTERIA ADQUIRIDA, DE MUITAS FOBIAS E OBSESSES E DE CERTAS PSICOSES ALUCINATRIAS)
         
         Depois de fazer um estudo detalhado de diversos pacientes nervosos que sofriam de fobias e obsesses, cheguei a uma tentativa de explicao desses sintomas; 
e isso me permitiu, posteriormente, chegar com xito  origem desse tipo de representaes patolgicas em casos novos e diferentes. Minha explicao, portanto, me 
parece merecer publicao e um exame mais detido. Simultaneamente a essa "teoria psicolgica das fobias e obsesses", minha observao dos pacientes resultou numa 
contribuio  teoria da histeria ou, antes, numa modificao dela, que parece levar em conta uma importante caracterstica comum  histeria e s neuroses que acabo 
de mencionar. Alm disso, tive a oportunidade de discernir o que sem dvida constitui uma forma de doena mental e descobri, ao mesmo tempo, que o ponto de vista 
que eu adotara provisoriamente estabelecia uma conexo inteligvel entre essas psicoses e as duas neuroses em questo. Ao final deste artigo, formularei uma hiptese 
de trabalho da qual me vali em todos os trs casos.
         
         I
         
         Comecemos pela modificao que a teoria da neurose histrica me parece reclamar.
         Desde o esplndido trabalho realizado por Pierre Janet, Josef Breuer e outros, pode-se considerar geralmente aceito que a sndrome da histeria, tanto quanto 
 inteligvel at o momento, justifica a suposio de que haja uma diviso da conscincia, acompanhada da formao de grupos psquicos separados.  As opinies, entretanto, 
esto menos firmadasno que concerne  origem dessa diviso da conscincia e ao papel desempenhado por essa caracterstica na estrutura da neurose histrica.
         De acordo com a teoria de Janet (1892-4 e 1893), a diviso da conscincia  um trao primrio da alterao mental na histeria. Baseia-se numa deficincia 
inata da capacidade de sntese psquica, na estreiteza do "campo da conscincia (champ de la conscience)", que, na forma de um estigma psquico, evidencia a degenerao 
dos indivduos histricos.
         Contrapondo-se  concepo de Janet, que me parece passvel de uma multiplicidade de objees, existe a posio proposta por Breuer em nossa comunicao 
conjunta (Breuer e Freud, 1893). Segundo ele, "a base e condio sine qua non da histeria"  a ocorrncia de estados de conscincia peculiares, semelhantes ao sonho, 
com uma capacidade de associao restrita, para os quais props o nome de "estados hipnides". Nesse caso, a diviso da conscincia  secundria e adquirida: ocorre 
porque as representaes que emergem nos estados hipnides so excludas da comunicao associativa com o resto do contedo da conscincia.
         Estou agora em condies de fornecer provas de duas outras formas extremas de histeria, nas quais  impossvel considerar a diviso da conscincia como 
primria, no sentido de Janet. Na primeira dessas |duas outras| formas, pude repetidas vezes demonstrar que a diviso do contedo da conscincia resulta de um ato 
voluntrio do paciente; ou seja,  promovida por um esforo de vontade cujo motivo pode ser especificado. Com isso,  claro, no pretendo dizer que o paciente tencione 
provocar uma diviso da sua conscincia. A inteno dele  outra, mas, em vez de alcanar seu objetivo, produz uma diviso da conscincia.
         Na terceira forma de histeria, que demonstramos atravs de uma anlise psquica, de pacientes inteligentes, a diviso da conscincia desempenha um papel 
insignificante, ou talvez nulo. Trata-se dos casos em que aconteceu apenas uma falta de reao aos estmulos traumticos, e que podem, conseqentemente, ser resolvidos 
e curados por "ab-reao". Estas so as "histerias de reteno" puras.No que tange  conexo com as fobias e obsesses, tratarei apenas da segunda forma da histeria. 
Por motivos que logo ficaro claros, vou chamar essa forma de "histeria de defesa", usando tal nome para distingui-la da histeria hipnide e da histeria de reteno. 
Posso tambm, provisoriamente, apresentar meus casos de histeria de defesa "adquirida", j que neles no se tratava nem de uma grave tara hereditria nem de uma 
atrofia degenerativa individual.
         Esses pacientes que analisei, portanto, gozaram de boa sade mental at o momento em que houve uma ocorrncia de incompatibilidade em sua vida representativa 
- isto , at que seu eu se confrontou com uma experincia, uma representao ou um sentimento que suscitaram um afeto to aflitivo que o sujeito decidiu esquec-lo, 
pois no confiava em sua capacidade de resolver a contradio entre a representao incompatvel e seu eu por meio da atividade de pensamento.
         Nas mulheres, esse tipo de representaes incompatveis assoma principalmente no campo da experincia e das sensaes sexuais; e as pacientes conseguem 
recordar com toda a preciso desejvel seus esforos defensivos, sua inteno de "expulsar aquilo para longe", de no pensar no assunto, de suprimi-lo. Darei alguns 
exemplos, facilmente multiplicveis, extrados de minha prpria observao: o caso de uma moa que se culpava porque, enquanto cuidava do pai doente, pensara num 
rapaz que lhe causara uma leve impresso ertica; o caso de uma governanta que se apaixonara pelo patro e resolvera expulsar essa inclinao de sua mente por parecer-lhe 
incompatvel com seu orgulho; e assim por diante.
         No posso, naturalmente, afirmar que um esforo voluntrio de eliminar da mente coisas desse tipo seja um ato patolgico, nem sei dizer se e de que modo 
o esquecimento intencional  bem-sucedido nas pessoas que, sob as mesmas influncias psquicas, permanecem saudveis. Sei apenas que esse tipo de "esquecimento" 
no funcionou nos pacientes que analisei, mas levou a vrias reaes patolgicas que produziram ou a histeria, ou uma obsesso, ou uma psicose alucinatria. A capacidade 
de promover um desses estados - que esto todos ligados a uma diviso da conscincia - atravs de um esforo voluntrio desse tipo deve ser considerada como manifestao 
de uma disposio patolgica, embora esta no seja necessariamente idntica  "degenerao" individual ou hereditria.
         Quanto ao trajeto entre o esforo voluntrio do paciente e o surgimento do sintoma neurtico, formei uma opinio que pode ser expressa, em termos das abstraes 
psicolgicas correntes, mais ou menos da seguinte maneira. A tarefa que o eu se impe, em sua atitude defensiva, de tratar a representao incompatvel como "non-arriv", 
simplesmente no pode ser realizada por ele. Tanto o trao mnmico como o afeto ligado  representao l esto de uma vez por todas e no podem ser erradicados. 
Mas uma realizao aproximada da tarefa se d quando o eu transforma essa representao poderosa numa representao fraca, retirando-lhe o afeto - a soma de excitao 
- do qual est carregada. A representao fraca no tem ento praticamente nenhuma exigncia a fazer ao trabalho da associao. Mas a soma de excitao desvinculada 
dela tem que ser utilizada de alguma outra forma.
         At esse ponto, os processos observados na histeria, nas fobias e nas obsesses so os mesmos; da por diante, seus caminhos divergem. Na histeria, a representao 
incompatvel  tornada incua pela transformao de sua soma de excitao em alguma coisa somtica. Para isso eu gostaria de propor o nome de converso.
         A converso pode ser total ou parcial. Ela opera ao longo da linha de inervao motora ou sensorial relacionada - intimamente ou mais
         frouxamente - com a experincia traumtica. Desse modo o ego consegue libertar-se da contradio com a qual  confrontado; em contrapartida, porm, sobrecarrega-se 
com um smbolo mnmico que se aloja na conscincia como uma espcie de parasita, quer sob a forma de uma inervao motora insolvel,quer como uma sensao alucinatria 
constantemente recorrente, que persiste at que ocorra uma converso na direo oposta. Conseqentemente, o trao mnmico da idia recalcada no , afinal, dissolvido; 
da por diante, forma o ncleo de um segundo grupo psquico.
         Acrescentarei apenas mais algumas palavras a essa concepo dos processos psicofsicos na histeria. Uma vez formado tal ncleo para uma expulso (splitting-off) 
histrica num "momento traumtico", ele passa a ser aumentado em outros momentos (que poderiam ser chamados "momentos auxiliares"), sempre que a chegada de uma nova 
impresso da mesma espcie consegue uma ruptura na barreira erigida pela vontade, suprindo a representao enfraquecida de um afeto renovado e restabelecendo provisoriamente 
o elo associativo entre os dois grupos psquicos, at que uma nova converso estabelea uma defesa. A distribuio da excitao assim ensejada na histeria usualmente 
se revela uma distribuio instvel. A excitao, forada a escoar-se por um canal imprprio (pela inervao somtica) vez por outra reencontra o caminho de volta 
para a representao da qual se destacou, e compele ento o sujeito a elaborar a representao associativamente ou a livrar-se dela em ataques histricos - como 
vemos no conhecido contraste entre os ataques e os sintomas crnicos. A operao do mtodo catrtico de Breuer consiste em promover deliberadamente a reconduo 
da excitao da esfera somtica para a psquica, e assim a resoluo da contradio, atravs da atividade de pensamento e da descarga da excitao por meio da fala. 
Se a diviso da conscincia que ocorre na histeria adquirida se baseia num ato voluntrio, temos ento uma explicao surpreendentemente simples para o notvel fato 
de a hipnose ampliar regularmente a conscincia restrita do histrico e permitir acesso ao grupo psquico que foi expelido (split off). Na verdade, sabemos ser uma 
peculiaridade de todos os estados similares ao sono que eles suspendam a distribuio da excitao em que se baseia a "vontade" da personalidade consciente.
         Assim, vemos que o fator caracterstico da histeria no  a diviso da conscincia, mas a capacidade de converso, e podemos aduzir, como parte importante 
da predisposio para a histeria - predisposio ainda desconhecida em outros aspectos -, uma aptido psicofsica para transpor enormes somas de excitao para a 
inervao somtica.
         Essa aptido, por si s, no exclui a sade psquica, e s conduz  histeria quando h uma incompatibilidade psquica ou um acmulo de excitao. Ao adotarmos 
essa viso, Breuer e eu nos aproximamos das conhecidas definies da histeria feitas por Oppenheim e Strmpell e divergimos da concepo de Janet, que atribui demasiada 
importncia  diviso da conscincia em sua caracterizao da histeria. A apresentao aqui fornecida pode sustentar a pretenso de ter tornado inteligvel a conexo 
entre a converso e a diviso histrica da conscincia.
         
         II
         
         Quando algum com predisposio  neurose carece da aptido para a converso, mas, ainda assim, parece rechaar uma representao incompatvel, dispe-se 
a separ-la de seu afeto, esse afeto fica obrigado a permanecerna esfera psquica. A representao, agora enfraquecida, persiste ainda na conscincia, separada de 
qualquer associao. Mas seu afeto, tornado livre, liga-se a outras representaes que no so incompatveis em si mesmas, e graas a essa "falsa ligao", tais 
representaes se transformam em representaes obsessivas. Essa , em poucas palavras, a teoria psicolgica das obsesses e fobias, mencionada no incio deste artigo.
         Indicarei agora quais dos vrios elementos explicitados nessa teoria podem ser diretamente demonstrados e quais foram supridos por mim. O que se pode demonstrar 
diretamente, alm do produto final do processo - a obsesso -, , em primeiro lugar, a fonte do afeto agora colocado numa falsa ligao. Em todos os casos que analisei, 
era a vida sexual do sujeito que havia despertado um afeto aflitivo, precisamente da mesma natureza do ligado  sua obsesso. Teoricamente, no  impossvel que 
esse afeto possa s vezes emergir em outras reas; resta-me apenas relatar que, at o momento, no deparei com nenhuma outra origem. Ademais,  fcil verificar que 
 precisamente a vida sexual que traz em si as mais numerosas oportunidades para o surgimento de representaes incompatveis.
         
         Alm disso, as mais inequvocas declaraes dos pacientes evidenciam o esforo de vontade e a tentativa de defesa enfatizados pela teoria; e pelo menos 
num bom nmero de casos os prprios pacientes informam-nos que sua fobia ou obsesso apareceu pela primeira vez depois que um esforo de vontade aparentemente atingiu 
seu objetivo com xito. "Certa vez me aconteceu uma coisa muito desagradvel, e tentei com muito empenho afast-la de mim e no pensar mais nisso. Finalmente, consegui, 
mas a me apareceu essa outra coisa, de que no pude livrar-me desde ento." Foi com essas palavras que uma paciente confirmou os pontos principais da teoria que 
aqui desenvolvi.
         Nem todos os que sofrem de obsesses tm uma idia to clara assim sobre sua origem. Em geral, quando se chama a ateno do paciente, para a representao 
primitiva, de natureza sexual, a resposta : "No pode provir da. Nunca pensei muito nisso. Por um momento fiquei assustado, mas logo desviei o pensamento e, desde 
ento, isso nunca mais me perturbou." Nessa freqente objeo temos a prova de que a obsesso representa um substituto ou sucedneo da representao sexual incompatvel, 
tendo tomado seu lugar na conscincia.
         Entre o esforo voluntrio do paciente, que consegue recalcar a representao sexual inaceitvel, e o surgimento da representao obsessiva, que, embora 
tendo pouca intensidade em si mesma, est agora suprida |ver em. [1]| de um afeto incompreensivelmente forte, subsiste o hiato que a teoria aqui desenvolvida busca 
preencher. A separao da representao sexual de seu afeto e a ligao deste com outra representao - adequada, mas no incompatvel - so processos que ocorrem 
fora da conscincia. Pode-se apenas presumir sua existncia, mas no prov-la atravs de qualquer anlise clnico-psicolgica. |Cf. em [1].| Talvez fosse mais correto 
dizer que tais processos no so absolutamente de natureza psquica, e sim processos fsicos cujas conseqncias psquicas se apresentam como se de fato tivesse 
ocorrido o que se expressa pelos termos "separao entre a representao e seu afeto" e "falsa ligao" deste ltimo.
         Junto aos casos que mostram uma seqncia entre uma representao sexual incompatvel e uma representao obsessiva, encontramos vrios outros em que as 
representaes obsessivas e as representaes sexuais de carter aflitivo ocorrem simultaneamente.
         No ser muito satisfatrio chamar estas ltimas de "representaes obsessivas sexuais", pois falta-lhes um trao essencial das representaes obsessivas: 
elas se mostram perfeitamente justificadas, ao passo que o carter aflitivo das representaes obsessivas comuns  um problema tanto para o mdico quanto para o 
paciente. At onde tenho podido explorar o terreno nos casos desse tipo, o que ocorre  que uma defesa perptua vai-se erigindo contra representaes sexuais que 
reemergem continuamente - ou seja, um trabalho que ainda no chegou a sua concluso.
         J que os pacientes esto cnscios da origem sexual de suas obsesses, freqentemente as mantm em segredo. Quando chegam a se queixar delas, costumam expressar 
seu espanto por estarem sujeitos ao afeto em questo - por sentirem angstia, ou terem certos impulsos, e assim por diante. Ao mdico experiente, pelo contrrio, 
o afeto parece justificado e compreensvel; o que ele acha notvel  apenas que um afeto desse tipo esteja ligado a uma representao que no o merece. O afeto da 
obsesso, em outras palavras, parece-lhe estar desalojado ou transposto, e se tiver aceito o que se disse nestas pginas, ele poder, em diversos casos de obsesses, 
retraduzi-las em termos sexuais.
         Para fornecer essa conexo secundria ao afeto liberado, pode-se utilizar qualquer representao que, por sua natureza, possa unir-se a um afeto da qualidade 
em questo, ou que tenha com a representao incompatvel certas relaes que a faam parecer adequada como substituta dela. Assim, por exemplo, a angstia liberada 
cuja origem sexual no deva ser lembrada pelo paciente ir apoderar-se das fobias primrias comuns da espcie humana, relacionadas com animais, tempestades, escurido, 
e assim por diante, ou de coisas inequivocamente associadas, de um modo ou de outro, com o que  sexual - tais como a mico, a defecao ou, de um modo geral, a 
sujeira e o contgio.
         O eu leva muito menos vantagem escolhendo a transposio do afeto como mtodo de defesa do que escolhendo a converso histrica da excitao psquica em 
inervao somtica. O afeto de que o eu sofre permanece como antes, inalterado e no diminudo, com a nica diferena de que a representao incompatvel  abafada 
e isolada da memria. As representaes recalcadas, como no outro caso, formam o ncleo de um segundo grupo psquico, que, acredito,  acessvel mesmo sem a ajuda 
da hipnose. Se as fobias e obsesses so desacompanhadas dos notveis sintomas que caracterizam a formao de um grupo psquico independente na histeria, isto  
sem dvida porque, em seu caso, toda a alterao permaneceu na esfera psquica, e a relao entre a excitao psquica e a inervao somtica no sofreu qualquer 
mudana.
         Para ilustrar o que foi dito sobre as obsesses, darei alguns exemplos que suponho serem tpicos:
         (1) Uma jovem sofria auto-recriminaes obsessivas. Quando lia alguma coisa nos jornais sobre falsificadores de moedas, ocorria-lhe a idia de que tambm 
ela produzira dinheiro falso; se uma pessoa desconhecida cometia um assassinato, perguntava-se ansiosamente se no teria sido ela a autora daquela ao. Ao mesmo 
tempo, estava perfeitamente cnscia do disparate dessas acusaes obsessivas. Por algum tempo, esse sentimento de culpa adquiriu tal ascendncia sobre ela que suas 
capacidades crticas ficaram embotadas e ela se acusou perante seus parentes e seu mdico de ter realmente cometido todos esses crimes. (Eis um exemplo de psicose 
por simples intensificao - uma "berwaeltigungspsychose" uma psicose em que o eu  subjugado. Um minucioso interrogatrio revelou ento a fonte de onde brotava 
seu sentimento de culpa. Estimulada por uma sensao voluptuosa casual, ela se deixara induzir por uma amiga a se masturbar, e praticara a masturbao durante anos, 
inteiramente consciente de sua m ao, que era acompanhada das mais violentas, embora inteis, auto-recriminaes. Um excesso a que se entregara depois de ir a 
um baile havia produzido a intensificao que levou  psicose. Depois de alguns meses de tratamento e da mais estrita vigilncia, a jovem se recuperou.
         (2) Uma outra moa sofria de um pavor de ser dominada pela necessidade de urinar e de ser incapaz de evitar molhar-se, desde a ocasio em que uma necessidade 
desse tipo de fato a obrigara a sair de um salo de concerto durante a apresentao. Pouco a pouco, essa fobia a deixara completamente incapaz de se divertir ou 
de freqentar a sociedade. S se sentia bem ao saber que havia um toalete prximo e acessvel, que ela poderia atingir discretamente. No havia sombra de nenhuma 
enfermidade orgnica que pudesse justificar essa desconfiana em seu poder de controlar a bexiga; quando ela estava em casa, em condies tranqilas, ou  noite, 
a necessidade de urinar no assomava. Um exame detalhado mostrou que a necessidade ocorrera primeiramente nas seguintes circunstncias: no salo de concerto, um 
cavalheiro ao qual ela no era indiferente tomara assento no longe dela. A moa comeou a pensar nele e a imaginar-se sentada a seu lado, como sua esposa. Durante 
esse devaneio ertico, teve a sensao corporal que  comparvel  ereo masculina e que, no caso dela - no sei se  sempre assim -, terminava com uma leve necessidade 
de urinar. Ficou ento muito aterrorizada pela sensao sexual ( qual estava normalmente acostumada), pois tomara a resoluo interna de combater aquela preferncia 
especfica, assim como qualquer outra que pudesse sentir; no momento seguinte, o afeto se transferira para a necessidade concomitante de urinar e a compelira, depois 
de agoniada luta, a deixar o recinto. Em sua vida corriqueira, ela era to pudica que experimentava intenso horror por qualquer coisa relacionada a sexo e no podia 
contemplar a idia de vir a casar-se um dia. Por outro lado, era to hiperestsica sexualmente que, durante qualquer devaneio ertico, ao qual se abandonava prontamente, 
a mesma sensao voluptuosa aparecia. Em todas as ocasies a ereo era acompanhada pela necessidade de urinar, embora sem produzir-lhe qualquer impresso at a 
cena no salo de concerto. O tratamento levou-a a um controle quase completo de sua fobia.
         (3) Uma jovem esposa, que tivera apenas um filho em cinco anos de casamento, queixou-se a mim de sentir um impulso obsessivo de se atirar pela janela, ou 
de uma sacada, e queixou-se tambm de um temor de apunhalar seu filho, temor que a acometia quando via uma faca afiada. Admitiu que raramente havia relaes sexuais 
conjugais, sempre sujeitas a precaues contra a concepo, mas afirmou no sentir falta delas por no ser de natureza sensual. Nesse ponto, aventurei-me a dizer-lhe 
que,  vista de um homem, ocorriam-lhe representaes erticas e que, por isso, ela perdera a confiana em si prpria e se considerava uma pessoa depravada, capaz 
de qualquer coisa. A traduo da representao obsessiva em termos sexuais foi um xito. Em lgrimas, ela imediatamente confessou a precariedade de seu casamento, 
h muito ocultada; e me comunicou tambm, mais tarde, representaes angustiantes de carter sexual inalterado, tais como a sensao freqentssima de que alguma 
coisa a forava por sob sua saia.
         Tenho-me valido desse tipo de observaes em meu trabalho teraputico, reconduzindo a ateno dos pacientes com fobias e obsesses s representaes sexuais 
recalcadas, a despeito de todos os seus protestos, e, sempre que possvel, estancando as fontes de onde tais representaes provieram. No posso, naturalmente, afirmar 
que todas as fobias e obsesses emergem do modo que aqui caracterizei. Em primeiro lugar, minha experincia delas inclui apenas um nmero limitado de casos, em comparao 
com a freqncia dessas neuroses; e, em segundo lugar, eu mesmo estou ciente de que nem todos esses sintomas "psicastnicos", como os chama Janet, so equivalentes. 
Existem, por exemplo, fobias puramente histricas. Penso, contudo, que ser possvel mostrar a presena do mecanismo de transposio do afeto na maioria das fobias 
e obsesses, e portanto insisto em que essas neuroses, que so encontradas isoladamente com tanta freqncia quanto combinadas com a histeria ou a neurastenia, no 
devem ser indiscriminadamente misturadas com a neurastenia comum, para cujos sintomas bsicos no h nenhum fundamento para se pressupor um mecanismo psquico.
         
         III
         
         Em ambos os casos at aqui considerados, a defesa contra a representao incompatvel foi efetuada separando-a de seu afeto; a representao em si permaneceu 
na conscincia, ainda que enfraquecida e isolada. H, entretanto, uma espcie de defesa muito mais poderosa e bem-sucedida. Nela, o eu rejeita a representao incompatvel 
juntamente com seu afeto e se comporta como se a representao jamais lhe tivesse ocorrido. Mas a partir do momento em que isso  conseguido, o sujeito fica numa 
psicose que s pode ser qualificada como "confuso alucinatria". Um nico exemplo pode servir para ilustrar essa assero:
         Uma moa devotara a um homem sua primeira afeio impulsiva e acreditava firmemente que ele lhe retribua o amor. Na verdade, estava enganada; o rapaz tinha 
motivos diferentes para visitar sua casa. No faltaram decepes. A princpio, a jovem se defendeu delas, fazendo uma converso histrica das experincias em questo, 
e assim preservou sua crena de que um dia ele pediria sua mo. Ao mesmo tempo, porm, sentia-se doente e infeliz, porque a converso fora incompleta e ela deparava-se 
continuamente com novas impresses dolorosas. Por fim, num estado de grande tenso, aguardou a chegada dele em determinado dia, que era de celebrao familiar. Mas 
o dia passou e ele no apareceu. Quando todos os trens em que ele poderia vir j tinham chegado e partido, ela entrou num estado de confuso alucinatria: ele chegara, 
ela ouviu sua voz no jardim, desceu s pressas, de camisola, para receb-lo. Daquele dia em diante, durante dois meses, ela viveu um sonho encantador cujo contedo 
era que ele estava presente, ao seu lado, e tudo voltara a ser como antes (antes da poca das decepes que ela rechaara com tanto empenho). Sua histeria e seu 
desnimo foram superados. Durante a enfermidade, ela silenciou sobre todo o perodo final de dvida e sofrimento; ficava feliz desde que no fosse perturbada, e 
s explodia de dio quando alguma norma de conduta reiterada pelos que a rodeavam vinha atrapalh-la em algo que lhe parecia ser uma decorrncia lgica de seu abenoado 
sonho. Essa psicose, que fora ininteligvel na poca, foi explicada dez anos depois com a ajuda de uma anlise hipntica.|cf.em [1]|.
         O fato para o qual desejo agora chamar ateno  que o contedo de uma psicose alucinatria desse tipo consiste precisamente na acentuao da representao 
que era ameaada pela causa precipitante do desencadeamento da doena. Portanto,  justificvel dizer que o eu rechaou a representao incompatvel atravs de uma 
fuga para a psicose. O processo pelo qual isso  conseguido escapa, mais uma vez,  autopercepo do sujeito, assim como escapa  anlise psicolgico-clnica. Deve 
ser encarado como a expresso de uma predisposio patolgica de grau bastante alto e pode ser descrito mais ou menos como se segue. O eu rompe com a representao 
incompatvel; esta, porm, fica inseparavelmente ligada a um fragmento da realidade, de modo que,  medida que o eu obtm esse resultado, tambm ele se desliga, 
total e parcialmente, da realidade. Em minha opinio, este ltimo evento  a condio sob a qual as representaes do sujeito recebem a vividez das alucinaes; 
assim, quando a defesa consegue ser levada a termo, ele se encontra num estado de confuso alucinatria.
         Disponho apenas de muito poucas anlises de psicoses dessa natureza. Penso, entretanto, que deparamos aqui com um tipo de enfermidade psquica muito freqentemente 
empregada, pois em nenhum manicmio faltam exemplos que podem ser considerados anlogos - a me que adoeceu pela perda de seu beb e que agora embala incessantemente 
um pedao de madeira nos braos, ou a noiva rejeitada que, adornada com seus trajes nupciais, espera durante anos pelo noivo.
         Talvez no seja suprfluo assinalar que os trs mtodos de defesa aqui descritos e, juntamente com eles, as trs formas de doena a que levam esses mtodos 
podem combinar-se numa mesma pessoa. O aparecimento simultneo de fobias e sintomas histricos, freqentemente observado na prtica,  um dos fatores que dificultam 
uma separao ntida entre a histeria e as outras neuroses e que tornam necessria a postulao da categoria de "neuroses mistas".  verdade que a confuso alucinatria 
nem sempre  compatvel com a persistncia da histeria nem das obsesses, de um modo geral. Por outro lado, no  raro uma psicose de defesa irromper episodicamente 
no decurso de uma neurose histrica ou mista.
         Gostaria, por fim, de me deter por um momento na hiptese de trabalho que utilizei nesta exposio das neuroses de defesa. Refiro-me ao conceito de que, 
nas funes mentais, deve-se distinguir algo - uma carga de afeto ou soma de excitao - que possui todas as caractersticas de uma quantidade (embora no tenhamos 
meios de medi-la) passvel de aumento, diminuio, deslocamento e descarga, e que se espalha sobre os traos mnmicos das representaes como uma carga eltrica 
espalhada pela superfcie de um corpo.
         Essa hiptese, que alis j est subjacente a nossa teoria da "ab-reao" na "Comunicao Preliminar" (1893a), pode ser aplicada no mesmo sentido que os 
fsicos aplicam a hiptese de um fluxo de energia eltrica. Ela  provisoriamente justificada por sua utilidade na coordenao e explicao de uma grande variedade 
de estados psquicos.
         
         VIENA, fim de janeiro de 1894.
         
         APNDICE: O SURGIMENTO DAS HIPTESES FUNDAMENTAIS DE FREUD
         
         Com esse primeiro artigo sobre as neuropsicoses de defesa, Freud deu expresso pblica, se no direta, ao menos implicitamente, a muitas das noes tericas 
mais fundamentais sobre as quais se baseou todo o seu trabalho posterior. No se deve esquecer que o artigo foi escrito em janeiro de 1894 - um ano aps a publicao 
da "Comunicao Preliminar" e um ano antes da concluso da seo principal dos Estudos sobre a Histeria e das contribuies tericas de Breuer para aquele volume. 
 poca em que escreveu o artigo, portanto, Freud estava profundamente envolvido em sua primeira srie de investigaes psicolgicas. Destas comeavam a emergir 
diversas inferncias clnicas e, por trs delas, algumas hipteses mais gerais que emprestariam coerncia s descobertas clnicas. Mas foi somente passados mais 
seis meses aps a publicao dos Estudos sobre a Histeria - no outono de 1895 - que Freud fez uma primeira tentativa de exposio sistemtica de suas concepes 
tericas; e tal tentativa (o "Projeto para uma Psicologia Cientfica") foi deixada incompleta e no publicada por seu autor. S viu a luz do dia em 1950, mais de 
meio sculo depois. Nesse intervalo, o estudante interessado nas concepes tericas freudianas tinha que captar o que pudesse das descries descontnuas, e por 
vezes obscuras, fornecidas por Freud em vrios pontos posteriores de sua carreira. Alm disso, sua nica discusso extensa de suas teorias em anos posteriores - 
os artigos metapsicolgicos de 1915 - sobreviveu apenas de forma truncada: sete dos doze artigos desapareceram completamente.
         Em sua "Histria do Movimento Psicanaltico" (1914d), Freud declarou que "a teoria do recalcamento", ou defesa, para dar-lhe seu nome alternativo, " a 
pedra angular sobre a qual repousa toda a estrutura da psicanlise" (Edio Standard Brasileira, Vol. XIV, ver em [1], IMAGO Editora, 1974). O termo "defesa" realmente 
ocorre pela primeira vez no presente artigo (ver em [1]), e  aqui que a teoria recebe sua primeira considerao efetiva, embora uma ou duas frases lhe tivessem 
sido dedicadas na "Comunicao Preliminar" (Edio Standard Brasileira, Vol. II, ver em [1], 3 edio, IMAGO, 1995) e na "Conferncia" (ver em [1] deste volume).
         Entretanto, a prpria hiptese clnica da defesa era necessariamente baseada em pressuposies mais gerais, uma das quais  especificada no penltimo pargrafo 
deste artigo (ver em [1]). Essa pressuposio pode ser convenientemente designada (embora o nome provenha de data um pouco posterior) como teoria da "catexia" ("Besetzung"). 
Talvez no haja nenhuma outra passagem, nos escritos publicados de Freud, em que ele reconhea to explicitamente a necessidade dessa que constitui a mais fundamental 
de todas as suas hipteses: "nas funes mentais, deve-se distinguir algo - uma carga de afeto ou soma de excitao - que possui todas as caractersticas de uma 
quantidade... passvel de aumento, diminuio, deslocamento e descarga..." A noo de "quantidade deslocvel" estivera implcita,  claro, em todas as suas discusses 
tericas anteriores. Como ele prprio indica nessa mesma passagem, ela estava subjacente  teoria da ab-reao; foi a base necessria do princpio da constncia 
(que logo ser discutido); estava implcita sempre que Freud utilizava expresses como "carregado com uma soma de excitao" (ver em [1]), "suprido com uma carga 
de afeto" (1893c), "suprido de energia" (1895b), - predecessoras do que logo se converteria no termo padro "catexizado". J no prefcio a sua primeira traduo 
de Bernheim (1888-9) ele falara em "deslocamentos da excitabilidade no sistema nervoso".
         Esse ltimo exemplo traz-nos  mente, entretanto, uma complicao adicional. Pouco mais de dezoito meses aps escrever o presente artigo, Freud enviou a 
Fliess o notvel fragmento conhecido como o "Projeto", j mencionado acima. Ali a hiptese da catexia , pela primeira e ltima vez, integralmente discutida. Mas 
essa discusso completa traz claramente  luz algo que  esquecido com demasiada facilidade. Durante todo esse perodo Freud parece ter considerado os processos 
de catexizao como eventos materiais. Em seu "Projeto", duas pressuposies bsicas foram explicitadas. A primeira era a da validade da ento recente descoberta 
histolgica de que o sistema nervoso consistia em cadeias de neurnios; a segunda era a idia de que a excitao dos neurnios devia ser considerada como "uma quantidade 
sujeita s leis gerais do movimento". Combinando essas duas pressuposies, "chegamos  idia de um neurnio 'catexizado', cheio de determinada quantidade, embora 
em outras ocasies possa estar vazio" ("Projeto", Parte I, Seo 2). Entretanto, embora a catexia fosse assim definida primariamente como um evento neurolgico, 
a situao no era to simples. At muito pouco tempo antes, o interesse de Freud estivera centrado na neurologia, e agora que seus pensamentos estavam sendo cada 
vez mais desviados para a psicologia, era natural que seu primeiro esforo fosse o de conciliar esses dois interesses. Acreditava ele que devia ser possvel postular 
os fatos da psicologia em termos neurolgicos, e seus esforos nesse sentido culminaram precisamente no "Projeto". A tentativa falhou; o "Projeto" foi abandonado; 
e nos anos que se seguiram, pouco mais se ouviu sobre a base neurolgica dos eventos psicolgicos, exceto (como veremos adiante, ver em [1] e seg.) em conexo com 
o problema das "neuroses atuais". Contudo, esse repdio no envolveu nenhuma revoluo macia. O fato, sem dvida,  que as formulaes e hipteses apresentadas 
por Freud em termos neurolgicos tinham sido efetivamente elaboradas com vistas mais do que parciais aos eventos psicolgicos; e quando chegou o momento de abandonar 
a neurologia, verificou-se que a maior parte do material terico podia ser entendida como aplicvel - a rigor, mais convincentemente aplicvel - a fenmenos puramente 
mentais.
         Essas consideraes aplicam-se ao conceito de "catexia", que apresentou um sentido inteiramente no-fsico em todos os escritos posteriores de Freud, inclusive 
o stimo captulo terico de A Interpretao dos Sonhos (1900a). Aplicam-se tambm  hiptese posterior que utiliza o conceito de catexia de que ficou mais tarde 
conhecida como "princpio da constncia". Tambm esta comeou como uma hiptese aparentemente fisiolgica. O princpio  definido no "Projeto" (Parte I, Seo I) 
como "princpio da inrcia neuronal, que afirma que os neurnios tendem a se desfazer da quantidade". Foi formulado em termos psicolgicos vinte e cinco anos depois, 
em Alm do Princpio do Prazer (1920g), como se segue: "O aparelho mental se esfora por manter a quantidade de excitao nele presente to baixa quanto possvel, 
ou, pelo menos, por mant-la constante." (Edio Standard  Brasileira, Vol. XVIII, pg. [1], IMAGO Editora, 1976). Esse princpio no  explicitamente estabelecido 
no presente artigo, embora esteja implcito em vrios pontos. J fora mencionado na conferncia sobre a "Comunicao Preliminar" (1893h, ver em [1]), embora no 
na prpria "Comunicao Preliminar", e no artigo em francs sobre as paralisias histricas (1893c). Fora tambm formulado com muita clareza num rascunho postumamente 
publicado da "Comunicao Preliminar" (1940d), datado de "Fim de novembro de 1892", e citado, antes disso ainda, numa carta de Freud a Breuer datada de 29 de junho 
de 1892 (1941a), assim como, indiretamente, numa das notas de rodap de Freud a sua traduo de um volume das Leons du Mardi, de Charcot (Freud, 1892-94, 107). 
Nos anos posteriores, o princpio foi repetidamente discutido: por exemplo, por Breuer em sua contribuio terica aos Estudos sobre a Histeria - (1895d), Edio 
Standard Brasileira, Vol. II, ver em [1] e [2], 3 edio, IMAGO, 1995, e por Freud em "Os Instintos (Pulses) e suas Vicissitudes" (1915c), ibid., Vol. XIV, ver 
em [1], [2] e [3], ibid., 1974; e em Alm do Princpio do Prazer (1920g), Vol. XVIII, ver em [1]., [2] e [3] e seg., ibid., 1976, onde ele lhe deu pela primeira 
vez a nova denominao de "princpio do Nirvana".
         O princpio do prazer, no menos fundamental que o princpio da constncia no arsenal psicolgico de Freud, est igualmente presente neste artigo, embora 
mais uma vez apenas implicitamente. A princpio, Freud considerou os dois princpios intimamente ligados, e talvez idnticos. No "Projeto" (Parte I, Seo 8), escreveu: 
"J que temos certo conhecimento de uma tendncia da vida psquica a evitar o desprazer, ficamos tentados a identific-la com a tendncia primria  inrcia. Nesse 
caso, o desprazer coincidiria com um aumento do nvel da quantidade... O prazer corresponderia  sensao de descarga." S muito mais tarde, em "O Problema Econmico 
do Masoquismo" (1924c),  que Freud demonstrou a necessidade de distinguir os dois princpios (Vol. XIX, ver em [1], [2] e [3], IMAGO Editora, 1976). O curso das 
alteraes na viso de Freud sobre essa questo  detalhadamente acompanhado numa nota de rodap do Editor ingls ao artigo metapsicolgico sobre "Os Instintos (Pulses) 
e suas Vicissitudes" (1915c), Vol. XIV, ver em [1] e [2]., IMAGO Editora, 1974.
         Pode-se levantar a questo adicional de at que ponto essas hipteses fundamentais eram especficas de Freud e at que ponto derivaram de outras influncias. 
Muitas fontes possveis tm sido sugeridas - Helmholtz, Herbart, Fechner e Meynert, entre outros. Este, contudo, no  o lugar para se introduzir uma questo to 
abrangente. Basta dizer que Ernest Jones a examinou exaustivamente no primeiro volume de sua biografia de Freud (1953, 405-15).
         Cabe dizer algumas palavras sobre um ponto que se destaca particularmente do penltimo pargrafo deste artigo - a aparente equivalncia dos termos "carga 
de afeto (Affektbetrag)" e "soma de excitao (Erregungssumme)". Estar Freud utilizando tais palavras como sinnimos? A descrio que faz dos afetos na Conferncia 
XXV de suas Conferncias Introdutrias (1916-17) e seu uso da palavra na Seo III do artigo sobre "O Inconsciente" (1915e), assim como numerosas outras passagens 
mostram que em geral ele atribua a "afeto" aproximadamente o mesmo sentido que costumamos dar a "sentimento" ou "emoo". "Excitao", por outro lado,  um dos 
vrios termos que ele parece usar para descrever a desconhecida energia da "catexia". No "Projeto", como vimos, ele a chama simplesmente de "quantidade. Em outros 
trechos, utiliza termos como "intensidade psquica" ou "energia pulsional". "Soma de excitao" remonta a sua meno ao princpio da constncia na carta a Breuer 
de junho de 1892. Assim, os dois termos parecem no ser sinnimos. Essa opinio  confirmada por uma passagem de Breuer no captulo terico dos Estudos sobre a Histeria, 
onde ele fornece razes para a suposio de que os afetos "acompanham um aumento da excitao", implicando com isso que se trata de duas coisas diferentes (Edio 
Standard Brasileira, Vol. II, ver em [1], 3 edio, IMAGO, 1995). Tudo isso pareceria bastante claro, no fosse por uma passagem no artigo metapsicolgico sobre 
o "Recalcamento" (1915d), Vol. XIV, ver em [1] e segs., IMAGO Editora, 1974. Trata-se da passagem em que Freud mostra que o "representante psquico" de uma pulso 
consiste em dois elementos que tm destinos bem diferentes sob a ao do recalcamento. Um desses elementos  a representao ou grupo de representaes catexizadas, 
e o outro  a energia pulsional nelas investida. "Para esse outro elemento do representante psquico a expresso carga afetiva tem sido genericamente adotada". Algumas 
frases adiante e em vrios outros pontos, ele se refere a esse elemento como "fator quantitativo", mas depois, ainda um pouco alm, volta a falar nele como "carga 
de afeto".  primeira vista, Freud pareceria estar tratando afeto e energia psquica como noes sinnimas. Mas esse afinal no pode ser o caso, j que exatamente 
na mesma passagem ele menciona como um possvel destino da pulso "a transformao em afetos... das energias psquicas das pulses" (Edio Standard Brasileira, 
Vol. XIV, ver em [1], IMAGO Editora, 1974).
         A explicao da aparente ambigidade parece residir na concepo subjacente de Freud sobre a natureza dos afetos. Sua formulao mais clara talvez seja 
a que se encontra na terceira seo do artigo sobre "O Inconsciente" (1915e), Edio Standard Brasileira, Vol. XIV, ver em [1] e [2], IMAGO Editora, 1974, onde Freud 
declara que os afetos "correspondem a processos de descarga cujas manifestaes finais so percebidas como sentimentos". De modo similar, na Conferncia XXV das 
Conferncias Introdutrias, ele indaga o que  um afeto "no sentido dinmico" e prossegue: "Um afeto inclui, em primeiro lugar, determinadas inervaes ou descargas 
motoras e, em segundo lugar, certos sentimentos; estes so de dois tipos: as percepes das aes motoras ocorridas e os sentimentos diretos de prazer e desprazer, 
que, como se costuma dizer, do ao afeto seu tom predominante." E, por ltimo, no artigo sobre "O Recalcamento", do qual partimos, ele escreve que a carga de afeto 
"corresponde  pulso na medida em que esta... encontra expresso, proporcional a sua quantidade, em processos que so vivenciados como afetos".
         Assim,  provavelmente correto supor que Freud considerasse a "carga de afeto" como uma manifestao particular da "soma de excitao". Sem dvida,  verdade 
que o afeto era o que estava usualmente envolvido nos casos de histeria e neuroses obsessivas que constituram o principal interesse de Freud no perodo inicial. 
Por essa razo, ele tendia, nessa poca, a descrever a "quantidade deslocvel" como uma carga de afeto, em vez de descrev-la, em termos mais gerais, como uma excitao; 
e esse hbito parece ter persistido mesmo nos artigos metapsicolgicos, onde uma diferenciao mais precisa poderia ter contribudo para a clareza de sua tese.
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
       
       
       OBSESSES E FOBIAS: SEU MECANISMO PSQUICO E SUA ETIOLOGIA (1895 |1894|)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         OBSESSIONS ET PHOBIES
         (LEUR MCANISME PSYCHIQUE ET LEUR TIOLOGIE)
         
         (a) EDIES EM FRANCS:
         1895 Rev. Neurol., 3 (2), 33-8. (30 de janeiro).
         1906 S.K.S.N., 1, 86-93. (1911, 2 ed.; 1920, 3 ed.; 1922, 4 ed.)
         1925 G.S., l, 334-42.
         1952 G.W., l, 345-53.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         "Obsessions and Phobias"
         1924 C.P., l, 128-37. (Trad. de M. Meyer.)
         
         Includo (n XXX) na coletnea de sinopses dos primeiros trabalhos de Freud elaborada por ele mesmo (1897b). O original est em francs. A presente traduo 
 uma verso consideravelmente revista da publicada em 1924. Uma traduo alem, de A.Schiff, sob o ttulo "Zwangsvorstellungen und Phobien", foi publicada em Wien. 
klin. Rundsch., 9 (17), 262-3 e (18), 276-8, a 28 de abril de 5 de maio de 1895.
         
         Embora este artigo tenha sido publicado quinze dias aps o primeiro artigo sobre a neurose de angstia (1895b), foi escrito anteriormente, pois h aqui 
uma referncia (ver em [1]) ao artigo sobre a neurose de angstia como algo que Freud esperava escrever no futuro, e h naquele uma referncia ao presente artigo 
(ver em [1], adiante).
         A primeira parte deste artigo  pouco mais que uma repetio da Seo II do primeiro artigo sobre "As Neuropsicoses de Defesa" (1894a), tratando das obsesses. 
A ltima parte, relativa s fobias,  discutida no Apndice do Editor ingls (ver em [1] [2]).
         Este  um dos trs artigos que Freud escreveu em francs por volta dessa poca; o primeiro (1893c), que versa sobre a distino entre paralisias orgnicas 
e histricas, ser encontrado no primeiro volume da Edio Standard, e o restante neste volume, em [1] e segs. Em um ou dois casos, os termos franceses selecionados 
pelo prprio Freud como verses dos termos alemes interessam ao tradutor ingls. Assim, ele sempre traduz "Zwangsvorstellung" pelo francs "obsession". Isso deve 
dissipar qualquer sentimento inquietante de que a verso inglesa adequada devesse ser "representao compulsiva" ou coisa semelhante. De fato, parece no ter havido 
nenhum equivalente em alemo para a palavra francesa e inglesa at que Krafft-Ebing introduziu "Zwangsvorstellung" em 1867 (cf. Loewenfeld, 1904, 8). A palavra inglesa 
"obsession", no sentido de idia fixa, remonta pelo menos ao sculo XVII. Do mesmo modo, Freud traduz "Zwangsneurose" pelo francs "nvrose d'obsessions". O alemo 
"Angstneurose"  por ele vertido por "nvrose d'angoise"; entretanto, em pelo menos um ponto (ver em [1]), ele traduz "Angst" por "anxiet", palavra francesa com 
a mesma conotao da inglesa "anxiety" (Ver em [1] e seg.). Outra palavra que Freud usa com enorme freqncia em seus escritos desse perodo  "unvertraeglich", 
aplicada s representaes recalcadas na histeria ou descartadas de outras maneiras na neurose obsessiva. H uma boa dose de m vontade em aceitar essa palavra como 
significando "incompatvel". Existe outra palavra alem com apenas uma letra a menos, "unetraeglich", que significa "intolervel". Esta ltima ocorre algumas vezes, 
provavelmente por erro de impresso, nas edies alems (cf. em [1]), e o termo "intolervel" foi adotado como traduo uniforme na maior parte do primeiro volume 
dos Collected Papers de 1924. As dvidas quanto ao sentido pretendido por Freud parecem ter sido dirimidas pelo equivalente francs escolhido por ele - "inconciliable".
         Pode-se acrescentar que, no Volume I das Gesammelte Werke (publicado em 1952), no incio do primeiro desses artigos em francs (que  o que foi includo 
no Volume I da Edio Standard), l-se a seguinte nota de rodap: "Nos trs artigos em francs, o texto original foi revisto e corrigido no que concerne aos erros 
de impresso e erros de francs, embora se tenha respeitado estritamente o sentido." A maioria das alteraes assim efetuadas  puramente verbal, e conseqentemente 
no afetou a traduo inglesa. Em alguns casos, porm, neste artigo e no que  reproduzido mais adiante (ver em [1] e segs.), talvez se possa pensar que as modificaes 
foram mais alm, embora em duas delas (ver em [1] e [2]) a verso de 1952 de fato remonte  que consta da publicao peridica original. Ao decidir sobre os casos 
duvidosos, deve-se ter em mente que o prprio Freud muito provavelmente leu por inteiro as reimpresses de 1906 e de 1925, j que acrescentou novas notas de rodap 
a esta ltima (cf. em [1]). As verses de 1906 so as que adotamos usualmente no texto. Em todos os casos fornece-se a alternativa numa nota de rodap.
         
         OBSESSES E FOBIAS: SEU MECANISMO PSQUICO E SUA ETIOLOGIA
         
         Comearei por questionar duas afirmaes que tm sido freqentemente repetidas a respeito das sndromes de "obsesses" e "fobias". Deve-se dizer, em primeiro 
lugar, que elas ano podem ser includas na neurastenia propriamente dita, j que os pacientes afligidos por esses sintomas so ora neurastnicos, ora no o so; 
e, em segundo lugar, ano temos justificativa para encar-las como efeito de degenerao mental, pois so encontradas em pessoas ano mais degeneradas do que a maioria 
dos neurticos em geral, e porque s vezes elas se recuperam e outras vezes conseguimos at mesmo cur-las.
         As obsesses e as fobias so neuroses distintas, com mecanismo e etiologia especficos, que consegui demonstrar num certo nmero de casos e que, segundo 
espero, se revelaro semelhantes num nmero de casos novos.
         Quanto  classificao do assunto, proponho, em primeiro lugar, excluir um grupo de obsesses intensas que nada mais so do que lembranas, imagens inalteradas 
de eventos importantes. Como exemplo, posso citar a obsesso de Pascal: ele sempre achava estar vendo um abismo a sua esquerda, "depois de quase ter sido atirado 
no Sena em seu coche". Tais obsesses e fobias, que podem ser chamadas de traumticas, esto ligadas aos sintomas da histeria.
         A parte esse grupo, devemos distinguir: (a) as obsesses verdadeiras; (b) as fobias. A diferena essencial entre elas  a seguinte:
         Dois correspondentes so encontrados em toda obsesso: (1) uma representao que se impe ao paciente; (2) um estado emocional associado. Ora, no grupo 
das fobias, esse estado emocional  sempre de "angstia", ao passo que, nas obsesses verdadeiras, outros estados emocionais, como a dvida, o remorso ou a raiva, 
podem ocorrer tanto quanto a angstia. Tentarei primeiramente explicar o mecanismo psicolgico, realmente notvel, das obsesses verdadeiras - um mecanismo bem diferente 
do das fobias.
         
         I
         
         Em muitas obsesses verdadeiras,  evidente que o principal  o estado emocional, j que este permanece inalterado, enquanto a representao a ele associada 
varia. A jovem do Caso 1 citado adiante, por exemplo, sentia um certo grau de remorso por toda sorte de razes - por ter cometido um furto, por ter maltratado as 
irms, por ter fabricado dinheiro falso etc. As pessoas que duvidam tm muitas dvidas simultnea ou sucessivamente.  o estado emocional que permanece constante 
nelas; a representao muda. Em outros casos, a representao tambm parece fixada, como no Caso 4, da menina que perseguia os empregados da casa com um dio incompreensvel, 
embora modificando constantemente o objeto individual.
         Ora, uma cuidadosa anlise psicolgica desses casos mostra que o estado emocional, como tal,  sempre justificado. A moa do Caso 1, que sofria de remorso, 
tinha boas razes para isso; a mulher do Caso 3, que duvidava de sua capacidade de resistncia  tentao, sabia muito bem por qu. A moa do Caso 4, que detestava 
os criados, tinha bons motivos para se queixar etc. S que - e  nessas duas caractersticas que reside a marca patolgica - (1) o estado emocional persiste indefinidamente 
e (2) a representao associada no  mais a representao apropriada original, relacionada com a etiologia da obsesso, mas uma representao que a substitui, um 
sucedneo dela.
         A prova disso  o fato de que sempre conseguimos descobrir, na histria prvia do paciente, no incio da obsesso, a representao original que foi substituda. 
Todas as representaes substitudas tm atributos comuns; elas correspondem a experincias realmente penosas na vida sexual do sujeito, que ele se esfora por esquecer. 
Consegue meramente substituir a representao incompatvel por uma outra, mal adaptada para se associar com o estado emocional, o qual, por sua vez, permanece inalterado. 
 essa msalliance entre o estado emocional e a representao associada que explica os disparates to caractersticos das obsesses.
         Passo agora a apresentar minhas observaes, e concluirei com uma tentativa de explicao terica.
         Caso 1. Uma jovem censurava-se por coisas que sabia serem absurdas: por ter roubado, fabricado dinheiro falso, por envolver-se numa conspirao etc., conforme 
o que tivesse lido durante o dia.
         Reinstaurao da representao substituda: Ela se recriminava pela masturbao que vinha praticando em segredo, sem conseguir abandon-la. Foi curada por 
uma cuidadosa vigilncia, que a impediu de se masturbar.
         Caso 2. Um rapaz, estudante de medicina, sofria de obsesso anloga. Recriminava-se por toda sorte de atos imorais: por ter matado o primo, violado a irm, 
ateado fogo a uma casa etc. Chegou ao ponto de ter que se voltar na rua para ver se ano tinha assassinado a ltima pessoa a passar por ele.
         Reinstaurao: Ficara muito afetado pela leitura, num livro paramdico, de que a masturbao, na qual era viciado, destrua a moral das pessoas.
         Caso 3. Vrias mulheres queixaram-se de um impulso obsessivo de se atirarem pela janela, ferirem seus filhos com facas, tesouras etc.
         Reinstaurao: Obsesses baseadas em tentaes tpicas. Tratava-se de mulheres que, inteiramente insatisfeitas com seus casamentos, tinham de lutar contra 
os desejos e idias voluptuosas que constantemente as perturbavam  viso de outros homens.
         Caso 4. Uma moa perfeitamente sadia e muito inteligente exibia um dio incontrolvel pelos empregados de sua casa. Este fora deflagrado em conexo com 
uma criada impertinente e se transferia de criada para criada, a ponto de tornar o servio domstico impossvel. O sentimento era uma mistura de dio e repugnncia. 
Ela se justificava dizendo que a grosseria dessas moas arruinava sua representao do amor.
         Reinstaurao: Essa moa fora testemunha involuntria de uma cena de amor em que sua me tomara parte. Escondera o rosto, tapara os ouvidos e fizera o mximo 
para esquecer a cena, pois ela a repugnava e teria tornado impossvel sua permanncia com a me, a quem ela amava ternamente. Teve xito em seus esforos, mas a 
raiva pela maculao de sua representao do amor persistiu dentro dela, e esse estado emocional logo se ligou  representao de alguma pessoa que assumisse o lugar 
de sua me.
         Caso 5. Uma jovem se isolara quase completamente por causa de um medo obsessivo da incontinncia urinria. No podia mais sair de seu quarto ou receber 
visitas sem ter urinado inmeras vezes. Quando estava em casa ou inteiramente s, o medo no a perturbava.
         Reinstaurao: Tratava-se de obsesso baseada na tentao ou na desconfiana. Ela no desconfiava de sua bexiga, mas de sua resistncia aos impulsos erticos. 
A origem da obsesso mostra-o claramente. Uma vez, no teatro, vendo um homem que a atraa, ela sentiu um desejo ertico, acompanhado (como as polues espontneas 
nas mulheres sempre o so) de um desejo de urinar. Foi obrigada a deixar o teatro e, a partir desse momento, viu-se presa do medo de experimentar a mesma sensao, 
mas o desejo de urinar substitura o desejo ertico. Ficou completamente curada.
         Embora os casos que enumerei mostrem graus variveis de complexidade, tm em comum o seguinte: a representao original (incompatvel) foi substituda por 
outra representao, a representao substituta. Nos casos que acrescento agora, a representao original foi substituda, mas no por outra representao - foi 
substituda por atos ou impulsos que serviram originalmente como medidas de alvio ou como procedimentos protetores, e que so agora grotescamente associados a um 
estado emocional que no lhes  adequado, mas que permaneceu inalterado e continuou a ser to justificvel quanto em sua origem.
         Caso 6. Aritmomania obsessiva. - Uma mulher via-se na obrigao de contar as tbuas do assoalho, os degraus da escada etc., atos estes que praticava num 
ridculo estado de angstia.
         Reinstaurao: Ela comeara a contar para desviar sua mente das representaes obsessivas (de tentao). Conseguira faz-lo, mas o impulso de contar substitura 
a obsesso original.
         Caso 7. Preocupao e especulao obsessivas. - Uma mulher sofria de ataques dessa obsesso, que s cessavam quando ela adoecia, cedendo ento lugar a temores 
hipocondracos. O tema de sua preocupao era sempre uma parte ou funo de seu corpo; por exemplo a respirao: "Por que preciso respirar? Suponhamos que eu no 
queira respirar" etc.
         Reinstaurao: Logo no princpio ela sofrera do medo de enlouquecer - fobia hipocondraca bastante comum entre mulheres no satisfeitas por seus maridos, 
como era seu caso. Para se assegurar de que no estava louca, de que estava ainda de posse de suas faculdades mentais, comeara a se fazer perguntas e a se interessar 
por problemas srios. Isso inicialmente a acalmara, mas, com o tempo, o hbito da especulao substituiu a fobia. Por mais de quinze anos, alternaram-se nela perodos 
de medo (patofobia) e de especulao obsessiva.
         Caso 8. Folie du doute. - Vrios casos mostraram os sintomas tpicos dessa obsesso, mas foram explicados de forma muito simples. Essa pessoas tinha sofrido 
ou sofriam ainda de vrias obsesses, e o conhecimento de que essas obsesses haviam perturbado todos os seus atos e interrompido muitas vezes o curso de seu pensamento 
provocava uma dvida legtima quanto  confiabilidade de sua memria. Todos j tivemos nossa confiana abalada, j fomos forados a reler uma carta ou refazer um 
clculo, quando nossa ateno  dispersada vrias vezes durante a realizao desse ato. A dvida  um resultado bastante lgico na presena de obsesses.
         Caso 9. Folie du doute. (Hesitao.) - A moa do Caso 4 se tornara extremamente vagarosa na execuo de todos os seus atos cotidianos, em especial na de 
sua toalete. Levava horas para amarrar os sapatos ou limpar as unhas. A guisa de explicao, dizia que no conseguia fazer sua toalete enquanto as representaes 
obsessivas ocupavam sua mente, nem imediatamente aps. Assim, acostumara-se a esperar um intervalo definido depois de cada retorno da representao obsessiva.
         Caso 10. Folie du doute. (Medo de pedacinhos de papel.) - Uma jovem sofria de escrpulos aps ter escrito uma carta; ao mesmo tempo, juntava todos os pedaos 
de papel que enxergava. Explicou esse fato confessando um amor que antes se recusara a admitir. Em conseqncia da repetio constante do nome de seu amado, fora 
dominada pelo medo de que esse nome pudesse ter-lhe escapado da pena, de que pudesse t-lo escrito em algum pedao de papel num momento de introspeco.
         Caso 11. Misofobia |Medo de sujeira.| - Uma mulher lavava suas mos constantemente e s tocava os trincos das portas com os cotovelos.
         Reinstaurao:  o caso de Lady Macbeth. A lavagem era simblica, destinada a substituir pela pureza fsica a pureza moral que ela lastimava ter perdido. 
Atormentavam-na os remorsos pela infidelidade conjugal, cuja lembrana ela resolvera banir da mente. Alm disso, costumava lavar seus rgos genitais.
         No que tange  teoria desse processo de substituio, ficarei contente em responder a trs perguntas que aqui surgem:
         (1)Como se produz a substituio?
         Ela parece ser expresso de uma predisposio mental especfica herdada. De qualquer forma, a "hereditariedade similar"  encontrada com bastante freqncia 
nos casos obsessivos, assim como na histeria. O paciente do Caso 2, por exemplo, contou-me que seu pai sofrera de sintomas semelhantes. Certa vez, o rapaz me apresentou 
a um primo em primeiro grau que tinha obsesses e um tic convulsif, e  filha de sua irm, de 11 anos, que j dava sinais de obsesses (provavelmente de remorso).
         (2)Qual o motivo da substituio?
         Penso que ele pode ser considerado como um ato de defesa (Abwehr) do ego contra a representao incompatvel. Entre meus pacientes h alguns que se recordam 
do esforo deliberado de banir a representao ou recordao aflitiva do campo da conscincia. (Ver Casos 3, 4 e 11). Em outros casos, a expulso da representao 
incompatvel  processada de modo inconsciente, que no deixa nenhum trao na memria do paciente.
         (3)Por que o estado emocional associado com a representao obsessiva persiste indefinidamente, em vez de se dissipar como outros estados de nosso eu?
         Essa questo pode ser respondida com referncia  teoria da gnese dos sintomas histricos, desenvolvida por Breuer e por mim. Aqui observarei apenas que, 
pelo prprio fato da substituio, torna-se impossvel o desaparecimento do estado emocional.
         
         II
         
         Alm desses dois grupos de obsesses verdadeiras, h a classe de "fobias", que deve ser agora considerada. J mencionei a grande diferena entre obsesses 
e fobias: nestas ltimas, a emoo  sempre de angstia, de medo. Poderia acrescentar que as obsesses so variadas e mais especializadas, enquanto as fobias aso 
mais montonas e tpicas. Mas essa distino no  de importncia capital.
         Entre as fobias,  tambm possvel diferenciar dois grupos, conforme a natureza do objeto temido: (1) fobias comuns, medo exagerado de coisas que todos 
detestam ou temem em alguma medida, tais como a noite, a solido, a morte, as doenas, os perigos em geral, as cobras etc.; (2) fobias contingentes, medo de condies 
especiais que no inspiram medo ao homem normal: por exemplo, agorafobia e as outras fobias da locomoo.  interessante notar que essas fobias no tm o trao obsessivo 
que caracteriza as verdadeiras obsesses e as fobias comuns. O estado emocional s aparece, nesses casos, em condies especiais, que o paciente evita cuidadosamente.
         O mecanismo das fobias  totalmente diferente do das obsesses. A substituio no  mais o trao predominante nas primeiras; a anlise psicolgica no 
revela nelas nenhuma representao incompatvel substituda. Nunca se encontra nada alm do estado emocional de angstia, que, por uma espcie de processo seletivo, 
traz  tona todas as representaes adequadas para se tornarem alvo de uma fobia. No caso da agorafobia etc., encontramos freqentemente a recordao de um ataque 
de angstia; e o que o paciente de fato teme  a ocorrncia de tal ataque nas condies especiais em que acredita no poder escapar dele.
         A angstia pertinente a esse estado emocional, que subjaz a todas as fobias, no deriva de qualquer lembrana; bem podemos imaginar qual seja a fonte dessa 
poderosa condio do sistema nervoso.
         Espero pode demonstrar, em outra ocasio, que h motivos para se distinguir uma neurose especial, a "neurose de angstia". cujo principal sintoma  esse 
estado emocional. Enumerarei ento seus vrios sintomas e insistirei sobre a necessidade de diferenciar essa neurose da neurastenia, com a qual  agora confundida. 
As fobias, portanto, fazem parte da neurose de angstia, e aso quase sempre acompanhadas por outros sintomas do mesmo grupo.
         Tanto quanto posso perceber, tambm a neurose de angstia tem uma origem sexual, mas no se prende a representaes extradas da vida sexual; para diz-lo 
com propriedade, no tem qualquer mecanismo psquico. Sua causa especfica  a acumulao de tenso sexual produzida pela abstinncia ou pela excitao sexual no 
consumada (usando o termo como frmula geral para os efeitos do coitus reservatus, da impotncia relativa do marido, da excitao no satisfeita dos noivos, da abstinncia 
forada etc.).
          nessas condies, extremamente freqentes na sociedade moderna, especialmente entre as mulheres, que se desenvolve a neurose de angstia (da qual as fobias 
aso uma manifestao psquica).
         Para concluir, posso assinalar que  possvel coexistirem combinaes de uma fobia com uma obsesso propriamente dita, e essa  de fato uma ocorrncia muito 
freqente. Podemos constatar que uma fobia se desenvolvera no incio da doena como um sintoma de neurose de angstia. A representao que constitui a fobia e que 
 associada ao estado de medo pode ser substituda por outra representao, ou melhor, pelo procedimento protetor que parecia aliviar o medo. O Caso 7 (especulao 
obsessiva) fornece um ntido exemplo desse grupo: uma fobia acompanhada de uma obsesso substitutiva verdadeira.
         
         APENDICE: AS CONCEPES DE FREUD SOBRE AS FOBIAS
         
         A mais antiga abordagem feita por Freud do problema das fobias foi seu primeiro artigo sobre as psiconeuroses de defesa (1894a); tratou-o de modo bem mais 
completo, um ano depois, na segunda seo do presente artigo, e voltou a aludir a ele no primeiro artigo sobre a neurose de angstia (1895b), escrito logo depois. 
Em todas essas primeiras discusses das fobias no  difcil detectar alguma incerteza; de fato, numa outra breve referncia  questo, no segundo artigo sobre a 
neurose de angstia (1895f), Freud qualifica de "obscuro" o mecanismo das fobias (ver em [1] e [2]). No primeiro desses artigos ele atribura o mesmo mecanismo  
maioria das fobias e obsesses" (ver em [1]), excetuando as "fobias puramente histricas" (ver em [1]) e "o grupo de fobias tpicas das quais um modelo  a agorafobia" 
(ver em [1]. nota de rodap 1). Essa ltima distino, que ocorre pela primeira vez numa nota de rodap, iria revelar-se crucial, pois implicava uma distino entre 
fobias de base psquica e fobias (as "tpicas") sem qualquer base psquica. Assim, essa distino se ligava  separao entre o que seria posteriormente conhecido 
como psiconeuroses e "neuroses atuais" (ver adiante, ver em [1]). Nesses primeiros artigos, entretanto, a distino no era consistentemente traada. Dessa forma, 
no presente artigo, ela parece ser feita no entre dois grupos diferentes de fobias (como no texto mais antigo), mas entre, de um lado, as "obsesses" (de base psquica) 
e, de outro, as "fobias" (sem base psquica) sendo estas ltimas declaradas "parte da neurose de angstia" (ver em [1], [2], [3] e [4]). Aqui, entretanto, o quadro 
se confunde pela diviso adicional das fobias em dois grupos, de acordo com a natureza de seus objetos (ver em [1]), e tambm pela discriminao (como no primeiro 
artigo) de uma outra classe de fobias "que poderiam se chamadas de traumticas" e que esto "ligadas aos sintomas da histeria" (ver em [1]). Alm disso, no artigo 
sobre neurose de angstia, a principal distino no se referia s obsesses e fobias, como aqui, porm, mais uma vez,  distino entre as fobias pertencentes  
neurose obsessiva e as pertencentes  neurose de angstia (ver em [1] e [2]), se bem que, ainda uma vez, a distino se estabelecesse entre a presena e a ausncia 
de uma base psquica. Nesses artigos, portanto, permaneceram certos vnculos indeterminados entre as fobias, a histeria, as obsesses e a neurose de angstia.
         Com exceo de pouqussimas aluses aqui e ali, o tema das fobias parece no ter sido discutido por Freud, aps o presente grupo de artigos, durante quase 
quinze anos. Ento, no caso clnico do "Pequeno Hans" (1909b), deu-se o primeiro passo em direo ao esclarecimento desses pontos obscuros com a introduo de uma 
nova entidade clnica - a "histeria de angstia" (Edio Standard Brasileira, Vol. X, ver em [1], [2] e [3]). Naquele texto Freud observou que as fobias "devem ser 
consideradas apenas como sndromes que podem fazer parte de vrias neuroses, e no precisamos classific-las como um processo patolgico independente"; e props 
ento o nome "histeria de angstia" para um tipo especfico de fobia cujo mecanismo se assemelhava ao da histeria. Foi nesse caso clnico e no caso posterior do 
"Homem dos Lobos" (1918b |1914|) que Freud forneceu sua mais completa descrio clnica das fobias - ocorrendo ambas, naturalmente, em crianas. Um pouco mais tarde, 
em seus artigos metapsicolgicos sobre "O Recalcamento" e "O Inconsciente" (1915d e e), ele entrou numa discusso detalhada da metapsicologia do mecanismo que produz 
as fobias, quer relacionadas  histeria ou  neurose obsessiva (Edio Standard Brasileira, Vol. XIV, ver em [1], [2], [3], [4] e [1], [2], [3], [4], [5], IMAGO 
Editora, 1974). Restou, porm, o problema das fobias "tpicas" da neurose de angstia, que remonta ao primeiro do presente conjunto de artigos. Aqui, como vimos, 
toda a questo das "neuroses atuais" estava envolvida; e esta s seria inteiramente elucidada ainda mais tarde, em Inibio, Sintoma e Angstia (1926d), cujo ncleo 
 um reexame das fobias do "Pequeno Hans" e do "Homem dos Lobos".
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       SOBRE OS FUNDAMENTOS PARA DESTACAR DA NEURASTENIA UMA SNDROME ESPECFICA DENOMINADA NEUROSE DE ANGSTIA (1895 |1894|)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         BER DIE BERECHTIGUNG, VON DER NEURASTHENIE EINEN BESTIMMTEN SYMPTOMENKOMPLEX ALS "ANGSTNEUROSE" ABZUTRENNEN
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1895 Neurol. Zbl., 14 (2), 50-66. (15 de janeiro.)
         1906 S.K.S.N., 1, 60-85. (1911, 2 ed.; 1920, 3 ed.; 1922, 4 ed.)
         1925 G.S., l, 306-33.
         1952 G.W., l, 315-42.
         
         (b) TRADUES INGLESAS:
         "On the Right to Separate from Neurasthenia a Definite Symptom-Complex as 'Anxiety Neurosis'"
         1909 S.P.H., 133-54. (Trad. de A.A. Brill.) (1912, 2 ed.; 1920.; 3 ed.)
         "The Justification for Detaching from Neurasthenia a Particular Symptom-Complex as 'Anxiety Neurosis'"
         1924 C.P., l, 76-106. (Trad. de J. Rickman.)
         
         Includo (N XXXII) na coletnea de sinopses dos primeiros trabalhos de Freud, elaborada por ele mesmo (1897b). A presente traduo, com um novo ttulo, 
baseia-se na de 1924.
         Pode-se considerar este artigo como o primeiro trecho de uma pista que percorreu, com mais de uma bifurcao e mais de um retorno acentuado, a totalidade 
dos escritos de Freud. Entretanto, como se verifica pela lista de trabalhos sobre a angstia impressa como apndice a Inibio, Sintoma e Angstia (1926d) (Edio 
Standard Brasileira, Vol. XX, ver em [1], IMAGO Editora, 1976), este no , estritamente falando, o incio da pista. Ele foi precedido de vrias partidas exploratrias 
em forma de rascunhos submetidos por Freud a Wilhelm Fliess (particularmente os Rascunhos A, B e E). Assim, na Seo II do Rascunho B, datado de 8 de fevereiro de 
1893 (Freud, 1950a), j esto resumidos alguns dos principais pontos do presente artigo. Em especial, insiste-se na necessidade de "destacar" da neurastenia a neurose 
de angstia, e muitos dos sintomas so enumerados exatamente como aqui. Por outro lado, esse Rascunho no contm nenhuma indicao da etiologia mais profunda da 
neurose tal como proposta aqui - o acmulo de excitao sexual que no consegue encontrar descarga no campo psquico. Para isso temos que recorrer ao Rascunho E, 
onde a teoria  formulada na ntegra, talvez at com mais clareza do que adiante. Infelizmente, o Rascunho E no est datado. Os editores da correspondncia com 
Fliess atribuem-lhe, por razes no muito convincentes, a data de junho de l894; mas, seja como for,  evidente que ele deve ter sido escrito antes, e no muito 
antes, deste artigo. Alguns dos pontos obscuros aqui encontrados so esclarecidos pelo Rascunho E, assim como pelo Rascunho G (tambm sem data, mas com certeza contemporneo 
do presente trabalho), que inclui um notvel diagrama retratando as idias de Freud sobre o mecanismo do processo sexual.
          tambm recomendvel ter em mente, ao ler esses primeiros artigos, que Freud, nessa poca, estava profundamente empenhado numa tentativa de formular os 
dados da psicologia em termos neurolgicos - tentativa que culminou em seu abortado "Projeto para uma Psicologia Cientfica" (1950a, escrito no outono de 1895, poucos 
meses aps esses Rascunhos, mas, como eles, s postumamente publicado) e que, da por diante, soobrou inteiramente. (Cf. em [1].) Freud ainda no adotara por completo 
a hiptese da existncia de processos mentais inconscientes (como se observa numa frase de seu artigo anterior sobre "As Neuropsicoses de Defesa", ver em [1]). Assim, 
neste artigo, ele faz uma distino entre "excitao sexual somtica", de um lado, e "libido sexual ou desejo psquico", de outro (ver em [1]). A "libido"  encarada 
como algo exclusivamente "psquico", embora, mais uma vez, ainda no parea ter havido uma distino clara entre "psquico" e "consciente".  interessante notar 
que na sinopse deste artigo, escrita pelo prprio Freud apenas dois anos depois (1897b), ver em [1] e [2], adiante, ele evidentemente j aceita a concepo de libido 
como algo potencialmente inconsciente, e escreve: "A angstia neurtica  a libido sexual transformada."
         Seja quais forem os termos em que expressou essa teoria, porm, Freud a sustentou durante quase toda a vida, ainda que com vrias complicaes restritivas. 
Quanto  longa srie de opinies mutveis que estavam por vir, um apanhado ser feito na Introduo do Editor ingls (no Vol. XX da Edio Standard) ao ltimo dos 
principais trabalhos de Freud sobre o assunto: Inibio, Sintoma e Angstia (1926d). Nesse intervalo, porm, Freud se viu frente a uma controvrsia imediata com 
um colega ctico - e psiquiatra Loewenfeld, de Munique -, da qual resultou o estudo que se segue a este.
         
         SOBRE OS FUNDAMENTOS PARA DESTACAR DA NEURASTENIA UMA SNDROME ESPECIFICA DENOMINADA NEUROSE DE ANGUSTIA
         
         |INTRODUO|
         
          difcil fazer qualquer afirmao de validade geral sobre a neurastenia, na medida em que usemos esse nome para abranger todas as coisas que Beard incluiu 
nele. Em minha opinio, a neuropatologia s ter a ganhar se fizermos uma tentativa de separar da neurastenia propriamente dita todos os distrbios neurticos em 
que, por um lado, os sintomas esto mais firmemente ligados entre si do que aos sintomas tpicos da neurastenia (tais como presso intracraniana, irritao espinhal 
e dispepsia com flatulncia e constipao), e que, por outro lado, exibem diferenas essenciais, em sua etiologia e mecanismo, em relao  neurose neurastnica 
tpica. Se aceitarmos esse plano, logo obteremos um quadro bastante uniforme da neurastenia. Estaremos ento em condies de diferenciar da neurastenia genuna, 
mais nitidamente do que tem sido possvel at aqui, vrias pseudoneurastenias (tais como o quadro clnico da neurose reflexa nasal, organicamente determinada, os 
distrbios nervosos das caquexias e arteriosclerose, os estgios preliminares de paralisia geral dos loucos, e algumas psicoses). Alm disso, ser possvel - como 
props Moebius - eliminar alguns dos status nervosi |estados nervosos| de indivduos hereditariamente degenerados; e tambm descobriremos razes pelas quais vrias 
neuroses hoje descritas como neurastenia - em particular, as neuroses de natureza peridica ou intermitente - devem, antes, ser includas na melancolia. Contudo, 
a mais notvel de todas as mudanas ser introduzida se decidirmos destacar da neurastenia a sndrome que proponho descrever nas prximas pginas e que satisfaz 
de modo especialmente completo as condies estabelecidas acima. Clinicamente, os sintomas dessa sndrome relacionam-se de modo muito mais estreito entre si do que 
com os da neurastenia genuna (isto , freqentemente aparecem juntos e substituem uns aos outros no curso da enfermidade); e tanto a etiologia como o mecanismo 
dessa neurose so fundamentalmente diferentes da etiologia e do mecanismo da neurastenia genuna, tal como esta ser caracterizada depois de efetuada a referida 
separao.
         Chamo essa sndrome de "neurose de angstia" porque todos os seus componentes podem ser agrupados em torno do sintoma principal da angstia, pois cada um 
deles mantm com esta ltima uma relao definida. Eu acreditava que essa concepo dos sintomas da neurose de angstia se tivesse originado em mim, at que me chegou 
s mos um interessante artigo de E. Hecker (1893) onde encontrei a mesma interpretao, exposta com toda a clareza e completude que se poderia desejar. Entretanto, 
embora Hecker reconhea certos sintomas como equivalentes ou como rudimentos de um ataque de angstia, no os separa do campo da neurastenia como me proponho fazer. 
Mas isso se deve, evidentemente, ao fato de ele no ter levado em considerao a diferena entre os determinantes etiolgicos nos dois casos. Quando esta diferena 
 reconhecida, no h mais necessidade de designar os sintomas de angstia pelo mesmo nome dos legtimos sintomas neurastnicos, pois o objetivo principal de postular 
o que de outra maneira seria um nome arbitrrio  facilitar a enunciao de asseres gerais.
         
         I - A SINTOMATOLOGIA CLNICA DA NEUROSE DE ANGSTIA
         
         O que denomino "neurose de angstia" pode ser observado numa forma rudimentar ou totalmente desenvolvida, tanto isoladamente como combinada com outras neuroses. 
Naturalmente, so os casos at certo ponto completos e ao mesmo tempo isolados que sustentam de maneira especial a impresso de que a neurose de angstia  uma entidade 
clnica. Em outros casos em que a sndrome corresponde a uma "neurose mista", defrontamo-nos com a tarefa de distinguir e separar os sintomas que no pertencem  
neurastenia ou  histeria etc., mas  neurose de angstia.
         O quadro clnico da neurose de angstia abrange os seguintes sintomas:
         (1)Irritabilidade geral. Este  um sintoma nervoso comum e, como tal, pertence a outros status nervosi. Menciono-o aqui porque aparece invariavelmente na 
neurose de angstia e  teoricamente importante. A irritabilidade aumentada aponta sempre para um acmulo de excitao ou uma incapacidade de tolerar tal acmulo 
- isto , para um acmulo absoluto ou relativo de excitao. Uma das manifestaes dessa irritabilidade aumentada me parece merecer meno especial; refiro-me  
hiperestesia auditiva, a uma hipersensibilidade ao rudo - um sintoma indubitavelmente explicvel pela ntima relao inata entre as impresses auditivas e o pavor. 
A hiperestesia auditiva revela-se freqentemente como sendo causa de insnia, da qual mais de uma forma pertence  neurose de angstia.
         (2)Expectativa angustiada. No conheo melhor maneira de descrever o que tenho em mente seno por esse nome e acrescentando alguns exemplos. Por exemplo, 
uma mulher que sofre de expectativa angustiada pensar numa pneumonia fatal a cada vez que seu marido tossir quando estiver resfriado, e com os olhos da imaginao 
assistir  passagem do funeral dele; se, dirigindo-se a sua casa, observar duas pessoas paradas  porta da frente, no poder evitar a idia de que um de seus filhos 
caiu da janela; quando ouve baterem  porta, imagina que sejam notcias da morte de algum, e assim por diante - sendo que, em todas essas ocasies, no h nenhum 
fundamento especfico para exagerar uma mera possibilidade.
         Naturalmente, a expectativa angustiada se esmaece e se transforma imperceptivelmente na angstia normal, compreendendo tudo o que se costuma qualificar 
de ansiedade - ou tendncia a adotar uma viso pessimista das coisas; no entanto, em qualquer oportunidade ela ultrapassa a angstia plausvel dessa natureza e  
freqentemente reconhecida pelo prprio paciente como uma espcie de compulso. Para uma das formas da expectativa angustiada - a que se relaciona com a sade do 
prprio sujeito - podemos reservar o velho termo hipocondria. O auge alcanado pela hipocondria nem sempre  paralelo  expectativa angustiada geral; requer como 
precondio a existncia de parestesias e sensaes corporais aflitivas. Assim, a hipocondria  a forma preferida pelos neurastnicos genunos quando estes caem 
presa da neurose de angstia, como ocorre com freqncia.
         Outra expresso da expectativa angustiada  sem dvida encontrada na inclinao para a angstia moral, o escrpulo e o pedantismo - uma inclinao muitas 
vezes presente em pessoas com uma dose de sensibilidade moral maior que de costume e que, da mesma forma, varia desde o normal at uma forma exagerada de mania de 
duvidar.
         A expectativa angustiada  o sintoma nuclear da neurose. Tambm revela abertamente uma parte da teoria da neurose. Talvez possamos dizer que existe nesses 
casos um quantum de angstia em estado de livre flutuao, o qual, quando h uma expectativa, controla a escolha das representaes e est sempre pronto a se ligar 
a qualquer contedo representativo adequado.
         (3)Mas a ansiedade - que, embora fique latente a maior parte do tempo no que concerne  conscincia, est constantemente  espreita no fundo - tem outros 
meios de se expressar, alm desse. Pode irromper subitamente na conscincia sem ter sido despertada por uma seqncia de representaes, provocando assim um ataque 
de angstia. Esse tipo de ataque de angstia pode consistir apenas no sentimento de angstia, sem nenhuma representao associada, ou ser acompanhado da interpretao 
que estiver mais  mo, tal como representaes de extino da vida, ou de um acesso, ou de uma ameaa de loucura; ou ento algum tipo de parestesia (similar  aura 
histrica pode combinar-se com o sentimento de angstia, ou, finalmente, o sentimento de angstia pode estar ligado ao distrbio de uma ou mais funes corporais 
- tais como a respirao, a atividade cardaca, a inervao vasomotora, ou a atividade glandular. Dessa combinao o paciente seleciona ora um fator particular, 
ora outro. Queixa-se de "espasmos do corao", "dificuldade de respirar", "inundaes de suor", "fome devoradora", e coisas semelhantes; e, em sua descrio, o sentimento 
de angstia freqentemente recua para o segundo plano ou  mencionado de modo bastante irreconhecvel, como um "sentir-se mal", "no estar  vontade", e assim por 
diante.
         (4)Ora, um fato interessante e de importncia desde a perspectiva do diagnstico  que a proporo em que esses elementos se misturam num ataque de angstia 
varia em grau notvel, e que quase todos os sintomas concomitantes podem constituir o ataque isoladamente, assim como o pode a prpria angstia. H, por conseguinte, 
ataques de angstia rudimentares e equivalentes de ataques de angstia, todos provavelmente com a mesma significao, exibindo uma grande riqueza de formas at aqui 
pouco estudada. Um exame mais detalhado desses estados larvares de angstia (como Hecker |1893| os chama) e de sua diferenciao diagnstica dos outros ataques logo 
se tornar uma tarefa necessria para os neuropatologistas.
         Incluo aqui uma lista que inclui apenas as formas de ataques de angstia que me so conhecidas:
         (a)Ataques de angstia acompanhados por distrbios da atividade cardaca, tais como palpitao, seja com arritmia transitria ou com taquicardia de durao 
mais longa, que pode terminar num grave enfraquecimento do corao e que nem sempre  facilmente diferencivel da afeco cardaca orgnica; e ainda a pseudo-angina 
do peito - um assunto delicado em termos de diagnstico!
         (b)Ataques de angstia acompanhados por distrbios respiratrios, vrias formas de dispnia nervosa, acessos semelhando asma e similares. Gostaria de enfatizar 
que mesmo esses ataques nem sempre vm acompanhados de angstia reconhecvel.
         (c)Acessos de suor, geralmente  noite.
         (d)Acessos de tremores e calafrios, muito facilmente confundidos com ataques histricos.
         (e)Acessos de fome devoradora, freqentemente acompanhados de vertigem.
         (f)Diarria sobrevindo em acessos.
         (g)Acessos de vertigem locomotora.
         (h)Acessos do que se conhece como congestes, incluindo praticamente tudo o que tem sido denominado de neurastenia vasomotora.
         (i)Acessos de parestesias. (Estes, porm, raramente ocorrem sem angstia ou uma sensao semelhante de mal-estar.)
         (5)O acordar em pnico  noite (o pavor nocturnus dos adultos), que em geral se combina com angstia, dispnia, suores etc., muitas vezes nada mais  do 
que uma variante do ataque de angstia. Esse distrbio  determinante de uma segunda forma de insnia dentro do campo da neurose de angstia. |Cf. em [1].| Alm 
disso, estou convencido de que o pavor nocturnus das crianas tambm exibe uma forma que pertence  neurose de angstia. O trao de histeria existente nele, a ligao 
da angstia  reproduo de uma experincia apropriada ou de um sonho, d ao pavor nocturnus infantil a aparncia de alguma coisa especial. O pavor, porm, tambm 
pode emergir em forma pura, sem qualquer sonho ou alucinao repetitiva.
         (6)A "vertigem" ocupa um lugar preeminente no grupo de sintomas da neurose de angstia. Em sua forma mais branda, sua melhor descrio  a de "tonteira"; 
em suas manifestaes mais intensas, como os "acessos de vertigens" (com ou sem angstia), deve ser classificada entre os sintomas mais graves da neurose. A vertigem 
da neurose de angstia no  rotatria nem afeta especialmente certos planos ou direes, como a vertigem de Mnire. Pertence  classe da vertigem locomotora ou 
coordenatria, tal como a vertigem da paralisia oculomotora. Consiste num estado especfico de mal-estar, acompanhado por sensaes de que o solo oscila, as pernas 
cedem e  impossvel manter-se em p por mais tempo; enquanto isso, as pernas pesam como chumbo e tremem, ou os joelhos se dobram. Essa vertigem nunca leva a quedas. 
Por outro lado, gostaria de esclarecer que esse tipo de acesso de vertigem pode ser substitudo por um desmaio profundo. Outros estados da natureza do desmaio que 
ocorre na neurose de angstia parecem depender do colapso cardaco.
         Os acessos de vertigem no raro so acompanhados pelo pior tipo de angstia, freqentemente combinada com distrbios cardacos e respiratrios. De acordo 
com minhas observaes, as vertigens produzidas pela altitude, pelas montanhas e precipcios participam com freqncia da neurose de angstia. Alm disso, no estou 
certo se no seria tambm correto reconhecer, ao lado destas, uma vertigo a stomacho laeso |de origem gstrica|.
         (7)Com base, por um lado, na ansiedade crnica (expectativa angustiada) e, por outro, uma tendncia a ataques de angstia acompanhados de vertigem, dois 
grupos de fobias tpicas se desenvolvem, relacionando-se o primeiro com riscos fisiolgicos gerais e o segundo com a locomoo. Pertencem ao primeiro grupo o medo 
de cobras, tempestades, escurido, vermes, e assim por diante, assim como o tpico escrpulo moral excessivo e algumas formas da mania de duvidar. Aqui, a angstia 
disponvel  empregada simplesmente para reforar averses que esto instintivamente implantadas em todas as pessoas. Em geral, porm, uma fobia que atue de modo 
obsessivo s  formada se se acrescentar a ela a recordao de uma experincia em que a angstia tenha podido manifestar-se - como, por exemplo, depois de o paciente 
ter vivenciado uma tempestade ao desabrigo.  um erro tentar explicar tais casos como simples persistncia de impresses fortes; o que torna essas experincias importantes, 
e sua lembrana duradoura, , afinal, apenas a angstia que pde emergir no momento |da experincia| e que, da mesma maneira, pode emergir agora. Em outras palavras, 
tais impresses s permanecem poderosas em pessoas com "expectativa angustiada".
         O outro grupo inclui a agorafobia, com todas as suas formas acessrias, todas caracterizadas por sua relao com a locomoo. Muitas vezes constatamos que 
essa fobia se baseia num acesso de vertigem que a precedeu; no penso, porm, que se possa postular tal acesso na totalidade dos casos. Ocasionalmente, constatamos 
que, aps um primeiro acesso de vertigem sem angstia,a locomoo ainda continua possvel sem restrio, embora, da por diante, seja constantemente acompanhada 
de uma sensao de vertigem; mas vemos que, em certas condies - como estar sozinho ou numa rua estreita -, a locomoo fica impossibilitada quando a angstia vem 
somar-se ao acesso de vertigem.
         A relao dessas fobias com as fobias da neurose obsessiva, cujo mecanismo esclareci num artigo anterior deste peridico,  da espcie que se segue. O que 
elas tm em comum  que, em ambas, uma representao torna-se obsessiva em decorrncia de estar ligada a um afeto disponvel. O mecanismo de transposio do afeto, 
portanto,  vlido em ambos os tipos de fobia. Contudo, nas fobias da neurose de angstia (1) esse afeto tem sempre a mesma tonalidade, que  a da angstia; e (2) 
o afeto no se origina numa representao recalcada, revelando-se no adicionalmente redutvel pela anlise psicolgica, nem equacionvel pela psicoterapia. Portanto, 
o mecanismo da substituio no  vlido para as fobias da neurose de angstia.
         Ambas as espcies de fobias (e tambm as obsesses) freqentemente aparecem lado a lado, embora as fobias atpicas, baseadas nas obsesses, no precisem 
brotar, necessariamente, do solo da neurose de angstia. Um mecanismo muito freqente e aparentemente complicado ocorre quando, no que era originalmente uma simples 
fobia pertencente a uma neurose de angstia, o contedo dessa fobia  substitudo por outra representao de modo que o substituto  subseqente  fobia. Geralmente, 
o que mais se emprega como substituies so as "medidas protetoras" originalmente usadas para combater a fobia. Por exemplo, a "mania especulativa"  suscitada 
a partir dos esforos do sujeito para provar que ele no  louco, como lhe afirma sua fobia hipocondraca; as hesitaes e a dvida, e mais ainda as repeties da 
folie du doute |mania de duvidar| emergem de uma dvida justificvel quanto  certeza do curso do prprio pensamento, j que se est cnscio do persistente distrbio 
deste por representaes de tipo obsessivo, e assim por diante. Portanto, podemos afirmar que tambm muitas das sndromes da neurose obsessiva, como a folie du doute 
e outras semelhantes, devem ser consideradas, clnica, se no conceitualmente, como pertencentes  neurose de angstia.
         (8)As atividades digestivas sofrem apenas alguns distrbios na neurose de angstia; mas estes so caractersticos. Sensaes como uma inclinao ao vmito 
e nusea no so raras, e o sintoma da fome devoradora pode, isoladamente ou em conjunto com outros sintomas (como as congestes), suscitar um ataque de angstia 
rudimentar. Como mudana crnica, anloga  expectativa angustiada, encontramos uma disposio  diarria, o que tem ocasionado os mais estranhos erros de diagnstico. 
Se no me engano, foi para essa diarria que Moebius (1894) chamou a ateno recentemente num pequeno artigo. Suspeito ainda que a diarria reflexa de Peyer, que 
ele deriva de distrbios da prstata (Peyer, 1893), nada mais  que essa diarria da neurose de angstia. A iluso de uma relao reflexa  criada porque os mesmos 
sintomas que atuam na etiologia da neurose de angstia atuam na deflagrao de tais afeces da prstata e distrbios semelhantes.
         O comportamento do aparelho gastrintestinal na neurose de angstia apresenta um agudo contraste com a influncia da neurastenia nessas funes. Os casos 
mistos mostram com freqncia a familiar "alternncia entre diarria e constipao". Anloga a essa diarria  a necessidade de urinar que ocorre na neurose de angstia.
         (9)As parestesias que podem acompanhar os acessos de vertigem ou angstia so interessantes porque, tal como as sensaes da aura histrica, associam-se 
numa seqncia definida, embora eu considere que essas associaes, contrariamente s histricas, so atpicas e mutveis. Outra similaridade com a histeria  fornecida 
pelo fato de que, na neurose de angstia, ocorre uma espcie de converso para sensaes corporais que pode facilmente passar despercebida - por exemplo, para os 
msculos reumticos. Grande nmero do que se conhece como indivduos reumticos - que, alm disso, se pode demonstrar serem reumticos - sofre, na realidade, de 
neurose de angstia. Ao lado desse aumento da sensibilidade  dor, tenho tambm observado em muitos casos de neurose de angstia uma tendncia s alucinaes; e 
estas no podem ser interpretadas como histricas.
         (10)Vrios dos sintomas que mencionei, que acompanham ou substituem um ataque de angstia, aparecem tambm sob forma crnica. Nesse caso, so ainda menos 
fceis de reconhecer, pois a sensao ansiosa que os acompanha  menos clara que num ataque de angstia. Isso se aplica particularmente  diarria,  vertigem e 
s parestesias. Assim como um acesso de vertigens pode ser substitudo por um desmaio, a vertigem crnica pode ser substitudapor uma sensao permanente de grande 
fraqueza, lassido e assim por diante.
         
         
         
         
         II - INCIDNCIA E ETIOLOGIA DA NEUROSE DE ANGSTIA
         
         Em alguns casos de neurose de angstia no se descobre absolutamente nenhuma etiologia. Vale notar que, em tais casos, raramente h dificuldade em se estabelecerem 
provas de uma grave tara hereditria.
         Mas quando h fundamentos para se considerar a neurose como adquirida, uma cuidadosa investigao orientada nesse sentido revela que um conjunto de perturbaes 
e influncias da vida sexual so os fatores etiolgicos atuantes. Estes,  primeira vista, parecem de natureza variada, mas logo revelam o carter comum que explica 
por que tm um efeito similar no sistema nervoso. Alm disso, fazem-se presentes, isoladamente ou em conjunto com outras perturbaes de tipo banal ("stock") s 
quais podemos atribuir um efeito de contribuio. Essa etiologia sexual da neurose de angstia pode ser demonstrada com to esmagadora freqncia que me arrisco, 
no mbito deste pequeno artigo, a desconsiderar os casos em que a etiologia  duvidosa ou diferente.
         A fim de que as condies etiolgicas sob as quais ocorre a neurose de angstia possam ser apresentadas com maior preciso, ser recomendvel considerarmos 
separadamente homens e mulheres. Nas mulheres - deixando de lado, por ora, sua predisposio inata - a neurose de angstia ocorre nos seguintes casos:
          (a) Como angstia virginal ou angstia nas adolescentes. Inmeras observaes inequvocas me tm demonstrado que a neurose de angstia pode ser produzida, 
nas meninas que se aproximam da maturidade, por seu primeiro contato com o problema do sexo, por qualquer revelao mais ou menos repentina de algo at ento escondido 
- por exemplo, pela viso do ato sexual ou por conversas ou leituras sobre esse assunto. Tal neurose de angstia combina-se com a histeria de maneira quase tpica.
         (b) Como angstia da recm-casada. As jovens casadas que permaneceram anestsicas durante suas primeiras coabitaes no raro adoecem de neurose de angstia, 
que volta a desaparecer to logo a anestesia cede lugar  sensibilidade normal. J que a maioria das jovens esposas continua saudvel quanto h uma anestesia inicial 
desse tipo, deduz-se da que, a fim de que esse gnero de angstia possa emergir, outros determinantes so requeridos, e eu os mencionarei mais adiante.
         (c) Como angstia nas mulheres cujos maridos sofrem de ejaculao precoce ou de potncia marcantemente enfraquecida; e (d) cujos maridos praticam o coito 
interrompido ou reservatus. Esses casos |(c) e (i)| integram uma mesma classe, pois, analisando um grande nmero de exemplos,  fcil nos convencermos de que eles 
dependem simplesmente de a mulher obter ou no satisfao no coito. Se no, deparamos com a condio da gnese de uma neurose de angstia. Por outro lado, ela escapa 
da neurose quando o marido que sofre de ejaculao precoce consegue repetir o coito imediatamente com maior sucesso. O coitus reservatus atravs do condom no  
nocivo  mulher, desde que esta seja rapidamente excitvel e o marido, muito potente; de outro modo, essa espcie de intercurso preventivo no  menos nociva que 
as demais. O coito interrompido  quase sempre prejudicial. Para a mulher, porm, s o  quando o marido o pratica descuidadamente - isto , quando interrompe a 
relao to logo ele se aproxima da emisso, sem se importar com o curso da excitao nela. Quando, por outro lado, o marido aguarda a satisfao da mulher, o coito 
corresponde a uma relao normal para ela, mas ele padecer de neurose de angstia. Coligi e analisei um grande nmero de observaes em que estas asseres se fundamentam.
         (e) A neurose de angstia ocorre tambm como angstia em vivas e mulheres voluntariamente abstinentes, no raro numa combinao tpica com representaes 
obsessivas; e
         (f) Como angstia no climatrio, durante o ltimo grande aumento da necessidade sexual.
         Os casos (c), (d) e (e) abarcam as condies em que a neurose de angstia no sexo feminino surge de maneira mais freqente e rpida, independentemente da 
predisposio hereditria.  com referncia a esses casos curveis e adquiridos - que tentarei mostrar que as perturbaes sexuais neles descobertas so, na realidade, 
o fator etiolgico da neurose.
         Antes de faz-lo, entretanto, discutirei os determinantes sexuais da neurose de angstia nos homens. Proponho distinguir os seguintes grupos todos os quais 
tm analogias nas mulheres:
         (a) Angstia em homens voluntariamente abstinentes, freqentemente combinada com sintomas de defesa (idias obsessivas, histeria). Os motivos responsveis 
pela abstinncia voluntria implicam que muitas pessoas com predisposio hereditria, excntricas etc., incluem-se nessa categoria.
         (b) Angstia em homens em estado de excitao no consumada (por exemplo, durante o perodo do noivado) ou naqueles que (por medo das conseqncias da relao 
sexual) se contentam em tocar ou contemplar as mulheres. Esse grupo de determinantes - os quais, alis, podem aplicar-se sem alteraes ao outro sexo (durante o 
noivado ou em situaes onde se evita a relao sexual) - fornece os casos mais puros da neurose.
         (c) Angstia em homens que praticam o coito interrompido. Como se disse, este  nocivo  mulher quando praticado sem respeito a sua satisfao; mas  nocivo 
ao homem quando este, para proporcionar-lhe satisfao, dirige voluntariamente o coito e adia a emisso. Desse modo, torna-se inteligvel por que, quando um casal 
pratica o coito interrompido, em geral apenas um dos parceiros adoece. Nos homens, alm disso,  raro o coito interrompido produzir uma neurose de angstia pura; 
em geral, produz uma mistura de neurose de angstia e neurastenia.
         (d) Angstia em homens senescentes. H homens que tm um climatrio, como as mulheres, e que desenvolvem uma neurose de angstia nessa ocasio de potncia 
decrescente e crescente libido. 
         Finalmente, devo acrescentar dois outros casos que se aplicam a ambos os sexos:
         (?)As pessoas que, em decorrncia de praticarem a masturbao, tornaram-se neurastnicas, caem vtimas da neurose de angstia to logo abandonam sua forma 
de satisfao sexual. Tais pessoas tornaram-se particularmente incapazes de tolerar a abstinncia.
         Devo assinalar aqui, como um dado importante para a compreenso da neurose de angstia, que qualquer desenvolvimento pronunciado dessa afeco s ocorre 
entre os homens que continuaram potentes ou entre as mulheres que no so anestsicas. Entre os neurticos cuja potncia j foi severamente comprometida pela masturbao, 
a neurose de angstia resultante da abstinncia  muito leve e geralmente restrita  hipocondria e  vertigem crnica branda. A maioria das mulheres, de fato, deve 
ser considerada "potente"; a mulher realmente impotente - isto , realmente anestsica -  similarmente pouco suscetvel  neurose de angstia e tolera notavelmente 
bem as perturbaes que descrevi.
         Neste artigo, ainda no me agradaria discutir at que ponto, alm disso,  justificvel postularmos qualquer relao constante entre determinados fatores 
etiolgicos e determinados sintomas no complexo da neurose de angstia.
         (?) A ltima das condies etiolgicas que tenho a apresentar parece,  primeira vista, no ser de natureza sexual. A neurose de angstia tambm emerge 
- em ambos os sexos - como resultado do fator de sobrecarga de trabalho ou esforo exaustivo - como, por exemplo, aps noites em claro, atendimento a pessoas doentes, 
ou mesmo aps enfermidades graves.
         A principal objeo a meu postulado de uma etiologia sexual na neurose de angstia ter, provavelmente, o seguinte cunho: as condies anormais de vida 
sexual do tipo que descrevi so constatadas com to grande freqncia que estamos fadados a encontr-las sempre que procurarmos por elas. Sua presena nos casos 
de neurose de angstia que enumerei no prova, portanto, que nelas tenhamos descoberto a etiologia da neurose. Ademais, o nmero de pessoas que praticam o coito 
interrompido e coisas semelhantes  incomparavelmente maior que o nmero das pessoas afligidas pela neurose de angstia, e a grande maioria das primeiras tolera 
muito bem essa perturbao.
         A isso devo responder, em primeiro lugar, que, considerando a freqncia admitidamente enorme das neuroses, sobretudo da neurose de angstia, por certo 
no seria correto esperar encontrar para elas um fator etiolgico de ocorrncia rara; em segundo lugar, que um postulado de patologia  efetivamente atendido quando, 
numa investigao etiolgica,  possvel demonstrar que a presena de um fator etiolgico  mais freqente do que seus efeitos, j que, para que estes ocorram, talvez 
seja preciso que existam outras condies adicionais (tais como predisposio, soma de elementos etiolgicos especficos, ou reforo por meio de outros fatores banais); 
e ainda, que uma disseco detalhada de casos adequados de neurose de angstia comprova sem sombra de dvida a importncia do fator sexual. Aqui, entretanto, vou 
restringir-me ao fator etiolgico isolado do coito interrompido, ressaltando certas observaes que o confirmam.
         (1)Quando uma neurose de angstia ainda no se estabeleceu numa jovem casada, aparecendo apenas em acessos isolados e logo desaparecendo espontaneamente, 
 possvel demonstrar que cada um desses acessos da neurose  atribuvel a um coito de satisfao deficiente. Dois dias aps essa experincia - ou, no caso de pessoas 
de pouca resistncia, no dia seguinte -, o ataque de angstia ou de vertigem aparece regularmente, trazendo em sua esteira outros sintomas da neurose. Tudo isso 
torna a desaparecer, desde que a relao conjugal seja relativamente rara. Um eventual afastamento do marido de casa, ou uma temporada nas montanhas que exija uma 
separao do casal tm bom efeito. O tratamento ginecolgico a que se costuma recorrer  benfico porque, enquanto dura, a relao sexual  suspensa. Curiosamente, 
o sucesso do tratamento local  apenas transitrio: a neurose se instala de novo na montanha, to logo o marido inicia tambm suas frias, e assim por diante. Quando, 
na qualidade de mdico que compreenda essa etiologia, providencia-se a substituio do coito interrompido por uma relao sexual normal - num caso em que a neurose 
ainda no se tenha estabelecido - obtm-se uma prova teraputica da afirmao que fiz. A angstia menor  eliminada e - a menos que haja uma nova causa do mesmo 
tipo - no retorna.
         (2)Nas anamneses de muitos casos de neurose de angstia descobrimos, tanto em homens como em mulheres, uma notvel oscilao na intensidade de suas manifestaes 
e, a rigor, nas alternncias de todo esse estado. Um ano, diro eles, foi quase inteiramente bom, enquanto o ano seguinte foi terrvel; numa dada ocasio a melhoria 
pareceu dever-se a um tratamento especfico, que, no entanto, revelou-se intil no ataque seguinte; e assim por diante. Se indagarmos o nmero e a seqncia dos 
filhos e compararmos esse registro do casamento com a histria peculiar da neurose, chegaremos  simples concluso de que os perodos de melhora ou de boa sade 
coincidiram com as gestaes da esposa, durante as quais,  claro, no havia mais necessidade do coito com medidas preventivas. O marido beneficiou-se do tratamento 
depois do qual soube que sua mulher estava grvida - quer o tenha recebido do Pastor Kneipp ou de um estabelecimento hidroptico.
         (3)A anamnese dos pacientes freqentemente revela que os sintomas da neurose de angstia, em algum perodo definido, sucederam-se aos sintomas de alguma 
outra neurose - talvez da neurastenia - e assumiram seu lugar. Nesses casos, pode-se mostrar com grande regularidade que, pouco antes dessa alterao do quadro, 
ocorrera uma mudana correspondente na forma do fator sexual nocivo.
         As observaes desse tipo, que podem ser multiplicadas  vontade, decididamente impem ao mdico uma etiologia sexual para certa categoria de casos. E outros 
casos, que de outra forma permaneceriam ininteligveis, podem ao menos ser compreendidos e classificados sem incongruncia, empregando-se tal etiologia como chave. 
Tenho em mente os inmeros casos em que, de fato, acha-se presente tudo o que encontramos na categoria anterior - de um lado, as manifestaes da neurose de angstia 
e, de outro, o fator especfico do coito interrompido -, mas em que algo mais tambm se introduz: a saber, um longo intervalo entre a etiologia presumida e a ecloso 
de seus efeitos, e talvez tambm fatores etiolgicos que no sejam de natureza sexual. Tome-se, por exemplo, um homem que, ao receber a notcia da morte do pai, 
tem um ataque cardaco e, a partir desse momento, cai vtima de uma neurose de angstia. O caso no  compreensvel, pois, at ento, o homem no era neurtico. 
A morte do pai, que tinha idade bastante avanada, no ocorreu em circunstncias nada especiais, e havemos de admitir que o falecimento normal e esperado de um pai 
idoso no  uma daquelas experincias que costumam fazer com que um adulto saudvel adoea. Talvez a anlise etiolgica se torne mais clara se eu acrescentar que 
esse homem vinha praticando o coito interrompido h onze anos, com a devida considerao pela satisfao de sua mulher. Os sintomas clnicos so, no mnimo, exatamente 
iguais aos que aparecem em outras pessoas logo aps uma breve perturbao sexual da mesma espcie, e sem a interpolao de qualquer outro trauma. Uma avaliao similar 
deve ser feita do caso de uma mulher cuja neurose de angstia eclodiu aps a perda de um filho, ou do caso do estudante cujos estudos preparatrios para o exame 
final foram perturbados por uma neurose de angstia. Penso que, tambm nesses casos, o efeito no  explicvel pela etiologia aparente. No se fica necessariamente 
"sobrecarregado" pelo estudo, e uma me saudvel costuma reagir apenas com uma tristeza normal  perda de um filho. Acima de tudo, entretanto, eu teria esperado 
que o estudante, em conseqncia de sua sobrecarga de trabalho, adquirisse cefalastenia, e a me, em conseqncia de sua aflio, histeria. O fato de ambos terem 
sido dominados pela neurose de angstia leva-me a atribuir importncia ao fato de a me ter praticado por oito anos o coito conjugal interrompido e ao fato de o 
estudante ter tido, durante trs anos, um ardente caso amoroso com uma jovem "respeitvel" cuja gravidez ele precisara evitar.
         Essas consideraes levam-nos  concluso de que a perturbao sexual especfica do coito interrompido, mesmo que no consiga, por sua prpria conta, provocar 
uma neurose de angstia no sujeito, ao menos o predispe a adquiri-la. A neurose de angstia eclode to logo se adiciona ao efeito latente do fator especfico o 
efeito de outra perturbao banal. Esta ltima pode atuar quantitativamente no sentido do fator especfico, mas no pode substitu-lo qualitativamente. O fator especfico 
permanece sempre decisivo quanto  forma tomada pela neurose. Espero poder provar essa assero concernente  etiologia das neuroses de maneira tambm mais abrangente.
         Alm disso, estes ltimos comentrios contm uma suposio que no  em si mesma improvvel, no sentido de que uma perturbao sexual como o coito interrompido 
passa a vigorar por soma.  preciso um tempo mais ou menos longo - dependendo da disposio individual e de quaisquer outras deficincias hereditrias do sistema 
nervoso - para que o efeito dessa soma se torne visvel. De fato, os indivduos que aparentemente toleram sem prejuzo o coito interrompido ficam por ele predispostos 
aos distrbios da neurose de angstia, seja aps um trauma corriqueiro que, em condies normais, no seria suficiente para isso; do mesmo modo, por meio da soma, 
um alcolatra crnico desenvolver finalmente uma cirrose ou alguma outra doena, ou ainda, por influncia de uma febre, cair vtima de um delrio.
         
         III - PRIMEIROS PASSOS EM DIREO A UMA TEORIA DA NEUROSE DE ANGSTIA
         
         A discusso terica que se segue arroga-se apenas o valor de uma primeira e tateante tentativa; a crtica que se faa dela no deve afetar a aceitao dos 
fatos que apresentamos acima. Alm disso, a avaliao dessa "teoria da neurose de angstia"  ainda mais dificultada por ser ela apenas um fragmento de uma explicao 
mais abrangente das neuroses.
         O que dissemos at aqui sobre a neurose de angstia j fornece alguns pontos de partida para obtermos um discernimento do mecanismo dessa neurose. Em primeiro 
lugar, havia nossa suspeita de que estvamos diante de um acmulo de excitao |ver em [1]|; e havia ainda o fato extremamente importante de que no se podia atribuir 
a nenhuma origem psquica a angstia que subjaz aos sintomas clnicos da neurose. Tal origem existiria, por exemplo, se ficasse constatado que a neurose de angstia 
se baseava num nico ou repetido terror justificvel, e que este supriria desde ento a fonte da pronta disposio do sujeito para a angstia. Mas no  assim. A 
histeria ou uma neurose traumtica podem ser adquiridas a partir de um nico susto, mas nunca a neurose de angstia. J que o coito interrompido ocupa lugar to 
preeminente entre as causas da neurose de angstia, julguei, a princpio, que a fonte da angstia contnua pudesse residir no medo, reiterado a cada vez que o ato 
sexual  praticado, de que a tcnica falhasse e da resultasse a concepo. Contudo, descobri que esse sentimento, durante o coito interrompido, tanto no homem como 
na mulher, em nada influencia a gnese da neurose de angstia; que as mulheres basicamente indiferentes  conseqncia de uma possvel concepo so to suscetveis 
 neurose quanto as que estremecem ante essa possibilidade; e que tudo depende simplesmente de qual dos parceiros renuncia  satisfao nessa tcnica sexual.
         Outro ponto de partida  fornecido pela observao, no mencionada at aqui, de que, em grandes grupos de casos, a neurose de angstia  acompanhada por 
um decrscimo extremamente acentuado da libido sexual, ou desejo psquico, de modo que, quando se diz aos pacientes que suas queixas decorrem de "satisfao insuficiente", 
eles respondem regularmente que isso  impossvel, pois justamente agora toda a sua necessidade sexual se extinguiu. Todas essas indicaes - de que estamos diante 
de um acmulo de excitao; de que a angstia, provavelmente correspondente a essa excitao acumulada,  de origem somtica, de modo que o que se est acumulando 
 uma excitao somtica; e ainda, de que essa excitao somtica  de natureza sexual  acompanhada por um decrscimo da participao psquica nos processos sexuais 
-, todas essas indicaes, dizia eu, levam-nos a esperar que o mecanismo da neurose de angstia deva ser buscado numa deflexo da excitao sexual somtica da esfera 
psquica e no conseqente emprego anormal dessa excitao.
         Esse conceito do mecanismo da neurose de angstia poder ser esclarecido se aceitarmos a seguinte concepo do processo sexual, que se aplica, em primeiro 
lugar, aos homens. No organismo masculino sexualmente maduro produz-se a excitao sexual somtica - provavelmente de forma contnua - e, periodicamente, ela se 
torna um estmulo para a psique. Para firmarmos nossas idias quanto a esse ponto, acrescentarei, por meio de uma interpolao, que essa excitao somtica se manifesta 
como uma presso nas paredes das vesculas seminais, que so revestidas de terminaes nervosas; assim, essa excitao visceral se desenvolve continuamente, mas 
tem que atingir uma certa altura para poder vencer a resistncia da via de conduo intermediria at o crtex cerebral e expressar-se como um estmulo psquico. 
Depois que isso acontece, entretanto, o grupo de representaes sexuais presente na psique fica suprido de energia e passa a existir um estado psquico de tenso 
libidinal que traz em si uma nsia de eliminar essa tenso. Uma descarga psquica desse gnero s  possvel por meio do que chamarei de ao especfica ou adequada. 
Essa ao adequada consiste, quanto  pulso sexual masculina, num complicado ato reflexo raquidiano que promove a descarga das terminaes nervosas, e em todas 
as preparaes psquicas que tm que ser feitas para acionar esse reflexo. Qualquer coisa que no a ao adequada seria infrutfera, pois, uma vez que a excitao 
sexual somtica atinja seu valor limite, ela se converte continuamente em excitao psquica, e  positivamente preciso que ocorra algo que liberte as terminaes 
nervosas da carga de presso sobre elas - algo que, por conseguinte, elimine a totalidade da excitao somtica existente e permita  via de conduo subcortical 
restabelecer sua resistncia. Abstenho-me de descrever de maneira similar situaes mais complicadas do processo sexual. Afirmarei apenas que, em essncia, essa 
frmula  tambm aplicvel s mulheres, a despeito da confuso introduzida no problema por todos os retardamentos e tolhimentos artificiais da pulso sexual feminina. 
Tambm nas mulheres devemos postular uma excitao sexual somtica e um estado em que essa excitao se transforma num estmulo psquico - libido - e provoca a nsia 
da ao especfica a que est ligada a sensao voluptuosa. No que se refere s mulheres, porm, no estamos em condies de dizer qual  o processo anlogo ao relaxamento 
da tenso das vesculas seminais.
         Podemos incluir no mbito dessa descrio do processo sexual no apenas a etiologia da neurose de angstia, mas tambm a da neurastenia genuna. A neurastenia 
surge sempre que a descarga adequada (a ao adequada)  substituda por uma menos adequada - por exemplo, quando o coito normal, praticado nas condies mais favorveis, 
 substitudo pela masturbao ou pela emisso espontnea. A neurose de angstia, por outro lado,  produto de todos os fatores que impedem a excitao sexual somtica 
de ser psiquicamente elaborada. As manifestaes da neurose de angstia aparecem quando a excitao somtica que foi desviada da psique  subcorticalmente despendida 
em reaes totalmente inadequadas.
         Tentarei agora descobrir se as condies etiolgicas da neurose de angstia estabelecida acima |ver em [1] e segs.| exibem a caracterstica comum que acabo 
de lhes atribuir. O primeiro fator etiolgico que postulei para os homens foi a abstinncia intencional |ver em [1]|. A abstinncia consiste no refreamento da ao 
especfica que ordinariamente decorre da libido. Esse refreamento pode ter duas conseqncias. Em primeiro lugar, a excitao somtica se acumula;  ento desviada 
por outros canais, que se mostram mais promissores em termos de descarga do que a via que passa pela psique. Assim, a libido termina por soobrar e a excitao se 
manifesta subcorticalmente como angstia. Em segundo lugar, quando a libido no diminui, ou quando a excitao somtica  despendida, numa espcie de atalho, em 
emisses, ou quando, por ser forado a recuar, a excitao realmente cessa, segue-se toda sorte de coisas que no uma neurose de angstia. A abstinncia,portanto, 
leva  neurose de angstia da maneira acima descrita. Mas ela  tambm o fator atuante em seu segundo grupo etiolgico, o da excitao no consumada |ver em [1]|. 
Meu terceiro grupo, o do coitus reservatus com considerao pela mulher |ibid.|, atua por meio de um distrbio da prontido psquica do homem para o processo sexual, 
na medida em que introduz, juntamente  tarefa de manejar o afeto sexual, uma outra tarefa psquica de cunho defletor. Em conseqncia dessa deflexo psquica, mais 
uma vez, a libido desaparece gradualmente e o curso subseqente das coisas  o mesmo que no caso da abstinncia. A angstia na senectude (o climatrio masculino) 
|ver em [1]| requer outra explicao. Aqui no h diminuio da libido; no entanto, como no climatrio feminino, ocorre um aumento to grande na produo de excitao 
somtica que a psique se mostra relativamente insuficiente para manej-lo.
         As condies etiolgicas aplicveis s mulheres podem ser includas no contexto de meu esquema sem maiores dificuldades do que no caso dos homens. A angstia 
virginal |ver em [1] [2]|  um exemplo particularmente claro, pois aqui os grupos de representaes aos quais a excitao sexual somtica deveria ligar-se ainda 
no esto suficientemente desenvolvidos. Na mulher recm-casada anestsica |ver em [1]|, a angstia s aparece quando as primeiras coabitaes despertam uma quantidade 
suficiente de excitao somtica. Quando faltam as indicaes locais de tal excitamento (sensaes espontneas de estimulao, desejo de urinar, e assim por diante), 
a angstia tambm fica ausente. O caso da ejaculao precoce e do coito interrompido |ibid.| pode ser explicado tal como nos homens, isto , o desejo libidinal do 
ato psiquicamente insatisfatrio desaparece gradualmente, enquanto a excitao despertada durante o ato  despendida subcorticalmente. A alienao entre as esferas 
psquica e somtica no rumo tomado pela excitao sexual  mais prontamente estabelecida nas mulheres que nos homens. Os casos de viuvez e abstinncia voluntria, 
e tambm os do climatrio |ver em [1] e segs.| so tratados do mesmo modo em ambos os sexos; contudo, no que se refere  abstinncia, no h dvida de que, no caso 
das mulheres, existe ainda a questo do recalcamento intencional do crculo s representaes sexuais,  qual a mulher abstinente deve estar atenta com freqncia 
em sua luta contra a tentao. O horror que, na poca da menopausa, a mulher em processo de envelhecimento sente diante do aumento indevido de sua libido pode agir 
de maneira semelhante.
         As duas ltimas condies etiolgicas de nossa lista parecem enquadrar-se sem dificuldade. A tendncia  angstia nos masturbadores que se tornaram neurastnicos 
|vr em [1]|  explicada pelo fato de que lhes  muito fcil passarem a um estado de "abstinncia" depois de se terem acostumado por tanto tempo a descarregar at 
mesmo a menor quantidade de excitao somtica, por mais deficiente que seja essa descarga. Finalmente, o ltimo caso - a gnese da neurose de angstia por meio 
de doena grave, sobrecarga de trabalho, cuidado exaustivo com doentes etc. |ibid.| - encontra uma interpretao fcil ao ser relacionado com os efeitos do coito 
interrompido. Aqui, a psique, graas a sua deflexo, pareceria no mais ser capaz de manejar a excitao somtica, tarefa esta em que, como sabemos, ela est continuamente 
engajada. Estamos cientes de que uma libido de nvel baixo pode soobrar nessas condies, e temos a um bom exemplo de neurose que, embora no apresente nenhuma 
etiologia sexual, apresenta, entretanto, um mecanismo sexual.
         A concepo aqui desenvolvida retrata os sintomas da neurose de angstia como sendo, em certo sentido, substitutos da ao especfica omitida posteriormente 
 excitao sexual. Para sustentar ainda mais essa concepo, posso indicar que, tambm na copulao normal, a excitao  despendida, entre outras coisas, na respirao 
acelerada, palpitao, transpirao, congesto, e assim por diante. Nos correspondentes ataques de angstia de nossa neurose, defrontamo-nos com a dispnia, as palpitaes 
etc., da copulao, numa forma isolada e exagerada.
         E possvel formular mais uma questo. Por que motivo, nessas condies de insuficincia psquica para manejar a excitao sexual, o sistema nervoso se descobre 
no peculiar estado afetivo de angstia? Pode-se sugerir uma resposta como se segue. A psique  invadida pelo afeto de angstia quando se sente incapaz de lidar, 
por meio de uma reao apropriada, com uma tarefa (um perigo) vinda de fora; e fica presa de uma neurose de angstia quando se percebe incapaz de equilibrar a excitao 
(sexual) vinda de dentro - em outras palavras, ela se comporta como se estivesse projetando tal excitao para fora. O afeto e a neurose a ele correspondente esto 
firmemente inter-relacionados. O primeiro  uma reao a uma excitao exgena, e a segunda, uma reao  excitao endgena anloga. O afeto  um estado que passa 
rapidamente, enquanto a neurose  um estado crnico, porque, enquanto a excitao exgena age num nico impacto, a excitao endgena atua como uma fora constante. 
Na neurose, o sistema nervoso reage a uma fonte de excitao que  interna, enquanto, no afeto correspondente, ele reage contra uma fonte anloga de excitao que 
 externa.
         
         IV - RELAO COM OUTRAS NEUROSES
         
         H ainda algumas palavras a dizer sobre as relaes da neurose de angstia com as outras neuroses, no que se refere a seu desencadeamento e suas conexes 
internas.
         Os casos mais puros da neurose de angstia costumam ser os mais marcantes. So encontrados em indivduos jovens e sexualmente potentes, com etiologia no 
dividida e doena que no data de muito tempo.
         Mais freqentemente, porm, os sintomas de angstia ocorrem ao mesmo tempo que - e em combinao com - os sintomas de neurastenia, histeria, obsesses ou 
melancolia. Se permitssemos que uma mistura clnica como essa impedisse nosso reconhecimento da neurose de angstia como entidade independente, deveramos tambm, 
logicamente, abandonar uma vez mais a separao to arduamente conseguida entre a histeria e a neurastenia.
         No intuito de analisar as "neuroses mistas" posso afirmar esta importante verdade: onde quer que ocorra uma neurose mista, ser possvel descobrir uma mistura 
de vrias etiologias especficas.
         Uma multiplicidade de fatores etiolgicos como esses, que determinam uma neurose mista, pode ocorrer de maneira puramente fortuita. Por exemplo, uma nova 
perturbao pode acrescentar seus efeitos aos de um fator nocivo j existente. Assim, uma mulher que sempre foi histrica pode comear, a certa altura de seu casamento, 
a vivenciar o coitus reservatus; adquirir ento uma neurose de angstia em acrscimo a sua histeria. Ou ainda, um homem que antes se masturbava e que se tornou 
neurastnico pode ficar noivo e ser sexualmente excitado por sua noiva; a sua neurastenia vir juntar-se ento uma nova neurose de angstia.
         Em outros casos, a multiplicidade de fatores etiolgicos de modo algum  fortuita; um dos fatores desencadeia a atuao de outro. Por exemplo, uma mulher 
com quem o marido pratica o coitus reservatus sem considerao pela satisfao dela pode sentir-se compelida a se masturbar, a fim de eliminar a excitao aflitiva 
que se segue a tal ato; como resultado, produzir no apenas uma neurose de angstia pura e simples, mas uma neurose de angstia acompanhada por sintomas de neurastenia. 
Outra mulher que sofra desse mesmo fator nocivo pode ter que lutar contra as imagens lascivas de que tenta defender-se, e assim adquirir, por intermdio do coito 
interrompido, tanto obsesses quanto uma neurose de angstia. Finalmente, em decorrncia do coito interrompido, uma terceira mulher pode perder sua afeio pelo 
marido e sentir-se atrada por outro homem, circunstncia que ser cuidadosamente mantida em segredo; em conseqncia, ela apresentar uma mistura de neurose de 
angstia e histeria.
         Numa terceira categoria de neuroses mistas, a interligao dos sintomas  ainda mais ntima, no sentido de que o mesmo determinante etiolgico provoca, 
regular e simultaneamente, ambas as neuroses. Assim, por exemplo, a sbita revelao sexual que vimos estar presente na angstia virginal sempre d origem tambm 
 histeria |assim como  neurose de angstia|; a imensa maioria dos casos de abstinncia voluntria liga-se desde o incio com idias obsessivas verdadeiras; o coito 
interrompido nos homens nunca me pareceu capaz de provocar uma neurose de angstia pura, mas sempre uma mistura desta com a neurastenia.
         Com base nessas consideraes, parece que devemos ainda distinguir as condies etiolgicas de desencadeamento da neurose e seus fatores etiolgicos especficos. 
As primeiras - por exemplo, o coito interrompido, a masturbao ou a abstinncia - so ainda ambguas, e cada qual pode produzir diferentes neuroses. Apenas os fatores 
etiolgicos que nelas podem ser identificados, tais como a descarga inadequada, a insuficincia psquica ou a defesa acompanhada de substituio, tm uma relao 
especfica e inambgua com a etiologia de cada uma das principais neuroses.
         No que concerne a sua natureza ntima, a neurose de angstia apresenta as mais interessantes concordncias e diferenas em relao s outras neuroses principais, 
especialmente a neurastenia e a histeria. Partilha com a neurastenia uma caracterstica essencial - a saber, a de que a fonte da excitao, a causa precipitante 
do distrbio, reside no campo somtico, e no no psquico,como ocorre na histeria e na neurose obsessiva. Em outros aspectos, constatamos, antes, uma espcie de 
anttese entre os sintomas da neurose de angstia e os da neurastenia, que poderia evidenciar-se em rtulos como "acmulo de excitao" e "empobrecimento da excitao". 
Essa anttese no impede que as duas neuroses se misturem; mesmo assim, porm, transparece no fato de que as formas mais extremas de cada uma das neuroses so tambm, 
em ambos os casos, as mais puras.
         A sintomatologia da histeria e a da neurose de angstia mostram muitos pontos em comum, que ainda no foram suficientemente considerados. O aparecimento 
dos sintomas, seja sob forma crnica ou em ataques, as parestesias, agrupadas como auras, as hiperestesias e pontos de presso que so encontrados em certos substitutos 
do ataque de angstia (na dispnia e nos ataques cardacos), a intensificao, pela converso, de dores que talvez tenham justificao orgnica - estes e outros 
traos que as duas doenas tm em comum permitem at a suspeita de que uma parcela nada insignificante do que se atribui  histeria poderia, com maior justia, ser 
posta na conta da neurose de angstia. Quando se penetra no mecanismo das duas neuroses, tanto quanto foi possvel descobri-lo at aqui, vm  tona certos aspectos 
que sugerem que a neurose de angstia , realmente, o equivalente somtico da histeria. Tanto na segunda como na primeira h um acmulo de excitao (que talvez 
seja a base da similaridade entre os sintomas que mencionamos). Tanto na segunda como na primeira constatamos uma insuficincia psquica, em conseqncia da qual 
surgem processos somticos anormais. E ainda, tanto na segunda como na primeira, em vez de uma elaborao psquica da excitao, h um desvio dela para o campo somtico; 
a diferena est apenas em que, na neurose de angstia, a excitao, em cujo deslocamento a neurose se expressa,  puramente somtica (excitao sexual somtica), 
ao passo que, na histeria, ela  psquica (provocada por um conflito). Assim, no surpreende que a histeria e a neurose de angstia se combinem regularmente uma 
com a outra, como se v na "angstia virginal" ou na "histeria sexual", e que a histeria simplesmente tome de emprstimo  neurose de angstia vrios sintomas, e 
assim por diante. Essas relaes ntimas da neurose de angstia com a histeria fornecem, alm disso, um novo argumento para se insistir em destacar a neurose de 
angstia da neurastenia, pois, se essa separao no for admitida, tambm ficaremos impossibilitados de continuar a manter a distino entre neurastenia e histeria, 
que obtivemos com tanto trabalho e que  to indispensvel para a teoria das neuroses.
         
         VIENA, dezembro de 1894.
         
         APNDICE: O TERMO ANGST E SUA TRADUO INGLESA
         
         H pelo menos trs passagens em que Freud discute as vrias nuanas semnticas expressas pela palavra alem "Angst" e pelos cognatos "Furcht" e "Schreck". 
Embora ele acentue o elemento antecipatrio e a ausncia de objeto em "Angst", as distines que traa no so inteiramente convincentes e o uso real que faz do 
termo est longe de obedecer-lhes invariavelmente. E isso no chega a surpreender, de vez que "Angst"  uma palavra usada comumente na fala alem usual, no sendo 
de forma alguma exclusivamente um termo tcnico psiquitrico. Ocasionalmente, pode ser traduzida por qualquer uma dentre meia dzia de palavras inglesas igualmente 
comuns - "fear" |medo|, "fright" |pavor ou susto|, "alarm" |sobressalto| e assim por diante -, sendo, portanto, muito pouco prtico fixarmo-nos num nico termo ingls 
como sua traduo exclusiva. Entretanto, "Angst" aparece com freqncia como termo psiquitrico (particularmente em combinaes como "Angstneurose" ou "Angstanfall") 
e, nessas ocasies, um equivalente tcnico ingls parece fazer-se necessrio. A palavra universalmente, e talvez infelizmente, adotada para esse fim foi "anxiety" 
- infelizmente, j que "anxiety" tem tambm um sentido corrente de emprego cotidiano, que tem apenas uma remota conexo com qualquer dos usos do alemo "Angst". 
H, entretanto, um consagrado uso psiquitrico, ou ao menos mdico, do termo ingls "anxiety", que remonta (como nos diz o Oxford Dictionary)  metade do sculo 
XVII. Com efeito, o uso psiquitrico das duas palavras traz  luz suas origens paralelas. "Angst"  aparentado a "eng", palavra alem que designa "estreito", "restrito"; 
"anxiety" deriva do latim "angere", "estrangular" ou "apertar", "estreitar"; em ambos os casos, a referncia  aos sentimentos asfixiantes que caracterizam as formas 
graves do estado psicolgico em questo. Um estado ainda mais agudo  descrito em ingls pela palavra "anguish", que tem a mesma derivao; e convm notar que Freud, 
em seus artigos em francs, usa a palavra aparentada "angoisse" (assim como seu sinnimo "anxiet") para traduzir o alemo "Angst". (Ver em [1].)
         O tradutor ingls  assim levado a uma soluo de compromisso: deve usar "anxiety" nas acepes tcnicas ou semitcnicas e, em outros trechos, escolher 
qualquer outra palavra do ingls corriqueiro que parea mais apropriada. Alis, a soluo adotada em muitas das primeiras tradues de Freud, substituindo "Angst" 
por "ansiedade mrbida", parece especialmente impensada. Um dos principais problemas tericos discutidos por Freud  precisamente se, e nesse caso, por que a "Angst" 
 ora patolgica ora normal. (Ver, por exemplo, o Adendo B a Inibio, Sintoma e Angstia, Edio Standard Brasileira, Vol. XX, pg. 189 e segs., IMAGO, Editora, 
1976.)
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       RESPOSTA S CRTICAS A MEU ARTIGO SOBRE A 
       NEUROSE DE ANGSTIA (1895)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         ZUR KRITIK DER "ANGSTNEUROSE"
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1895 Wien.klin. Rdsch, 9 (27), 417-19, (28), 435-7, (29), 451-2. (7, 14 e 21 de julho.)
         1906 S.K.S.N., 1, 94-111. (1911, 2 ed., 1920, 3 ed.; 1922, 4 ed.).
         1925 G.S., 1, 343-62.
         1952 G.W., 1, 357-76.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         "A Reply to Criticisms on the Anxiety-Neurosis"
         1924 C.P. 1, 107-27. (Trad. de J. Rickman.)
         Includo (N XXXIII) na coleo de sinopses dos primeiros trabalhos de Freud elaborada por ele mesmo (1897b). Esta traduo, com o ttulo modificado, baseia-se 
na de 1924.
         Aps a publicao do primeiro artigo de Freud sobre a neurose de angstia em janeiro de 1895, uma crtica de Loewenfeld a ele foi estampada no exemplar 
de maro do Neurologisches Zentralblatt. O artigo aqui reproduzido  a rplica de Freud. Leopold Loewenfeld (1847-1923) era um afamado psiquiatra que clinicava em 
Munique. Era conhecido de Freud e continuou a manter com ele relaes amigveis. Incluiu captulos de Freud em dois de seus livros, compareceu aos dois primeiros 
Congressos Psicanalticos, em 1908 e 1910, e chegou at a apresentar um estudo (sobre hipnotismo) neste ltimo. Apesar disso, porm, nunca aceitou inteiramente as 
idias de Freud. Uma referncia ao fato de que a presente controvrsia no afetou as boas relaes entre ambos ocorre na Conferncia XVI das Conferncias Introdutrias 
(1916-17).
         A principal importncia deste artigo est na discusso minuciosa do que Freud chama aqui de "equao etiolgica - as inter-relaes entre as diferentes 
espcies de causas envolvidas na gerao de uma neurose (ou, a rigor, de qualquer outra doena). A questo j fora esboada numa comunicao a Fliess em 8 de fevereiro 
de 1893 (Freud, 1950a, Rascunho B) e voltou a ser abordada, mais tarde, no artigo em francs sobre "A Hereditariedade e a Etiologia das Neuroses" (1896a). Uma nova 
aluso  "equao etiolgica", cujos termos devem ser todos satisfeitos para que uma neurose possa manifestar-se,  feita dez anos depois do artigo sobre a sexualidade 
nas neuroses (1906a, Edio Standard Brasileira, Vol. VII, ver em [1], IMAGO Editora, 1972, e ela reaparece na comunicao dirigida ao Congresso de Nuremberg (1910d), 
Edio Standard Brasileira, Vol. XI, ver em [1], IMAGO Editora, 1970. Da em diante, porm, ela se reduz gradualmente  interao entre hereditariedade e experincia 
- os dois principais conjuntos de determinantes da neurose - e termina pela introduo do conceito de "sries complementares" nas Conferncias XXII e XXIII das Conferncias 
Introdutrias (1916-17). H uma passagem nos Trs Ensaios onde a transio  mostrada claramente. Em algumas frases acrescentadas quele trabalho em 1915, Freud 
referiu-se duas vezes a uma "srie etiolgica", "em que a intensidade decrescente de um fator  contrabalanada pela intensidade crescente de outro". Ento, em 1920, 
depois de escrever as Conferncias Introdutrias, ele alterou a expresso nos Trs Ensaios para "srie complementar"; ao menos mudou uma de suas ocorrncias, embora 
a segunda lhe passasse despercebida, de modo que as duas verses do termo so conservadas a poucas linhas uma da outra (Edio Standard Brasileira, Vol. VII, ver 
em [1] e [2], IMAGO Editora, 1972), revelando a linha de tendncia da equao etiolgica at a srie complementar.
         Um breve extrato da traduo anterior (1924) deste artigo foi includo em A General Selection from the Works of Sigmund Freud (1937, 68-9), de Rickman.
         
         RESPOSTA S CRTICAS A MEU ARTIGO SOBRE A NEUROSE DA ANGSTIA
         
         No segundo nmero do Neurologisches Zentralblatt de Mendel para 1895, publiquei um breve artigo em que me arrisquei a fazer uma tentativa de isolar da neurastenia 
vrios estados nervosos e estabelec-los como uma entidade independente, sob o nome de "neurose de angstia". Fui levado a faz-lo pela presena de uma conjuno 
constante de certos traos clnicos com outros etiolgicos - coisa que em geral nos permite fazer uma separao desse tipo. Descobri - e nisso Hecker  (1893) se 
antecipara a mim - que todos os sintomas neurticos em questo podiam ser classificados em conjunto como constituindo expresses de angstia; e meu estudo da etiologia 
das neuroses permitiu-me acrescentar que essas pores do complexo da "neurose de angstia" exibem precondies etiolgicas especiais que so quase o inverso da 
etiologia da neurastenia. Minhas observaes me haviam mostrado que, na etiologia das neuroses (pelo menos na dos casos adquiridos e das formas adquirveis), os 
fatores sexuais desempenham um papel predominante, ao qual se tem atribudo pouqussimo peso; assim, uma assero como "a etiologia das neuroses reside na sexualidade", 
com toda sua inevitvel incorreo per excessum et defectum |por excesso ou falta|, mesmo assim est mais prxima da verdade do que as outras doutrinas dominantes 
no momento. Outra afirmao que minhas observaes me foraram a fazer foi no sentido de que os vrios fatores sexuais nocivos no so indiferentemente encontrados 
na etiologia de todas as neuroses, mas que existem relaes especiais inconfundveis entre determinados fatores nocivos e determinadas neuroses. Desse modo, pude 
presumir que havia descoberto as causas especficas das vrias neuroses. Procurei ento formular sucintamente o carter especial das perturbaes sexuais que constituem 
a etiologia da neurose de angstia, e, com base em minha concepo do processo sexual (ver em [1]), cheguei a esta proposio: a neurose da angstia  criada por 
tudo aquilo que mantm a tenso sexual somtica afastada da esfera psquica, por tudo o que interfere em sua elaborao psquica. Ao retrocedermos s circunstncias 
concretas em que esse fator se torna atuante, somos levados a afirmar que a abstinncia |sexual|, quer voluntria quer involuntria, a relao sexual com satisfao 
incompleta, o coito interrompido, o desvio do interesse psquico da esfera da sexualidade e coisas similares so os fatores etiolgicos especficos dos estados que 
denominei de "neurose de angstia".
         Quando publiquei o artigo aqui mencionado, no tinha nenhuma iluso quanto a seu poder de persuaso. Em primeiro lugar, estava ciente de que a explicao 
que eu fornecera era apenas uma explicao sumria e incompleta e, em alguns pontos, at mesmo difcil de compreender - talvez apenas o bastante para despertar as 
expectativas do leitor. Alm disso, oferecera tambm muitos poucos exemplos e nenhuma cifra. Tampouco abordara a tcnica de coleta de anamneses ou tomara providncias 
para evitar mal-entendidos. No levara em conta nada alm das objees mais bvias e, no tocante  prpria teoria, enfatizara apenas sua proposio principal, e 
no suas restries. Sendo assim, cada leitor estava de fato livre para formar sua prpria opinio quanto  fora de sustentao de toda a hiptese. Eu tambm podia 
contar com outra dificuldade em sua aceitao. Sei muito bem que, ao expor minha "etiologia sexual" das neuroses, no apresentei nada de novo, e que nunca faltaram 
correntes no oficiais da literatura mdica que levam esses fatos em conta. Sei ainda que, de fato, a medicina acadmica oficial tambm tem estado ciente deles. 
Mas tem agido como se nada soubesse sobre o assunto. No tem utilizado seus conhecimentos nem extrado deles nenhuma inferncia. Tal comportamento deve ter alguma 
causa profundamente enraizada, talvez oriunda de uma espcie de relutncia em enfocar diretamente os assuntos sexuais, ou de uma reao contra as tentativas mais 
antigas de explicao, consideradas obsoletas. Em todo caso, tem-se que estar preparado para enfrentar resistncias quando se arrisca empreender uma tentativa de 
tornar fidedigno para outras pessoas algo que elas poderiam descobrir por si mesmas, sem nenhuma dificuldade.
         Nessas circunstncias, talvez fosse mais conveniente no responder s objees crticas at que eu mesmo tivesse expressado meus pontos de vista sobre esse 
tema complexo com maiores detalhes, tornando-os assim mais inteligveis. Entretanto, no posso resistir aos motivos que me impelem a dar uma resposta imediata a 
uma crtica de minha teoria da neurose de angstia recentemente publicada. Fao-o porque o seu autor, L. Loewenfeld, de Munique, autor de Pathologie und Therapie 
der Neurasthenie,  um homem cujo julgamento decerto tem muito peso junto ao pblico mdico; por causa de uma concepo equivocada que o texto de Loewenfeld me atribui; 
e finalmente, porque desejo combater de sada a impresso de que minha teoria pode ser to facilmente refutada pelas primeiras objees que aparecem.
         Com olho infalvel, Loewenfeld (1895) detecta a caracterstica essencial de meu artigo - a saber, minha assero de que os sintomas da angstia tm uma 
etiologia especfica e uniforme, de natureza sexual. No sendo possvel estabelecer isso como um fato, desaparece tambm a principal razo para se destacar da neurastenia 
uma neurose de angstia independente dela. Resta,  verdade, uma dificuldade para a qual chamei ateno |ver em [1] e seg.|: o fato de que os sintomas de angstia 
tm tambm ligaes rigorosamente inequvocas com a histeria, de modo que uma deciso nos termos de Loewenfeld prejudicaria a separao entre neurastenia e histeria. 
Tal dificuldade, no entanto,  equacionada por um recurso  hereditariedade como causa comum de todas essas neuroses (concepo que examinarei depois).
         Que argumentos, pois, Loewenfeld utiliza para fundamentar sua objeo a minha teoria?
         
         (1) Enfatizarei, como ponto essencial para a compreenso da neurose de angstia, que a angstia nela ocorrente no permite uma derivao psicolgica - isso 
significa que a pronta disposio para a angstia, que constitui o ncleo da neurose, no pode ser adquirida por um fato isolado ou repetido de pnico psiquicamente 
justificado. O pnico, sustentei, poderia resultar em histeria ou neurose traumtica, mas no numa neurose de angstia. Essa negao, como se percebe facilmente, 
nada mais  do que a contrapartida de minha afirmao, de cunho positivo, de que a angstia que aparece em minha neurose corresponde a uma tenso sexual somtica 
que foi desviada do campo psquico - uma tenso que, de outra forma, far-se-ia sentir como libido.
         Em oposio a isso, Loewenfeld insiste no fato de que, em muitos casos, "os estados de angstia aparecem imediatamente ou logo aps um choque psquico (apenas 
pavor ou acidentes acompanhados de pavor), e nessas situaes s vezes h circunstncias que tornam extremamente improvvel a atuao simultnea de perturbaes 
sexuais da espcie mencionada". Ele apresenta em poucas palavras, como exemplo particularmente fecundo, uma observao clnica (servindo por muitas). Esse exemplo 
concerne a uma mulher de trinta anos, com uma tara hereditria, que estivera casada por quatro anos e que, um ano antes, tivera um primeiro parto muito difcil. 
Poucas semanas aps esse acontecimento, seu marido fora acometido de um ataque de doena que a assustara e, em sua agitao, ela ficara correndo de camisola pelo 
cmodo frio. Desde essa poca, havia adoecido. Primeiro sofrera de estados de angstia e palpitaes  noite, depois vieram os acessos de tremores convulsivos, depois 
fobias, e assim por diante. Era o quadro de uma neurose de angstia plenamente desenvolvida. "Aqui", conclui Loewenfeld, "os estados de angstia so obviamente de 
origem psquica, desencadeados pelo susto isolado."
         No duvido que meu respeitvel crtico possa apresentar muitos casos similares. Eu mesmo posso fornecer uma longa lista de exemplos anlogos. Quem no tiver 
visto tais casos - e eles so extremamente comuns - de ecloso da neurose de angstia aps um choque psquico no pode considerar-se qualificado para tomar parte 
em discusses sobre a neurose de angstia. A esse respeito, observarei apenas que nem o susto nem a expectativa angustiada precisam ser sempre encontrados na etiologia 
desses casos; qualquer outra emoo serviria igualmente bem. Rememorando rapidamente alguns casos, lembro-me de um homem de quarenta e cinco anos que teve seu primeiro 
ataque de angstia (com colapso cardaco) ao receber a notcia da morte do pai, que era um senhor idoso; da por diante, desenvolveu uma neurose de angstia tpica 
e completa, acompanhada de agorafobia. Lembro-me tambm de um rapaz acometido da mesma neurose em virtude de sua agitao diante dos desentendimentos entre sua jovem 
esposa e sua me, e que tinha um novo surto de agorafobia depois de cada discusso domstica. Havia ainda um estudante, um tanto preguioso, que teve seus primeiros 
ataques de angstia durante um perodo em que, instigado pelo desagrado paterno, estava arduamente empenhado em se preparar para um exame. Lembro-me tambm de uma 
mulher sem filhos que adoeceu em funo da angstia ligada  sade de uma sobrinha pequena. E outros casos similares. Quanto aos fatos em si usados por Loewenfeld 
contra mim no paira a menor dvida.
         Contudo, h uma dvida quanto a sua interpretao. Ser que devemos aceitar incontinenti a concluso post hoc ergo propter hoc e abster-nos de qualquer 
exame crtico do material bruto? H exemplos suficientes em que a causa desencadeante final no preserva, ante uma anlise crtica, sua posio de causa efficiens. 
Basta pensar, por exemplo, na relao entre o trauma e a gota. O papel de um trauma na estimulao de um ataque de gota no membro afetado provavelmente no difere 
do papel que ele desempenha na etiologia da tabes e da paralisia geral dos insanos; s que, no caso da gota, fica claro, at para a mais medocre das capacidades, 
que  absurdo supor que o trauma tenha "causado" a gota, em vez de t-la meramente provocado. H que refletir com cuidado ao nos depararmos com fatores etiolgicos 
dessa natureza - fatores "banais", como gostaria de cham-los - na etiologia das mais variadas formas de doena. A emoo, o susto,  tambm um fator banal desse 
tipo. O pnico pode provocar coria, apoplexia, paralisia agitante e muitas outras coisas, assim como pode provocar a neurose de angstia. No devo,  claro, prosseguir 
na argumentao de que, graas a sua ubiqidade, as causas banais no satisfazem a nossos requisitos, e de que deve haver tambm causas especficas; faz-lo seria 
incorrer numa petio de princpio em favor da proposio que quero provar. Mas  justificvel que eu extraia a seguinte concluso: se for possvel mostrar que existe 
uma mesma causa especfica na etiologia de todos ou da grande maioria dos casos de neurose de angstia, nossa viso do assunto no precisar ficar abalada pelo fato 
de a doena s eclodir depois que um ou outro fator banal, tal como a emoo, torna-se atuante.
         Foi o que se deu com meus casos de neurose de angstia. Tomemos o homem que |ver em [1]|, aps receber a notcia da morte do pai, adoeceu to inexplicavelmente. 
(Acrescento "inexplicavelmente" porque a morte no fora imprevista, nem ocorrera em circunstncias incomuns ou chocantes.) Esse homem praticara por onze anos o coito 
interrompido com sua mulher, a quem quase sempre tentara satisfazer. Da mesma forma, o rapaz que no suportava as brigas entre a mulher e a me havia praticado a 
retirada do pnis com sua jovem esposa desde o incio do casamento, para se livrar do encargo de filhos. Temos ento o estudante que contrara uma neurose de angstia, 
em vez da espervel neurastenia cerebral, em conseqncia da sobrecarga de trabalho: ele vinha mantendo h trs anos uma relao com uma jovem que no lhe era permitido 
engravidar. Havia ainda a mulher sem filhos que fora acometida de neurose de angstia por causa da doena de uma sobrinha: era casada com um homem impotente e nunca 
fora sexualmente satisfeita. E assim por diante. Nem todos esses casos so igualmente claros ou igualmente bons como comprovao de minha tese; contudo, quando os 
junto ao imenso nmero de casos em que a etiologia s mostra o fator especfico, eles se enquadram sem contradio na teoria que formulei e permitem estender nossa 
compreenso etiolgica para alm das fronteiras vigentes at aqui.
         Se algum quiser provar-me que, nesses comentrios, negligenciei indevidamente a importncia dos fatores etiolgicos banais, dever confrontar-me com observaes 
em que meu fator especfico esteja ausente - isto , com casos em que a neurose de angstia tenha emergido aps um choque psquico, embora (de modo geral) o sujeito 
tenha levado uma vita sexualis normal. Vejamos agora se o caso de Loewenfeld satisfaz a essa condio.  bvio que meu respeitvel oponente no percebeu com clareza 
a necessidade disso, do contrrio no nos teria deixado to completamente no escuro quanto  vita sexualis de sua paciente. Deixarei de lado o fato de que esse caso 
da mulher de trinta anos  obviamente complicado por uma histeria sobre cuja origem psquica no tenho a mnima dvida; e naturalmente admito, sem levantar qualquer 
objeo, a presena de uma neurose de angstia ao lado dessa histeria. Mas antes de usar um caso para comprovar ou refutar a teoria da etiologia sexual das neuroses, 
 preciso, primeiramente, que eu tenha estudado o comportamento sexual do paciente mais de perto do que fez Loewenfeld. No me contentaria em concluir que, por ter 
a mulher sofrido seu choque psquico numa fase imediatamente posterior a um parto, o coito interrompido no poderia ter desempenhado um papel nisso no ano anterior, 
e que, portanto, as perturbaes sexuais estariam excludas. Sei de casos de mulheres que engravidavam todos os anos e que, apesar disso, sofriam de neurose de angstia, 
pois - por incrvel que parea - todas as relaes sexuais eram suspensas depois do primeiro coito fertilizante, de modo que, a despeito de terem muitos filhos, 
elas haviam sofrido de privao sexual durante todos esses anos. Nenhum mdico ignora o fato de que as mulheres concebem filhos de homens cuja potncia  muito reduzida 
e que no podem proporcionar-lhes satisfao. Por fim (e essa  uma considerao que deve ser levada em conta precisamente pelos defensores de uma etiologia hereditria), 
h muitas mulheres afligidas por neurose de angstia congnita - isto , que herdam ou desenvolvem, sem nenhum distrbio externamente demonstrvel, uma vita sexualis 
idntica  usualmente adquirida por meio do coito interrompido e de perturbaes similares. Em muitas dessas mulheres podemos descobrir uma doena histrica na juventude, 
desde a qual sua vita sexualis ficou perturbada e se estabeleceu um desvio da tenso sexual para longe da esfera psquica. As mulheres com esse tipo de sexualidade 
so incapazes de obter satisfao real, mesmo no coito normal, e desenvolvem uma neurose de angstia, seja espontaneamente, seja depois de sobrevirem outros fatores 
atuantes. Quais desses elementos estavam presentes no caso de Loewenfeld? No sei. Mas repito: esse caso s constituir uma prova contra mim se a mulher que reagiu 
a um nico susto com uma neurose de angstia tiver antes desfrutado de uma vita sexualis normal.
          impossvel empreender uma investigao etiolgica baseada em anamneses se aceitarmos essas anamneses tais como os pacientes as apresentam, ou se nos contentarmos 
com o que eles esto dispostos a informar voluntariamente. Se os especialistas em sfilis ainda confiassem no depoimento de seus pacientes para ligar uma infeco 
inicial da genitlia s relaes sexuais, poderiam atribuir um respeitvel nmero de cancros em pessoas declaradamente virgens a simples resfriados; e os ginecologistas 
teriam pouca dificuldade em confirmar o milagre da partenognese entre suas clientes solteiras. Espero que um dia prevalea a idia de que tambm os neuropatologistas, 
ao colherem as anamneses das grandes neuroses, podem estar procedendo com base em preconceitos etiolgicos de natureza semelhante.
         
         (2) Loewenfeld diz ainda que tem visto repetidamente o aparecimento e desaparecimento de estados de angstia em casos em que decerto no ocorreu qualquer 
mudana na vida sexual do sujeito, mas onde havia outros fatores em jogo.
         Eu prprio fiz exatamente a mesma observao, sem contudo deixar-me levar por ela. Tambm eu fiz desaparecerem ataques de angstia por meio de tratamento 
psquico, melhoria da sade geral do paciente, e assim por diante; mas, naturalmente, no conclu da que o que causara o ataque de angstia fora uma falta de tratamento. 
No que me agrade imputar a Loewenfeld uma concluso dessa espcie. Meu comentrio jogoso tenciona apenas mostrar que o estado de coisas pode facilmente complicar-se 
o bastante para invalidar por completo a objeo de Loewenfeld. No acho difcil conciliar o fato aqui apresentado com minha afirmativa de que a neurose de angstia 
tem uma etiologia especfica. H que admitir prontamente que existem fatores etiolgicos que, para surtirem efeito, precisam atuar com certa intensidade (ou quantidade) 
e durante um certo perodo de tempo - fatores que, em outras palavras, so somados. Os efeitos do lcool so um exemplo-padro desse tipo de causao por soma. Deduz-se 
da que deve haver um perodo em que a etiologia especfica est em ao, mas no qual seu efeito ainda no  manifesto. Durante essa fase, o sujeito ainda no est 
doente, mas est predisposto a uma enfermidade particular - em nosso caso,  neurose de angstia-, e ento o acrscimo de uma perturbao banal poder deflagrar 
a neurose, tal como o faria uma nova intensificao da ao do fator perturbador especfico. A situao tambm pode expressar-se da seguinte maneira: no basta a 
perturbao especfica estar presente; ela tambm precisa atingir um patamar definido; e, no processo de atingir esse limite, uma quantidade da perturbao especfica 
pode ser substituda por uma dose de perturbaes banais. Se estas ltimas voltarem a ser eliminadas, ficaremos abaixo de um certo limiar e os sintomas clnicos 
tornaro a desaparecer. Toda a terapia das neuroses se apia no fato de que a carga total sobre o sistema nervoso,  qual este sucumbiu, pode ser levada a um nvel 
inferior a esse limiar, influenciando-se de inmeras maneiras a mistura etiolgica. Com base nessas circunstncias, no podemos tirar nenhuma concluso quanto  
existncia ou inexistncia de uma etiologia especfica. Essas consideraes so certamente seguras e incontestveis. Mas quem quer que no as julgue suficientes 
poder ser influenciado pelo seguinte argumento. De acordo com as concepes de Loewenfeld e de inmeros outros, a etiologia dos estados de angstia deve ser buscada 
na hereditariedade. Ora, a hereditariedade  certamente imune a alteraes; logo, se a neurose de angstia  curvel sob tratamento, temos que concluir, segundo 
a argumentao de Loewenfeld, que sua etiologia no pode residir na hereditariedade.
         Quanto ao mais, talvez me fosse poupado ter que me defender dessas duas objees de Loewenfeld, se meu respeitvel oponente tivesse prestado maior ateno 
a meu artigo. Nele, ambas as objees foram previstas e respondidas (ver em [1] e segs.). Aqui pude apenas repetir o que disse l, e cheguei at a reanalisar deliberadamente 
os mesmos casos outra vez. Alm disso, as frmulas etiolgicas que acabo de enfatizar esto contidas no texto de meu artigo |ver em [1]|. Vou repeti-las uma vez 
mais. Sustento que existe um fator etiolgico especfico da neurose de angstia que pode ser substitudo em sua atuao por uma perturbao banal, em sentido QUANTITATIVO, 
mas no em sentido QUALITATIVO; sustento ainda que esse fator especfico determina primordialmente a FORMA da neurose; a ocorrncia ou no da doena neurtica depende 
da carga total sobre o sistema nervoso (proporcionalmente a sua capacidade de suportar tal carga). Em geral, as neuroses so sobredeterminadas, isto , vrios fatores 
operaram conjuntamente em sua etiologia.
         
         (3) No h por que me preocupar muito com a refutao dos comentrios subseqentes de Loewenfeld, j que, por um lado, eles afetam muito pouco a minha teoria 
e, por outro, levantam dificuldades cuja existncia reconheo. Loewenfeld escreve: "A teoria freudiana  totalmente insuficiente para explicar o aparecimento ou 
no-aparecimento dos ataques de angstia em casos isolados. Se os estados de angstia - isto , os sintomas clnicos da neurose de angstia - ocorressem somente 
por um armazenamento subcortical da excitao sexual somtica e por um emprego anormal desta, todas as pessoas afetadas por estados de angstia deveriam, desde que 
no ocorresse nenhuma mudana em sua vida sexual, ter de tempos em tempos um ataque de angstia, assim como o epilptico tem seu ataque de grand e petit mal. Mas 
isso, como mostras a experincia cotidiana, de modo algum acontece. Os ataques de angstia ocorrem, na grande maioria dos casos, apenas em ocasies definidas; quando 
o paciente evita essas ocasies ou consegue paralisar sua influncia por meio de alguma precauo, fica isento dos ataques de angstia, quer se entregue regularmente 
ao coito interrompido ou  abstinncia, quer goze de uma vida sexual normal."
         H muito a dizer sobre isso. Em primeiro lugar, Loewenfeld impe  minha teoria uma inferncia que ela no  obrigada a aceitar. Supor que na armazenagem 
de excitao sexual somtica ocorre a mesma coisa que na acumulao de estmulo que leva a uma convulso epilptica  formular uma hiptese excessivamente minuciosa, 
e no dei nenhum motivo para isso; nem essa hiptese  a nica que se apresenta. Para descartar a alegao de Loewenfeld, basta-me apenas presumir que o sistema 
nervoso tem o poder de manejar um certo quantum de excitao sexual somtica mesmo quando esta ltima  desviada de seu objetivo, e que os distrbios s ocorrem 
quando esse quantum de excitao recebe um sbito acrscimo. No me arrisquei a estender minha teoria nessa direo, principalmente por no esperar encontrar pontos 
de apoio slidos ao longo desse caminho. Gostaria apenas de indicar que no devemos pensar na produo da tenso sexual como algo independente de sua distribuio: 
que, na vida sexual normal, essa produo, quando estimulada por um objeto sexual, assume uma forma substancialmente diversa da que toma no estado de inrcia psquica 
(ver ver em [1]) e assim por diante.
         Convm admitir que, com toda a probabilidade, a situao aqui difere da que prevalece na tendncia s convulses epilpticas, e que ainda no pode ser sistematicamente 
deduzida da teoria do acmulo da excitao sexual somtica.
         Contrariando a outra afirmao de Loewenfeld - a de que os estados de angstia s aparecem em certas ocasies e deixam de aparecer quando essas condies 
so evitadas, independentemente de qual seja a vita sexualis do sujeito - convm assinalar que, nesse ponto,  claro que ele s tem em mente a angstia das fobias, 
como de fato fica demonstrado pelos exemplos ligados  passagem que citei. Ele no diz absolutamente nada sobre os ataques espontneos de angstia que tomam a forma 
de vertigens, palpitaes, dispnia, tremores, transpirao etc. Minha teoria, ao contrrio, de modo algum parece incapaz de explicar a emergncia ou no-emergncia 
desses ataques de angstia, pois, num grande nmero desses casos de neurose de angstia, parece efetivamente haver uma periodicidade na emergncia dos estados de 
angstia, semelhante  que se observa na epilepsia, exceto que, nesta ltima, a periodicidade  mais transparente. Mediante um exame detalhado, descobrimos com grande 
regularidade a presena de um processo sexual excitatrio (isto , um processo capaz de gerar tenso sexual somtica), que, aps o decorrer de um intervalo de tempo 
definido e quase sempre constante,  seguido pelo ataque de angstia. Esse papel |excitatrio|  desempenhado, nas mulheres abstinentes, pela excitao menstrual; 
 ainda desempenhado pelas polues noturnas, que tambm se repetem periodicamente. Acima de tudo, esse papel  desempenhado pela prpria relao sexual (prejudicial, 
quando incompleta), que transfere sua prpria periodicidade aos efeitos que acarreta, ou seja, aos ataques de angstia. Quando ocorrem ataques de angstia que rompem 
a periodicidade usual, costuma ser possvel atribu-los a uma causa incidental de ocorrncia rara e irregular - a uma experincia sexual isolada, a alguma coisa 
lida ou vista, e outras situaes semelhantes. O intervalo que mencionei oscila de poucas horas a dois dias;  idntico ao que transcorre em outras pessoas, entre 
a ocorrncia das mesmas causas e o surgimento da conhecida enxaqueca sexual, que tem ligaes bem estabelecidas com a sndrome da neurose de angstia.
         H, alm disso, inmeros casos em que um estado isolado de angstia  provocado pela adio extra de um fator banal, por uma excitao de um ou outro tipo. 
O mesmo se aplica, portanto,  etiologia do ataque de angstia isolado e  causao de toda a neurose. No  muito estranho que a angstia das fobias obedea a condies 
diferentes; elas tm uma estrutura mais complicada que os ataques de angstia puramente somticos. Nas fobias, a angstia est ligada a um contedo representativo 
ou perceptivo definido, e a estimulao desse contedo psquico  a principal condio para a emergncia da angstia. Quando isso ocorre, a angstia  "gerada", 
assim como, por exemplo, a tenso sexual  gerada pela excitao de idias libidinais. Todavia, a conexo desse processo com a teoria da neurose de angstia ainda 
no foi elucidada.
         No vejo razo por que eu deva tentar esconder as lacunas e pontos fracos de minha teoria. O aspecto principal do problema das fobias parece-me ser que, 
quando a vita sexualis  normal - quando a condio especfica, o distrbio da vida sexual no sentido de uma deflexo do somtico em relao ao psquico, no  preenchida 
-, as fobias no aparecem em absoluto. Quaisquer que sejam os demais pontos obscuros quanto ao mecanismo das fobias, minha teoria s poder ser refutada quando me 
tiverem mostrado fobias em que a vida sexual seja normal, ou mesmo em que nela haja um distrbio de tipo inespecfico.
         
         (4) Passo agora a um comentrio de meu estimado crtico que no posso deixar sem resposta. Em meu artigo sobre a neurose de angstia eu havia escrito (ver 
em [1]) o seguinte:
         "Em alguns casos de angstia no se descobre absolutamente nenhuma etiologia. Vale notar que, em tais casos, raramente h dificuldade em se estabelecerem 
provas de uma grave tara hereditria.
         "Mas quando h fundamento para se considerar a neurose como adquirida, uma cuidadosa investigao orientada nesse sentido revela que um conjunto de perturbaes 
e influncias da vida sexual ... |so os fatores etiolgicos atuantes|." Loewenfeld cita essa passagem e acrescenta o seguinte comentrio: "Parece depreender-se 
disso que Freud sempre encara uma neurose como "adquirida" quando se encontram causas incidentais para ela."
         Se tal sentido  naturalmente depreendido de meu texto, ento este confere uma expresso muito distorcida a minhas idias. Permitam-me assinalar que, nas 
pginas precedentes, mostrei-me muito mais rigoroso do que Loewenfeld em minha avaliao das causas incidentais. Se eu prprio tivesse que elucidar o sentido da 
passagem que escrevi, acrescentaria, depois da orao subordinada "Mas quando h fundamento para se considerar a neurose como adquirida...," as palavras "por no 
se evidenciarem as provas (mencionadas na frase anterior) de uma disposio hereditria,..." O que isso significa  que sustento que um caso  adquirido quando no 
se descobre nele nenhuma hereditariedade. Ao agir assim, comporto-me como todas as outras pessoas, talvez com a pequena diferena de que os outros podem declarar 
que o caso  determinado pela hereditariedade mesmo quando no h hereditariedade, desconsiderando toda a categoria das neuroses adquiridas. Mas essa diferena depe 
a meu favor. Admito, contudo, que eu prprio sou responsvel por esse mal-entendido, em virtude da maneira como me expressei na primeira frase: "no se descobre 
absolutamente nenhuma etiologia." Decerto serei criticado tambm por outras fontes e diro que me criei dificuldades desnecessrias ao procurar as causas especficas 
das neuroses. Alguns diro que a verdadeira etiologia da neurose de angstia, assim como das neuroses em geral, j  conhecida:  a hereditariedade. E duas causas 
reais no podem coexistir. No neguei, diro eles, o papel etiolgico da hereditariedade; mas, nesse caso, todas as outras etiologias so causas meramente incidentais 
e equivalentes em valor ou falta de valor.
         No partilho dessa viso do papel da hereditariedade; e, considerando que em meu breve artigo sobre a neurose de angstia foi justamente a esse tema que 
dediquei menos ateno, tentarei agora compensar parte do que nele omiti e eliminar a impresso de que, ao escrever meu artigo, no atentei para todos os problemas 
relevantes.
         Creio que poderemos chegar a um quadro da situao etiolgica, provavelmente muito complicada, que prevalece na patologia das neuroses, se postularmos os 
seguintes conceitos:
         (a) Precondio, (b) Causa Especfica, (c) Causas Concorrentes, e, como um termo no equivalente aos anteriores, (d) Causa Precipitante ou Desencadeante.
         Para fazer frente a qualquer possibilidade, vamos presumir que os fatores etiolgicos que nos interessam so passveis de mudana quantitativa - isto , 
de aumento ou reduo.
         Aceitando a idia de uma equao etiolgica de vrios termos que precisem ser satisfeitos para que o efeito ocorra, podemos caracterizar como causa precipitante 
ou desencadeante aquela que aparece por ltimo na equao, de modo que precede imediatamente a emergncia do efeito.  apenas esse fator cronolgico que constitui 
a natureza essencial da causa precipitante. Qualquer das demais causas tambm pode, em determinado caso, desempenhar o papel de causa precipitante; e |o fator que 
desempenha| esse papel pode mudar dentro da mesma combinao etiolgica.
         Os fatores que se podem descrever como precondies so aqueles em cuja ausncia o efeito nunca se manifestaria, mas que so incapazes de produzi-lo por 
si mesmos, no importando em que quantidade estejam presentes, pois falta ainda a causa especfica.
         A causa especfica  aquela que nunca est ausente em todos os casos em que o efeito se d e que, alm disso, quando presente na quantidade ou intensidade 
requerida,  suficiente para produzir o efeito, desde que as precondies tambm sejam cumpridas.
         Como causas concorrentes podem considerar os fatores que no esto necessariamente presentes todas as vezes, nem podem, qualquer que seja sua quantidade, 
produzir o efeito por si mesmos, mas que operam em conjunto com as precondies e a causa especfica para satisfazer a equao etiolgica.
         O carter distintivo das causas concorrentes ou auxiliares parece claro; no entanto, como distinguir entre precondio e causa especfica, j que ambas 
so indispensveis mas nenhuma delas, isoladamente, basta para atuar como causa?
         As seguintes consideraes parecem permitir-nos chegar a uma deciso. Entre as "causas necessrias" encontramos diversas que reaparecem nas equaes etiolgicas 
referentes a muitos outros efeitos, e que portanto no apresentam nenhuma relao especial com algum efeito particular. Uma dessas causas, entretanto, destaca-se 
do resto pelo fato de no ser encontrada em qualquer outra equao etiolgica, ou de s-lo em muito poucas; tem-se assim o direito de cham-la de causa especfica 
do efeito em questo. Alm disso, as preconizaes e causas especficas distinguem-se particularmente entre si nos casos em que as precondies tm a caracterstica 
de serem estados duradouros e pouco suscetveis  alterao, ao passo que a causa especfica  um fator de recente entrada em ao.
         Tentarei exemplificar esse quadro esquemtico etiolgico completo:
         Efeito: Tuberculose pulmonar.
         Precondio: Predisposio da constituio orgnica, baseada, em sua maior parte, na hereditariedade.
         Causa especfica: Bacilo de Koch.
         Causas auxiliares: Qualquer coisa que diminua a resistncia - tanto as emoes como as supuraes ou resfriados.
         O quadro esquemtico da etiologia da neurose de angstia me parece seguir o mesmo padro:
         Precondio: Hereditariedade.
         Causa especfica: Um fator sexual, no sentido de uma deflexo da tenso sexual para fora do campo psquico.
         Causas auxiliares: Quaisquer perturbaes banais - a emoo, o susto, e tambm o esgotamento fsico devido a doenas ou  estafa.
         Examinando detalhadamente essa frmula da neurose de angstia, posso acrescentar os comentrios que se seguem. Se uma constituio pessoal especial (no 
necessariamente produzida pela hereditariedade)  absolutamente necessria para a produo da neurose de angstia, ou se qualquer pessoa normal pode ter uma neurose 
de angstia devido a algum aumento quantitativo do fator especfico,  algo que no posso decidir com certeza; mas inclino-me fortemente para a segunda possibilidade. 
A predisposio hereditria  a mais importante precondio da neurose de angstia; no , porm, uma precondio indispensvel, j que est ausente num grupo de 
casos fronteirios. Pode-se demonstrar com certeza a presena do fator sexual na maioria dos casos. Numa srie de casos (congnitos), esse fator no se separa da 
precondio da hereditariedade, mas  cumprido com a ajuda desta. Isto , em alguns pacientes, essa peculiaridade da vita sexualis - insuficincia psquica para 
manejar a excitao sexual somtica -  inata sob a forma de um estigma, ao passo que, comumente,  atravs dessa peculiaridade que as pessoas adquirem a neurose. 
Em outra classe de casos fronteirios, a causa especfica est contida numa causa concorrente. Trata-se do caso em que a insuficincia psquica que acabo de mencionar 
 acarretada pelo esgotamento ou causas semelhantes. Todos esses casos agrupam-se em classes que se fundem umas nas outras e no formam categorias isoladas. Em todos 
eles, alm disso, verificamos que a tenso sexual sofre as mesmas vicissitudes; e, na maioria, mantm-se a distino entre precondio, causa especfica e causa 
auxiliar, em conformidade com a soluo da equao etiolgica dada acima.
         Quando consulto minha experincia sobre esse ponto, no consigo ver nenhuma relao antittica, no que concerne  neurose de angstia, entre a predisposio 
hereditria e o fator sexual especfico. Pelo contrrio, os dois fatores etiolgicos se apiam e se complementam. O fator sexual s costuma ser atuante nas pessoas 
que tm tambm uma tara hereditria inata; a hereditariedade, por si s, usualmente no  capaz de produzir uma neurose de angstia, tendo que aguardar a ocorrncia 
de uma quantidade suficiente da perturbao sexual especfica. A descoberta do fator hereditrio, por conseguinte, no nos isenta da busca de um fator especfico. 
De sua descoberta, alis, depende tambm todo o nosso interesse teraputico, pois o que podemos fazer terapeuticamente a respeito da hereditariedade enquanto elemento 
etiolgico? Ela sempre esteve no paciente e l permanecer at o fim de sua vida. Tomada isoladamente, no pode ajudar-nos a compreender nem o desencadeamento episdico 
de uma neurose nem a cessao dessa neurose em conseqncia de tratamento. Ela nada mais  do que uma precondio da neurose - uma precondio de indizvel importncia, 
 verdade, mas que tem sido superestimada em detrimento da terapia e da compreenso terica. Para nos convencermos de que a situao  diferente, basta pensarmos 
nos casos de enfermidades nervosas familiares (tais como a coria crnica, a doena de Thomsen e outras), nos quais a hereditariedade rene em si todas as precondies 
etiolgicas.
         Concluindo, gostaria de repetir os enunciados com que estou acostumado a expressar as relaes recprocas entre os vrios fatores etiolgicos, como primeira 
aproximao da verdade:
         (1) Se ocorrer ou no uma doena neurtica, depende de um fator quantitativo - da carga total sobre o sistema nervoso, comparada  capacidade da resistncia 
deste. Tudo o que consegue manter esse fator quantitativo abaixo de certo valor limtrofe ou restitu-lo a esse nvel tem um efeito teraputico, j que, assim fazendo, 
mantm a equao etiolgica insatisfeita.
         O que se deve entender por "carga total" e por "capacidade de resistncia" do sistema nervoso poderia sem dvida ser mais claramente explicado com base 
em certas hipteses referentes  funo dos nervos.
         (2) As dimenses que a neurose atingir dependem, em primeira instncia, da extenso da tara hereditria. A hereditariedade age como um multiplicador introduzido 
num crculo eltrico, que aumenta muitas vezes o desvio da agulha.
         (3) Mas a forma que a neurose assumir- a direo a ser tomada pelo desvio -  determinada exclusivamente pelo fator etiolgico especfico procedente da 
vida sexual.
         
         Embora esteja cnscio das muitas dificuldades ainda no resolvidas nessa questo, espero que, no conjunto, minha hiptese sobre a neurose de angstia venha 
a se mostrar mais fecunda para a compreenso das neuroses do que a tentativa de Loewenfeld de dar conta dos mesmos fatos postulando "uma combinao de sintomas neurastnicos 
e histricos sob a forma de um ataque".
         
         VIENA, comeo de maio de 1895.
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       A HEREDITARIEDADE E A ETIOLOGIA DAS NEUROSES (1896)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         L'HRDIT ET L'TIOLOGIE DES NVROSES
         
         (a) EDIES EM FRANCS:
         1896 Rev. neurol., 4 (6), 161-9. (30 de maro).
         1906 S.K.S.N., 1, 135-48. (1911, 2 ed.; 1920, 3 ed.; 1922, 4 ed.)
         1925 G.S., 1, 388-403.
         1952 G.W., 1, 407-422.
         
         (b)TRADUO INGLESA:
         "Heredity and the Aetiology of the Neuroses"
         1924 C.P.,, 1, 138-154. (Trad. de M. Meyer.)
         
         Includo (N XXXVII) na coleo de sinopses dos primeiros trabalhos de Freud elaborada por ele mesmo (1897b). O original est em francs. Esta  uma nova 
traduo de James Strachey.
         Este artigo e o seguinte, o segundo sobre as neuropsicoses de defesa (1896b), foram remetidos a seus respectivos editores no mesmo dia - 5 de fevereiro 
de 1896 -, como relatou Freud em carta a Fliess um dia depois (Freud, 1950a, Carta 40). O artigo em francs foi publicado, no fim de maro, cerca de seis semanas 
antes do outro e, conseqentemente, tem prioridade sobre ele no que tange  primeira ocorrncia publicada da palavra "psicanlise" (ver em [1]). O artigo  um resumo 
das concepes contemporneas de Freud sobre a etiologia dos quatro tipos de neuroses que ele ento considerava os principais: as duas "psiconeuroses", histeria 
e neurose obsessiva, e as duas "neuroses atuais" (como seriam posteriormente denominadas, ver nota de rodap 2, ver em [1], adiante), neurastenia e neurose de angstia. 
A primeira parte do artigo , em grande parte, uma repetio da discusso sobre a etiologia apresentada no segundo artigo sobre neurose de angstia (1895f), enquanto 
a ltima parte cobre, muito sucintamente, o mesmo terreno que seu contemporneo, o segundo artigo sobre as neuropsicoses de defesa (1896b). O leitor, portanto, poder 
reportar-se a estes e aos comentrios editoriais sobre eles para maiores informaes.
         
         
         
         
         
         A HEREDITARIEDADE E A ETIOLOGIA DAS NEUROSES
         
         Dirijo-me em particular aos discpulos de J.-M. Charcot, para formular algumas objees  teoria etiolgica das neuroses que nos foi legada por nosso mestre.
         O papel atribudo naquela teoria  hereditariedade nervosa  bem conhecido:  a nica causa verdadeira e indispensvel das afeces neurticas, podendo 
as outras influncias etiolgicas aspirar apenas ao nome de agents provocateurs. Essa era a opinio sustentada pelo prprio grande homem e por seus discpulos, MM. 
Guinon, Gilles de la Tourette, Janet e outros, a respeito da neurose maior, a histeria; e creio que a mesma viso seja sustenta da na Frana e na maioria dos outros 
lugares a propsito das demais neuroses, embora, no que concerne a esses estados anlogos  histeria, ainda no tenha sido promulgada de maneira to solene e decidida.
         Por muito tempo tive dvidas sobre esse assunto, mas tive que esperar pela descoberta de fatos corroborativos em minha experincia cotidiana como mdico. 
Minhas objees so agora de ordem dplice: argumentos fatuais e argumentos derivados da especulao. Comearei pelos primeiros, dispondo-os de acordo com a importncia 
que lhes atribuo.
         
         I
         
         (a) Certas afeces que, muitas vezes, esto bem distantes do domnio da neuropatologia, e que no dependem necessariamente de uma doena do sistema nervoso, 
tm sido ocasionalmente consideradas como nervosas e como demonstrativas da presena de uma tendncia neuroptica hereditria.  o que tem ocorrido com as nevralgias 
faciais autnticas e com muitas dores de cabea que se acreditava serem nervosas, embora na verdade proviessem de alteraes patolgicas ps-infecciosas e de supurao 
nas cavidades faringonasais. Estou convencido de que os pacientes seriam beneficiados se encaminhssemos com mais freqncia o tratamento dessas afeces aos cirurgies 
rinolgicos.
         (b) Todas as afeces nervosas encontradas na famlia do paciente, sem considerao para com sua freqncia ou gravidade, tm sido aceitas como fundamento 
para atribuir-lhe uma tara nervosa hereditria. No implicar esse modo de encarar as coisas o estabelecimento de uma ntida linha divisria entre famlias livres 
de qualquer predisposio nervosa e famlias sujeitas a ela em grau ilimitado? E ser que os fatos no depem a favor da concepo contrria de que h transies 
e graus na predisposio nervosa, e de que nenhuma famlia escapa a ela por completo?
         (c) Nossa opinio sobre o papel etiolgico da hereditariedade nas doenas nervosas deve decididamente basear-se num exame estatstico imparcial, e no numa 
petitio principii. At que se faa tal exame, devemos acreditar que a existncia de distrbios nervosos adquiridos  to vivel quanto a de distrbios hereditrios. 
Contudo, se houver distrbios nervosos adquiridos por pessoas sem nenhuma predisposio, no mais se poder negar que as afeces nervosas encontradas em parentes 
de nosso paciente talvez tenham surgido, em parte, dessa maneira. No ser mais possvel, ento, cit-los como prova conclusiva da predisposio hereditria imputada 
a nosso paciente em razo de sua histria familiar, pois  raro conseguir-se fazer com xito um diagnstico retrospectivo das doenas dos ancestrais ou dos familiares 
ausentes.
         (d) Os adeptos de M. Fournier e M. Erb quanto ao papel desempenhado pela sfilis na etiologia da tabes dorsal e da paralisia progressiva aprenderam que 
 preciso reconhecer poderosas influncias etiolgicas cuja colaborao  indispensvel para a patognese de certas doenas, que no se produziriam apenas pela hereditariedade. 
Contudo, M. Charcot se manteve, at o fim (sei disso por uma carta particular que recebi dele), estritamente contrrio  teoria de Fournier, que no entanto vem ganhando 
terreno dia a dia.
         (e) No h dvida de que certos distrbios nervosos podem desenvolver-se em pessoas perfeitamente sadias cujas famlias esto acima de qualquer recriminao. 
Esse  um fato cotidianamente constatado nos casos da neurastenia de Beard; se a neurastenia estivesse restrita s pessoas predispostas, nunca teria atingido a importncia 
e a extenso com que estamos familiarizados.
         (f) Na patologia nervosa existe a hereditariedade similar e o que se conhece como hereditariedade dissimilar. No  possvel fazer nenhuma objeo  primeira; 
 realmente notvel que, nos distrbios que dependem da hereditariedade similar (doena de Thomsen, doena de Friedrich, as miopatias, a coria de Huntington etc.), 
nunca deparemos com vestgios de qualquer outra influncia etiolgica acessria. J a hereditariedade dissimilar, que  muito mais importante do que a outra, deixa 
lacunas que teriam de ser preenchidas antes que se pudesse chegar a uma soluo satisfatria dos problemas etiolgicos. A hereditariedade dissimilar consiste no 
fato de membros de uma mesma famlia serem afetados pelos mais diversos distrbios nervosos, funcionais e orgnicos, sem que se possa descobrir qualquer lei determinante 
da substituio de uma doena por outra ou da ordem de sua sucesso entre as geraes. Ao lado dos membros doentes dessas famlias h outros que permanecem saudveis; 
e a teoria da hereditariedade dissimilar no nos diz por que uma pessoa tolera a mesma carga hereditria sem sucumbir a ela, ou por que outra pessoa, doente, opta 
por uma afeco nervosa especfica dentre todas as doenas que compem a grande famlia das doenas nervosas, em vez de escolher uma outra - a histeria em lugar 
da epilepsia ou da insanidade, e assim por diante. Desde que, tanto na patognese neurtica quanto em qualquer outra rea, no se pode falar em acaso, deve-se admitir 
que no  a hereditariedade que rege a escolha do distrbio nervoso especfico a ser desenvolvido no membro predisposto de uma famlia, mas que h motivos para se 
suspeitar da existncia de outras influncias etiolgicas de natureza menos incompreensvel, que mereceriam ento ser chamadas de etiologia especfica dessa ou daquela 
afeco nervosa. Sem a existncia desse fator etiolgico especial, a hereditariedade nada poderia ter feito; ter-se-ia prestado  produo de algum outro distrbio 
nervoso, caso a etiologia especfica em questo tivesse sido substituda por alguma outra influncia.
         
         II
         
         Tem havido pouqussimas pesquisas sobre essas causas especficas e determinantes dos distrbios nervosos, pois a ateno dos mdicos permaneceu deslumbrada 
pela grandiosa perspectiva da precondio etiolgica da hereditariedade. Tais causas merecem, no entanto, ser objeto de estudo assduo. Embora seu poder patognico, 
em geral, seja apenas secundrio ao da hereditariedade, h um grande interesse prtico ligado ao conhecimento dessa etiologia especfica; ela permitir que nossos 
esforos teraputicos encontrem uma via de acesso, enquanto a predisposio hereditria, previamente fixada para o paciente desde seu nascimento, leva nossos esforos 
a um impasse com seu poder inacessvel.
         H anos me venho empenhando em pesquisas sobre a etiologia das quatro grandes neuroses (estados nervosos funcionais anlogos  histeria), e  o resultado 
desses estudos que me proponho descrever-lhes nas pginas seguintes. Para evitar possveis mal-entendidos, comearei por fazer dois comentrios sobre a nosografia 
das neuroses e sobre a etiologia das neuroses em geral.
         Fui obrigado a comear meu trabalho por uma inovao nosogrfica. Julguei razovel dispor ao lado da histeria a neurose obsessiva (Zwangsneurose), como 
distrbio auto-suficiente e independente, embora a maioria das autoridades situe as obsesses entre as sndromes constitutivas da degenerao mental ou as confunda 
com a neurastenia. Por meu lado, examinando o mecanismo psquico das obsesses, eu havia aprendido que elas esto mais estreitamente ligadas  histeria do que se 
poderia supor.
         A histeria e a neurose obsessiva compem o primeiro grupo das grandes neuroses por mim estudadas. O segundo contm a neurastenia de Beard, que dividi em 
dois estados funcionais separados tanto por sua etiologia como por seu aspecto sintomtico - a neurastenia propriamente dita e a neurose de angstia (Angstneurose), 
nome com o qual, diga-se de passagem, eu mesmo no estou satisfeito. Apresentei minhas razes detalhadas para fazer essa separao, que considero necessria, num 
artigo publicado em 1895 |Freud, 1895b|.
         No que se refere  etiologia das neuroses, penso que a teoria deve reconhecer que as influncias etiolgicas, diferentes entre si tanto em importncia quanto 
na maneira como se relacionam com o efeito que produzem, podem ser agrupadas em trs classes: (1) Precondies, que so indispensveis para produzir o distrbio 
em causa, mas que so de carter geral e igualmente encontrveis na etiologia de muitos outros distrbios; (2) Causas Concorrentes, que compartilham com as precondies 
a caracterstica de funcionarem tanto na causao de outros distrbios quanto na do distrbio em questo, mas que no so indispensveis para a produo deste ltimo; 
e (3) Causas Especficas, que so indispensveis como as precondies, mas tm natureza limitada e s aparecem na etiologia do distrbio de que so especficas.
         Na patognese das grandes neuroses, portanto, a hereditariedade preenche o papel de precondio, poderosa em todos os casos e at indispensvel na maioria 
deles. Ela no poderia prescindir da colaborao das causas especficas, mas a importncia da predisposio hereditria  comprovada pelo fato de que as mesmas causas 
especficas, agindo num indivduo saudvel, no produzem nenhum efeito patolgico manifesto, ao passo que, numa pessoa predisposta, sua ao provoca a emergncia 
da neurose, cujo desenvolvimento ser proporcional em intensidade e extenso ao grau da precondio hereditria.
         Assim, a ao da hereditariedade  comparvel  de um multiplicador num circuito eltrico, multiplicador este que exagera o desvio visvel da agulha, mas 
no pode determinar sua direo.
         H ainda outra coisa a ser notada nas relaes entre a precondio hereditria e as causas especficas das neuroses. A experincia mostra - como se poderia 
imaginar de antemo - que, nessas questes de etiologia, no se devem desprezar as quantidades relativas, por assim dizer, das influncias etiolgicas. Mas no se 
poderia adivinhar o seguinte fato, que parece proceder de minhas observaes: a saber, que a hereditariedade e as causas especficas podem substituir uma  outra 
no que tange  quantidade - que o mesmo efeito patolgico  produzido pela coincidncia de uma etiologia especfica muito grave com uma predisposio moderada, ou 
de uma hereditariedade nervosa intensamente carregada com uma leve influncia especfica. E estaremos simplesmente nos deparando com exemplos extremos e esperveis 
nessa srie, se encontrarmos casos de neurose nos quais procuremos inutilmente qualquer grau aprecivel de predisposio hereditria, desde que o que falta seja 
compensado por uma poderosa influncia especfica.
         Como causas concorrentes (ou auxiliares) das neuroses podemos enumerar todos os agentes banais encontrados em outras situaes: perturbao emocional, esgotamento 
fsico, doenas graves, intoxicaes, acidentes traumticos, sobrecarga intelectual etc. Sustento que nenhum desses, nem mesmo o ltimo, integra regular ou necessariamente 
a etiologia das neuroses, e estou ciente de que expressar essa opinio equivale a ficar em oposio direta a uma teoria considerada universalmente aceita e irrepreensvel. 
Desde que Beard declarou a neurastenia como fruto de nossa civilizao moderna, s tem encontrado seguidores; entretanto, acho impossvel aceitar essa viso. Um 
laborioso estudo das neuroses ensinou-me que a etiologia especfica das neuroses escapou  observao de Beard.
         No tenho qualquer desejo de depreciar a importncia etiolgica desses agentes banais. Por serem muito diversificados, ocorrerem com grande freqncia e 
serem na maioria das vezes nomeados pelos prprios pacientes, eles se tornam mais preeminentes do que as causas especficas das neuroses - uma etiologia que est 
oculta ou  desconhecida. Com freqncia considervel, cumprem a funo de agents provocateurs que tornam manifesta uma neurose antes latente; e h um interesse 
prtico ligado a eles, pois o exame dessas causas banais pode oferecer linhas de abordagem para uma terapia que no tenha como objetivo uma cura radical e se satisfaa 
em reprimir a doena a seu estado de latncia anterior.
         Todavia,  impossvel estabelecer qualquer relao constante e estreita entre uma dessas causas banais e essa ou aquela forma de afeco nervosa. O distrbio 
emocional, por exemplo, encontra-se igualmente na etiologia da histeria, das obsesses e da neurastenia, assim como na da epilepsia, da doena de Parkinson, do diabetes 
e de muitas outras.
         As causas concorrentes banais podem tambm substituir a etiologia especfica com respeito  quantidade, mas nunca tomar seu lugar inteiramente. H numerosos 
casos em que todas as influncias etiolgicas so representadas pela precondio hereditria e pela causa especfica, estando ausentes as causas banais. Em outros 
casos, os fatores etiolgicos indispensveis no so quantitativamente suficientes em si mesmos para acarretar a ecloso da neurose; um estado de aparente sade 
pode ser mantido por muito tempo, embora seja, na realidade, um estado de predisposio  neurose. Basta ento que uma causa banal entre tambm em ao para que 
a neurose se torne manifesta. Mas  preciso assinalar claramente que, nessas condies, a natureza da causa banal que sobrevm  absolutamente indiferente - seja 
ela uma emoo, um trauma, uma doena infecciosa ou qualquer outra coisa. O efeito patolgico no ser modificado de acordo com essa variao; a natureza da neurose 
ser sempre dominada pela causa especfica preexistente.
         Quais so, ento, as causas especficas das neuroses? Haver uma s causa ou vrias? E ser que  possvel estabelecer uma relao etiolgica constante 
entre uma dada causa e um dado efeito neurtico, de tal modo que cada uma das grandes neuroses possa ser atribuda a uma etiologia especial?
         Com base num rduo exame dos fatos, afirmo que esta ltima suposio concorda perfeitamente com a realidade, que cada uma das grandes neuroses que enumerei 
tem como causa imediata uma perturbao especfica da economia do sistema nervoso, e que essas modificaes patolgicas funcionais tm como fonte comum a vida sexual 
do sujeito, quer residam num distrbio de sua vida sexual contempornea, quer em fatos importantes de sua vida passada.
         Esta no , para dizer a verdade, uma proposio nova e jamais ouvida. Os distrbios sexuais sempre foram admitidos entre as causas da doena nervosa, mas 
tm sido subordinados  hereditariedade e coordenados com os demais agents provocateurs; sua influncia etiolgica tem-se restringido a um nmero limitado de casos 
observados. Os mdicos haviam at mesmo cado no hbito de no investig-los, a menos que o prprio paciente os mencionasse. O que confere um carter distintivo 
a minha linha de abordagem  que elevo essas influncias sexuais  categoria de causas especficas, reconheo sua atuao em todos os casos de neurose e, finalmente, 
trao um paralelismo regular, prova de uma relao etiolgica especial, entre a natureza da influncia sexual e a espcie patolgica da neurose.
         Estou certo de que essa teoria invocar uma tempestade de contestaes por parte dos mdicos contemporneos. Mas no  este o lugar para apresentar a documentao 
e as experincias que me foraram a minha convico, nem para explicar o verdadeiro sentido da expresso bastante vaga "distrbios da economia do sistema nervoso". 
Isso ser feito mais completamente, espero, num trabalho que estou preparando sobre o assunto. No presente artigo limito-me a relatar minhas descobertas.
         A neurastenia propriamente dita, ao destacarmos dela a neurose de angstia, tem um aspecto clnico muito montono: fadiga, presso intracraniana, dispepsia 
flatulenta, constipao, parestesias raquidianas, fraqueza sexual etc. Sua nica etiologia especfica  fornecida pela masturbao (imoderada) ou pelas emisses 
espontneas.
          a ao prolongada e intensa dessa perniciosa satisfao sexual que se revela suficiente, por si mesma, para provocar uma neurose neurastnica, ou que 
imprime no sujeito a marca neurastnica especial que depois se manifesta sob a influncia de uma causa acessria incidental. Deparei tambm com pessoas, apresentando 
indicaes de uma constituio neurastnica, nas quais no consegui trazer  luz a etiologia que mencionei, mas ao menos mostrei que a funo sexual nunca se desenvolvera 
at seu nvel normal nesses pacientes; a hereditariedade parecia t-los dotado de uma constituio sexual anloga  que se produz no neurastnico em conseqncia 
da masturbao.
         A neurose de angstia exibe um quadro clnico muito mais rico: irritabilidade, estados de expectativa angustiada, fobias, ataques de angstia completos 
ou rudimentares, ataques de medo e de vertigem, tremores, suores, congesto, dispnia, taquicardia etc., diarria crnica, vertigem locomotora crnica, hiperestesia, 
insnia etc. Ela se revela facilmente como sendo o efeito especfico de vrias perturbaes da vida sexual, todas as quais possuem uma caracterstica comum. A abstinncia 
forada, a excitao genital no consumada (excitao no aliviada pelo ato sexual), o coito imperfeito ou interrompido (que no termina em gratificao), os esforos 
sexuais que excedem a capacidade fsica do sujeito etc. - todos esses agentes, que ocorrem to freqentemente na vida moderna, parecem concordar quanto ao fato de 
que perturbam o equilbrio das funes psquicas e somticas nos atos sexuais, e de que impedem a participao psquica necessria para libertar a economia nervosa 
da tenso sexual.
         Estes comentrios, que talvez contenham o germe de uma explicao terica do mecanismo funcional da neurose em questo, j levantam a suspeita de que uma 
exposio completa e verdadeiramente cientfica do assunto no  possvel no momento, e de que seria necessrio comear por uma abordagem do problema fisiolgico 
da vida sexual a partir de um novo ngulo.
         Direi, finalmente, que a patognese da neurastenia e da neurose de angstia pode facilmente prescindir da cooperao de uma predisposio hereditria. Este 
 o resultado da observao cotidiana. Contudo, quando a hereditariedade est presente, o desenvolvimento da neurose  afetado por sua poderosa influncia.
         No que concerne  segunda classe das grandes neuroses, a histeria e a neurose obsessiva, a soluo do problema etiolgico  de surpreendente simplicidade 
e uniformidade. Devo meus resultados a um novo mtodo de psicanlise, o procedimento exploratrio de Josef Breuer;  um pouco intrincado, mas insubstituvel, tal 
a fertilidade que tem demonstrado para lanar luz sobre os obscuros caminhos da ideao inconsciente. Por meio desse procedimento - este no  o lugar para descrev-lo 
-, os sintomas histricos so investigados at sua origem, sempre encontrada em algum evento da vida sexual do sujeito, apropriado para a produo de uma emoo 
aflitiva. Percorrendo retrospectivamente o passado do paciente, passo a passo, e sempre guiado pelo encadeamento orgnico dos sintomas e das lembranas e representaes 
despertadas, atingi finalmente o ponto de partida do processo patolgico; e fui obrigado a verificar que, no fundo, a mesma coisa estava presente em todos os casos 
submetidos  anlise - a ao de um agente que deve ser aceito como causa especfica da histeria.
         Esse agente , de fato, uma lembrana relacionada  vida sexual, mas que apresenta duas caractersticas de mxima importncia. O evento do qual o sujeito 
reteve uma lembrana inconsciente  uma experincia precoce de relaes sexuais com excitao real dos rgos genitais, resultante de abuso sexual cometido por outra 
pessoa; e o perodo da vida em que ocorre esse evento fatal  a infncia - at a idade de 8 ou 10 anos, antes que a criana tenha atingido a maturidade sexual.
         Uma experincia sexual passiva antes da puberdade: eis, portanto, a etiologia especfica da histeria.
         Acrescentarei sem demora alguns detalhes fatuais e alguns comentrios sobre o resultado que anunciei, a fim de combater o ceticismo com que espero deparar-me. 
Pude efetuar uma psicanlise completa em treze casos de histeria, trs dos quais eram combinaes efetivas de histeria e neurose obsessiva. (No me refiro  histeria 
com obsesses.) Em nenhum desses casos faltou um evento do tipo definido acima. Este era representado quer por um ataque brutal praticado por um adulto, quer por 
uma seduo menos rpida e menos repulsiva, mas chegando  mesma concluso. Em sete dos treze casos a relao se dera entre duas crianas - relaes sexuais entre 
uma garotinha e um menino um pouco mais velho (na maioria das vezes, um irmo), que fora por sua vez vtima de seduo anterior. Essas relaes por vezes perduraram 
durante anos, at os pequenos culpados atingirem a puberdade; o menino repetia reiteradamente com a garotinha as mesmas prticas, sem alterao - prticas s quais 
ele prprio fora submetido por alguma criada ou governanta e que, em virtude de sua origem, eram freqentemente de natureza repugnante. Em alguns casos, havia a 
combinao de um ataque com relaes entre crianas, ou a repetio de um abuso brutal.
         A data dessa experincia precoce era varivel. Em dois casos, a srie foi iniciada no segundo ano de vida da criaturinha(?);a idade mais comum em minhas 
observaes  o quarto ou quinto ano. Talvez ela seja um tanto acidental, mas formei a opinio, a partir disso, de que uma experincia sexual passiva que s ocorra 
aps a idade de oito a dez anos no pode mais servir como fundao da neurose.
         Como  possvel ficar convencido da realidade dessas confisses analticas, que alegam ser lembranas guardadas da mais tenra infncia? E como precaver-se 
contra a tendncia a mentir e a facilidade de inveno atribudas aos sujeitos histricos? Eu me acusaria de censurvel credulidade se no dispusesse de provas mais 
conclusivas. Mas o fato  que esses pacientes nunca repetem tais histrias espontaneamente, nem jamais apresentam ao mdico, repetidamente, no curso do tratamento, 
a recordao completa de uma cena desse gnero. S se consegue despertar o vestgio psquico de um evento sexual precoce sob a mais vigorosa presso da tcnica analtica 
e vencendo uma enorme resistncia. Alm disso, a lembrana tem que ser extrada dos pacientes pouco a pouco e, enquanto vai sendo despertada em sua conscincia, 
eles se tornam presa de uma emoo difcil de ser forjada.
         No fim, vir a convico, mesmo que no se seja influenciado pelo comportamento do paciente, desde que se possa acompanhar com detalhes o relato da psicanlise 
de um caso de histeria.
         O evento precoce deixa uma marca indelvel na histria clnica, sendo nela representado por uma profuso de sintomas e traos especiais que no poderiam 
ser explicados de nenhum outro modo;  peremptoriamente exigido pelas interconexes sutis, mas slidas, da estrutura intrnseca da neurose; o efeito teraputico 
da anlise se retarda quando no se penetra to fundo, e ento no resta outra escolha seno rejeitar ou aceitar o conjunto.
         Ser compreensvel que esse tipo de experincia sexual precoce, sofrida por um indivduo cujo sexo mal se diferenciou, pode tornar-se fonte de uma anormalidade 
psquica persistente como a histeria? E como se enquadraria essa suposio em nossas idias atuais sobre o mecanismo psquico daquela neurose?  possvel dar uma 
resposta satisfatria  primeira dessas questes.  precisamente por estar o sujeito em sua primeira infncia que a excitao sexual precoce surte pouco ou nenhum 
efeito na poca; mas seu trao psquico  preservado. Mais tarde, na puberdade, quando as reaes dos rgos sexuais se desenvolvem num nvel desproporcional a seu 
estado infantil, esse trao psquico inconsciente  de algum modo despertado. Graas  transformao devida  puberdade, a lembrana exibe um poder que esteve totalmente 
ausente do prprio evento. A lembrana atua como se ele fosse um evento contemporneo. O que acontece , por assim dizer, a ao pstuma de um trauma sexual.
         Ao que eu sabia, esse despertar de uma lembrana sexual aps a puberdade, quando o prprio evento ocorreu muito antes desse perodo, constitui a nica situao 
psicolgica em que o efeito imediato de uma lembrana suplanta o efeito de um evento atual. Mas trata-se de uma constelao anormal, que afeta o lado fraco do mecanismo 
psquico e est fadada a produzir um efeito psquico patolgico.
         Creio poder constatar que essa relao inversa entre o efeito psquico da lembrana e o do evento contm a razo pela qual a lembrana permanece inconsciente.
         Nesse aspecto chegamos a um problema psquico muito complexo, mas que, uma vez adequadamente apreciado, promete lanar luz sobre as mais delicadas questes 
da vida psquica.
         As idias aqui apresentadas, que tm como ponto de partida a descoberta, pela psicanlise, de que a lembrana de uma experincia sexual precoce  sempre 
encontrada como causa especfica da histeria, no se harmonizam com a teoria psicolgica das neuroses sustentada por M. Janet, nem com qualquer outra; concordam 
perfeitamente, porm, com minhas prprias especulaes sobre as "Abwehrneurosen" |neuroses de defesa|, tais como as desenvolvi em outro texto.
         Todos os eventos subseqentes  puberdade a que se deva atribuir influncia no desenvolvimento da neurose histrica e na formao de seus sintomas so, 
de fato, apenas causas concorrentes - "agents provocateurs", como Charcot costumava dizer, embora, para ele, a hereditariedade nervosa ocupasse o lugar que reivindico 
para a experincia sexual precoce. Esses agentes acessrios no esto sujeitos s condies estritas impostas s causas especficas; a anlise demonstra de modo 
irrefutvel que eles s desfrutam de uma influncia patognica na histeria graas a sua faculdade de despertarem o trao psquico inconsciente do evento infantil. 
 tambm graas  ligao deles com a impresso patognica primria, e inspirada nela, que a lembrana desses agentes torna-se por sua vez inconsciente e passa a 
contribuir para o desenvolvimento de uma atividade psquica retirada do poder das funes conscientes.
         A neurose obsessiva (Zwangsneurose) emerge de uma causa especfica muito semelhante  da histeria. Tambm aqui encontramos um evento sexual precoce, ocorrendo 
antes da puberdade, cuja lembrana torna-se ativa durante ou depois desse perodo; e os mesmos comentrios e argumentos que apresentei em conexo com a histeria 
se aplicaro as minhas observaes sobre a outra neurose (seis casos, trs dos quais puros). H apenas uma diferena que parece capital. Na base da etiologia da 
histeria encontramos um evento de sexualidade passiva, uma experincia  qual algum se submeteu com indiferena ou com um pequeno grau de aborrecimento ou medo. 
Na neurose obsessiva, trata-se, por outro lado, de um evento que proporcionou prazer, de um ato de agresso inspirado no desejo (no caso do menino) ou de um ato 
de participao nas relaes sexuais acompanhado de gozo (no caso da menina). As representaes obsessivas, quando seu significado ntimo  reconhecido pela anlise, 
quando se reduzem, por assim dizer, a sua expresso mais simples, nada passam de recriminaes dirigidas pelo sujeito a si mesmo por causa desse gozo sexual antecipado, 
mas recriminaes distorcidas por um trabalho psquico inconsciente de transformao e substituio.
         O prprio fato de agresses sexuais desse tipo ocorrerem em to tenra idade parece revelar a influncia de uma seduo prvia, da qual a precocidade do 
desejo sexual seria uma conseqncia. Nos casos por mim analisados, a anlise confirma essa suspeita. Assim se explica um interessante fato que  sempre encontrado 
nesses casos de obsesso: a complicao regular do quadro de sintomas por certo nmero de sintomas simplesmente histricos.
         A importncia do elemento ativo na vida sexual como causa das obsesses, e da passividade sexual na patognese das histerias, parece at mesmo desvendar 
a razo da conexo mais ntima da histeria com o sexo feminino e da preferncia dos homens pela neurose obsessiva. s vezes deparamos com um par de pacientes neurticos 
que formaram um casal de pequenos amantes em sua mais remota infncia - o homem sofrendo de obsesses e a mulher, de histeria. Quando se trata de irmo e irm, pode-se 
cometer o equvoco de tomar como resultado da hereditariedade nervosa o que , de fato, conseqncia de experincias sexuais precoces.
         H, sem dvida, casos puros e isolados de histeria ou de obsesses, independentes da neurastenia ou da neurose de angstia; mas essa no  a regra. A psiconeurose 
aparece mais freqentemente como um acessrio da neurose neurastnica, provocada por esta e acompanhando seu declnio. Isso ocorre porque as causas especficas da 
neurastenia, as perturbaes contemporneas da vida sexual, atuam ao mesmo tempo como causas auxiliares da psiconeurose, cuja causa especfica, a lembrana da experincia 
sexual precoce, elas despertam e revivem.
         No que concerne  hereditariedade nervosa, estou longe de poder estimar corretamente sua influncia na etiologia das psiconeuroses. Admito que sua presena 
 indispensvel para os casos graves; duvido que seja necessria para os leves, mas estou convencido de que a hereditariedade nervosa, por si s,  incapaz de produzir 
as psiconeuroses se faltar sua etiologia especfica, isto , a excitao sexual precoce. Creio mesmo que a deciso quanto ao desenvolvimento de uma das duas neuroses, 
histeria ou obsesses, em determinado caso, no provm da hereditariedade, mas de uma caracterstica especial do evento sexual na tenra infncia.
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       OBSERVAES ADICIONAIS SOBRE AS NEUROPSICOSES DE DEFESA (1896)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         WEITERE BEMERKUNGEN BER DIE
         ABWERHNEUROPSYCHOSEN
         
         (a)EDIES ALEMS:
         1896 Neurol. Zbl., 15 (10), 434-48. (15 de maio.)
         1906 S.K.S.N., 1, 112-34. (1911, 2 ed.; 1920, 3 ed.; 1922, 4. ed.)
         1925 G.S., 1, 363-87.
         1952 G.W., 1, 379-403.
         
         (b)TRADUES INGLESAS:
         "Further Observations on the Defense Neuropsychoses"
         1909 S.P.H., 155-74. (Trad. de A. A. Brill.) (1912, 2 ed.; 1920, 3 ed.)
         
         "Further Remarks on the Defence Neuro-Psychoses"
         1924 C.P., 1, 155-82. (Trad. de J. Rickman.)
         Includo (N XXXV) na coleo de sinopses dos primeiros trabalhos de Freud elaborada por ele mesmo (1897b). A presente traduo, com o ttulo modificado, 
baseia-se na de 1924.
         
         Este artigo, como j se explicou na ver em [1], foi enviado por Freud no mesmo dia (5 de fevereiro de 1896) que o artigo em francs sobre "A Hereditariedade 
e a Etiologia das Neuroses", mas foi publicado seis semanas depois dele. Quando este artigo chegou a ser includo nos Gesammelte Schriften, em 1925, Freud acrescentou-lhe 
duas ou trs notas de rodap. Anteriormente, ele fizera um acrscimo substancial a uma nota de rodap na traduo inglesa de 1924 (ver em [1], adiante), mas este 
no foi includo em nenhuma edio alem.
         Este segundo artigo sobre as "neuropsicoses de defesa" retoma a discusso no ponto em que ela fora deixada no primeiro artigo (1894a), produzido dois anos 
antes. Muitas das concluses aqui alcanadas tinham sido brevemente antecipadas pelo artigo contemporneo em francs sobre a hereditariedade (1896a); a parte essencial 
do trabalho fora comunicada algumas semanas antes a Fliess, num longo documento intitulado por Freud "Um Conto de Fadas Natalino", datado de 1 de janeiro de 1896 
(Freud, 1950a, Rascunho K). Como seu predecessor de 1894, o presente trabalho  dividido em trs sees, que tratam respectivamente da histeria, das obsesses e 
dos estados psicticos, sendo-nos apresentados, em cada caso, os resultados de dois anos de investigaes adicionais. No artigo anterior, a nfase j era posta no 
conceito de "defesa" ou "recalcamento"; aqui h um exame muito mais detalhado daquilo contra o qual a defesa  posta em ao, e conclui-se, em todos os casos, que 
o fator responsvel  uma experincia sexual de carter traumtico - no caso da histeria, uma experincia passiva; no das obsesses, ativa, muito embora, mesmo nesse 
caso, uma experincia passiva anterior remonte a um plano ainda mais remoto. Em outras palavras, a causa ltima seria sempre a seduo de uma criana por um adulto. 
(Cf. "A Etiologia da Histeria", 1896c, ver em [1], adiante.) Alm disso, o evento traumtico efetivo sempre ocorreria antes da puberdade, embora a irrupo da neurose 
ocorresse aps a puberdade.
         Como se perceber pela longa nota de rodap acrescentada por Freud  ver em [1], toda essa posio foi depois abandonada por ele, e tal abandono assinalou 
uma reviravolta da maior importncia em seus pontos de vista. Numa carta a Fliess em 21 de setembro de 1897 (Freud, 1950a Carta 69), Freud revelou que h alguns 
meses vinha despontando nele a idia de que era muito difcil acreditar que os atos pervertidos contra as crianas fossem to generalizados - em especial porque, 
na totalidade dos casos, o pai era responsabilizado por eles. S aps vrios anos, porm, foi que ele deu expresso pblica a suas opinies modificadas. Entretanto, 
a importante conseqncia dessa percepo foi que Freud se conscientizou do papel desempenhado pela fantasia nos eventos mentais, o que abriu as portas para a descoberta 
da sexualidade infantil e do complexo de dipo. Um relato mais minucioso das mudanas em suas concepes sobre o assunto  fornecido na Nota do Editor ingls aos 
Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1950d), Edio Standard Brasileira, Vol. VII, ver em [1] e segs., IMAGO Editora, 1972, enquanto um outro desenvolvimento 
est registrado no artigo posterior de Freud sobre "Sexualidade Feminina" (1913b) ibid., Vol. XXI, ver em [1], IMAGO Editora, 1974, onde as fantasias primitivas 
da menina sobre a seduo pelo pai so atribudas s relaes tidas ainda mais cedo com a me.
         Alis, o problema de como a lembrana de um trauma infantil podia ter um efeito to maior do que a experincia real dele na poca - problema repetidamente 
discutido por Freud nesse perodo e cuidadosamente tratado em sua longa nota de rodap em [1] - perdeu sentido graas  descoberta da sexualidade infantil e ao reconhecimento 
da persistncia dos movimentos inconscientes.
         Talvez seja ainda mais interessante observar a emergncia, neste artigo, de vrios novos mecanismos psicolgicos que viriam a desempenhar um enorme papel 
nas explicaes posteriores de Freud sobre os processos mentais. Especialmente notvel  a minuciosa anlise dos mecanismos obsessivos, que antecipa muito do que 
iria aparecer quinze anos depois na seo terica da anlise do "Homem dos Ratos" (1909d). Assim, encontramos as primeiras aluses  concepo das obsesses como 
auto-acusaes (ver em [1]),  noo de sintoma implicando uma falha da defesa e um "retorno do recalcado" (ibid.), e  abrangente teoria de que os sintomas so 
formaes de compromisso entre as foras recalcadas e as recalcadoras (ver em [1] e [2]). Finalmente, na seo sobre a parania, o conceito de "projeo" entra em 
cena pela primeira vez (ver em [1]) e, no conceito de "alterao do ego", quase ao fim do artigo (conceito j presente no Rascunho K da correspondncia com Fliess), 
podemos ver uma prefigurao de idias que reaparecem em alguns dos ltimos escritos de Freud, como, por exemplo, em "Anlise Terminvel e Interminvel" (1937com).
         
         
         OBSERVAES ADICIONAIS SOBRE AS NEUROPSICOSES DE DEFESA
         
         [INTRODUO]
         
         Num breve artigo publicado em 1894, agrupei a histeria, as obsesses e certos casos de confuso alucinatria aguda sob o nome de "neuropsicoses de defesa" 
[Freud, 1894a], porque tais afeces revelaram um aspecto comum. Este consistia em que seus sintomas emergiam por meio do mecanismo psquico de defesa (inconsciente) 
- isto , emergiam como uma tentativa de recalcar uma representao incompatvel que se opunha aflitivamente ao ego do paciente. Em algumas passagens de um livro 
posteriormente publicado pelo Dr. J. Breuer e por mim (Estudos sobre a Histeria [1895d), pude elucidar e ilustrar, partindo das observaes clnicas, o sentido em 
que se deve entender esse processo psquico de "defesa" ou "recalcamento". H tambm ali algumas informaes sobre o trabalhoso mas totalmente confivel mtodo da 
psicanlise, usado por mim no curso daquelas investigaes - investigaes que tambm constituem uma tcnica teraputica.
         Minhas observaes durante os dois ltimos anos de trabalho fortaleceram-me a tendncia a considerar a defesa como o ponto nuclear no mecanismo psquico 
das neuroses em questo, e tambm me capacitaram a fornecer  uma fundamentao clnica a essa teoria psicolgica. Para minha surpresa, cheguei a algumas solues 
simples, embora estritamente circunscritas, para os problemas da neurose, e nas pginas seguintes fornecerei um relato breve e preliminar delas. Neste tipo de comunicao 
 impossvel apresentar as provas necessrias para sustentar minhas asseres, mas espero poder mais tarde cumprir com essa obrigao por intermdio de uma apresentao 
detalhada.
         
         I - A ETIOLOGIA ESPECFICA DA HISTERIA
         
         Em publicaes anteriores, Breuer e eu j expressvamos a opinio de que os sintomas da histeria s poderiam ser compreendidos se remetidos a experincias 
de efeito traumtico referindo-se esses traumas psquicos  vida sexual do paciente. O que tenho a acrescentar aqui, como resultado uniforme das anlises efetuadas 
por mim em treze casos de histeria, diz respeito, por um lado,  natureza desses traumas sexuais e, por outro, ao perodo da vida em que eles ocorrem. Para causar 
a histeria, no basta ocorrer em algum perodo da vida do sujeito um evento relacionado com sua vida sexual e que se torne patognico pela liberao e supresso 
de um afeto aflitivo. Pelo contrrio, tais traumas sexuais devem ter ocorrido na tenra infncia, antes da puberdade, e seu contedo deve consistir numa irritao 
real dos rgos genitais (por processos semelhantes  copulao).
         Descobri um determinante especfico da histeria - a passividade sexual durante o perodo pr-sexual - em todos os casos de histeria (inclusive dois casos 
masculinos) que analisei. No  necessrio fazer mais do que uma meno ao enorme grau em que ficam diminudas as alegaes em prol de uma predisposio hereditria 
em face desse estabelecimento de fatores etiolgicos acidentais como sendo determinantes. Alm disso, fica aberto um caminho para se compreender por que a histeria 
 to mais freqente nos membros do sexo feminino, pois, j na infncia, estes so mais suscetveis de provocar ataques sexuais.
         As objees mais imediatas a essa concluso sero, provavelmente, que as investidas sexuais contra crianas pequenas ocorrem com demasiada freqncia para 
terem qualquer importncia etiolgica, ou que esse tipo de experincias est destinado a no ter efeito, precisamente por acontecer com pessoas no desenvolvidas 
sexualmente; e ainda, que se deve ter cuidado para no impor aos pacientes supostas reminiscncias dessa espcie ao interrog-los, e para no acreditar nos romances 
que eles mesmos inventam. Em resposta s ltimas objees, podemos pedir que ningum forme juzos seguros demais nesse campo obscuro enquanto no tiver utilizado 
o nico mtodo que pode lanar luz sobre ele - o mtodo da psicanlise, com o propsito de tornar consciente o que era at ento inconsciente. O essencial nas primeiras 
objees pode ser refutado ao se assinalar que no so as experincias em si que agem de modo traumtico, mas antes sua revivescncia como lembrana depois que o 
sujeito ingressa na maturidade sexual.
         Meus treze casos eram graves, sem exceo; em todos eles a doena vinda de muitos anos, e alguns chegaram a mim aps longo e fracassado tratamento institucional. 
Todos os traumas de infncia que a anlise descobriu nesses casos agudos tiveram que ser classificados como graves ofensas sexuais; alguns eram positivamente revoltantes. 
Em primeiro lugar entre os culpados de abusos como esses, com suas significativas conseqncias, esto as babs, governantas e empregadas domsticas, a cujos cuidados 
as crianas so muito impensadamente confiadas; os professores, ademais, figuram com lamentvel freqncia. Em sete dos treze casos, entretanto, revelou-se que os 
autores das investidas tinham sido inocentes crianas; em sua maioria, eram irmos que, por anos a fio, tinham mantido relaes sexuais com irms um pouco mais novas. 
Sem dvida, o curso dos acontecimentos, na totalidade dos casos, era semelhante ao que foi possvel reconstituir com certeza em alguns casos individuais: em outras 
palavras, o menino sofrera um abuso por parte de algum do sexo feminino, de modo que sua libido fora prematuramente despertada, e ento, passados alguns anos, cometera 
um ato de agresso sexual contra sua irm, com quem repetiu precisamente os mesmos procedimentos a que ele prprio fora submetido.
         A masturbao ativa deve ser excluda da minha lista das perturbaes sexuais na tenra infncia que so patognicas para a histeria. Embora seja encontrada 
muito freqentemente ao lado da histeria, isso se deve  circunstncia de que a prpria masturbao  uma conseqncia muito mais freqente do abuso ou da seduo 
do que se supe.
         No  nada raro ambas as crianas adoecerem, mais tarde, vtimas de uma neurose de defesa - o irmo com obsesses e a irm com histeria. Isso naturalmente 
produz a aparncia de uma predisposio neurtica familiar. Ocasionalmente, contudo, essa pseudo-hereditariedade  resolvida de modo surpreendente. Em um de meus 
casos, um irmo, uma irm e um primo um pouco mais velho estavam todos doentes. A partir da anlise que realizei com o irmo, fiquei sabendo que ele sofria de auto-acusaes 
por ser a causa da doena da irm. Ele prprio fora seduzido pelo primo, e este ltimo, como era sabido na famlia, fora vtima de sua bab.
         No sei dizer ao certo qual a idade mxima abaixo da qual a ofensa sexual desempenha um papel na etiologia da histeria; duvido, porm, que a passividade 
sexual possa resultar em recalcamento depois de uma idade entre oito e dez anos, a no ser que isso seja possibilitado por experincias anteriores. O limite mnimo 
retrocede tanto quanto a prpria memria - isto , portanto, at a tenra idade de um ano e meio ou dois anos! (Tive dois casos desse tipo.) Em muitos de meus casos, 
o trauma sexual (ou srie de traumas) ocorreu no terceiro ou quarto anos de vida. Eu mesmo no daria crdito a essas extraordinrias descobertas se sua completa 
confiabilidade no fosse comprovada pelo desenvolvimento da neurose subseqente. Em todos os casos, diversos sintomas, hbitos e fobias patolgicos s podem ser 
explicados retrocedendo-se a essas experincias na infncia, e a estrutura lgica das manifestaes neurticas torna impossvel rejeitar essas lembranas fielmente 
preservadas que emergem da vida infantil.  verdade que seria intil tentar extrair de um histrico esses traumas de infncia interrogando-o fora da psicanlise; 
os vestgios deles nunca esto presentes na memria consciente, mas apenas nos sintomas da doena.
         Todas as experincias e excitaes que, no perodo posterior  puberdade, preparam o caminho ou precipitam a ecloso da histeria, s surtem esse efeito, 
como se pode demonstrar, por despertarem o trao mnmico desses traumas de infncia, que no se tornam conscientes de imediato, mas levam a uma descarga de afeto 
e ao recalcamento. Esse papel dos traumas posteriores se adequa bem ao fato de que eles no esto sujeitos s condies estritas que regem os traumas da infncia, 
mas podem variar em intensidade e natureza, desde a efetiva violao sexual at meras investidas sexuais, ou ao testemunho dos atos sexuais de outras pessoas, ou 
ao recebimento de informaes sobre os processos sexuais.
         Em meu primeiro artigo sobre as neuroses de defesa |1894a|, no havia nenhuma explicao sobre o modo como os esforos do sujeito at ento saudvel para 
esquecer uma experincia traumtica como essa podiam ter como resultado a realizao efetiva do recalque pretendido, e assim abrir as portas para a neurose de defesa. 
Isso no poderia estar na natureza das experincias, j que outras pessoas permaneciam saudveis, apesar de terem sido expostas s mesmas causas precipitantes. Portanto, 
a histeria no poderia ser inteiramente explicada a partir do efeito do trauma: era preciso reconhecer que a suscetibilidade a uma reao histrica j preexistiria 
ao trauma.
         O lugar dessa predisposio histrica indefinida pode agora ser tomado, inteiramente ou em parte, pela ao pstuma de um trauma sexual na infncia. O "recalcamento" 
da lembrana de uma experincia sexual aflitiva, que ocorre em idade mais madura, s  possvel para aqueles em quem essa experincia consegue ativar o trao mnmico 
de um trauma da infncia.
         As obsesses pressupem, do mesmo modo, uma experincia sexual na infncia (embora de natureza diferente da encontrada na histeria). A etiologia das duas 
neuropsicoses de defesa relaciona-se da seguinte maneira com a etiologia das duas neuroses simples, a neurastenia e a neurose de angstia: os dois ltimos distrbios 
so efeitos diretos das prprias perturbaes sexuais, como demonstrei em meu artigo sobre a neurose de angstia (1895b); ambas as neuroses de defesa so conseqncias 
indiretas das perturbaes sexuais ocorridas antes do advento da maturidade sexual - ou seja, so conseqncia dos traos mnmicos psquicos dessas perturbaes. 
As causas atuais que produzem a neurastenia e a neurose de angstia freqentemente desempenham, ao mesmo tempo, o papel de causas excitantes das neuroses de defesa; 
por outro lado, as causas especficas de uma neurose de defesa - os traumas da infncia - podem ao mesmo tempo constituir a base para um desenvolvimento posterior 
da neurastenia. Finalmente, tambm no  raro a neurastenia ou a neurose de angstia serem mantidas, no pelas perturbaes sexuais contemporneas, mas, ao contrrio, 
apenas pelo efeito persistente de uma lembrana de traumas infantis.
         
         
         II - A NATUREZA E O MECANISMO DA NEUROSE OBSESSIVA
         
         As experincias sexuais da primeira infncia tm na etiologia da neurose obsessiva a mesma importncia que na histeria. Aqui, entretanto, no se trata mais 
de passividade sexual, mas de atos de agresso praticados com prazer e de participao prazerosa em atos sexuais - ou seja, trata-se de atividade sexual. Essa diferena 
nas circunstncias etiolgicas est relacionada com o fato de a neurose obsessiva mostrar visvel preferncia pelo sexo masculino.
         Alm disso, em todos os meus casos de neurose obsessiva, descobri um substrato de sintomas histricos que puderam ser atribudos a uma cena de passividade 
sexual que precedeu a ao prazerosa. Suspeito de que essa coincidncia no seja fortuita, e de que a agressividade sexual precoce implique sempre uma experincia 
prvia de ser seduzido. Entretanto, no posso ainda fornecer uma explicao definitiva sobre a etiologia da neurose obsessiva; tenho apenas a impresso de que o 
fator decisivo quanto  emergncia de histeria ou neurose obsessiva a partir de traumas na infncia depende de circunstncias cronolgicas no desenvolvimento da 
libido.
         A natureza da neurose obsessiva pode ser expressa numa frmula simples. As idias obsessivas so, invariavelmente, auto-acusaes transformadas que reemergiram 
do recalcamento e que sempre se relacionam com algum ato sexual praticado com prazer na infncia. Para elucidar essa afirmao  necessrio descrever o curso tpico 
tomado por uma neurose obsessiva.
         Num primeiro perodo - o perodo da imoralidade infantil - ocorrem os eventos que contm o germe da neurose posterior. Antes de tudo, na mais tenra infncia, 
temos as experincias de seduo sexual que mais tarde tornaro possvel o recalcamento, e ento sobrevm os atos de agresso sexual contra o outro sexo, que aparecero 
depois sob a forma de atos que envolvem auto-acusao.
         Este perodo  encerrado pelo advento da "maturao" sexual, freqentemente precoce demais. Uma auto-acusao fica ento ligada  lembrana dessas aes 
prazerosas; e a conexo com a experincia inicial passiva torna possvel |ver em [1]| - muitas vezes, s depois de esforos conscientes e lembrados - recalc-las 
e substitu-las por um sintoma primrio de defesa. A conscienciosidade, a vergonha e a autodesconfiana so sintomas dessa espcie, que do incio ao terceiro perodo 
- perodo de aparente sade, mas, na realidade, de defesa bem-sucedida.
         O perodo seguinte, o da doena,  caracterizado pelo retorno das lembranas recalcadas - isto , pelo fracasso da defesa. No se sabe ao certo se o despertar 
de tais lembranas ocorre com maior freqncia de modo espontneo e acidental, ou em conseqncia de distrbios sexuais contemporneos, como uma espcie de subproduto 
deles. Entretanto, as lembranas reativadas e as auto-acusaes delas decorrentes nunca reemergem inalteradas na conscincia: o que se torna consciente como representaes 
e afetos obsessivos, substituindo as lembranas patognicas no que concerne  vida consciente, so estruturas da ordem de uma formao de compromisso entre as representaes 
recalcadas e as recalcadoras.
         Para descrever com clareza e provvel preciso os processos de recalcamento, o retorno do recalcado e o surgimento de representaes patolgicas como formaes 
de compromisso, seria necessrio optar por pressupostos bem definidos a respeito do substrato dos eventos psquicos e da conscincia. Na medida em que se procure 
evitar isso,  preciso contentar-se com os comentrios que se seguem e que devem ser entendidos de maneira mais ou menos figurada. H duas formas de neurose obsessiva, 
conforme a passagem para a conscincia seja forada somente pelo contedo mnmico do ato que envolve auto-acusao, ou tambm pelo afeto auto-acusador ligado quele 
ato.
         A primeira forma inclui as representaes obsessivas tpicas, nas quais o contedo retm a ateno do paciente e,  guisa de afeto, ele sente apenas um 
desprazer indefinido, ao passo que o nico afeto adequado  representao obsessiva seria o de uma auto-acusao. O contedo da representao obsessiva  distorcido 
de dois modos em relao ao ato obsessivo da infncia. Em primeiro lugar, alguma coisa contempornea toma o lugar de algo do passado e, em segundo, alguma coisa 
sexual  substituda por algo no sexual que lhe  anlogo. Essas duas alteraes so efeito da tendncia ainda vigente a recalcar, que atribuiremos ao "ego". A 
influncia da lembrana patognica reativada  mostrada pelo fato de que o contedo da representao obsessiva  ainda parcialmente idntico ao que fora recalcado, 
ou decorre dele por um encadeamento lgico do pensamento. Ao reconstruirmos, com a ajuda do mtodo psicanaltico, a origem de uma representao obsessiva isolada, 
constatamos que, a partir de uma nica impresso atual, dois cursos de pensamento diferentes foram ativados. Aquele que passou pela lembrana recalcada revela-se 
to corretamente lgico em sua estrutura quanto o outro, embora seja incapaz de se tornar consciente e no seja passvel de retificao. Quando os produtos dessas 
duas operaes psquicas no se coadunam, o que ocorre no  uma espcie de ajustamento lgico da contradio entre elas; em vez disso, paralelamente ao resultado 
intelectual normal, introduz-se na conscincia, como uma soluo de compromisso entre a resistncia e o produto intelectual patolgico, uma representao obsessiva 
que parece absurda. Quando os dois cursos de pensamento levam  mesma concluso, eles se reforam mutuamente, de modo que o produto intelectual a que se chegou normalmente 
comporta-se agora, em termos psicolgicos, como uma representao obsessiva. Sempre que uma obsesso neurtica emerge na esfera psquica, ela provm do recalcamento. 
As representaes obsessivas tm, por assim dizer, uma circulao psquica compulsiva |obsessiva|, no em virtude de seu valor intrnseco, mas em virtude da fonte 
de que derivam ou que acrescentou uma contribuio a seu valor.
         Uma segunda forma da neurose obsessiva manifesta-se quando o que forou sua representao na vida psquica consciente no  o contedo mnmico recalcado, 
mas a tambm recalcada auto-acusao. O afeto da auto-acusao pode, por meio de algum acrscimo mental, transformar-se em qualquer outro afeto desagradvel. Quando 
isso acontece, no h mais nada que impea o afeto posto no lugar do primeiro de se tornar consciente. Assim, a auto-acusao (por ter praticado o ato sexual na 
infncia) pode facilmente transformar-se em vergonha (de que algum o descubra), em angstia hipocondraca (medo dos danos fsicos resultantes do ato que envolve 
a auto-acusao), em angstia social (medo de ser socialmente punido pelo delito), em angstia religiosa, em delrios de ser observado (medo de delatar-se pelo ato 
diante de outras pessoas), ou em medo da tentao (justificada desconfiana em relao a seus prprios poderes de resistncia), e assim por diante. Alm disso, o 
contedo mnmico do ato envolvido na auto-acusao pode ser representado tambm na conscincia, ou permanecer completamente obscurecido - o que torna o diagnstico 
muito mais difcil. Muitos casos que, superficialmente examinados, parecem ser de hipocondria (neurastnica) comum, pertencem a esse grupo de afetos obsessivos; 
o que se conhece como "neurastenia peridica" ou "melancolia peridica" parece, em particular, decompor-se com inesperada freqncia em afetos obsessivos e idias 
obsessivas - uma descoberta que no  insignificante do ponto de vista teraputico.
         Alm desses sintomas de compromisso, que significam o retorno do recalcado e, conseqentemente, um colapso da defesa originalmente alcanada, a neurose 
obsessiva constri um conjunto de outros sintomas cuja origem  muito diferente, pois o ego procura rechaar os derivados da lembrana inicialmente recalcada e, 
nessa luta defensiva, cria sintomas que poderiam ser conjuntamente classificados como "defesa secundria". Tudo isso constitui "medidas protetoras" que j prestaram 
bons servios na luta contra as representaes e afetos obsessivos. Quando esses auxiliares na luta defensiva conseguem genuinamente recalcar mais uma vez os sintomas 
do retorno |do recalcado| que se impuseram ao ego, a obsesso  transferida para as prprias medidas protetoras e cria uma terceira forma de "neurose obsessiva" 
- as aes obsessivas. Essas aes nunca so primrias; contm exclusivamente uma defesa - nunca uma agresso. Sua anlise psquica mostra que, a despeito de sua 
peculiaridade, elas sempre podem ser inteiramente explicadas ao serem atribudas s lembranas obsessivas contra as quais esto lutando.
         A defesa secundria contra as representaes obsessivas pode ser efetuada por um violento desvio para outros pensamentos de contedo to contrrio quanto 
possvel. Eis por que a ruminao obsessiva, quando bem-sucedida, versa regularmente sobre coisas abstratas e supra-sensuais, pois as representaes recalcadas sempre 
se referem  sensualidade. Ou ento o paciente tenta controlar, ele prprio, cada uma de suas representaes obsessivas, exclusivamente pelo trabalho lgico e pelo 
recurso a suas lembranas conscientes. Isso leva a um pensamento obsessivo, a uma compulso a testar coisas e  mania de duvidar. A vantagem que a percepo leva 
sobre a lembrana em tais testes inicialmente impele e depois compele o paciente a colecionar e armazenar todos os objetos com que entra em contato. A defesa secundria 
contra os afetos obsessivos leva a um conjunto ainda mais vasto de medidas protetoras passveis de se transformarem em atos obsessivos. Estes podem ser agrupados 
de acordo com seu objetivo; medidas penitenciais (cerimoniais opressivos, observao de nmeros); medidas de precauo (toda sorte de fobias, superstio, minuciosidade, 
aumento do sintoma primrio de conscienciosidade); medidas relacionadas com o medo de delatar-se (colecionar pedaos de papel, isolar-se), ou medidas para assegurar 
o entorpecimento |da mente| (dipsomania). Entre esses atos e impulsos obsessivos, as fobias, por restringirem a existncia do paciente, desempenham o papel mais 
importante.
         H casos em que se pode observar como a obsesso  transferida da representao ou do afeto para a medida protetora; outros em que a obsesso oscila periodicamente 
entre o sintoma do retorno do recalcado e o sintoma da defesa secundria; e ainda outros casos em que nenhuma representao obsessiva  construda, mas, em vez disso, 
a lembrana recalcada  imediatamente representada pelo que , aparentemente, uma medida primria de defesa. Aqui atingimos de um salto o estgio que, em outros 
casos, s encerra o curso percorrido pela neurose obsessiva aps a ocorrncia da luta defensiva. Os casos graves desse distrbio terminam na fixao das aes cerimoniais, 
ou num estado generalizado de mania de duvidar, ou numa vida de excentricidades condicionada pelas fobias.
         O fato de as representaes obsessivas e o que delas deriva no receberem nenhum crdito |por parte do sujeito| explica-se, sem dvida, pelo fato de, na 
poca de seu primeiro recalcamento, ter-se formado o sintoma defensivo da conscienciosidade, e por tal sintoma adquirir tambm uma fora obsessiva. A certeza do 
sujeito de ter vivido uma vida moralmente correta durante todo o perodo da defesa bem-sucedida torna-lhe impossvel acreditar na auto-acusao que sua representao 
obsessiva implica. Apenas transitoriamente, ao aparecer uma nova representao obsessiva ou, ocasionalmente, em estados melanclicos de esgotamento do ego,  que 
os sintomas patolgicos do retorno do recalcado compelem  crena. O carter "obsessivo" das formaes psquicas que aqui descrevi geralmente nada tem a ver com 
a crena que se lhes atribua. Tampouco se deve confundi-lo com o fator que  descrito como "fora" ou "intensidade" de uma representao. Sua essncia , antes, 
a indissolubilidade pela atividade psquica passvel de ser consciente; e esse atributo no sofre nenhuma mudana, quer a representao  qual se liga a obsesso 
seja mais forte ou mais fraca, mais ou menos intensamente "esclarecida", ou "investida de energia", e assim por diante.
         A causa dessa invulnerabilidade da representao obsessiva e de seus derivados nada mais , no entanto, do que sua ligao com a lembrana recalcada da 
tenra infncia. E isso porque, ao conseguirmos tornar tal ligao consciente - e os mtodos psicoterpicos j parecem poder fazer isso -, tambm a obsesso  resolvida.
         
         III - ANLISE DE UM CASO DE PARANIA CRNICA
         
         Por tempo considervel tenho alimentado a suspeita de que tambm a parania - ou algumas classes de casos que se incluem na categoria de parania -  uma 
psicose de defesa; isto , que, tal como a histeria e as obsesses, ela provm do recalcamento de lembranas aflitivas, sendo seus sintomas formalmente determinados 
pelo contedo do que foi recalcado. Entretanto, a parania deve ter um mtodo ou mecanismo especial de recalcamento que lhe  peculiar, assim como a histeria efetua 
o recalque pelo mtodo da converso em inervao somtica, e neurose obsessiva, pelo mtodo da substituio (ou seja, pelo deslocamento atravs de certas categorias 
de associaes). Eu havia observado diversos casos que favoreciam essa interpretao, mas nenhum que a comprovasse; at que, alguns meses atrs, tive a oportunidade, 
graas  gentileza do Dr. Josef Breuer, de empreender a psicanlise, com propsitos teraputicos, de uma mulher inteligente de 32 anos em cujo caso no se podia 
questionar o diagnstico de parania crnica. Relato nestas pginas, sem mais delongas, parte das informaes que pude obter a partir desse trabalho, pois no tenho 
perspectivas de estudar a parania exceto em ocasies muito isoladas, e porque acho possvel que meus comentrios possam encorajar algum psiquiatra mais bem situado 
que eu nesse assunto a conferir ao fator da "defesa" seu lugar de direito na discusso sobre a natureza e o mecanismo psquico. Naturalmente, com base na observao 
isolada que se segue, no tenho inteno de dizer mais do que: "Este  um caso de psicose de defesa e, muito provavelmente, h outros classificados como 'parania' 
que tambm o so."
         A Sra. P., de 32 anos de idade,  casada h trs anos e me de uma criana de dois. Seus pais no eram neurticos, mas seu irmo e sua irm so, a meu ver, 
neurticos como a Sra. P.  duvidoso se ela teria ou no, em alguma poca entre seus vinte e trinta anos, ficado temporariamente deprimida e confusa em seus julgamentos. 
Nos ltimos anos, era saudvel e capaz, at que, seis meses aps o nascimento de seu filho, mostrou os primeiros sinais de sua atual enfermidade. Tornou-se pouco 
comunicativa e desconfiada, manifestando averso ao encontrar-se com os irmos e irms do marido, e passou a se queixar de que seus vizinhos, na pequena cidade onde 
vivia, se estavam comportando para com ela de modo diferente do que faziam antes, sendo grosseiros e sem considerao. Gradualmente, essas queixas foram aumentando 
de intensidade, embora no em sua clareza. A Sra. P. achava que as pessoas tinham alguma coisa contra ela, embora no tivesse idia do que fosse; mas no havia dvida 
de que todos - parentes e amigos - tinham deixado de respeit-la e estavam fazendo tudo o que podiam para menosprez-la. Ela quebrava a cabea, segundo dizia, para 
descobrir a razo disso, mas no fazia a menor idia. Pouco tempo depois, queixou-se de que estava sendo observada, e de que as pessoas liam seus pensamentos e sabiam 
tudo o que ocorria em sua casa. Uma tarde, repentinamente, ocorreu-lhe que estava sendo observada enquanto se despia,  noite. Desde ento, passou a tomar medidas 
da maior precauo ao despir-se; ia para o cama na escuro e s comeava a tirar a roupa quando j estava embaixo das cobertas. Como evitasse todo o contato com outras 
pessoas, comesse frugalmente e estivesse muito deprimida, mandaram-na, no vero de 1895, a um estabelecimento hidroptico. L, surgiram novos sintomas e os que ela 
j tinha aumentaram de intensidade. J na primavera daquele ano, num dia em que estava sozinha com sua criada, tivera subitamente um sensao em seu baixo abdome 
e pensara consigo mesmo que a moa, naquele momento, tinha tido uma idia imprpria. Essa sensao tornou-se mais freqente durante o vero, at torna-se quase contnua. 
Ela sentia seus rgos genitais "como se sente uma mo pesada". Comeou ento a ver coisas que a horrorizavam - alucinaes de mulheres nuas, especialmente da parte 
inferior do abdome feminino com os plos pubianos e, ocasionalmente, tambm da genitlia masculina. A imagem do abdome com os plos e a sensao fsica em seu prprio 
abdome costumavam ocorrer juntas. As imagens tornaram-se muito torturantes, pois ocorriam regularmente quando ela estava em companhia feminina e a faziam pensar 
que estava vendo a mulher num estado indecente de nudez, mas que, simultaneamente, a mulher estava tendo dela o mesmo quadro (!). Ao mesmo tempo que tinha essa alucinaes 
visuais - que se desvaneceram novamente por vrios meses, depois de surgirem pela primeira vez no estabelecimento hidroptico -, ela comeou a ser importunada por 
vozes que no reconhecia nem conseguia explicar. Quando estava na rua, elas diziam: "Aquela  a Sra. P. - L vai ela! Aonde estar indo?" Cada um de seus movimentos 
e atos era comentado; e ouvia s vezes ameaas e censuras. Todos esse sintomas pioravam quando ela estava acompanhada ou na rua. Por essa razo, recusava-se a sair; 
dizia que comer a nauseava; e seu estado de sade deteriorou-se rapidamente.
         Obtive todas essas informaes por ela mesma, quando veio a Viena tratar-se comigo, no inverno de 1895. Fiz dela uma exposio extensa porque quero transmitir 
a impresso de que o que temos aqui , de fato, uma forma bem freqente de parania crnica - concluso a que veremos que se ajustam os detalhes de seus sintomas 
e comportamentos que ainda tenho a descrever. Nessa ocasio, ela escondeu de mim os delrios que serviriam para interpretar suas alucinaes, ou talvez os delrios 
de fato ainda no tivessem ocorrido. Sua inteligncia no diminura; a nica coisa estranha de que tomei conhecimento foi que ela havia marcado encontros repetidos 
com seu irmo, que morava na imediaes, para confiar-lhe alguma coisa importante, mas nunca lhe dissera nada. Ela nunca falou sobre suas alucinaes e, ao se aproximar 
o fim, tambm no dizia mais muita coisa sobre as desfeitas e perseguies a que era submetida.
         O que tenho a relatar sobre essa paciente refere-se  etiologia do caso e ao mecanismo das alucinaes. Descobri a etiologia quando apliquei o mtodo de 
Breuer, exatamente como num caso de histeria - em primeiro lugar, para a investigao e eliminao das alucinaes. Ao faz-lo, parti do pressuposto de que nesse 
caso de parania, exatamente como nas outras duas neuroses de defesa com que eu estava familiarizado, devia haver pensamentos inconscientes e lembranas recalcadas 
que poderiam ser trazidos  conscincia do mesmo modo que naquelas neuroses, superando-se uma certa resistncia. A paciente imediatamente confirmou minha expectativa, 
pois comportou-se na anlise exatamente como, por exemplo, um paciente histrico; concentrando sua ateno sob a presso de minha mo, ela produziu pensamentos que 
no se lembrava de ter tido, que a princpio no entendia e que eram contrrios as suas expectativas. A presena de representaes inconscientes importantes foi 
assim demonstrada tambm num caso de parania, e pude ter esperanas de investigar tambm a compulso da parania at o recalcamento. A nica peculiaridade consistia 
em que os pensamentos que emergiam do inconsciente eram, em sua maior parte, ouvidos interiormente pela paciente ou alucinados por ela, do mesmo modo que suas vozes.
         Quanto  origem das alucinaes visuais, ou ao menos das imagens ntidas, fiquei sabendo o seguinte: a imagem da parte inferior de um abdome de mulher quase 
sempre coincidia com a sensao fsica em seus prprio abdome; esta ltima, porm, era muito mais constante, e freqentemente ocorria sem a imagem. As primeiras 
imagens de um abdome de mulher haviam surgido no estabelecimento hidroptico, poucas horas depois de ela ter visto, de fato, diversas mulheres nuas nos banhos; assim, 
tais imagens revelaram ser simples reprodues de uma impresso real. Era de se presumir, portanto, que essas impresses se haviam repetido apenas por causa de um 
grande interesse ligado a elas. A Sra. P. me disse que se sentira envergonhada por essas mulheres; ela prpria tinha vergonha de ser vista nua desde quando podia 
lembrar-se. Como estivesse obrigado a encarar a vergonha como alguma coisa obsessiva, conclu, de acordo com o mecanismo de defesa, que deveria ter sido recalcada 
uma experincia relacionada com algo de que ela no se envergonhara. Assim, pedi-lhe que deixasse emergirem as lembranas pertinentes ao tema de sentir-se envergonhada. 
Ela prontamente reproduziu uma srie de cenas que retrocediam dos dezessete aos oito anos de idade, nas quais se envergonhava de estar nua no banho diante de sua 
me, sua irm e do mdico; mas a srie terminou numa cena aos seis anos de idade, na qual ela se despia no quarto das crianas antes de ir para a cama, sem sentir 
qualquer vergonha diante do irmo que l estava. Quando a interroguei, tornou-se clara que cenas como essa tinham ocorrido freqentemente e que, durante anos, irmo 
e irm tiveram o hbito de se exibirem nus um para o outro antes de irem para a cama. Compreendi ento o sentido de sua idia repetida de que estava sendo observada 
ao ir para a cama. Era um fragmento inalterado da antiga lembrana que envolvia uma autocensura, e ela agora estava suprimindo a vergonha que deixara de sentir quando 
criana.
         Minha conjetura de que estaramos diante de um caso amoroso entre crianas, como se encontra to freqentemente na etiologia da histeria, foi reforada 
pelo progresso posterior da anlise, que, ao mesmo tempo, forneceu solues para detalhes individuais freqentemente recorrentes no quadro clnico da parania. A 
depresso da paciente comeou na poca de uma discusso entre seu marido e seu irmo, em conseqncia da qual este passou a no mais freqentar sua casa. Ela sempre 
apreciara muito esse irmo e, nessa ocasio, sentira imensamente sua falta. Alm disso, ela falou num certo momento de sua doena em que, pela primeira vez, "tudo 
ficara claro para ela" - ou seja, em que ela se convencera da verdade de sua suspeita de que todos a desprezavam e a desfeiteavam deliberadamente. Essa certeza lhe 
viera durante uma visita de sua cunhada, que, no decorrer da conversa, deixara escapar estas palavras: "Quando me acontece alguma coisa desse tipo, eu a trato com 
descaso." A princpio, a Sra. P. tomou esse comentrio sem desconfianas; depois, porm, quando a visitante j se retirara, pareceu-lhe que essas palavras continham 
uma censura, como se ela tivesse o hbito de tratar as coisas srias com descaso; e a partir desse momento, teve certeza de que era vtima da maledicncia geral. 
Quando lhe perguntei sobre o que a fizera sentir-se justificada para aplicar tais palavras a si mesma, respondeu que fora o tom em que a cunhada tinha falado que 
a convencera disso (embora,  verdade, apenas posteriormente). Esse  um detalhe caracterstico da parania. Obriguei-a ento a lembrar-se do que a cunhada estivera 
dizendo antes do comentrio de que ela se queixava, e emergiu a resposta de que a cunhada estivera contando como, na casa dos pais dela, tinha havido toda sorte 
de dificuldades com seus irmos, e acrescentara o comentrio sensato: "Em toda famlia acontecem coisas sobre as quais se gostaria de pr uma pedra. Mas quando uma 
coisa desse tipo acontece comigo, eu a trato com descaso." A Sra. P. teve ento que admitir que sua depresso estava ligada s declaraes feitas pela cunhada antes 
do ltimo comentrio. Uma vez que recalcara ambas as afirmaes que poderiam ter despertado a lembrana de suas relaes com seu irmo, e retivera apenas a ltima 
e insignificante afirmao, foi a esta que se viu obrigada a ligar seu sentimento de que a cunhada a estivera censurando; e, j que o contedo no oferecia nenhuma 
base para isso, ela se voltara do contedo para o tom em que as palavras tinham sido proferidas. Essa , provavelmente, uma evidncia tpica de que as interpretaes 
errneas da parania se baseiam num recalcamento.
         A conduta singular de minha paciente, marcando encontros com o irmo nos quais nada lhe dizia, foi tambm resolvida de maneira surpreendente. Sua explicao 
foi que ela pensara que, se pudesse apenas olh-lo, ele estaria fadado a entender seus sofrimentos, uma vez que lhes conhecia a causa. Ora, como esse irmo era, 
de fato, a nica pessoa que poderia saber da etiologia de sua doena, estava claro que ela agira de acordo com um motivo que, embora ela prpria no compreendesse 
conscientemente, seria considerado perfeitamente justificado to logo lhe fosse dado um sentido derivado do inconsciente.
         Consegui ento faz-la reproduzir as vrias cenas de seu relacionamento sexual com o irmo (que certamente durara pelo menos dos seis aos dez anos.) Durante 
esse trabalho de reproduo, a sensao fsica em seu abdome "participou da conversa", por assim dizer, tal como se observa regularmente na anlise de resduos mnmicos 
histricos. A imagem da parte inferior do abdome de uma mulher nua (agora reduzido s suas propores infantis, e sem plos) aparecia junto com a sensao, ou permanecia 
afastada, dependendo de a cena em questo ter ocorrido em plena luz ou no escuro. Sua repugnncia em comer tambm encontrou explicao num detalhe repulsivo desses 
procedimentos. Depois de percorrermos essa srie de cenas, as sensaes e imagens alucinatrias desapareceram e (ao menos at o presente) no retornaram.
         Assim, eu havia descoberto que essas alucinaes nada mais eram que partes do contedo de suas experincias infantis recalcadas, ou seja, sintomas do retorno 
do recalcado.
         Voltei-me ento para a anlise das vozes. Antes de mais nada, era preciso explicar por que um contedo to neutro como "Ali vem a Sra. P.", ou "Ela agora 
est procurando uma casa" etc., podia afligi-la tanto; em seguida, por que  que precisamente essas frases inocentes tinham chegado a ser marcadas por um reforo 
alucinatrio. Logo de sada, ficou claro que "as vozes" no poderiam ser lembranas produzidas de modo alucinatrio, como as imagens e as sensaes, mas eram pensamentos 
"ditos em voz alta".
         A primeira vez que ela ouviu as vozes foi nas seguintes circunstncias. Estava lendo com vido interesse a bela histria de Otto Ludwig, Die Heiterethei, 
e notou que, enquanto lia, iam emergindo pensamentos que reclamavam sua ateno. Logo em seguida, saiu para um passeio por uma estrada campestre e, quando passava 
por uma pequena casa camponesa, as vozes subitamente lhe disseram: " assim que era a cabana de Heiterethei! L est a fonte e l esto as moitas! Como ela era feliz, 
apesar de toda a sua pobreza!" As vozes ento lhe repetiram pargrafos inteiros que ela acabara de ler. No entanto, permanecia ininteligvel a razo de a cabana 
de Heiterethei, com as moitas e a fonte, e precisamente as passagens mais banais e irrelevantes da histria, serem impostas a sua ateno com uma intensidade patolgica. 
Entretanto, a soluo do enigma no foi difcil. Sua anlise mostrou que, enquanto estava lendo, ela tivera tambm outros pensamentos e fora excitada por passagens 
muito diferentes do livro. Contra esse material - analogias entre o casal da histria e ela prpria e seu marido, lembranas da intimidade na vida conjugal e de 
segredos de famlia -, contra tudo isso levantara-se uma resistncia recalcadora, porque o material estava ligado, por associaes de pensamentos facilmente demonstrveis, 
a sua averso pela sexualidade e assim, em ltima instncia, remontava a sua antiga experincia infantil. Em conseqncia dessa censura exercida pelo recalque, as 
passagens incuas e idlicas, que estavam ligadas por contraste e por contigidade s que tinham sido proscritas, adquiriram a fora adicional, em sua relao com 
a conscincia, que tornou possvel diz-las em voz alta. A primeira das representaes recalcadas, por exemplo, relacionava-se com a maledicncia a que a herona, 
que morava sozinha, ficava exposta por parte de seus vizinhos. Minha paciente descobriu facilmente a analogia com ela prpria. Tambm morava num lugarejo, no se 
encontrava com ningum e se considerava desprezada pelos vizinhos. Essa desconfiana em relao aos vizinhos tinha um fundamento real. A princpio, ela fora obrigada 
a se contentar com um pequeno apartamento em que a parede do quarto na qual se encostava a cama de casal era adjacente a um quarto pertencente a seus vizinhos. Com 
o incio do casamento - obviamente pelo despertar inconsciente de seu caso amoroso infantil, onde ela e o irmo brincavam de marido e mulher - ela desenvolveu uma 
grande averso  sexualidade. Estava constantemente preocupada com a idia de que os vizinhos ouvissem palavras e rudos atravs da parede comum, e essa vergonha 
transformou-se em suspeita em relao aos vizinhos.
         Assim, as vozes deviam sua origem ao recalcamento de representaes que, em ltima anlise, eram de fato auto-acusaes por experincias que eram anlogas 
a seu trauma infantil. Por conseguinte, as vozes eram sintomas do retorno do recalcado. Ao mesmo tempo, porm, eram conseqncia de uma formao de compromisso entre 
a resistncia do ego e o poder do retorno do recalcado - uma soluo que, nesse exemplo, acarretara uma distoro que eliminava a possibilidade de reconhecimento. 
Em outras situaes em que tive oportunidade de analisar as vozes da Sra. P., a distoro foi menor. No obstante, as palavras que ela ouvia tinham um brao de diplomtica 
indefinio: a aluso insultuosa era, em geral, profundamente escondida; a conexo entre as frases soltas era disfarada por uma estranha forma de expresso, por 
maneirismos incomuns da fala, e assim por diante - caractersticas que so comuns s alucinaes auditivas dos paranicos em geral e nas quais percebo os vestgios 
de distoro pela formao de compromisso. Por exemplo, o comentrio "l vai a Sra. P.; est procurando uma casa na rua" significava uma ameaa de que ela nunca 
se recuperaria, pois eu lhe prometera que, aps o tratamento, ela poderia voltar  cidadezinha onde seu marido trabalhava. (Provisoriamente, alojava-se em Viena 
por alguns meses.)
         Em ocasies isoladas a Sra. P. recebia tambm ameaas mais claras - por exemplo, com respeito aos parentes de seu marido; mas havia ainda um contraste entre 
a maneira reservada como eram expressas e os tormentos que as vozes lhe causavam. Em vista do que se sabe da parania alm disso, inclino-me a supor que h um gradual 
comprometimento das resistncias que enfraquecem as auto-acusaes, de modo que, por fim, a defesa fracassa por completo e a auto-acusao original, o termo real 
do insulto de que o sujeito vinha tentando poupar-se, retorna em sua forma inalterada. No sei, entretanto, se esse curso dos acontecimentos  constante, nem se 
a censura das palavras que envolvem a auto-acusao pode estar ausente desde o incio ou persistir at o fim.
         Agora, resta-me apenas empregar o que aprendi a partir desse caso de parania para fazer uma comparao dela com a neurose obsessiva. Em ambas, mostrou-se 
que o recalcamento  o ncleo do mecanismo psquico, e em ambas, o que foi recalcado  uma experincia sexual na infncia. Nesse caso de parania, alm disso, todas 
as obsesses provinham do recalque; os sintomas da parania permitem uma classificao similar  que se mostrou justificada na neurose obsessiva. Parte dos sintomas, 
ademais, provm da defesa primria - a saber, todas as representaes delirantes caracterizadas pela desconfiana e pela suspeita e relacionadas  representao 
de perseguio por outrem. Na neurose obsessiva, a auto-acusao inicial  recalcada pela formao do sintoma primrio da defesa: a autodesconfiana. Com isso, a 
auto-acusao  reconhecida como justificvel; e, para contrabalan-la, a conscienciosidade que o sujeito adquiriu durante seus intervalos sadios protege-o ento 
de dar crdito s auto-acusaes que retornam sob a forma de representaes obsessivas. Na parania, a auto-acusao  recalcada por um processo que se pode descrever 
como projeo.  recalcada pela formao do sintoma defensivo de desconfiana nas outras pessoas. Dessa maneira, o sujeito deixa de reconhecer a auto-acusao; e, 
como que para compensar isso, fica privado de proteo contra as auto-acusaes que retornam em suas representaes delirantes.
         Outros sintomas de meu caso de parania devem ser descritos como sintomas de retorno do recalcado, e tambm eles, como os sintomas da neurose obsessiva, 
ostentam traos da nica formao de compromisso que lhes permite a entrada na conscincia.  o caso, por exemplo, da representao delirante de minha paciente de 
estar sendo observada ao despir-se, de suas alucinaes visuais, de suas alucinaes de sensao e de sua audio de vozes. Na representao delirante que acabo 
de mencionar h um contedo mnmico quase inalterado, que s se tornou vago por omisso. O retorno do recalcado em imagens visuais aproxima-se mais na natureza da 
histeria do que do carter da neurose obsessiva; a histeria, porm, tem por hbito repetir os smbolos mnmicos sem alterao, enquanto as alucinaes mnmicas da 
parania sofrem uma distoro similar  da neurose obsessiva: uma imagem moderna anloga toma o lugar da que foi recalcada. (Por exemplo,o abdome de uma mulher adulta 
aparece no lugar de um abdome infantil, e um abdome onde os plos so especialmente distintos, por terem estado ausentes da impresso original.) Uma caracterstica 
bastante peculiar  parania, e sobre a qual esta comparao no pode lanar mais luz,  que as auto-acusaes recalcadas retornam sob a forma de pensamentos ditos 
em voz alta. No decorrer desse processo, eles so obrigados a submeter-se a uma dupla distoro: ficam sujeitos a uma censura, que os leva a serem substitudos por 
outras representaes associadas, ou a serem ocultados por um modo de expresso indefinido, sendo relacionados com experincias recentes que nada mais so do que 
experincias anlogas s antigas.
         O terceiro grupo de sintomas encontrados na neurose obsessiva, os sintomas da defesa secundria, no pode estar presente como tal na parania, porque nenhuma 
defesa pode valer contra os sintomas de retorno aos quais, como sabemos, liga-se uma crena. Em lugar disso, encontramos na parania uma outra fonte para a formao 
de sintomas. As representaes delirantes que chegam  conscincia atravs de uma formao de compromisso (os sintomas do retorno |do recalcado|) fazem exigncias 
 atividade de pensamento do ego, at que possam ser aceitas sem contradio. Visto que elas prprias no so influenciveis, o ego precisa adaptar-se a elas; e 
assim, o que aqui corresponde aos sintomas da defesa secundria na neurose obsessiva  uma formao delirante combinatria- delrios interpretativos que terminam 
por uma alterao do ego. Nesse aspecto, o caso em discusso no foi completo; na poca, minha paciente ainda no apresentava nenhum sinal das tentativas de interpretao 
que apareceram mais tarde. Mas no tenho dvidas de que, se aplicarmos a psicanlise tambm a esse estgio da parania, poderemos chegar a outro resultado importante. 
Dever-se- ento constatar que a chamada fraqueza de memria dos paranicos  tambm tendenciosa - isto , baseia-se no recalque e serve aos fins do recalque. Ocorre 
um recalcamento e substituio subseqentes de lembranas que no so nada patognicas, mas que contradizem a alterao do ego to insistentemente exigida pelos 
sintomas do retorno do recalcado.
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       A ETIOLOGIA DA HISTERIA (1896)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         ZUR AETIOLOGIE DER HISTERIE
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1896 Wien. klin. Rdsch., 10 (22), 379-81, (23), 395-7, (24), 413-15, (25), 423-3, e (26), 450-2. (31 de maio, 7, 14, 21 e 28 de junho.)
         1906 S.K.S.N., 1, 149-180. (1911, 2 ed., 1920, 3 ed., 1922, 4 ed.)
         1925 G.S., 1, 404-38.
         1952 G.W., 1, 425-59.
         
         (b)TRADUO INGLESA:
         "The Aetiology of Hysteria"
         1924 C.P., 1, 183-219. (Trad. de C. M. Baines.)
         
         Includo (N XXXVI) na coleo de sinopses dos primeiros trabalhos de Freud elaborada por ele mesmo (1897b). A presente traduo  uma verso modificada 
da de 1924.
         
         Segundo uma nota de rodap na Wiener klinische Rundschau de 31 de maio de 1896, este artigo se baseia numa conferncia proferida por Freud ante a "Verein 
fr Psychiatrie und Neurologie" no dia 2 de maio. A exatido dessa data, contudo,  questionvel. Numa carta no publicada a Fliess, de quinta-feira, 16 de abril, 
Freud escreveu que, na tera-feira seguinte |21 de abril|, deveria fazer uma conferncia diante da "Psychiatrischer Verein" No especifica o tema, mas, numa outra 
carta indita, datada de 26 e 28 de abril de 1896, relatou ter feito perante aquela sociedade uma conferncia sobre a etiologia da histeria. Prosseguiu comentando 
que "os imbecis deram-lhe uma recepo glida" e que Kraff-Ebing, que estava na presidncia, dissera que aquilo soava como um conto de fadas cientfico. Ainda em 
outra carta, datada de 30 de maio, dessa vez includa na correspondncia com Fliess (Freud, 1950a, Carta 46), escreveu: "Desafiando meus colegas, redigi toda a minha 
conferncia sobre a etiologia da histeria para Paschkis |o editor da Rundschau|" E sua publicao de fato comeou naquele peridico, no dia seguinte. De tudo isso 
parece depreender-se que a conferncia foi realmente proferida a 21 de abril de 1896.
         O presente trabalho pode ser considerado uma repetio ampliada da primeira seo de seu predecessor, o segundo artigo sobre as neuropsicoses de defesa 
(1896b). As descobertas de Freud sobre as causas da histeria so dadas em maior detalhe, com um relato das dificuldades que ele teve de vencer para atingi-las. Muito 
mais espao  devotado, especialmente na ltima parte do artigo, s experincias sexuais na infncia, que Freud acreditava estarem por trs dos sintomas posteriores. 
Como nos artigos anteriores, essa experincias so encaradas como sendo invariavelmente uma iniciativa dos adultos: a percepo da existncia da sexualidade infantil 
repousava ainda no futuro. H, entretanto, um indcio (ver em [1] e [2]) do que seria descrito nos Trs Ensaios (1905d), Edio Standard Brasileira, Vol. VII, ver 
em [1], IMAGO Editora, 1989, como o carter "perverso polimorfo" da sexualidade infantil. Entre outros pontos de interesse, podemos notar uma crescente tendncia 
a proferir as explicaes psicolgicas s neurolgicas (ver em [1]), bem como uma primeira tentativa de resolver o problema a "escolha da neurose" (ver em [1] e 
[2]), que viria a ser um tema de discusso constantemente retomado. As variadas concepes de Freud a esse respeito so examinadas na Nota do Editor ingls a "A 
Predisposio  Neurose Obsessiva" (1913i), Edio Standard Brasileira, Vol. XII, ver em [1] e segs., IMAGO Editora, 1976; de fato, o assunto j fora abordado nos 
dois artigos a este (ver em [1], [2] e [2]).
         
         A ETIOLOGIA DA HISTERIA
         
         I
         SENHORES:
         
         Quando nos dispomos a formar uma opinio sobre a causao de um estado patolgico como a histeria, comeamos por adotar o mtodo de investigao anamnsica; 
interrogamos o paciente ou aqueles que o cercam, a fim de descobrir a que influncias danosas eles prprios atribuem seu adoecimento e o desenvolvimento desses sintomas 
neurticos. O que descobrimos dessa maneira, naturalmente,  falseado por todos os fatores que comumente ocultam de um paciente o conhecimento de seu prprio estado 
- por sua falta de compreenso cientfica das influncias etiolgicas, pela falcia do post hoc, propter hoc, e por sua relutncia em pensar, ou mencionar certas 
perturbaes e traumas. Assim, ao fazermos uma investigao anamnsica desse tipo, atemo-nos ao princpio de no adotar a crena dos pacientes sem um minucioso exame 
crtico, de no lhes permitir que postulem por ns nossa opinio cientfica sobre a etiologia da neurose. Embora, por um lado, realmente reconheamos a veracidade 
de certas asseres constantemente repetidas, tais como a de que o estado histrico  um efeito tardio e duradouro de uma emoo vivida no passado, introduzimos 
na etiologia da histeria, por outro lado, um fator que o prprio paciente nunca menciona e cuja validade s admite com relutncia - a saber, a predisposio hereditria 
derivada de seus antepassados. Como sabem os senhores, do ponto de vista da influente escola de Charcot, somente a hereditariedade merece ser reconhecida como a 
verdadeira causa da histeria, enquanto todas as outras perturbaes, da mais variada natureza e intensidade, desempenham apenas o papel de causas incidentais, de 
"agents provocateurs".
         Os senhores ho de admitir prontamente que seria bom dispormos de um segundo mtodo de chegar  etiologia da histeria, um mtodo em que nos sentssemos 
menos dependentes das asseres dos prprios pacientes. Um dermatologista, por exemplo, pode reconhecer uma chaga como sendo lutica pelo carter de suas bordas, 
de sua crosta e de sua forma, sem se deixar enganar pelos protestos do paciente, que nega qualquer fonte dessa infeco; e um mdico-legista pode chegar  causa 
de um ferimento mesmo tendo que prescindir de qualquer informao da pessoa ferida. Tambm na histeria existe uma possibilidade similar de penetrarmos, a partir 
dos sintomas, no conhecimento de suas causas. Contudo, para explicar a relao entre o mtodo que temos de empregar para esse fim e o antigo mtodo da investigao 
anamnsica, eu gostaria de expor aos senhores uma analogia baseada num avano real efetuado em outro campo de trabalho.
         Imaginemos que um explorador chega a uma regio pouco conhecida onde seu interesse  despertado por uma extensa rea de runas, com restos de paredes, fragmentos 
de colunas e lpides com inscries meio apagadas e ilegveis. Pode contentar-se em inspecionar o que est visvel, em interrogar os habitantes que moram nas imediaes 
- talvez uma populao semibrbara - sobre o que a tradio lhes diz a respeito da histria e do significado desses resduos arqueolgicos, e em anotar o que eles 
lhe comunicarem - e ento seguir viagem. Mas pode agir de modo diferente. Pode ter levado consigo picaretas, ps e enxadas, e colocar os habitantes para trabalhar 
com esses instrumentos. Junto com eles, pode partir para as runas, remover o lixo e, comeando dos resduos visveis, descobrir o que est enterrado. Se seu trabalho 
for coroado de xito, as descobertas se explicaro por si mesmas: as paredes tombadas so parte das muralhas de um palcio ou de um depsito de tesouro; os fragmentos 
de colunas podem reconstituir um templo; as numerosas inscries, que, por um lance de sorte, talvez sejam bilnges, revelam um alfabeto e uma linguagem que, uma 
vez decifrados e traduzidos, fornecem informaes nem mesmo sonhadas sobre os eventos do mais remoto passado em cuja homenagem os monumentos foram erigidos. Saxa 
loquuntur!
         Ao tentarmos, de maneira aproximadamente semelhante, induzir os sintomas da histeria a se fazerem ouvir como testemunhas da histria da origem da doena, 
devemos partir da portentosa descoberta de Josef Breuer: os sintomas das histeria ( parte os estigmas) so determinados por certas experincias do paciente que 
atuaram de modo traumtico e que so reproduzidas em sua vida psquica sob a forma de smbolos mnmicos. O que temos a fazer  aplicar o mtodo de Breuer - ou algum 
que lhe seja essencialmente idntico - de modo a fazer a ateno do paciente retroagir desde seu sintoma at a cena na qual e pela qual o sintoma surgiu; e, tendo 
assim localizado a cena, eliminamos o sintoma ao promover, durante a reproduo da cena traumtica, uma correo subseqente do curso psquico dos acontecimentos 
que ento ocorreram.
         No  minha inteno hoje discutir a difcil tcnica desse procedimento teraputico ou as descobertas psicolgicas que tm sido obtidas por seu intermdio. 
Sou obrigado a partir desse ponto apenas porque as anlises conduzidas nos termos de Breuer parecem, ao mesmo tempo, abrir caminho para as causas da histeria. Se 
submetermos a essa anlise um nmero bastante grande de sintomas em inmeros sujeitos, chegaremos naturalmente ao conhecimento de um nmero correspondentemente grande 
de cenas de ao traumatizante. So nessas experincias que as causas eficientes da histeria entram em ao. Assim, esperamos descobrir, partindo do estudo dessas 
cenas traumticas, quais so as influncias que produzem sintomas histricos e de que modo o fazem.
         Essa expectativa se mostra verdadeira; e nem poderia deixar de faz-lo, uma vez que as teses de Breuer, quando submetidas  verificao num nmero considervel 
de casos, revelaram-se corretas. Mas o caminho que vai dos sintomas da histeria at sua etiologia  mais trabalhoso, e passa por conexes bem diferentes do que se 
poderia imaginar.
         Portanto, vamos esclarecer esse ponto. A atribuio de um sintoma histrico  cena traumtica s auxilia nossa compreenso quando a cena atende a duas condies: 
quando possui a pertinente adequao para funcionar como determinante e quando tem, reconhecidamente, a necessria fora traumtica. Em vez de uma explicao verbal, 
aqui vai um exemplo. Suponhamos que o sintoma em exame seja o vmito histrico; nesse caso, consideraremos que nos foi possvel compreender sua causao (exceto 
por um certo resduo) se a anlise atribuir o sintoma a uma experincia que tenha justificavelmente produzido uma alta dose de repugnncia - por exemplo, a viso 
de um cadver em decomposio. Mas se, em vez disso, a anlise nos mostrar que o vmito proveio de um grande susto, como, por exemplo, num acidente ferrovirio, 
ficaremos insatisfeitos e teremos que nos perguntar por que o susto levou ao sintoma especfico do vmito. A essa derivao falta a adequao como determinante. 
Teremos outro caso de explicao insuficiente se o vmito for supostamente proveniente, digamos, de se ter comido uma fruta parcialmente estragada. Aqui,  verdade, 
o vmito  determinado pela repugnncia, mas no podemos compreender como, nesse caso, a nusea ter-se-ia tornado to poderosa a ponto de se perpetuar num sintoma 
histrico; falta  experincia fora traumtica.
         Consideremos agora at que ponto as cenas traumticas da histeria descobertas pela anlise preenchem, num grande nmero de sintomas e casos, os dois requisitos 
que nomeei. Aqui deparamos com nossa primeira grande decepo. Realmente  verdade que a cena traumtica de que se origina o sintoma possui, ocasionalmente, as duas 
qualidades - adequao como determinante e fora traumtica - de que precisamos para a compreenso do sintoma. Com muito mais freqncia, porm, com freqncia incomparavelmente 
maior, encontramos realizada uma de trs outras possibilidades muito desfavorveis  compreenso: ou a cena a que somos conduzidos pela anlise e na qual o sintoma 
apareceu pela primeira vez parece-nos inadequada para determin-lo, no sentido de que seu contedo no tem nenhuma relao com a natureza do sintoma; ou a experincia 
supostamente traumtica, embora tenha de fato uma relao com o sintoma, revela ser uma impresso normalmente incua e, via de regra, incapaz de produzir qualquer 
efeito; ou, finalmente, a "cena traumtica" nos deixa s escuras em ambos os aspectos, afigurando-se ao mesmo tempo incua e sem relao com o carter do sintoma 
histrico.
         (Posso observar aqui, de passagem, que a concepo de Breuer sobre a origem dos sintomas histricos no  abalada pela descoberta de cenas traumticas que 
correspondem a experincias insignificantes em si mesmas. Isso porque Breuer presumiu - seguindo Charcot - que mesmo uma experincia incua pode ser elevada  categoria 
de um trauma e desenvolver fora determinante, se acontecer com o sujeito num momento em que ele se achar num estado psquico especial - no que se descreve como 
estado hipnide. Considero, porm, que muitas vezes no h nenhum fundamento para se pressupor a presena de tais estados hipnides. O que permanece decisivo  que 
a teoria dos estados hipnides em nada contribui para a soluo das outras dificuldades, a saber, que falta freqentemente s cenas traumticas adequao como determinantes.)
         Alm disso, senhores, essa primeira decepo que enfrentamos ao seguir o mtodo de Breuer  imediatamente seguida de outra, que  especialmente dolorosa 
para ns como mdicos. Quando nosso procedimento leva, como nos casos descritos acima, a descobertas que so insuficientes enquanto explicao, tanto no aspecto 
de sua adequao como determinante quanto no de sua eficincia traumtica, tambm no conseguimos assegurar nenhum proveito teraputico; o paciente mantm seus sintomas 
inalterados, a despeito do resultado inicial produzido pela anlise. Os senhores podem compreender como  grande a tentao, nesse ponto, de no mais prosseguir 
no que, de qualquer modo,  um trabalho cansativo.
         Mas talvez tudo de que precisamos seja uma idia nova para nos ajudar a sair de nosso dilema e nos levar a resultados valiosos. A idia  a seguinte. Como 
sabemos atravs de Breuer, os sintomas histricos podem ser resolvidos quando, partindo deles, conseguimos encontrar o caminho de volta  lembrana de uma experincia 
traumtica. Se a lembrana que descobrimos no atende a nossa expectativa, talvez devamos prosseguir um pouco mais no mesmo caminho;  possvel que, por trs da 
primeira cena traumtica, oculte-se a lembrana de uma segunda cena que satisfaa melhor a nossos requisitos e cuja reproduo tenha maior efeito teraputico; de 
modo que a cena descoberta em primeiro lugar tem apenas a importncia de um elo de ligao na cadeia de associaes. E talvez essa situao se repita; cenas inoperantes 
podero ser interpoladas mais de uma vez, como transies necessrias no processo de reproduo, at que encontremos finalmente nosso caminho desde o sintoma histrico 
at a cena que  efetivamente traumatizante e satisfatria em ambos os aspectos, tanto teraputica como analiticamente. Bem, senhores, essa suposio  correta. 
Quando a cena inicialmente descoberta  insatisfatria, dizemos a nosso paciente que essa experincia nada explica, mas que por trs dela deve ocultar-se uma experincia 
anterior significativa; e dirigimos sua ateno, pela mesma tcnica, para o fio associativo que liga as duas lembranas - a que foi descoberta e a que ainda est 
por se revelar. O prosseguimento da anlise leva ento, na totalidade dos casos,  reproduo de novas cenas do tipo que esperamos. Por exemplo, consideremos mais 
uma vez o caso de vmitos histricos que selecionei antes e no qual a anlise remontou, primeiro, ao susto decorrente de um acidente ferrovirio - uma cena  qual 
faltava adequao como determinante. A anlise posterior mostrou que esse acidente despertara no paciente a lembrana de outro acidente anterior, que, na verdade, 
ele prprio no vivenciara, mas que lhe dera a oportunidade de ter uma viso medonha e repulsiva de um cadver.  como se a ao combinada das duas cenas tornasse 
possvel o cumprimento de nossos postulados, com uma experincia suprindo, pelo susto, a fora traumtica, e a outra, por seu contedo, o efeito determinante. O 
outro caso, em que o vmito foi atribudo ao ato de comer uma ma parcialmente estragada, foi ampliado pela anlise mais ou menos da seguinte maneira. A ma estragada 
recordara ao paciente uma experincia anterior: enquanto apanhava frutas derrubadas pelo vento num pomar, ele deparara acidentalmente com um animal morto em estado 
repugnante.
         No voltarei mais a esses exemplos, pois devo confessar que eles no derivam de nenhum caso da minha experincia, sendo por mim inventados. E alm disso, 
muito provavelmente, mal inventados. Chego at a considerar impossveis tais solues dos sintomas histricos. Mas fui obrigado a criar exemplos fictcios por vrias 
razes, uma das quais posso declarar de imediato. Todos os exemplos reais so incomparavelmente mais complicados: o relato detalhado de um s deles ocuparia todo 
o tempo desta conferncia. A cadeia de associaes tem sempre mais do que dois elos; e as cenas traumticas no formam uma corrente simples, como um fio de prolas, 
mas antes se ramificam e se interligam como rvores genealgicas, de modo que, a cada nova experincia, duas ou mais experincias anteriores entram em operao como 
lembranas. Em suma, fazer um relato da resoluo de um nico sintoma equivaleria, de fato,  tarefa de relatar um caso clnico inteiro.
         Mas no devemos deixar de conferir nfase especial a uma concluso a que inesperadamente levou o trabalho analtico ao longo dessas cadeias de lembranas. 
Aprendemos que nenhum sintoma histrico pode emergir de uma nica experincia real, mas que, em todos os casos, a lembrana de experincias mais antigas despertadas 
em associao com ela atua na causao do sintoma. Se - como acredito - essa proposio se confirmar sem excees, ela nos mostrar, alm disso, a base sobre a qual 
se deve construir uma teoria psicolgica da histeria.
         Talvez os senhores suponham que os raros casos em que a anlise consegue refazer o trajeto do sintoma, ligando-o diretamente a uma cena traumtica inteiramente 
adequada como determinante e que possui fora traumtica, e nos quais, ao refazer esse trajeto, ela consegue ao mesmo tempo eliminar o sintoma (da maneira descrita 
no caso clnico de Anna O., de Breuer) - talvez os senhores suponham que, afinal, esses casos devem constituir objees poderosas  validade geral da proposio 
que acabo de formular. Certamente  o que parece. Contudo, devo assegurar-lhes que tenho os melhores fundamentos para presumir que, mesmo nesses casos, h uma cadeia 
de lembranas atuantes que se estende muito alm da primeira cena traumtica, ainda que somente a reproduo desta ltima possa resultar na eliminao do sintoma.
         Parece-me realmente assombroso que os sintomas histricos s possam emergir com a cooperao das lembranas, sobretudo ao refletirmos que, de acordo com 
os relatos unnimes dos prprios pacientes, essas lembranas no tiveram acesso a suas conscincias no momento da primeira apario do sintoma. H aqui muita matria 
para reflexo, mas esses problemas no devem desviar-nos, neste ponto, de nossa discusso sobre a etiologia da histeria. Devemos, antes, perguntar-nos: a que ponto 
chegaremos se seguirmos as cadeias de lembranas associadas que a anlise desvendou? At onde elas se estendem? Ser que em algum ponto encontram um fim natural? 
Levaro elas, talvez, experincias de algum modo parecidas, seja em seu contedo, seja no perodo de vida em que ocorrem, de sorte que possamos discernir nesses 
fatores universalmente similares a etiologia da histeria que estamos procurando?
         Os conhecimentos que adquiri at aqui j me habilitam a responder a essas perguntas. Ao considerarmos um caso que apresenta vrios sintomas, chegamos, atravs 
da anlise, partindo de cada sintoma, a uma srie de experincias cujas lembranas se ligam em associao. A princpio, as cadeias de lembranas percorrem cursos 
regressivos independentes, mas, como j disse, ramificam-se. A partir de uma mesma cena, duas ou mais lembranas so atingidas ao mesmo tempo e destas, por sua vez, 
procedem cadeias laterais cujos elos individuais podem mais uma vez estar associativamente ligados a elos pertencentes  cadeia principal. Na verdade, a comparao 
com a rvore genealgica de uma famlia cujos membros tambm se casassem entre si no  nada m. Outras complicaes na vinculao das cadeias emergem da circunstncia 
de que uma nica cena pode ser evocada vrias vezes na mesma cadeia, apresentando assim mltiplas relaes com uma cena posterior e exibindo com ela tanto uma conexo 
direta quanto uma conexo estabelecida atravs de laos intermedirios. Em suma, a concatenao est longe de ser simples; e o fato de as cenas serem descobertas 
numa ordem cronolgica invertida (fato esse que justifica nossa comparao desse trabalho com a escavao de uma rea) certamente em nada contribui para uma compreenso 
mais rpida do que ocorreu.
         Quando a anlise vai mais alm, surgem novas complicaes. As cadeias associativas pertencentes aos diferentes sintomas comeam a se relacionar entre si; 
as rvores genealgicas se interpenetram. Assim, por exemplo, um sintoma especfico na cadeia de lembranas relacionada com o sintoma do vmito invoca no apenas 
os elos anteriores de sua prpria cadeia, mas tambm uma lembrana de outra cadeia, relacionada com outro sintoma, tal como dor de cabea. Essa experincia, conseqentemente, 
pertence a ambas as sries, e portanto constitui um ponto nodal. Vrios desses pontos nodais podem ser encontrados em toda anlise. Seu correlato no quadro clnico 
pode ser o fato de, a partir de certo momento, ambos os sintomas aparecerem juntos, simbioticamente, sem terem de fato qualquer dependncia interna entre si. Retrocedendo 
ainda mais, deparamos com pontos nodais de outra espcie. Aqui, as cadeias associativas separadas convergem. Encontramos experincias de que dois ou mais sintomas 
se originaram; uma cadeia ligou-se a um detalhe da cena, e segunda, a outro.
         Mas a descoberta mais importante a que chegamos, quando uma anlise  sistematicamente conduzida,  a seguinte: qualquer que seja o caso e qualquer que 
seja o sintoma que tomemos como ponto de partida, no fim chegamos infalivelmente ao campo da experincia sexual. Aqui, portanto, pela primeira vez, parece que descobrimos 
uma precondio etiolgica dos sintomas histricos.
         Ajulgar pela experincia prvia, antevejo que  precisamente contra essa assero ou contra sua validade universal que sua objeo, senhores, ser dirigida. 
Talvez fosse melhor dizer, sua inclinao a contestar, pois nenhum dos senhores, sem dvida, dispe at o momento de investigaes que, baseadas no mesmo procedimento, 
possam ter produzido um resultado diferente. No que tange ao prprio tema controvertido, farei apenas a observao de que a escolha do fator sexual na etiologia 
da histeria no procede, pelo menos, de nenhuma opinio preconcebida de minha parte. Os dois investigadores como discpulo dos quais iniciei meus estudos da histeria, 
Charcot e Breuer, estavam longe de tal pressuposio; de fato, tinham uma preveno pessoal contra ela, da qual eu originalmente partilhava. Apenas as mais laboriosas 
e detalhadas investigaes converteram-me, e bastante lentamente,  concepo que hoje sustento. Se submeterem ao mais rigoroso exame minha afirmao de que a etiologia 
da histeria repousa na vida sexual, os senhores verificaro que ela  confirmada pelo fato de que, em dezoito casos de histeria, pude descobrir essa conexo em cada 
sintoma isolado e, onde o permitiram as circunstncias, pude confirm-lo pelo sucesso teraputico. Sem dvida, os senhores podero levantar a objeo de que a dcima 
nona ou a vigsima anlise talvez mostre que os sintomas histricos derivam tambm de outras fontes, assim reduzindo a validade universal da etiologia sexual a uns 
oitenta por cento. Mas claro, vamos esperar para ver! No entanto, j que esses dezoito casos so, ao mesmo tempo, todos os casos em que pude realizar o trabalho 
da anlise, e j que no foram selecionados por ningum visando a minha convenincia, os senhores ho de considerar compreensvel que eu no partilhe essa expectativa, 
mas esteja disposto a deixar minha crena adiantar-se  fora comprobatria das observaes que fiz at agora. Alm disso, sou tambm influenciado por outro motivo, 
que no momento  de valor meramente subjetivo. Na nica tentativa que pude fazer de explicar o mecanismo filosfico e psquico da histeria, para correlacionar minhas 
observaes, passei a encarar a participao das foras motivadoras sexuais como uma premissa indispensvel.
         Eventualmente, portanto, aps terem convergido as cadeias de lembranas, chegamos ao campo da sexualidade e a um pequeno nmero de experincias que ocorrem, 
em sua maior parte, no mesmo perodo da vida - ou seja, na puberdade. Ao que parece,  nessas experincias que devemos procurar a etiologia da histeria, e  atravs 
delas que aprenderemos a compreender a origem dos sintomas histricos. Mas aqui encontramos uma nova e serissima decepo.  verdade que essas experincias, descobertas 
com tanta dificuldade e extradas de todo o material mnmico, e que pareceriam ser as experincias traumticas mximas, tm em comum as duas caractersticas de serem 
sexuais e ocorrerem na puberdade; mas em todos os outros aspectos, elas diferem muito entre si, tanto em espcie como em importncia. Em alguns casos, sem dvida, 
nosso interesse  voltado para experincias que devem ser encaradas como traumas graves - uma tentativa de estupro, talvez, que de um s golpe revela a uma menina 
imatura toda a brutalidade do desejo sexual, ou o testemunho involuntrio de atos sexuais entre os pais, que a um s tempo mostra uma insuspeitada fealdade e fere 
do mesmo modo a sensibilidade moral e infantil, e assim por diante. Em outros casos, porm, as experincias so surpreendentemente triviais. No caso de uma de minhas 
pacientes, sua neurose revelou basear-se na seguinte experincia: um menino de seu crculo de relaes lhe acariciara ternamente a mo e, em outra oportunidade, 
pressionara o joelho contra o vestido dela quando ambos se sentavam  mesa lado a lado, com uma expresso no rosto que a fez perceber que ele estava fazendo alguma 
coisa proibida. No caso de outra moa, o simples fato de ouvir uma charada que sugeria uma resposta obscena foi suficiente para provocar o primeiro ataque de angstia, 
e, com ele, o incio da doena. Tais descobertas obviamente no favorecem a compreenso da causao dos sintomas histricos. Se tanto os acontecimentos graves quanto 
os banais, e no apenas as experincias que afetam o prprio corpo do sujeito, mas tambm as impresses visuais e as informaes recebidas pela audio devem ser 
reconhecidas como traumas ltimos da histeria, podemos ser tentados a arriscar a explicao de que os histricos so criaturas peculiarmente constitudas - provavelmente 
em virtude de alguma predisposio hereditria ou atrofia degenerativa -, nas quais um retraimento da sexualidade, que normalmente ocorre na puberdade,  elevado 
a um grau patolgico e  permanentemente mantido; so, portanto, por assim dizer, pessoas psiquicamente inaptas para atender s exigncias da sexualidade. Essa concepo, 
 claro, deixa sem explicao a histeria masculina. No entanto, mesmo sem essas objees flagrantes, dificilmente ficaramos tentados a nos contentar com essa soluo. 
Estamos cnscios demais de um sentimento intelectual de algo apenas parcialmente entendido, obscuro e insuficiente.
         Para a felicidade de nossa explicao, algumas dessas experincias sexuais da puberdade mostram mais uma insuficincia que  a conta certa para nos estimular 
a prosseguir em nosso trabalho analtico. Pois ocorre que, algumas vezes, tambm a elas falta adequao como determinante - embora isso ocorra muito mais raramente 
do que com as cenas traumticas pertencentes a uma etapa posterior da vida. Assim, por exemplo, tomemos as duas pacientes a quem acabo de me referir como casos em 
que as experincias da puberdade foram realmente inocentes. Em conseqncia dessas experincias, as pacientes ficaram sujeitas a peculiares sensaes dolorosas nos 
rgos genitais, que se haviam estabelecido como os principais sintomas da neurose. No pude encontrar nenhum indcio de que tivessem sido determinadas pelas cenas 
da puberdade ou por cenas posteriores; todavia, certamente no eram sensaes orgnicas normais, nem sinais de excitao sexual. Parecia bvio, portanto, dizer a 
ns mesmos que deveramos procurar os determinantes desses sintomas em outras experincias - em experincias que retrocedessem ainda mais - e que deveramos, pela 
segunda vez, seguir a salvadora noo que j nos levara das primeiras cenas traumticas s cadeias de lembranas por trs delas. Ao fazer isso,  claro, chegamos 
ao perodo da primeira infncia, a um perodo anterior ao desenvolvimento da vida sexual;e isso pareceria envolver o abandono de uma etiologia sexual. Mas ser que 
no temos o direito de presumir que nem mesmo a infncia  desprovida de leves excitaes sexuais, e que o futuro desenvolvimento sexual talvez seja decisivamente 
influenciado pelas experincias infantis? As leses sofridas por um rgo ainda imaturo, ou por uma funo em processo de desenvolvimento, freqentemente causam 
efeitos mais graves e duradouros do que causariam em poca mais madura. Talvez a reao anormal s impresses sexuais, que nos surpreende nos sujeitos histricos 
na fase da puberdade, baseie-se, muito genericamente, nesse tipo de experincias sexuais na infncia, caso em que tais experincias devero ser de natureza uniforme 
e importante. Se assim for, estar aberta a perspectiva de que o que at agora se atribuiu a uma predisposio hereditria ainda inexplicada possa ser compreendido 
como algo adquirido em tenra idade. E j que, afinal, as experincias infantis de contedo sexual s poderiam exercer efeito psquico atravs de seus traos mnmicos, 
no seria essa concepo uma ampliao bem-vinda da descoberta da psicanlise que nos diz que os sintomas histricos s podem emergir com a cooperao de lembranas? 
|ver em [1] e [2].|
         
         II
         
         Os senhores, sem dvida, ho de ter imaginado que eu no teria levado to longe esta ltima linha de raciocnio se no quisesse prepar-los para a idia 
de que  s essa linha que, aps tantas delongas, ns levar a nosso objetivo. Pois agora estamos realmente no fim de nosso cansativo e penoso trabalho analtico, 
e aqui vemos a realizao de todas as pretenses e expectativas em que vnhamos insistindo. Se tivermos a perseverana de avanar na anlise at atingir a primeira, 
retrocedendo at onde a memria humana  capaz de alcanar, invariavelmente levaremos o paciente a reproduzir experincias que, graas a seus traos peculiares e 
suas relaes com os sintomas da doena posterior, devem ser consideradas como a procurada etiologia de sua neurose. Essas experincias infantis so, mais uma vez, 
de contedo sexual, mas de um tipo muito mais uniforme do que as cenas da puberdade anteriormente descobertas. No se trata mais de temas sexuais que tenham sido 
despertados por uma ou outra impresso sensorial, mas de experincias sexuais que afetaram o prprio corpo do sujeito - de contato sexual (no sentido mais amplo). 
Os senhores ho de admitir que a importncia dessas cenas dispensa provas adicionais; a isso podemos agora acrescentar que, na totalidade dos casos, os senhores 
podero descobrir, nos detalhes das cenas, os fatores determinantes que talvez faltassem s outras cenas - s cenas que ocorreram mais tarde e foram primeiro reproduzidas. 
|Cf. em [1].|
         Exponho, portanto, a tese de que, na base de todos os casos de histeria, h uma ou mais ocorrncias de experincia sexual prematura, ocorrncias estas que 
pertencem aos primeiros anos da infncia, mas que podem ser reproduzidas atravs do trabalho da psicanlise a despeito das dcadas decorridas no intervalo. Creio 
que essa  uma descoberta importante, a descoberta de uma caput Nili na neuropatologia; mas -me difcil saber que ponto de partida devo tomar para o prosseguimento 
de minha discusso deste assunto. Deverei apresentar-lhes o material real que obtive em minhas anlises? Ou deverei primeiro tentar fazer face  multido de objees 
e dvidas que, como  seguramente acertado supor, deve agora ter-se apossado de sua ateno? Escolherei esse ltimo caminho; talvez possamos ento examinar os fatos 
com mais calma.
         (a) Ningum que se oponha completamente a uma viso psicolgica da histeria, que no se disponha a desistir da esperana de que algum dia seja possvel 
reportar seus sintomas a "alteraes anatmicas mais sutis" e que tenha rejeitado a concepo de que as bases materiais das mudanas histricas esto fadadas a ser 
do mesmo tipo que as de nossos processos mentais normais - ningum que adote essa atitude,  claro, ter qualquer confiana nos resultados de nossas anlises; entretanto, 
a diferena de princpio entre suas premissas e as nossas dispensa-nos da obrigao de convenc-lo de quaisquer aspectos individuais.
         Mas tambm outras pessoas, ainda que menos avessas s teorias psicolgicas da histeria, ficaro tentadas, ao considerarem nossas descobertas analticas, 
a indagar sobre o grau de certeza que a aplicao da psicanlise oferece. E no ser tambm possvel que o mdico imponha tais cenas a seus dceis pacientes, alegando 
que elas so lembranas, ou ainda, que os pacientes digam ao mdico coisas que imaginaram ou inventaram deliberadamente, e que ele as aceite como verdadeiras? Bem, 
minha resposta a isso  que a dvida geral quanto  fidedignidade do mtodo psicanaltico s poder ser apreciada e eliminada quando se dispuser de uma apresentao 
completa de sua tcnica e seus resultados. As dvidas quanto  autenticidade das cenas sexuais infantis, entretanto, podem ser rebatidas aqui e agora por mais de 
um argumento. Em primeiro lugar, o comportamento dos pacientes enquanto reproduzem essas experincias infantis , sob todos os aspectos, incompatvel com a pressuposio 
de que as cenas no sejam uma realidade sentida com sofrimento e reproduzida com a mais extrema relutncia. Antes de entrarem em anlise, os pacientes nada sabem 
sobre essas cenas. Em geral, ficam indignados quando os advertimos de que tais cenas iro emergir. Apenas a intensa compulso do tratamento consegue induzi-los a 
embarcar na reproduo delas. Enquanto trazem essas experincias infantis  conscincia, eles sofrem as mais violentas sensaes, das quais se envergonham e que 
tentam ocultar; e, mesmo depois de as terem revivido mais uma vez de maneira to convincente, ainda tentam negar-lhes crdito, enfatizando o fato de que, contrariamente 
ao que acontece no caso de outros dados esquecidos, eles no tm nenhuma sensao de se lembrarem das cenas.
         Esse ltimo detalhe do comportamento parece fornecer provas conclusivas. Por que os pacientes me garantiriam to enfaticamente sua descrena, se o que querem 
desacreditar  alguma coisa que - por qualquer motivo - eles prprios inventaram?
          menos fcil refutar a idia de que o mdico impe esse tipo de reminiscncias ao paciente, influenciando-o por sugesto a imagin-las e reproduzi-las. 
Contudo, isso me parece igualmente insustentvel. At hoje, jamais consegui impor a um paciente uma cena que eu esperasse descobrir, de tal modo que ele parecesse 
viv-la com todos os sentimentos apropriados. Talvez outros tenham mais xito nisso que eu.
         H, todavia, inmeras outras coisas que atestam a realidade das cenas sexuais infantis. Em primeiro lugar, h a uniformidade que elas exibem em certos detalhes, 
o que constitui uma conseqncia necessria, caso as precondies dessas experincias sejam sempre do mesmo tipo, e que, se assim no fosse, levar-nos-ia a crer 
na existncia de um entendimento secreto entre os vrios pacientes. Em segundo lugar, os pacientes s vezes descrevem como sendo inofensivos certos eventos cuja 
importncia obviamente no percebem, j que, de outro modo, ficariam horrorizados com eles. Ou ento mencionam, sem conferir-lhes qualquer nfase, detalhes que somente 
algum com experincia na vida  capaz de compreender e apreciar como indcios sutis de realidade.
         Esse tipo de acontecimento fortalece nossa impresso de que os pacientes devem realmente ter vivenciado aquilo que, sob a compulso da anlise, reproduzem 
como cenas de sua infncia. Mas outra prova ainda mais forte disso  fornecida pela relao das cenas infantis com o contedo de todo o restante do caso clnico. 
 exatamente como montar as peas de um quebra-cabea infantil: depois de muitas tentativas, ficamos absolutamente certos, no final, de qual das peas se encaixa 
numa dada lacuna, pois apenas aquela pea completa o quadro e, ao mesmo tempo, permite que suas bordas irregulares se ajustem s bordas das outras peas de modo 
a no deixar nenhum espao vazio nem acarretar nenhuma superposio. Do mesmo modo, os contedos das cenas infantis revelam-se como complementos indispensveis  
estrutura associativa e lgica da neurose, e sua insero evidencia pela primeira vez o curso de desenvolvimento da neurose, ou mesmo, como muitas vezes poderamos 
dizer, torna-o auto-evidente.
         Sem pretender enfatizar especialmente esse ponto, acrescentarei que, em diversos casos, tambm  possvel fornecer provas teraputicas da autenticidade 
das cenas infantis. H casos em que se pode obter uma cura parcial ou completa sem que tenhamos de nos aprofundar nas experincias infantis. E h outros em que no 
se obtm absolutamente nenhum sucesso at que a anlise chegue a seu fim natural, com a descoberta dos traumas mais primitivos. A meu ver, nos primeiros casos, no 
temos garantia contra as recadas; e  minha expectativa que uma psicanlise completa implique uma cura radical da histeria. No devemos, entretanto, ser levados 
a antecipar as lies da observao.
         Haveria outra prova realmente inatacvel da autenticidade das experincias sexuais infantis - a saber, se as declaraes de algum que estivesse sendo analisado 
fossem confirmadas por outra pessoa, em tratamento ou no. Essas duas pessoas deveriam ter tomado parte numa mesma experincia em sua infncia - talvez mantido algum 
relacionamento sexual entre si. Tais relaes entre crianas, como os senhores vero num momento |ver em [1]|, no so nada raras. Alm disso,  muito freqente 
ambas as pessoas envolvidas sofrerem posteriormente de neurose; mas considero um acidente fortuito que, em dezoito casos, eu tenha podido obter em dois uma confirmao 
objetiva desse tipo. Num dos casos, foi o irmo (que permanecera sadio) que confirmou, voluntariamente no,  verdade, suas experincias sexuais precoces com a irm 
(que era a paciente), mas, pelo menos, a existncia de cenas desse tipo em poca posterior de sua infncia, e o fato de ter havido relaes sexuais ainda mais cedo. 
No outro caso, deu-se que duas mulheres que eu estava tratando haviam mantido, na infncia, relaes sexuais com o mesmo homem, havendo certas cenas ocorrido  trois. 
Um sintoma especfico, derivado desses eventos infantis, havia surgido em ambas as mulheres, como prova de sua experincia em comum.
         (b) As experincias sexuais infantis que consistem na estimulao dos rgos genitais, em atos semelhantes ao coito, e assim por diante, devem portanto 
ser consideradas, em ltima anlise, como os traumas que levam a uma reao histrica nos eventos da puberdade e ao desenvolvimento de sintomas histricos. Essa 
afirmao certamente encontrar duas objees mutuamente contraditrias, procedentes de diferentes direes. Algumas pessoas diro que esse tipo de abusos sexuais, 
sejam eles praticados contra as crianas ou entre elas, so raros demais para que se possa consider-los como o determinante de uma neurose to comum quanto a histeria. 
Outros talvez argumentem que, pelo contrrio, tais experincias so muito freqentes - freqentes demais para que possamos atribuir a sua ocorrncia uma significao 
etiolgica. Sustentaro ainda que  fcil, em se fazendo algumas inquiries, encontrar pessoas que se recordam de cenas de seduo sexual e de abuso sexual nos 
anos da infncia e que, mesmo assim, nunca foram histricas. Finalmente nos diro, como um argumento de peso, que, nas camadas mais baixas da populao, a histeria 
certamente no  mais comum do que nas mais altas, ao passo que tudo indica que a injuno da salvaguarda sexual da infncia  muito mais freqentemente transgredida 
no caso das crianas do proletariado.
         Comecemos nossa defesa pela parte mais fcil. Parece-me certo que nossos filhos so muito mais freqentemente expostos a ataques sexuais do que nos levariam 
a esperar as escassas precaues tomadas pelos pais a esse respeito. Quando fiz minhas primeiras indagaes sobre o que se conhecia do assunto, fiquei sabendo, atravs 
de colegas, que existem vrias publicaes peditricas estigmatizando a freqncia de prticas sexuais por amas de leite e por babs, realizadas at mesmo com crianas 
de colo; e h poucas semanas deparei com uma discusso do "Coito na Infncia", do Dr. Stekel (1895), de Viena. No tive tempo de coligir outras provas publicadas, 
mas ainda que elas sejam escassas,  de se esperar que uma ateno maior para o assunto venha a confirmar muito em breve a grande freqncia das experincias sexuais 
e da atividade sexual na infncia.
         Por ltimo, as descobertas de minha anlise esto em condies de falar por si. Em todos os dezoito casos (de histeria pura e histeria combinada com obsesses, 
abrangendo seis homens e doze mulheres), vim a saber, como j disse, de experincias sexuais desse tipo na infncia. Posso dividir meus casos em trs grupos, de 
acordo com a origem da estimulao sexual. No primeiro grupo, trata-se de ataques - de situaes nicas ou, pelo menos, isoladas, de abuso praticado, em sua maior 
parte, em crianas do sexo feminino, por adultos que eram estranhos e que, alis, sabiam como evitar infligir grandes danos mnmicos. Nesses ataques, est fora de 
dvida que no houve consentimento da criana, e o primeiro efeito da experincia foi preponderantemente de susto. O segundo grupo consiste nos casos muito mais 
numerosos em que algum adulto que cuidava da criana - uma bab, uma governanta, um tutor ou, infelizmente, com freqncia grande demais, um parente prximo - iniciou 
a criana no contato sexual e manteve com ela uma relao amorosa regular - uma relao amorosa que teve, alm disso, seu lado mental desenvolvido - que, muitas 
vezes, durou anos. O terceiro grupo, finalmente, contm relaes infantis propriamente ditas - relaes sexuais entre duas crianas de sexo diferente, em geral um 
irmo e uma irm, que se prolongam com freqncia alm da puberdade e tm as mais extensas conseqncias para o par. Na maioria de meus casos, verifiquei que havia 
duas ou mais dessas etiologias em ao ao mesmo tempo; em alguns casos, o acmulo de experincias sexuais oriundas de fontes diferentes era verdadeiramente impressionante. 
Contudo, os senhores facilmente entendero esse trao peculiar de minhas observaes ao considerarem que todos os pacientes que eu estava tratando eram casos de 
neurose grave, que ameaava tornar a vida impossvel.
         Nos casos em que tinha havido uma relao entre duas crianas, pude algumas vezes provar que o menino - desempenhando, aqui tambm, o papel do agressor 
- fora previamente seduzido por um adulto do sexo feminino, e que depois, sob a presso de sua libido prematuramente despertada e compelido por sua lembranas, tentara 
repetir com a garotinha exatamente as mesmas prticas que aprendera com a mulher adulta, sem fazer qualquer modificao por sua conta no carter da atividade sexual.
         Em vista disso, inclino-me a supor que as crianas no sabem chegar aos atos de agresso sexual, a menos que tenham sido previamente seduzidas.Por conseguinte, 
as bases da neurose seriam sempre lanadas na infncia por adultos, e as prprias crianas transferiram umas s outras a predisposio para serem acometidas de histeria 
posteriormente. Peo-lhes que considerem por mais um momento a especial freqncia com que as relaes sexuais na infncia ocorrem precisamente entre irmos, irms 
e primos, em decorrncia das oportunidades to freqentes de estarem juntos; supondo-se ento que, dez ou quinze anos depois, vrios membros da gerao mais nova 
da famlia se revelem doentes, no poderia essa aparncia de neurose familiar levar naturalmente  falsa suposio da existncia de uma predisposio hereditria 
quando h apenas uma pseudo-hereditariedade e quando, de fato, o que houve foi uma contaminao, uma infeco na infncia?
         Voltemo-nos agora para a outra objeo |ver em [1]|, baseada precisamente num reconhecimento da freqncia das experincias sexuais infantis e no fato observado 
de que muitas pessoas que se recordam de tais cenas no se tornaram histricas. Nossa primeira resposta  que a freqncia excessiva de um fator etiolgico no tem 
possibilidade de ser usada como objeo a sua importncia etiolgica. Ento no  ubquo o bacilo da tuberculose, e no  ele inalado por muito mais pessoas do que 
as que efetivamente adoecem de tuberculose? E ser sua importncia etiolgica diminuda pelo fato de que, obviamente, deve haver tambm outros fatores em ao para 
que a tuberculose, que  seu efeito especfico, seja evocada? Para se estabelecer o bacilo com etiologia especfica, basta mostrar que a tuberculose no tem como 
ocorrer sem sua atuao. O mesmo se aplica, sem dvida, a nosso problema. No importa que muitas pessoas vivenciem cenas sexuais infantis sem se tornarem histricas, 
desde que todas as que se tornam histricas tenham vivenciado cenas dessa ordem. Pode-se admitir livremente que a rea de ocorrncia de um fator etiolgico seja 
mais ampla que a de seu efeito, mas ela no deve ser mais estreita. Nem todas as pessoas que se aproximam ou que tocam num paciente com varola contraem a doena; 
no obstante, a infeco  quase a nica etiologia conhecida da varola.
          verdade que, se a atividade sexual infantil fosse uma ocorrncia quase universal, a demonstrao de sua presena em todos os casos no teria nenhum peso. 
Mas, para comear, asseverar tal coisa seria certamente um grande exagero; e, em segundo lugar, as pretenses etiolgicas das cenas infantis repousam no apenas 
na regularidade de seu aparecimento nas anamneses dos histricos, mas tambm, acima de tudo, na evidncia de haver laos lgicos e associativos entre essas cenas 
e os sintomas histricos - evidncia que, se lhes fosse apresentado todo o relato de um caso clnico, seria para os senhores to clara como a luz do dia.
         Quais podem ser os outros fatores de que a "etiologia especfica" da histeria ainda necessita para produzir realmente a neurose? Esse, senhores,  um tema 
por si s, que no proponho examinar agora. Hoje preciso apenas indicar o ponto de contato em que as duas partes do tema - a etiologia especfica e a auxiliar - 
se encaixam. Sem dvida, inmeros fatores tero que ser levados em conta. Haver a constituio hereditria e pessoal do sujeito, a importncia intrnseca das experincias 
sexuais infantis e, acima de tudo, seu nmero - um relacionamento breve com um garoto estranho, que depois se torna indiferente, deixar um efeito menos poderoso 
numa menina do que relaes sexuais ntimas mantidas por vrios anos com seu prprio irmo. Na etiologia das neuroses, as precondies quantitativas so to importantes 
quanto as qualitativas: h valores liminares que tm que ser transpostos para que a doena possa tornar-se manifesta. Alm disso, eu mesmo no considero completa 
essa srie etiolgica, nem ela resolve o enigma de por que a histeria no  mais comum entre as classes inferiores. (A propsito, os senhores devem estar lembrados 
da incidncia surpreendentemente grande de histeria relatada por Charcot entre homens da classe trabalhadora.) Posso tambm recordar-lhes que, h alguns anos, eu 
prprio apontei um fator, at ento pouco considerado, ao qual atribuo o papel principal na provocao da histeria depois da puberdade. Propus ento a idia de que 
a ecloso da histeria pode ser quase invariavelmente atribuda a um conflito psquico que emerge quando uma representao incompatvel detona uma defesa por parte 
do ego e solicita um recalcamento. Na poca, eu no soube dizer quais seriam as circunstncias em que um esforo defensivo desse tipo teria o efeito patolgico de 
realmente jogar no inconsciente uma lembrana que fosse aflitiva para o ego e de criar um sintoma histrico em seu lugar. Hoje, porm, posso reparar essa omisso. 
A defesa cumpre seu propsito de arremessar a representao incompatvel para fora da conscincia quando h cenas sexuais infantis presentes no sujeito (at ento 
normal) sob a forma de lembranas inconscientes, e quando a representao a ser recalcada pode vincular-se em termos lgicos e associativos com uma experincia infantil 
desse tipo.
         Visto que os esforos defensivos do ego dependem do desenvolvimento moral e intelectual completo do sujeito, o fato de a histeria ser muito mais rara nas 
classes inferiores do que o justificaria sua etiologia especfica deixa de ser inteiramente incompreensvel.
         Voltemos uma vez mais, senhores, ao ltimo grupo de objees, cuja resposta j nos levou por um caminho to longo. J ouvimos e reconhecemos que h numerosas 
pessoas com uma recordao muito ntida de experincias sexuais infantis e que, no obstante, no sofrem de histeria. Essa objeo no tem valor; propicia, porm, 
uma oportunidade para se tecer um valioso comentrio. De acordo com nossa compreenso da neurose, as pessoas desse tipo no devem em absoluto ser histricas, ou 
pelo menos, no devem ser histricas em conseqncia das cenas de que se lembram conscientemente. Em nossos pacientes, essas lembranas nunca so conscientes; ao 
contrrio, ns os curamos da histeria, transformando suas lembranas inconscientes das cenas infantis em lembranas conscientes. Nada h que possamos ou precisemos 
fazer quanto ao fato de eles terem tido tais experincias. Disso os senhores podero perceber que o problema no  apenas a existncia de experincias sexuais, mas 
que uma precondio psicolgica tambm entra em jogo. As cenas devem estar presentes como lembranas inconscientes; apenas desde que e na medida em que sejam inconscientes 
 que elas podem criar e manter os sintomas histricos. Mas o que decide se essas experincias produziro lembranas conscientes ou inconscientes - se isso  condicionado 
pelo contedo das experincias, pela poca em que ocorrem ou por influncias posteriores - constitui um novo problema, que prudentemente evitaremos. Deixem-me apenas 
lembrar-lhes, como primeira concluso, que a anlise chegou  proposio de que os sintomas histricos so derivados de lembranas que agem inconscientemente.
         (c) Sustentamos, portanto, que as experincias sexuais infantis constituem a precondio fundamental da histeria, que so, por assim dizer, a predisposio 
para esta, e que so elas que criam os sintomas histricos - mas no o fazem de imediato, permanecendo inicialmente sem efeito e s exercendo uma ao patognica 
depois, ao serem despertadas, aps a puberdade, sob a forma de lembranas inconscientes. Se mantivermos essa posio, teremos que enfrentar as numerosas observaes 
que mostram que uma doena histrica j pode manifestar-se na infncia e antes da puberdade. Essa dificuldade, entretanto,  esclarecida to logo examinamos mais 
detidamente os dados procedentes de anlises referentes  cronologia das experincias infantis. Verificamos ento que, em nossos casos graves, a formao dos sintomas 
comea - no em casos excepcionais, mas antes, regularmente - na idade de oito anos, e que as experincias sexuais que no apresentam nenhum efeito imediato remontam, 
invariavelmente, a uma poca mais precoce, ao terceiro ou quarto, ou mesmo ao segundo ano de vida. Uma vez que em nenhum dos casos a cadeia de experincias afetivas 
se interrompe aos oito anos, devo presumir que esse perodo da vida, a fase do crescimento em que ocorre a segunda dentio, constitui uma linha limtrofe para a 
histeria, depois da qual a doena no pode ser causada. A partir da, uma pessoa que no tenha tido experincias sexuais anteriormente no mais pode tornar-se predisposta 
 histeria; e uma pessoa que tenha tido experincias anteriores j  capaz de desenvolver sintomas histricos. Os casos isolados de ocorrncia da histeria do outro 
lado da linha limtrofe (isto , antes da idade de oito anos) podem ser interpretados como um fenmeno de maturidade precoce. A existncia dessa linha limtrofe 
est muito provavelmente ligada aos processos de desenvolvimento do sistema sexual. A precocidade do desenvolvimento sexual somtico pode ser freqentemente observada 
e  at possvel que seja promovida por uma estimulao sexual prematura.
         Desse modo obtemos uma indicao de que  necessrio um certo estado infantil das funes psquicas, assim como do sistema sexual, para que uma experincia 
sexual ocorrida durante esse perodo produza, mais tarde, sob a forma de lembrana, um efeito patognico. No me aventuro ainda, entretanto, a fazer qualquer afirmao 
mais precisa sobre a natureza desse infantilismo psquico ou sobre seus limites cronolgicos.
         (d) Outra objeo poderia ser suscitada pela crtica  suposio de que a lembrana das experincias sexuais infantis produza um efeito patognico to imenso, 
enquanto a prpria experincia real no tem qualquer efeito. E  verdade que no estamos acostumados  noo de poderes emanados de uma imagem mnmica e que tenham 
estado ausentes da impresso real. Ademais, os senhores podero notar a consistncia com que se mantm na histeria a proposio de que os sintomas s podem proceder 
de lembranas. Nenhuma das cenas posteriores, nas quais emergem os sintomas,  efetiva; e as experincias que so efetivas no tm, de incio, nenhuma conseqncia. 
Todavia, defrontamo-nos aqui com um problema que podemos, muito justificadamente, manter separado de nosso tema.  verdade que nos sentimos impelidos a fazer uma 
sntese ao examinarmos o nmero de condies excepcionais que passamos a conhecer: o fato de que, para a formao de uma sintoma histrico, deve haver um esforo 
defensivo contra uma representao aflitiva; de que essa representao deve apresentar uma conexo lgica ou associativa com uma lembrana inconsciente atravs de 
alguns ou muitos elos intermedirios, que tambm permanecem inconscientes no momento; de que essa lembrana inconsciente deve ter um contedo sexual; e de que esse 
contedo deve ser uma experincia ocorrida durante certo perodo infantil da vida.  verdade que no podemos deixar de nos perguntar como  que essa lembrana de 
uma experincia que foi incua na ocasio em que ocorreu poderia produzir, postumamente, o efeito anormal de levar um processo psquico como a defesa a um resultado 
patolgico, enquanto ela prpria permanece inconsciente.
         Contudo, teremos que nos dizer que esse  um problema puramente psicolgico, cuja soluo talvez exija certas hipteses sobre os processos psquicos normais 
e sobre o papel neles desempenhado pela conscincia, mas que  um problema que pode permanecer sem soluo por ora, sem diminuir o valor do discernimento que obtivemos 
at aqui acerca da etiologia dos fenmenos histricos.
         
         III
         
         Senhores, o problema cuja abordagem acabei de formular refere-se ao mecanismo da formao dos sintomas histricos. Vemo-nos obrigados, porm, a descrever 
a causao desses sintomas sem levar em conta esse mecanismo, o que envolve uma perda inevitvel de integralidade e clareza em nossa discusso. Voltemos ao papel 
desempenhado pelas cenas sexuais infantis. Temo que possa t-los levado a superestimarem erroneamente seu poder formador de sintomas. Permitam-me, pois, frisar mais 
uma vez o fato de que todos os casos de histeria apresentam sintomas determinados no por experincias infantis, mas por experincias posteriores, muitas vezes recentes. 
Outros sintomas,  verdade, remontam s primeirssimas experincias e pertencem, por assim dizer,  mais antiga nobreza. Entre essas ltimas se encontram, principalmente, 
as numerosas e diversas sensaes e parestesias dos rgos genitais e de outras partes do corpo, sendo tais sensaes e parestesias fenmenos que simplesmente correspondem 
ao contedo sensorial das cenas infantis, reproduzidas de maneira alucinatria e, muitas vezes,das mesmas experincias infantis e era explicado, sem dificuldade, 
por certas peculiaridades invariveis de tais experincias. E isso porque a idia dessas cenas sexuais infantis  muito repelente para os sentimentos de um indivduo 
sexualmente normal; elas incluem todos os abusos conhecidos pelas pessoas depravadas e impotentes, entre as quais a cavidade bucal e o reto so indevidamente usados 
para fins sexuais. Nos mdicos, o espanto diante disso logo cede lugar a um entendimento completo. Das pessoas que no hesitam em satisfazer seus desejos sexuais 
com crianas no se pode esperar que relutem ante nuanas mais sutis dos mtodos para obter essa satisfao; e a impotncia sexual inerente s crianas fora-as 
inevitavelmente s mesmas aes substitutivas a que se rebaixam os adultos quando se tornam impotentes. Todas as singulares condies em que esse par inadequado 
conduz suas relaes amorosas - de um lado, o adulto que no consegue escapar de sua parcela na dependncia mtua necessariamente implicada por uma relao sexual, 
mas que, apesar disso, est munido de completa autoridade e do direito de punir, e que pode inverter esses papis para a satisfao irrestrita de seus caprichos; 
e de outro lado, a criana, que em seu desamparo fica  merc dessa vontade arbitrria, que  prematuramente despertada para todo tipo de sensibilidade e exposta 
a toda sorte de desapontamentos, e cujo desempenho das atividades sexuais que lhe so atribudas  freqentemente interrompido pelo controle imperfeito de suas necessidades 
naturais -, todas essa incongruncias grotescas, mas trgicas, mostram-se impressas no desenvolvimento posterior do indivduo e de sua neurose, em incontveis efeitos 
permanentes que merecem ser delineados nos mnimos detalhes. Quando a relao se d entre duas crianas, o carter das cenas sexuais no  de espcie menos repulsiva, 
j que todo relacionamento dessa natureza entre crianas pressupe a seduo prvia de uma delas por um adulto. As conseqncias psquicas dessas relaes entre 
crianas so extraordinariamente abrangentes; os dois indivduos permanecem ligados por um elo invisvel durante toda a vida.
         Algumas vezes, so as circunstncias acidentais dessas cenas sexuais infantis que, em anos posteriores, adquirem um poder determinante sobre os sintomas 
da neurose. Assim, num de meus casos, a circunstncia de a criana ter sido solicitada a estimular os rgos genitais de uma mulher adulta com seu p foi o bastante 
para fixar por anos sua ateno neurtica em suas pernas e na funo delas, produzindo finalmente uma paraplegia histrica. Em outro caso, uma paciente que sofria 
de ataques de angstia que tendiam a ocorrer em certas horas do dia s se acalmava quando uma determinada irm, dentre as muitas que tinha, ficava a seu lado todo 
o tempo. A razo disso teria permanecido um enigma, se a anlise no tivesse mostrado que o homem que atentara sexualmente contra ela costumava indagar, a cada visita, 
se a tal irm, que ele temia viesse a interromp-lo, estava em casa.
         Por vezes ocorre que o poder determinante das cenas infantis est to oculto que, ante uma anlise superficial, est fadado a passar despercebido. Nesses 
casos, imaginamos ter descoberto a explicao de algum sintoma particular no contedo de uma das cenas posteriores - at que, no curso de nosso trabalho, deparamos 
com o mesmo contedo numa das cenas infantis, de modo que acabamos sendo obrigados a reconhecer que, afinal, a cena posterior s deve seu poder de determinar sintomas 
a sua concordncia com a cena anterior. No quero por isso retratar a cena posterior como algo sem importncia; se fosse minha tarefa apresentar-lhes as normas que 
regem a formao de sintomas histricos, eu teria que incluir como uma delas a de que a representao escolhida para a produo de um sintoma  uma representao 
evocada pela combinao de vrios fatores, e despertada por vrias fontes simultaneamente. Num outro trabalho, tentei expressar isso com a seguinte frmula: os sintomas 
histricos so sobredeterminados.
         Mais uma coisa, senhores.  verdade que, anteriormente |ver em [1] e seg.|, isolei a relao entre a etiologia recente e a etiologia infantil como um tema 
separado. Entretanto, no posso abandonar o assunto sem infringir essa resoluo ao menos com um comentrio. Os senhores concordaro comigo em que h um fato, acima 
de todos, que nos induz a cometer erros na compreenso psicolgica dos fenmenos histricos, e que nos parece advertir para no aplicarmos a mesma medida aos atos 
psquicos dos histricos e das pessoas normais. Esse fato  a discrepncia entre os estmulos psiquicamente excitantes e as reaes psquicas com que deparamos nos 
sujeitos histricos. Tentamos dar conta dela admitindo, nos histricos, a presena de uma sensibilidade anormal generalizada aos estmulos, e muitas vezes nos esforamos 
por explic-la em termos fisiolgicos, como se, nesses pacientes, certos rgos do crebro que servem para transmitir estmulos se encontrassem num estado qumico 
peculiar (como os centros espinhais de uma r, por exemplo, ao lhe ser injetada estricnina), ou como se esses rgos cerebrais tivessem escapado da influncia dos 
centros inibidores superiores (como nos animais submetidos a experincias ou durante a vivisseco). Ocasionalmente, um ou outro desses conceitos pode ser perfeitamente 
vlido como explicao dos fenmenos histricos; no questiono isso. Mas a parte principal dos fenmenos - da reao histrica anormal e exagerada aos estmulos 
psquicos - admite uma outra explicao, confirmada por inmeros exemplos extrados das anlises dos pacientes. Essa explicao  a seguinte: A reao dos histricos 
s  aparentemente exagerada; est fadada a nos parecer exagerada porque s conhecemos uma pequena parte dos motivos dos quais decorre.
         Na realidade, essa reao  proporcional ao estmulo excitante e, portanto,  normal e psicologicamente compreensvel. Ns o percebemos imediatamente quando 
a anlise acrescenta aos motivos manifestos, dos quais o paciente tem conscincia, os outros motivos que estavam em ao sem o seu conhecimento, de modo que ele 
nada nos podia dizer sobre eles.
         Eu poderia gastar horas demonstrando a validade dessa importante assero para toda a gama de atividade psquica na histeria, mas devo restringir-me aqui 
a alguns exemplos. Os senhores decerto se lembraro da "suscetibilidade" mental que  to freqente entre os pacientes histricos, e que os leva a reagirem ao menor 
sinal de depreciao como se estivessem recebendo um insulto mortal. O que pensariam ento se observassem esse alto grau de inclinao a magoar-se ante a menor ofensa, 
se o encontrassem entre duas pessoas normais, digamos, entre marido e mulher? Os senhores certamente infeririam que a cena conjugal testemunhada no era exclusivamente 
resultante dessa ocasio banal recente, mas que o material inflamvel vinha-se acumulando h muito tempo e que a pilha inteira fora incendiada pela ltima provocao.
         Eu lhes pediria que transpusessem essa linha de raciocnio para os pacientes histricos. No  a ltima desfeita - em si mesma, mnima - que produz o acesso 
de choro, a exploso de desespero ou a tentativa de suicdio, desrespeitando o axioma de que um efeito deve ser proporcional a sua causa: a pequena ofensa do momento 
atual despertou e ps em ao as lembranas de muitas e mais intensas ofensas anteriores, por trs das quais jaz, alm disso, a lembrana de uma grave ofensa na 
infncia que nunca foi superada. Ou ainda, tomemos o exemplo de uma moa que se recrimina terrivelmente por ter permitido que um rapaz acariciasse sua mo em segredo, 
sendo desde ento dominada por uma neurose. Naturalmente, os senhores podero responder ao quebra-cabea considerando-a uma pessoa anormal, de inclinaes excntricas 
e hipersensvel; contudo, tero uma idia diferente quando a anlise lhes mostrar que aquele toque na mo a fez lembrar-se de outro toque semelhante, que ocorrera 
precocemente em sua infncia e que integrava um conjunto menos inocente, de modo que suas auto-acusaes eram, na verdade, censuras a essa antiga ocasio. Finalmente, 
o problema dos pontos histerognicos  da mesma espcie. Ao se tocar determinado ponto, faz-se uma coisa que no se pretendia: desperta-se uma lembrana que pode 
desencadear um ataque consulsivo e, como no se sabe coisa alguma sobre esse vnculo psquico intermedirio, o ataque  diretamente ligado  ao do contato. Os 
pacientes acham-se no mesmo estado de ignorncia e incidem, portanto, em erros similares. Estabelecem constantemente "falsas ligaes" entre a causa mais recente, 
da qual esto conscientes, e o efeito, que depende de inmeros elos intermedirios. Ao conseguir, entretanto, reunir os motivos conscientes e inconscientes a fim 
de explicar uma reao histrica, o mdico  quase sempre obrigado a reconhecer que a reao aparentemente exagerada  adequada, sendo anormal apenas em sua forma.
         Os senhores, entretanto, podero acertadamente objetar a essa justificao da reao histrica aos estmulos psquicos e dizer que, ainda assim, a reao 
no  normal, pois por que razo as pessoas normais se comportam de modo diferente? Por que  que todas as excitaes do passado remoto delas no entram em ao 
to logo sucede uma nova excitao atual? Na verdade, tem-se a impresso de que, nos pacientes histricos, todas as suas experincias antigas - s quais eles j 
reagiram com tanta freqncia e, alm disso, com tanta violncia - retiveram seu poder efetivo;  como se essas pessoas fossem incapazes de se desfazerem de seus 
estmulos psquicos. Com efeito, senhores, deve-se realmente presumir algo dessa natureza. Os senhores no devem esquecer que, nas pessoas histricas, quando h 
uma causa precipitante atual, entram em ao as antigas experincias sob a forma de lembranas inconscientes.  como se a dificuldade de se desfazerem de uma impresso 
atual, a impossibilidade de transform-la numa lembrana inofensiva, estivesse ligada precisamente ao carter do inconsciente psquico. Como os senhores podem ver, 
o restante do problema repousa uma vez mais no campo da psicologia - e, o que  mais importante, de uma psicologia de um tipo para o qual os filsofos pouco fizeram 
para nos preparar.
         A essa psicologia, que ainda est por ser criada para atender a nossas necessidades - a essa futura psicologia nas neuroses devo tambm encaminhar os senhores, 
ao dizer-lhes, em concluso, algo que a princpio os levar a temer nossa compreenso nascente da etiologia da histeria. E isso porque afirmar que o papel etiolgico 
da experincia sexual infantil no se restringe  histeria, mas se aplica igualmente  notvel neurose das obsesses e, a rigor, talvez tambm s vrias formas de 
parania crnica e outras psicoses funcionais. Expresso-me a esse respeito de maneira menos explcita porque, at o momento, analisei menos casos de neurose obsessiva 
do que de histeria; e, no que tange  parania, tenho a meu dispor apenas uma nica anlise completa e umas poucas fragmentadas. Mas o que descobri nesses casos 
pareceu fidedigno e me encheu de expectativas confiantes quanto a outros casos. Talvez os senhores se recordem que, j em data anterior, recomendei que a histeria 
e as obsesses fossem agrupadas em conjunto sob a denominao de "neuroses de defesa, mesmo antes de vir a conhecer a etiologia infantil comum. Devo agora acrescentar 
que - embora no seja necessrio esperar que isso acontea em geral - todos os meus casos de obsesses revelaram um substrato de sintomas histricos, principalmente 
sensaes e dores,que remontavam precisamente s primeiras experincias infantis. Portanto, o que  que determina se as cenas sexuais infantis que permanecem inconscientes, 
iro, mais tarde, quando os outros fatores patognicos lhes forem acrescentados, suscitar a neurose histrica, a neurose obsessiva, ou mesmo a parania? Esse aumento 
de nosso conhecimento como vem os senhores, parece prejudicar o valor etiolgico das cenas, porquanto elimina a especificidade da relao etiolgica.
         Ainda no estou em condies de dar aos senhores uma resposta segura a essa pergunta. O nmero de casos que analisei no  suficientemente grande, nem os 
fatores determinantes neles tm sido suficientemente variados. At aqui, observei que se pode mostrar pela anlise que as obsesses so, sistematicamente, auto-acusaes 
disfaradas e transformadas, relativas a atos de agresso sexual na infncia, sendo portanto mais freqentemente encontradas nos homens do que nas mulheres, e desenvolvendo-se 
neles com mais freqncia do que a histeria. A partir disso eu poderia concluir que o carter das cenas infantis - se foram experimentadas com prazer ou apenas passivamente 
- tem uma influncia determinante na escolha da neurose posterior; mas no quero subestimar a importncia da idade em que essas aes infantis ocorrem, nem a de 
outros fatores. Apenas uma discusso de outras anlises poder lanar a luz sobre esses pontos. No entanto, quando se tornar claro quais so os fatores decisivos 
na escolha entre as possveis formas de neuropsicoses de defesa, a questo de qual  o mecanismo em virtude do qual uma determinada forma se constitui ser, mais 
uma vez, um problema puramente psicolgico.
         Chego agora ao fim do que tinha a lhes dizer hoje. Embora esteja preparado para fazer face a objees e descrena, gostaria de dizer mais uma coisa em defesa 
de minha posio. O que quer que os senhores pensem sobre as concluses a que cheguei, devo pedir-lhes que no as encarem como o fruto de especulaes inteis. Elas 
se baseiam num minucioso exame individual dos pacientes, que, na maioria dos casos, consumiu cem ou mais horas de trabalho.O que me  ainda mais importante do que 
o valor que os senhores possam atribuir a meus resultados  a ateno que dedicarem ao procedimento que empreguei. Esse procedimento  novo e de difcil manejo, 
mas, apesar disso,  insubstituvel para fins cientficos e teraputicos. Os senhores ho de reconhecer, estou certo, que no se podero propriamente negar as descobertas 
decorrentes dessa modificao do procedimento de Breuer enquanto ela for posta de lado e se usar apenas o mtodo costumeiro de interrogar os pacientes. Agir desse 
modo seria o mesmo que tentar refutar as descobertas da tcnica histolgica com base no exame macroscpico. O novo mtodo de pesquisa d amplo acesso a um novo elemento 
no campo psquico dos eventos, a saber, os processos de pensamento que permanecem inconscientes - os quais, para usar a expresso de Breuer, so "inadmissveis  
conscincia". Assim, tal mtodo nos inspira a esperana de uma nova e melhor compreenso de todos os distrbios psquicos funcionais. No posso acreditar que a psiquiatria 
se negue por muito tempo a utilizar esse novo caminho de acesso ao conhecimento.
         
       
       
       
       
       
       SINOPSES DOS ESCRITOS CIENTFICOS DO DR. SIGM. FREUD 1877-1897 (1897)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         INHALTSANGABEN DER WISSENSCHAFTLICHEN
         ARBEITEN DES PRIVATDOCENTEN DR. SIGM. FREUD 1877-1897
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1897 Viena: Deuticke. 24 pgs. (Edio particular.)
         1940 Int. Z. Psychoanal, Imago 25 (1), 69-93.(Com o ttulo "Bibliographie und Inhaltsangaben der Arbeiten Freuds bis zu den Anfaengen der Psychoanalyse" 
|Bibliografia e Sinopses dos Trabalhos de Freud at os Primrdios da Psicanlise"|.)
         1952 G.W. 1, 463-88.
         
         (b)TRADUO INGLESA:
         "Abstracts of the Scientific Writings of Dr. Sigm. Freud (1877-1897)"
         
         Esta traduo, a primeira em ingls,  de James Strachey.
         
         Freud fora nomeado Privatdozent na Universidade de Viena em 1885. (Esse posto era comparvel, embora no muito precisamente,  Lectureship |funo de conferencista 
ou lente| das universidades inglesas.) A etapa seguinte seria a nomeao como "Professor Extraordinarius" (grosseiramente equivalente ao Assistant Professor |Professor 
Assistente|), mas essa nomeao sofreu longos adiamentos, e s doze anos depois foi que Freud soube que seu nome seria proposto ao Conselho da Faculdade por dois 
homens muito eminentes, Nothnagel e Kraff-Ebing. Esse fato foi relatado numa carta a Fliess de 8 de fevereiro de 1897 (Freud, 1950a, Carta 58). Os pr-requisitos 
necessrios incluam um "Curriculum Vitae" (ibid., Carta 59, de 6 de abril) e uma sinopse bibliogrfica das publicaes reeditadas aqui. Ela fora concluda antes 
de 16 de maio (ibid., Carta 62) e estava evidentemente impressa em 25 de maio (ibid., Carta 63), quando Freud enviou uma cpia a Fliess, descrevendo-a, com uma frase 
tomada de Leporello, como uma "Lista de todas as belezas etc..." Todos esses preparativos, no entanto, foram em vo, pois embora o Conselho da Faculdade, por voto 
majoritrio, recomendasse a nomeao, o consentimento ministerial, de alada superior, foi negado em grande parte, sem dvida por razes anti-semticas. Somente 
aps cinco anos, em 1902, Freud foi nomeado professor.
         Ser possvel notar, caso se faa uma comparao com a bibliografia completa fornecida no ltimo volume desta edio, que alguns itens foram omitidos da 
presente lista por Freud. Esses itens ausentes so, em sua maior parte, resenhas, artigos menores, e algumas contribuies no assinadas para obras coletivas. Apenas 
um nico trabalho de certa importncia parece ter sido omitido por lapso - uma conferncia sobre a cocana (1885b) -, e parece possvel que certos fatores inconscientes 
tenham participado dessa omisso (Jones, 1953, 106).
         A incluso dessas sinopses na Edio Standard fornece aos leitores um oportuno lembrete de que as "obras psicolgicas completas" de Freud esto muito longe 
de coincidir com as "obras completas" de Freud, e de que os primeiros quinze prolficos anos de sua atividade foram inteiramente voltados para as cincias fsicas. 
Convm notar que o prprio Freud era s vezes algo inclinado a tecer comentrios bastante desdenhosos sobre seus escritos neurolgicos, alguns deles citados adiante. 
Mas outros neurologistas, mais recentes, esto longe de concordar com Freud quanto a isso. (Cf. uma discusso do neurologista suo Brun, 1936.)
         O leitor poder notar que a ordem em que Freud disps os itens, embora seja mais ou menos cronolgica, no respeita exatamente a seqncia de redao nem 
a de publicao.
         Somos imensamente gratos ao Dr. Sabine Strich, do Departamento de Neuropatologia no Instituto de Psiquiatria da Universidade de Londres, por ler estas sinopses 
e orientar a traduo do material neurolgico.
         
         (A) ANTES DA NOMEAO COMO PRIVATDOZENT
         
         I
         "Observaes sobre a configurao e a estrutura delicada dos rgos lobados descritos como testculos nas enguias." |1877b.|
         O Dr. Syrski reconhecera recentemente um rgo disposto aos pares, lobulado e estriado, na cavidade abdominal da enguia, como sendo o rgo sexual masculino 
do animal, rgo que fora procurado por longo tempo. Por sugesto do professor Claus, investiguei a ocorrncia e os componentes tissulares desses rgos lobados 
na estao zoolgica de Trieste.
         
         II
         
         "Sobre a origem das razes nervosas posteriores na medula espinhal dos Ammocoetes (Petromyzon planeri)." |1877a|
         (Do Instituto de Fisiologia da Universidade de Viena. Com um clich.)
         A investigao da medula espinhal dos Ammocoetes mostrou que as grandes clulas nervosas descritas por Reissner como ocorrendo na parte posterior da massa 
cinzenta (clulas posteriores) do origem  fibras radiculares das razes posteriores. - As razes espinhais anteriores e posteriores do Petromyzon, pelo menos na 
regio caudal, so deslocadas em suas origens umas em relao s outras e permanecem distintas entre si em seu curso perifrico.
         
         III
         
         "Sobre os gnglios espinhais e a medula espinhal do Petromyzon." |1878a.|
         (Do Instituto de Fisiologia da Universidade de Viena. Com quatro clichs e duas xilogravuras.)
         As clulas ganglionares espinhais dos peixes foram por muito tempo consideradas bipolares, enquanto as dos animais superiores eram consideradas unipolares. 
No que se refere a estes ltimos elementos, Ranvier mostrou que seu processo nico ramifica-se em forma de T depois de um pequeno percurso. - Pelo uso de uma tcnica 
de macerao do ouro foi possvel fazer um levantamento completo dos gnglios espinhais do Petromyzon; suas clulas nervosas exibem todas as transies entre bipolaridade 
e unipolaridade, com ramificao das fibras em forma de T; o nmero de fibras da raiz posterior  sistematicamente maior que o nmero de clulas nervosas no gnglio; 
assim, h "fibras de passagem" e fibras nervosas "subsidirias", as ltimas das quais simplesmente se mesclam com os elementos das razes. - Um elo entre as clulas 
ganglionares espinhais e as clulas posteriores da medula espinhal que foram descritas |por Reissner, ver II acima|  fornecido, no Petromyzon, por elementos celulares 
expostos na superfcie da medula espinhal entre a raiz posterior e o gnglio. Essas clulas dispersas indicam o caminho tomado pelas clulas ganglionares espinhais 
no curso da evoluo. - Em relao  medula espinhal do Petromyzon, o artigo descreve ainda a ramificao bifurcada das fibras comissurais anteriores, a intercalao 
das clulas nervosas nas pores espinhais das razes anteriores, e uma rede nervosa muito delicada (que pode ser corada por cloreto de ouro) na pia mter.
         
         IV
         
         "Nota sobre um mtodo para as preparaes anatmicas do sistema nervoso." |1879a.|
         Modificao de um mtodo recomendado por Reichert. - Uma mistura de uma parte de cido ntrico concentrado, trs partes de gua, e uma parte de glicerina 
concentrada, por destruir o tecido conjuntivo e facilitar a remoo de ossos e msculos,  til para desnudar o sistema nervoso central com suas ramificaes perifricas, 
particularmente em pequenos mamferos.
         
         V
         
         "Sobre a estrutura das fibras nervosas e das clulas nervosas do lagostim-de-rio." |1882a.|
         As fibras nervosas do lagostim-de-rio, quando se examinam os tecidos vivos, apresentam, sem exceo, uma estrutura fibrilar. As clulas nervosas, cuja sobrevivncia 
pode ser reconhecida pelos grnulos em seus ncleos, parecem ser compostas de duas substncias. Uma destas  reticular e se prolonga nas fibrilas das fibras nervosas, 
e a outra  homognea e se prolonga em sua substncia de base.
         
         VI
         
         "A estrutura dos elementos do sistema nervoso." |1884f.|
         (Conferncia proferida ante a Sociedade Psiquitrica, 1882)
         
         Contedo como em V.
         
         VII
         
         "Novo mtodo para o estudo dos tratos nervosos no sistema nervoso central." (1884d.|
         Quando sees finas do rgo central, enrijecidas em cromato, so tratadas com cloreto de ouro, uma soluo forte de soda e uma soluo de iodeto de clcio 
a 10%, obtm-se uma colorao vermelha a azul que afeta as bainhas medulares ou apenas os cilindros do eixo. O mtodo no  mais fidedigno do que outros mtodos 
de colorao com ouro.
         
         VIIa
         
         "Novo mtodo histolgico para o estudo dos tratos nervosos no crebro e na medula espinhal." |1884c.|
         
         Contedo como em VII.
         
         VIII
         
         "Um caso de hemorragia cerebral com sintomas focais basais indiretos num paciente portador de escorbuto." |1884a.|
         Relatrio de um caso de hemorragia cerebral num paciente portador de escorbuto, que teve um rpido desfecho sob observao contnua. Os sintomas so explicados 
com referncia  teoria do efeito indireto das leses focais, de Wernicke.
         
         IX
         
         "Sobre a Coca." |1884e.|
         O alcalide da coca, descrito por Nieman |em 1860|, recebeu na poca pouca ateno do ponto de vista dos fins medicinais. Meu trabalho incluiu notas botnicas 
e histricas sobre a coca, baseadas nas asseres existentes na literatura; confirmou, atravs de experimentos com sujeitos normais, os notveis efeitos estimulantes 
da cocana, bem como sua ao suspensiva da fome, sede e sono; e se esforou por fornecer indicaes para o uso teraputico da droga.
         Entre essas indicaes, assumiu importncia, mais tarde, a referncia ao possvel emprego da cocana durante a supresso da morfina. A expectativa proclamada 
ao final do trabalho, de que a propriedade de produo de anestesia local da cocana encontraria outras aplicaes, foi logo depois realizada pelas experincias 
de K. Koller com a anestesia da crnea.
         
         X
         "Contribuio para nossos conhecimentos sobre os efeitos da coca." |1885a.|
         Demonstrao dinamomtrica do aumento da fora motora durante a euforia provocada pela cocana. A fora motora (medida pela fora do aperto de mo) mostra 
uma oscilao regular diria (semelhante  da temperatura do corpo).
         
         XI
         
         "Uma nota sobre o trato interolivar." |1885d.|
         Breves notas sobre as conexes das razes do nervo auditivo e a conexo entre o trato interolivar e o corpo trapezide transverso, baseada em preparaes 
humanas incompletamente mielinizadas.
         
         XII
         
         "Um caso de atrofia muscular com grandes distrbios da sensibilidade (siringomielia)." |1885c.|
         A combinao de uma atrofia muscular bilateral, com distrbio bilateral da sensibilidade sob a forma de uma paralisia "parcial" e dissociada da sensao, 
e com distrbios trficos na mo esquerda (que tambm exibia a mais intensa anestesia), juntamente com a restrio dos sintomas patolgicos  parte superior do corpo, 
permitiu, num homem de 36 anos, um diagnstico in vivo de siringomielia, afeco que na poca era considerada rara e difcil de reconhecer.
         
         (B) APS A NOMEAO COMO PRIVATDOZENT
         
         XIII
         
         "Polineurite aguda dos nervos espinhais e cranianos." |1886a.)
         Um rapaz de dezoito anos adoeceu sem febre, mas com sintomas generalizados e dores prolongadas no trax e nas pernas. Apresentou inicialmente sintomas de 
endocardite, mas depois as dores aumentaram e surgiu uma suscetibilidade  presso na coluna vertebral e, localizadamente, na pele, nos msculos e nos troncos nervosos, 
 medida que a afeco foi tomando uma extremidade aps outra: acentuao dos reflexos, acessos de suor, emaciao localizada e, por fim, diplopia, distrbios da 
deglutinao, paresia facial e rouquido. Finalmente, febre, extrema acelerao do pulso e afeco pulmonar. O diagnstico de polineurite aguda, feito durante o 
curso da doena, foi confirmado pelas constataes post-mortem, que mostraram que todos os nervos espinhais em suas bainhas estavam injetados, vermelho-acinzentados 
e como que reunidos em feixes. Alteraes semelhantes nos nervos cranianos. Endocardite. - De acordo com o patologista |Kundrat|, essa foi a primeira constatao 
post-mortem de polineurite a ser feita em Viena.
         
         
         XIV
         
         "Sobre a relao do corpo restiforme com a coluna posterior e seu ncleo, com alguns comentrios sobre dois campos da medula oblonga."|1886b.|
         Em colaborao com o Dr. L. Darkschewitsch (Moscou).
         Pelo estudo de preparaes com a medula incompletamente mielinizada pode-se dividir o corpo restiforme em dois componentes: um "ncleo" (corpo restiforme 
primrio) e uma "fmbria" (corpo restiforme secundrio). Esta ltima contm o sistema fibroso olivar, que depois  mielinizado. O corpo restiforme primrio, que 
 mielinizado antes, divide-se numa "poro nuclear" e numa "poro caudal". O ncleo do corpo restiforme primrio procede do ncleo da coluna de Burdach e assim 
representa uma continuao (em sua maior parte, no cruzada) do trato centrpeto das extremidades at o cerebelo. A continuao correspondente at o crebro  fornecida 
por meio das fibras arqueadas originrias desse mesmo ncleo. A poro caudal do corpo restiforme primrio  uma continuao direta do trato espinhocerebelar lateral. 
- O campo lateral da medula oblonga permite uma interpretao uniforme de seus componentes. Contm quatro substncias cinzentas com os sistemas de fibras delas provenientes, 
que devem ser considerados mutuamente homlogos como substncias em que se originam os nervos sensoriais que partem das extremidades, e os nervos trigmeo, vago 
e auditivo.
         
         
         XV
         
         "Sobre a origem do nervo auditivo." |1886c.|
         Descrio da origem do nervo auditivo, baseada em preparaes do feto humano, ilustrada por quatro desenhos de cortes transversais e um diagrama. O nervo 
auditivo reparte-se em trs pores, das quais a mais baixa (mais espinhal) termina no gnglio auditivo e tem continuaes atravs do corno trapezide e dos tratos 
do corpo olivar superior; a segunda pode ser acompanhada, como a raiz auditiva "ascendente" de Roller, at o que se conhece como ncleo de Deiters; e a terceira 
corre para o campo auditivo interno da medula oblonga, de onde procedem as continuaes para o cerebelo. So fornecidos detalhes do desenvolvimento posterior desses 
tratos at onde foi possvel segui-los.
         
         XVI
         
         "Observao de um caso grave de hemianestesia num histrico." |1886d.|
         (O rgo da viso foi examinado pelo Dr. Koenigstein.)
         
         Caso clnico de um gravador de 29 anos, com histria familiar precria, que adoeceu aps uma discusso com seu irmo. O caso proporcionou uma demonstrao 
do sintoma da hemianestesia sensvel e sensorial em sua forma clssica. - O distrbio no campo da viso e no sentido da cor  relatado pelo Dr. Koenigstein.
         
         XVII
         
         "Comentrios sobre a dependncia da cocana e o medo da cocana."|1887d.|
         (Com referncia a uma conferncia de W. A. Hammond.)
         
         O emprego da cocana para alvio da abstinncia da morfina resultou na m utilizao da cocana e deu aos mdicos a oportunidade de observarem o novo quadro 
clnico da dependncia crnica da cocana. Meu ensaio, apoiado no pronunciamento de um neuropatologista norte-americano, procura mostrar que essa dependncia da 
cocana s se manifesta em viciados em outras drogas (tais como a morfina), no podendo a prpria cocana ser responsabilizada por isso.
         
         XVIII
         
         "Sobre a hemianopsia na primeira infncia." |1888a.|
         
         Observao do distrbio em metade do campo visual em duas crianas, uma de vinte e seis meses e outra de trs anos e trs meses, idade em que o sintoma 
no fora objeto prvio de registro mdico. - Discusso sobre a inclinao lateral da cabea e dos olhos que seria observada num dos casos, e sobre a localizao 
da leso suspeita. Ambos os casos devem ser classificados entre as "paralisias cerebrais unilaterais das crianas".
         
         XIX
         
         Sobre a Interpretao das Afasias, estudo crtico. |1891b.|
         
         Depois que uma base slida para a compreenso dos distrbios cerebrais da fala fora estabelecida pela descoberta e pela localizao clara de uma afasia 
motora e uma afasia sensorial (Broca e Wernicke), as autoridades puseram-se a investigar tambm os sintomas mais sutis da afasia at fatores de localizao. Desse 
modo, chegaram  hiptese de uma afasia de conduo, com formas subcorticais e transcorticais, motoras e sensoriais. Esse estudo crtico ope-se a essa concepo 
dos distrbios da fala e procura introduzir, para sua explicao, fatores funcionais em lugar dos topogrficos. As formas descritas como subcorticais e transcorticais 
no so explicveis por uma localizao especfica da leso, mas por condies de capacidade reduzida da conduo no aparelho da fala. De fato, no h afasias causadas 
por leso subcortical. Discute-se tambm a justificao para se distinguir uma afasia central de uma afasia de conduo. A rea da fala no crtex  antes vista como 
uma regio contnua do crtex, inserida entre os campos motores do crtex e os dos nervos tico e auditivo - uma regio em que ocorrem todas as comunicaes e associaes 
que servem  funo da fala. Os chamados centros da fala revelados pela patologia do crebro correspondem meramente aos cantos desse campo da fala; no se distinguem, 
funcionalmente, das regies anteriores;  apenas graas a sua posio em relao aos centros corticais contguos que eles produzem os sinais mais bvios quando ficam 
perturbados.
         A natureza do assunto aqui tratado requereu, em muitos pontos, uma investigao mais detalhada da delimitao entre a abordagem fisiolgica e psicolgica. 
As concepes de Meynert e Wernicke sobre a localizao das idias nos elementos nervosos tiveram que ser rejeitadas, e a explicao de Meynert de uma representao 
do corpo no crtex cerebral exigiu uma reviso. Dois fatos da anatomia cerebral, a saber, (1) que as massas das fibras que penetram na medula espinhal so constantemente 
diminudas ao se dirigirem para cima, devido  interposio de massa cinzenta, e (2) que no h vias diretas da periferia do corpo at o crtex - esses dois fatos 
levaram  concluso de que uma representao realmente completa do corpo est presente apenas na massa cinzenta da medula (como uma "projeo"), enquanto que, no 
crtex, a periferia do corpo  apenas "representada" com menos detalhes atravs de fibras selecionadas, dispostas de acordo com sua funo.
         
         XX
         
         Estudo Clnico das Paralisias Cerebrais Unilaterais das Crianas. |1891a|.
         (Em colaborao com o Dr. O. Rie.)
         
         (N III de Beitraege zur Kinderheilkunde |Contribuies  Pediatria|, organizado pelo Dr. M. Kassowitz.)
         
         Monografia descrevendo tal afeco, com base em estudos empricos no Primeiro Instituto Pblico de Doenas Infantis de Viena, dirigido por Kassowitz. Trata, 
em dez sees, de (1) histria e literatura das paralisias cerebrais nas crianas; (2) trinta e cinco observaes do prprio autor, sumariadas em forma tabular e 
descritas individualmente; (3) anlise dos sintomas individuais do quadro clnico; (4) anatomia patolgica; (5) relaes da paralisia cerebral com a epilepsia e 
(6) com a poliomielite infantil; (7) diagnstico diferencial; e (8) terapia. Uma "paresia coretica"  descrita pelos autores pela primeira vez; distingue-se pelas 
caractersticas peculiares de sua instalao e seu curso, e nela a paresia  representada desde o incio pela hemicoria. H, alm disso, um relato das constataes 
de uma autpsia (esclerose lobar como conseqncia de uma embolia da artria cerebral mdia) de uma paciente descrita na Iconographie de la Salptrire |3, 22-30|. 
Enfatizam-se as estreitas relaes entre a epilepsia e as paralisias cerebrais das crianas, em conseqncia das quais alguns casos de aparente epilepsia mereceriam 
ser descritos como "paralisia cerebral sem paralisia". Com respeito  to discutida questo da existncia de uma polioencephalitis acuta, que se supe constituir 
a base anatmica da paralisia cerebral unilateral e fornecer uma analogia completa com a poliomyelitis infantilis, os autores se opem a essa hiptese de Strmpell; 
mas sustentam firmemente a expectativa de que uma concepo modificada da polyomyelitis acuta infantilis permitir que ela seja equiparada  paralisia cerebral em 
outros termos. Na seo teraputica, coligem-se os relatrios at ento publicados sobre a interveno de cirurgies cerebrais tendo como objetivo a cura da epilepsia 
genuna ou da epilepsia traumtica.
         
         
         
         
         XXI
         
         "Um caso de cura pelo hipnotismo, com alguns observaes sobre a origem dos sintomas histricos atravs da 'contravontade'." |1892-93.|
         Uma jovem mulher, aps o nascimento de seu primeiro filho, foi compelida a desistir de amament-lo, em virtude de um complexo de sintomas histricos (perda 
de apetite, insnia, dores nos seios, falta de leite, agitao). Quando, aps o nascimento de um segundo filho, esses obstculos se repetiram, a hipnose profunda 
em duas ocasies, acompanhada de contra-sugestes, conseguiu remover os obstculos, de modo que a paciente se tornou uma excelente me e nutriz. O mesmo resultado 
foi obtido um ano depois, em circunstncias similares, aps mais duas hipnoses. Acrescentam-se alguns comentrios sobre o fato de que  possvel se realizarem, nos 
pacientes histricos, idias angustiantes ou antitticas aflitivas que as pessoas normais so capazes de inibir; vrias observaes de tique so relacionadas com 
esse mecanismo de "contravontade".
         
         XXII
         
         "Charcot." |1893f.|
         
         Um obiturio do mestre da neuropatologia, que morreu em 1893 e entre cujos discpulos o presente autor se enumera.
         
         XXIII
         
         "Sobre um sintoma que freqentemente acompanha a enuresis nocturna nas crianas." |1893g.|
         
         Em cerca de metade dos casos de crianas que sofrem de enurese constatamos uma hipertonia das extremidades inferiores cuja importncia e implicaes no 
esto explicadas.
         
         XXIV
         
         "Sobre o mecanismo psquico dos fenmenos histricos."
         (Comunicao preliminar em colaborao com o Dr. J. Breuer.) |1893a.|
         O mecanismo ao qual Charcot reportou as paralisias histerotraumticas, e cuja pressuposio lhe permitiu provoc-las deliberadamente em pacientes histricos 
hipnotizados, pode ser tambm responsabilizado por numerosos sintomas do que se descreve como histeria no-traumtica. Ao hipnotizarmos o histrico e reconduzirmos 
seus pensamentos at a ocasio em que o sintoma em questo apareceu pela primeira vez, emerge nele com nitidez alucinatria a lembrana de um trauma psquico (ou 
de uma srie de traumas) ligado quele tempo, persistindo o sintoma como um smbolo mnmico do trauma. Assim, os histricos sofrem principalmente de reminiscncias. 
Quando a cena traumtica a que se chegou dessa maneira  vividamente reproduzida, acompanhada por uma gerao de afeto, o sintoma, que at ali se mantivera obstinadamente, 
desaparece. Portanto, devemos supor que a lembrana esquecida estivesse agindo na mente como um corpo estranho, cessando o fenmeno irritante com sua remoo. Essa 
descoberta, originalmente feita por Breuer em 1881, pode converter-se na base de uma terapia dos fenmenos histricos que merece ser descrita como "catrtica".
         As lembranas reveladas como "patognicas", como as razes dos sintomas histricos, so sistematicamente "inconscientes" para o paciente. Parece que, por 
permanecerem inconscientes, elas escapam ao processo de desgaste a que o material psquico  normalmente submetido. Esse tipo de desgaste  promovido pelo mtodo 
da "ab-reao". As lembranas patognicas evitam ser tratadas pela ab-reao, seja porque as experincias correlatas ocorreram em estados psquicos especiais a que 
as pessoas histricas so intrinsecamente propensas, seja porque tais experincias foram acompanhadas por um afeto que acarreta um estado psquico especial nas pessoas 
histricas. Conseqentemente, uma tendncia  "diviso (splitting) da conscincia"  o fenmeno psquico bsico nos casos de histeria.
         
         XXV
         
         Uma Abordagem das Diplegias Cerebrais na Infncia (em Conexo com a Doena de Little). |1893b.|
         (N III, Nova Srie, de Beitraege zur Kinderheilkunde |Contribuies  Pediatria|, organizado pelo Dr. M. Kassowitz.)
         Suplemento ao Estudo Clnico das Paralisias Cerebrais Unilaterais das Crianas, resumido antes como XX |ver em [1]|. A histria, a anatomia patolgica e 
a fisiologia da afeco so aqui tratadas na mesma ordem que na monografia anterior, e os quadros clnicos pertinentes so ilustrados por cinqenta e trs observaes 
feitas pelo prprio autor. Entretanto, foi necessrio levar tambm em conta a gama de formas que devem ser descritas como "diplegias cerebrais" e assinalar sua semelhana 
clnica. Em face das diferenas de opinio prevalecentes na literatura sobre esses distrbios, o autor adotou o ponto de vista de uma autoridade mais antiga, Little, 
e chegou assim  postulao de quatro tipos principais, descritos como espasticidade geral, espasticidade paraplgica, coria geral e atetose bilateral, e hemiplegia 
espstica bilateral (diplegia espstica).
         A espasticidade geral inclui as formas a que se costuma fazer referncia como "doena de Little". A espasticidade paraplgica  o nome dado ao que antes 
se considerava como uma afeco espinhal, tabes spastica infantilis. As diplegias espsticas correspondem muito facilmente a uma duplicao das paralisias cerebrais 
unilaterais, mas se caracterizam por uma superfluidade de sintomas que encontra explicao na natureza bilateral da afeco cerebral. A justificativa para incluir 
a coria geral e a atetose bilateral entre esses tipos  fornecida por numerosas caractersticas do quadro clnico e pela existncia de muitas formas mistas e transicionais 
que ligam todos esses tipos.
         Segue-se uma discusso das relaes desses tipos clnicos com os fatores etiolgicos aqui tomados como atuantes e com o nmero insuficiente de constataes 
post-mortem que tm sido relatadas. Chega-se s seguintes concluses:
         As diplegias cerebrais podem ser divididas, de acordo com sua origem, em (a) determinadas congenitamente, (b) surgidas no momento do nascimento, e (c) adquiridas 
depois do nascimento. Mas s muito raramente essa distino pode ser estabelecida pelas peculiaridades clnicas do caso, no sendo sempre possvel faz-la pela anamnese. 
Todos os fatores etiolgicos das diplegias so enumerados: pr-natais (trauma, doena ou choque afetando a me, posio da criana na famlia); atuantes no momento 
do nascimento (os fatores enfatizados por Little, a saber, nascimento prematuro, parto difcil, asfixia); e depois do nascimento (molstias infecciosas, trauma ou 
choque afetando a criana). No se pode considerar as convulses como causas, mas apenas como sintomas da afeco. O papel etiolgico da sfilis hereditria  reconhecido 
como importante. No h nenhuma relao etiolgica exclusiva entre uma dada etiologia entre essas e um dado tipo de diplegia cerebral, mas as relaes preferenciais 
so freqentemente evidentes.  insustentvel a concepo de que as diplegias cerebrais so afeces de etiologia nica.
         So de muitos tipos as constataes patolgicas nas diplegias e, em geral, so as mesmas das hemiplegias; em sua maior parte, tm a natureza de estados 
terminais, dos quais no  invariavelmente possvel inferir as leses iniciais. Em geral, no permitem uma deciso quanto  categoria etiolgica a que um caso deve 
ser reportado. Tampouco costuma ser possvel deduzir o quadro clnico das constataes post-mortem, de modo que se deve rejeitar tambm a pressuposio de que existam 
relaes ntimas e exclusivas entre os tipos clnicos e as alteraes anatmicas.
         A fisiologia patolgica das diplegias cerebrais tem um vnculo essencial com as duas caractersticas pelas quais a espasticidade geral e a paraplgica se 
distinguem de outras manifestaes de doena orgnica cerebral. Pois em ambas essas formas clnicas, a contratura predomina sobre a paralisia e as extremidades inferiores 
so mais gravemente afetadas do que as superiores. A discusso desse artigo chega  concluso de que a afeco mais intensa das extremidades inferiores em geral 
e a espasticidade paraplgica devem ser ligadas  localizao da leso (hemorragia menngea ao longo da fissura mediana), e a preponderncia de contratura deve ser 
ligada  superficialidade da leso. O estrabismo das crianas diplgicas, que  particularmente comum na espasticidade paraplgica e quando a etiologia  o nascimento 
prematuro,  atribuvel s hemorragias retinianas em crianas recm-nascidas, descritas por Koenigstein.
         Uma seo especial enfoca numerosos casos de ocorrncia familiar e hereditria de doenas infantis que apresentam uma afinidade clnica com as diplegias 
cerebrais.
         
         XXVI
         
         "Sobre as formas familiares de diplegias cerebrais." |(1893d.|
         
         Observao de dois irmos, um de seis anos e meio e outro de cinco, cujos pais eram parentes consagneos, e que apresentavam um complicado quadro clnico 
que se desenvolveu gradualmente, num dos casos, desde o nascimento, e no outro, desde o segundo ano de vida. Os sintomas desse distrbio familial (nistagmo lateral, 
atrofia do nervo ptico, estrabismo convergente alternante, fala montona e como que escandida, tremor intencional dos braos, fraqueza espstica das pernas e um 
alto grau de inteligncia) fundamentam a postulao de uma nova afeco, que deve ser considerada uma contraparte espstica da doena de Friedreich e, em vista disso, 
classificada entre as diplegias cerebrais familiais. D-se nfase  extensa similaridade desses casos com os descritos como esclerose mltipla por Pelizaeus, em 
1885.
         
         XXVII
         
         |"As diplegias cerebrais infantis." |1893e.|
         
         Sntese das constataes da monografia resumida acima, N XXV.
         
         XXVIII
         
         "Consideraes para um estudo comparativo das paralisias motoras orgnicas e histricas." |1893c.|
         
         Comparao entre as paralisias orgnicas e histricas, feita sob a influncia de Charcot a fim de chegar a uma linha de abordagem da natureza da histeria. 
A paralisia orgnica  perfero-espinhal ou cerebral. Com base nas discusses de meu estudo crtico da afasias |N XIX acima|, a primeira  descrita como paralisia 
de projeo e  uma paralisia en dtail, enquanto a segunda  descrita como paralisia de representao e  uma paralisia en masse. A histeria imita apenas esta ltima 
categoria das paralisias, mas tem liberdade para se especializar, o que a faz assemelhar-se  paralisia de projeo; ela pode dissociar as reas de paralisia que 
ocorrem regularmente nas afeces cerebrais. A paralisia histrica tende a um excessivo desenvolvimento; pode ser extremamente intensa e, no entanto, restringir-se 
estritamente a uma pequena rea, enquanto a paralisia cortical aumenta sistematicamente de extenso paralelamente ao aumento de sua intensidade. A sensibilidade 
comporta-se de maneira diamentralmente oposta nos dois tipos de paralisia.
         As caractersticas especiais da paralisia cortical so determinadas pelas peculiaridades da estrutura cerebral e nos permitem inferir a anatomia do crebro. 
A paralisia histrica, pelo contrrio, comporta-se como se a anatomia cerebral no existisse. A histeria nada sabe sobre a anatomia cerebral. A alterao que subjaz 
 paralisia histrica no pode ter nenhuma semelhana com as leses orgnicas, devendo, antes, ser buscada nas condies que regem o acesso a algum crculo especfico 
de representaes.
         
         XXIX
         
         "As neuropsicoses de defesa: tentativa de formulao de uma teoria psicolgica da histeria adquirida, de muitas fobias e obsesses e de certas psicoses 
alucinatrias." |1894a.|
         
         Primeiro de uma srie de artigos breves que aparecem em seguida e se voltam para a tarefa de preparar uma exposio geral das neuroses em novas bases agora 
acessveis.
         A diviso da conscincia no  uma caracterstica primria dessa neurose, baseada na fraqueza degenerativa, como insiste Janet.  conseqncia de um processo 
psquico peculiar, conhecido como "defesa", que alguns curtos relatos de anlises mostram estar presente no s na histeria, mas tambm em inmeras outras neuroses 
e psicoses. A defesa entra em ao quando surge uma situao de incompatibilidade na vida representativa entre uma determinada representao e o "ego". O processo 
da defesa pode ser figurativamente representado como se a carga de excitao fosse extrada da representao a ser recalcada e fosse utilizada de outra maneira. 
Isso pode ocorrer de vrios modos: na histeria, a soma de excitao liberada  transformada em inervao somtica (histeria de converso); na neurose obsessiva,ela 
persiste no campo psquico e se vincula a outras representaes no incompatveis em si mesmas e que assim substituem a representao recalcada. A fonte das representaes 
incompatveis sujeitas  defesa  nica e exclusivamente a vida sexual. A anlise de um caso de psicose alucinatria mostra que tambm essa psicose representa um 
mtodo de chegar  defesa.
         
         XXX
         
         "Obsesses e fobias: seu mecanismo psquico e sua etiologia". |1895c|
         As obsesses e fobias devem ser distinguidas da neurastenia como afeces neurticas independentes. Em ambas |obsesses e fobias| trata-se do vnculo entre 
uma representao e um estado afetivo. Nas fobias, este ltimo  sempre o mesmo, a saber, a angstia; nas obsesses verdadeiras, o afeto pode ser de vrios tipos 
(autocensura, sentimento de culpa, dvida etc.). O estado afetivo emerge como o elemento essencial da obsesso, j que permanece inalterado em cada caso, enquanto 
a representao a ele vinculada se modifica. A anlise psquica mostra que o afeto da obsesso  justificado em todos os casos, mas que a representao a ele vinculada 
representa um substituto de uma representao derivada da vida sexual, que  mais adequada ao afeto e sucumbiu ao recalcamento. Esse estado de coisas  ilustrado 
por numerosas anlises curtas de casos de folie du doute, mania de lavar, aritmomania etc., nos quais a reinstalao da representao recalcada teve xito e foi 
acompanhada de proveitosos efeitos teraputicos. As fobias, stricto senso, so examinadas no artigo sobre a neurose de angstia (N XXXII).
         
         XXXI
         
         Estudos sobre a Histeria |1895d.|
         (Em colaborao com o Dr. J. Breuer.)
         Esse volume contm a complementao do assunto aventado na "Comunicao Preliminar" (N XXIV), versando sobre o mecanismo psquico dos fenmenos histricos. 
Embora resulte de trabalho conjunto dos dois autores, est dividido em sees separadas, das quais quatro casos clnicos detalhados, juntamente com suas discusses 
e o ensaio de uma "Psicoterapia da Histeria" constituem minha parte. Nesse livro, o papel etiolgico desempenhado pela sexualidade  frisado com maior nfase do 
que na "Comunicao Preliminar", e o conceito de "converso"  utilizado para lanar luz sobre a formao dos sintomas histricos. O ensaio sobre psicoterapia procura 
fornecer alguns esclarecimentos sobre a tcnica do procedimento psicanaltico, o nico que  capaz de levar  investigao do contedo inconsciente da mente, e de 
cujo emprego tambm se pode esperar que leve a importantes descobertas psicolgicas.
         
         XXXII
         
         "Fundamentos para destacar da neurastenia uma sndrome especfica denominada 'neurose de angstia'." |1895b.|
         
         A conjuno de um agrupamento constante de sintomas com um determinante etiolgico especfico possibilita destacar do campo mltiplo da "neurastenia" uma 
sndrome que merece o nome de "neurose de angstia", porque todos os seus componentes procedem dos sintomas de angstia. Estes devem ser considerados como manifestaes 
imediatas de angstia ou como rudimentos e equivalentes delas (E. Hecker), e esto freqentemente em completa oposio aos sintomas que constituem a neurastenia 
propriamente dita. A etiologia das duas neuroses tambm aponta para uma oposio desse tipo. Enquanto a neurastenia verdadeira decorre de emisses espontneas ou 
 adquirida atravs da masturbao, os fatores pertinentes  etiologia da neurose de angstia so tais que correspondem a um refreamento da excitao sexual - por 
exemplo, a abstinncia quando a libido est presente, a excitao no consumada e, acima de tudo, o coito interrompido. Na vida real, as neuroses aqui distinguidas 
costumam aparecer combinadas, embora tambm seja possvel demonstrar casos puros. Quando se submete esse tipo de neurose mista  anlise,  possvel indicar uma 
mistura de vrias etiologias especficas.
         A tentativa de chegar a uma teoria da neurose de angstia leva a uma frmula segundo a qual seu mecanismo reside no desvio da excitao sexual somtica 
do campo psquico e num conseqente emprego anormal dessa excitao. A neurose de angstia  a libido sexual transformada.
         
         XXXIII
         
         "Resposta s crticas a meu artigo sobre a neurose de angstia." |1895f.|
         
         Rplica s objees feitas por Loewenfeld ao contedo do N XXXII. O problema da etiologia da patologia das neuroses  aqui enfocado para justificar a diviso 
dos fatores etiolgicos que aparecem em trs categorias: (a) precondies; (b) causas especficas e (c) causas concorrentes ou auxiliares. As chamadas precondies 
so os fatores que, embora indispensveis para produzir o efeito, no podem por si mesmos produzi-lo, mas necessitam, adicionalmente, das causas especficas. As 
causas especficas distinguem-se das precondies pelo fato de figurarem em apenas algumas frmulas etiolgicas, enquanto as precondies desempenham o mesmo papel 
em numerosas afeces. As causas auxiliares so de tal ordem que nem precisam estar invariavelmente presentes, nem podem, por si mesmas, produzir o efeito em questo. 
- No caso das neuroses,  possvel que a precondio seja a hereditariedade; a causa especfica reside nos fatores sexuais; tudo o mais que, afora isso,  apontado 
como formador da etiologia das neuroses (sobrecarga de trabalho, emoo, doena fsica), constitui uma causa auxiliar e no pode nunca substituir inteiramente o 
fator especfico, embora sem dvida possa servir como substituto dele no que concerne  quantidade. A forma de uma neurose depende da natureza da causa sexual especfica; 
a ocorrncia efetiva de uma doena neurtica  determinada por fatores que atuam quantitativamente; a hereditariedade funciona como um multiplicador inserido num 
circuito eltrico.
         
         XXXIV
         "Sobre o distrbio de Bernhardt da sensibilidade na coxa." |1895e.|
         
         Auto-observao dessa afeco inofensiva, provavelmente atribuvel  neurite local; e relatrio sobre alguns outros casos, inclusive bilaterais.
         
         XXXV
         
         "Observaes adicionais sobre as neuropsicoses de defesa." |1896b.|
         
         (1) A etiologia especfica da histeria. A continuao do trabalho psicanaltico com sujeitos histricos teve o resultado uniforme de mostrar que os eventos 
traumticos suspeitados (como smbolos mnmicos dos quais os sintomas histricos persistem) ocorrem na primeira infncia dos pacientes e devem ser descritos como 
abusos sexuais no sentido mais restrito.
         (2) A natureza e o mecanismo da neurose obsessiva. As representaes obsessivas so, invariavelmente, autocensuras transformadas, que reemergiram do recalcamento 
e esto sempre relacionadas com algum ato sexual praticado com prazer na infncia. Investiga-se o curso tomado por esse retorno do recalcado, bem como o trabalho 
de defesa primria e secundria.
         (3) Anlise de um caso de parania crnica. Essa anlise, relatada em detalhe, indica que a etiologia da parania deve ser buscada nas mesmas experincias 
sexuais da primeira infncia, nas quais j fora descoberta a etiologia da histeria e da neurose obsessiva. Os sintomas desse caso de parania so detalhadamente 
reportados s atividades de defesa.
         
         XXXVI
         
         "A etiologia da histeria." |1896c.|
         
         Relatos mais detalhados das experincias sexuais infantis que se demonstrou constiturem a etiologia das psiconeuroses. Em seu contedo, essas experincias 
devem ser descritas como "perverses", e os responsveis devem ser procurados, em geral, entre os parentes mais prximos do paciente. Discusso das dificuldades 
que tm de ser superadas na descoberta dessas lembranas recalcadas e das objees que se podem levantar aos resultados assim obtidos. Demonstra-se que os sintomas 
histricos so derivados de lembranas que atuam inconscientemente, pois s aparecem em colaborao com tais lembranas. A presena de experincias sexuais infantis 
 uma condio indispensvel para que os esforos defensivos (que ocorrem tambm em pessoas normais) resultem na produo de efeitos patognicos - ou seja, de neuroses.
         
         XXXVII
         
         "A hereditariedade e a etiologia das neuroses." |1896a.|
         
         As constataes a que a psicanlise chegou at agora sobre a etiologia das neuroses so aqui empregadas para criticar teorias atuais da onipotncia da hereditariedade 
na neuropatologia. O papel desempenhado pela hereditariedade tem sido superestimado em vrios sentidos. Primeiramente, por incluir entre as doenas neuropticas 
hereditrias estados como as dores de cabea, as nevralgias etc, que so muito provavelmente atribuveis, em geral, a afeces orgnicas das cavidades cranianas 
(o nariz). Em segundo lugar, por considerar qualquer enfermidade nervosa que se descubra entre os parentes como evidncia de uma tara hereditria, e assim, desde 
logo, no deixando nenhum espao para as doenas neuropticas adquiridas que no possuam fora comprobatria similar. Em terceiro lugar, o papel etiolgico da sfilis 
tem sido mal compreendido e as molstias nervosas dela derivadas tm sido atribudas  hereditariedade. Mas, alm disso,  vivel levantar-se uma objeo geral contra 
uma forma de hereditariedade descrita como "herana dissimilar" (ou herana com modificao da forma da doena),  qual se concede um papel muito mais importante 
que o atribudo  herana "similar". Contudo, quando se demonstra uma tara hereditria numa famlia pelo fato de seus membros serem alternadamente afetados por toda 
sorte de doenas nervosas - coria, epilepsia, histeria, apoplexia etc. -, sem qualquer determinante mais preciso, ento, ou necessitamos de um conhecimento das 
leis segundo as quais essas doenas se sucedem, ou fica aberto o espao para as etiologias individuais que determinam precisamente a escolha do estado neuroptico 
que efetivamente resulta delas. Se existem tais etiologias particulares, so elas as to almejadas causas especficas das vrias formas clnicas diferentes, e a 
hereditariedade  restituda ao papel de requisito ou precondio.
         
         XXXVIII
         
         Paralisias Cerebrais Infantis. |1897a.|
         
         Esse  um resumo dos dois trabalhos sobre o mesmo tema publicados em 1891 e 1893 |Nos. XX e XXV|, juntamente com os acrscimos e alteraes que desde ento 
se fizeram necessrios. Estes afetam o captulo sobre a poliomyelitis acuta, que nesse nterim foi reconhecida como uma doena no-sistemtica, o captulo sobre 
a encefalite como um processo inicial de hemiplegia espstica, e o captulo sobre a interpretao dos casos de espasticidade paraplgica, cuja natureza cerebral 
tem sido recentemente posta em dvida. Uma discusso especial refere-se s tentativas de fracionar o contedo das diplegias cerebrais em vrias entidades clnicas 
claramente divididas, ou pelo menos de destacar o que se conhece como "doena de Little", como individualidade clnica, da mistura de formas de afeces similares. 
As dificuldades em que esbarram tais tentativas so assinaladas, e se sustenta como nica posio justificvel a de que a "paralisia cerebral infantil" deve ser 
mantida, no momento, como um conceito clnico coletivo para todo um conjunto de afeces similares com etiologia exgena. O rpido incremento das observaes de 
distrbios nervosos familiares e hereditrios em crianas, que se assemelham em muitos pontos s paralisias cerebrais infantis, tem criado a premncia de se coligirem 
essas novas formas e de se buscar traar uma distino fundamental entre elas e as paralisias cerebrais infantis.
         
         
         APNDICE
         
         A. Obras escritas sob minha influncia
         
         E. Rosenthal, Contribution  l'tude des diplgies crbrales de l'enfance. Thse de Lyon. (Mdaille d'argent.) (1892.).
         L. Rosenberg, Casuistische Beitraege zur Kenntnis der cerebralen Kinderlaehmungen und der Epilepsie. (N IV, Nova Srie, de Beitraege zur Kinderheilkunde, 
organizado por Kassowitz.) (1893.).
         
         B. Tradues do francs.
         
         J.-M. Charcot, Neue Vorlesungen ber die Krankheiten des Nervensystems, insbesondere ber Hysterie. (Toeplitz & Deuticke, Viena.) |1886f.|
         H. Bernheim, Die Suggestion und ihre Heilwirkung. (Fr. Deuticke, Viena.) |1888-89.| (Segunda edio, 1896.)
         H. Bernheim, Neue Studien ber Hypnotismus, Suggestion und Psychotherapie. (Fr. Deuticke, Viena.) |1892a.|
         J.-M. Charcot, Poliklinische Vortraege. Vol. I. (Leons du Mardi.) Com notas do tradutor. (Fr. Deuticke, Viena.) |1892-94.|
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       A SEXUALIDADE NA ETIOLOGIA DAS NEUROSES (1898)
         
         
         DIE SEXUALITAET IN DER AETIOLOGIE DER NEUROSEN
         (a)EDIES ALEMS:
         1898 Wien. klin. Rdsch., 12 (2), 21-2, (4), 55-7, (5), 70-2, (7), 103-5. (9, 23 e 30 de janeiro e 13 de fevereiro.)
         1906 S.K.S.N., 1, 181-204. (1911, 2 ed.; 1922, 4 ed.)
         1925 G.S., 1, 439-64.
         1952 G.W., 1, 491-516.
         
         (b)TRADUO INGLESA:
         "Sexuality in the Aetiology of the Neuroses"
         
         1924 C.P., 1, 220-48. (Trad. de J. Bernays.)
         
         A presente traduo  uma verso modificada da publicada em 1924.
         
         Este artigo foi concludo em 9 de fevereiro de 1898, como nos informa uma carta a Fliess (Freud, 1950a, Carta 83.) J fora iniciado um ms antes (ibid., 
Carta 81) e, em ambas as cartas, Freud o trata desdenhosamente como um artigo "Gartenlaube". Este era o ttulo (literalmente, "caramancho") de uma revista de assuntos 
domsticos cujo nome se tornara proverbial por suas histrias sentimentais. Mas ele acrescenta que o artigo " bastante impudente e basicamente destinado a criar 
caso, no que sem dvida ter xito. Breuer dir que me causei muitos prejuzos."
         Dois anos se haviam passado desde o ltimo artigo de Freud sobre psicopatologia, "A Etiologia da Histeria" (1896c), e durante esses dois anos muita coisa 
acontecera para ocupar sua mente. Talvez a menos importante (pelo menos do nosso ponto de vista) tenha sido a concluso, em incios de 1897, de seu tratado de trezentas 
pginas sobre as paralisias infantis para a grande enciclopdia de medicina de Nothnagel, no qual estivera ocupado por vrios anos, muito a contragosto, e que foi 
seu ltimo trabalho neurolgico. Cf., por exemplo, as cartas a Fliess de 20 e 31 de outubro e 8 de novembro de 1895, 4 de julho e 2 de novembro de 1896, e 24 de 
janeiro de 1897 (Freud, 1950a, Cartas 32, 33, 35, 47, 50 e 57). Uma vez ultrapassada essa tarefa, ele podia devotar-se mais completamente  psicologia, e logo se 
envolveu num evento que se revelaria um marco memorvel - sua prpria auto-anlise.Esta comeou no vero de 1897 e, j pelo outono, conduzira a algumas descobertas 
fundamentais: o abandono da teoria traumtica da etiologia das neuroses (21 de setembro, Carta 69), a descoberta do complexo de dipo (15 de outubro, Carta 71) e 
o reconhecimento gradual da sexualidade infantil como um fato normal e universal (p.ex. 14 de novembro, Carta 75.)
         De todos esses desenvolvimentos (e dos avanos paralelos na compreenso de Freud da psicologia do sonho) no h praticamente nenhum vestgio no presente 
artigo, o que sem dvida explica o desdm de seu autor por ele. Quanto aos aspectos fundamentais, ele no vai alm do ponto atingido dois anos antes: Freud se reservava 
para seu grande esforo subseqente, que ocorreria dali a mais dois anos, em A Interpretao dos Sonhos (1900a).
         Mas, se a primeira parte do trabalho contm pouco mais que uma reafirmao das concepes anteriores de Freud sobre a etiologia das neuroses, a argumentao 
tambm nos apresenta algo de novo - uma abordagem de problemas sociolgicos. A crtica sem rodeios aqui feita  atitude da profisso mdica em relao aos assuntos 
sexuais, particularmente  masturbao, ao uso de anticoncepcionais e s dificuldades da vida conjugal, prenuncia toda uma srie de restries posteriores de Freud 
s convenes sociais da civilizao - comeando com o artigo sobre "Moral Sexual 'Civilizada'" (1908d) e findando com O Mal-Estar na Cultura (1930a).
         
         A SEXUALIDADE NA ETIOLOGIA DAS NEUROSES
         
         Pesquisas exaustivas durante os ltimos anos levaram-me a reconhecer que as causas mais imediatas e, para fins prticos, mais importantes de todos os casos 
de doena neurtica so encontradas em fatores emergentes da vida sexual. Essa teoria no  inteiramente nova. Uma certa dose de importncia tem sido concedida aos 
fatores sexuais na etiologia das neuroses desde tempos imemoriais e por todos os autores que trataram do assunto. Em certas reas marginais da medicina sempre se 
prometeu, simultaneamente, a cura das "queixas sexuais" e da "fraqueza nervosa". Uma vez que a validade da teoria deixe de ser negada, portanto, no ser difcil 
contestar sua originalidade.
         Em alguns artigos sucintos que apareceram nos ltimos anos no Neurologisches Zentralblatt |1894a, 1895b e 1896b), na Revue Neurologique |1895c e 1896a| 
e na Wiener Klinische Rundschau|1895f e 1896c| tentei dar uma indicao do material e dos pontos de vista que oferecem apoio cientfico  teoria da "etiologia sexual 
das neuroses". Falta ainda, entretanto, uma apresentao completa, principalmente porque, no esforo de lanar luz sobre o que se reconhece como a situao atual, 
deparamos sempre com novos problemas para cuja soluo ainda no se realizou o trabalho preliminar necessrio. No me parece nada prematuro, porm, tentar dirigir 
a ateno dos profissionais da medicina para o que acredito serem os fatos, de modo que eles possam convencer-se da verdade de minhas asseres e, ao mesmo tempo, 
dos benefcios que podem extrair, na prtica, do conhecimento delas.
         Bem sei que se faro esforos, pelo uso de argumentos com um colorido tico, para impedir o mdico de levar o assunto adiante. Quem quer que pretenda certificar-se 
de que as neuroses de seus pacientes esto ou no realmente ligadas  vida sexual deles no pode evitar interrog-los sobre sua vida sexual e insistir em receber 
um depoimento verdadeiro sobre ela. Mas nisso, afirma-se, est o perigo para o indivduo e para a sociedade. O mdico, segundo ouo dizer, no tem o direito de se 
intrometer nos segredos sexuais de seus pacientes, nem de ferir grosseiramente seu recato (especialmente tratando-se de pacientes do sexo feminino) com interrogatrios 
desse tipo. Sua mo inbil s conseguir arruinar a felicidade da famlia, ofender a inocncia dos jovens e usurpar a autoridade dos pais; e no que concerne aos 
adultos, ele passar a partilhar de conhecimentos incmodos e destruir suas prprias relaes com os pacientes. A concluso, portanto,  que  seu dever tico manter-se 
afastado de toda a questo sexual.
         A isso se pode muito bem replicar que no passa da expresso de um puritanismo indigno de um mdico e que esconde insuficientemente sua fraqueza por trs 
de argumentos precrios. Se os fatores procedentes da vida sexual precisam realmente ser reconhecidos como causas de doena, ento, por essa mesma razo, a investigao 
e a discusso deles incluem-se automaticamente na esfera do dever do mdico. A ofensa ao pudor de que ele  culpado nesse caso no  diferente nem pior, como se 
pode supor, do que sua insistncia em examinar os rgos genitais de uma mulher a fim de curar uma afeco local - pedido em que ele tem o compromisso de insistir 
por sua prpria formao mdica. At hoje se ouve com freqncia mulheres mais velhas que passaram sua juventude nas provncias, contarem como, em curta poca, ficaram 
reduzidas a um estado de esgotamento por hemorragias genitais excessivas porque no conseguiam decidir-se a permitir que um mdico contemplasse sua nudez. A influncia 
educativa exercida no pblico pelo mundo da medicina, no decorrer de uma gerao, alterou de tal modo as coisas que uma objeo desse tipo  uma ocorrncia extremamente 
rara entre as jovens de hoje. Se viesse a ocorrer, seria condenada como puritanismo absurdo, como recato fora de lugar. Ser que estamos vivendo na Turquia, perguntaria 
um marido, onde tudo o que uma mulher doente pode mostrar ao mdico  seu braos atravs de um buraco na parede?
         No  verdade que o interrogatrio dos pacientes e o conhecimento de suas preocupaes sexuais forneam ao mdico um grau perigoso de poder sobre eles. 
Em pocas anteriores, a mesma objeo pde ser feita ao uso de anestsicos, que privam o paciente de sua conscincia e do exerccio de sua vontade, deixando a critrio 
do mdico determinar se e quando ele os recuperar. No entanto, hoje em dia, os anestsicos tornaram-se indispensveis para ns, porque podem, melhor do que qualquer 
outra coisa auxiliar o mdico em seu trabalho; e entre suas vrias outras obrigaes srias, ele assume a responsabilidade por seu uso.
         Um mdico sempre pode causar danos, quando  inbil ou inescrupuloso, e isso no se aplica mais nem menos  investigao da vida sexual dos pacientes do 
que a outras reas. Naturalmente, se algum, aps um auto-exame honesto, sentir que no possui o tato, a seriedade e a discrio necessrios para interrogar pacientes 
neurticos, e se estiver ciente de que as revelaes de carter sexual lhe provocariam arrepios lascivos, em vez de interesse cientfico, ele estar certo em evitar 
o tpico da etiologia das neuroses. Tudo o que pedimos, alm disso,  que se abstenha tambm de tratar pacientes nervosos.
         Tampouco  verdade que os pacientes levantam obstculos insuperveis  investigao de sua vida sexual. Aps uma ligeira hesitao, os adultos costumam 
adaptar-se  situao, dizendo: "Afinal, estou diante do mdico; posso dizer-lhe qualquer coisa". Inmeras mulheres, que acham bastante difcil passar a vida escondendo 
seus sentimentos sexuais, ficam aliviadas ao descobrir que, com o mdico, nenhuma considerao sobrepuja a de sua recuperao, e lhe so gratas por permitir, ao 
menos uma vez na vida, que se comportem humanamente em relao s coisas sexuais. O vago conhecimento da esmagadora importncia dos fatores sexuais na produo das 
neuroses (um conhecimento que estou tentando resgatar para a cincia) parece nunca ter passado despercebido  conscincia dos leigos. Quantas vezes testemunhamos 
cenas como essa: um casal em que um dos membros sofre de uma neurose procura-nos para uma consulta. Depois de tecermos inmeros comentrios introdutrios e justificativos, 
no sentido de que no deve existir nenhuma barreira entre eles e o mdico, que quer ser til em tais casos etc., falamo-lhes de nossa suspeita de que a causa da 
doena resida na forma antinatural e prejudicial de relaes sexuais que eles devem ter escolhido desde o ltimo parto da mulher. Dizemos que os mdicos em geral 
no se interessam por esses assuntos, mas que isso  repreensvel neles, mesmo que os pacientes no gostem que lhes falem sobre essas coisas etc. Nisso, um dos cnjuges 
cutuca o outro e diz: "Est vendo? Eu sempre lhe disse que isso ia me deixar doente". Ao que o outro responde: ", eu sei, eu tambm achava, mas que se h de fazer?"
         Em algumas outras circunstncias, quando se est lidando com mocinhas que, afinal, so sistematicamente educadas para esconderem sua vida sexual,  preciso 
contentar-se com uma dose muito pequena de sinceridade nas respostas da paciente. Mas aqui entra uma considerao importante - a saber, que o mdico experiente nessas 
coisas no est despreparado ao se defrontar com seus pacientes e, em geral, no precisa pedir-lhes informaes, mas apenas uma confirmao de suas suspeitas. Quem 
seguir minhas indicaes de como elucidar a morfologia das neuroses e traduzi-la em termos etiolgicos necessitar, alm disso, de muito poucas revelaes adicionais 
de seus pacientes; na prpria descrio de seus sintomas, que todos esto prontos a fornecer, eles costumam apresentar ao mdico, ao mesmo tempo, os fatores sexuais 
que esto ocultos.
         Seria muito vantajoso que as pessoas doentes tivessem maior conhecimento da segurana com que o mdico est agora em condies de interpretar suas queixas 
neurticas e de inferir delas a etiologia sexual atuante. Sem dvida, isso estimularia tais pessoas a abandonarem seu sigilo a partir do momento em que se decidissem 
a buscar ajuda para seus sofrimentos. Alm disso,  do interesse geral que se torne um dever, entre homens e mulheres, um grau mais alto de franqueza sobre as coisas 
sexuais do que se tem esperado deles at agora. Isso s pode constituir-se em benefcio para a moral sexual. Em matria de sexualidade, somos todos, no momento, 
doentes ou sos, no mais do que hipcritas. Ser muito bom se obtivermos, em conseqncia dessa franqueza geral, uma certa dose de tolerncia quanto s questes 
sexuais.
         Os mdicos costumam interessar-se muito pouco pelas questes discutidas entre os neuropatologistas com relao s neuroses: se  justificvel, por exemplo, 
estabelecer uma diferenciao estrita entre histeria e neurastenia, se  possvel distinguir ao lado delas a histeroneurastenia, se as obsesses devem ser classificadas 
juntamente com a neurastenia ou reconhecidas como uma neurose distinta, e assim por diante. E a rigor,  bem possvel que essas distines sejam irrelevantes para 
o profissional, desde que no haja outras conseqncias das decises a que se tenha chegado - nenhum aprofundamento maior da compreenso e nenhuma indicao para 
um tratamento teraputico - e desde que o paciente seja sempre enviado a um estabelecimento hidroptico e informado de que no h nenhum problema com ele. A situao 
ser diferente, entretanto, se for adotado nosso ponto de vista sobre as relaes causais entre a sexualidade e as neuroses. Nesse caso, um novo interesse ser despertado 
pela sintomatologia dos diferentes casos neurticos, e passar a ter importncia prtica que se possa decompor corretamente o complicado quadro em seus componentes, 
assim como nome-los com acerto. E isso porque a morfologia das neuroses pode ser traduzida, com pouca dificuldade, em sua etiologia, e o conhecimento desta ltima 
leva, naturalmente, a novas indicaes quanto aos mtodos de cura.
         Assim, a importante deciso que precisamos tomar - e pode-se tom-la com segurana em todos os casos, se os sintomas forem cuidadosamente avaliados -  
se o caso tem as caractersticas da neurastenia ou de uma psiconeurose (histeria, obsesses). (Os casos mistos, em que os sinais da neurastenia se combinam com os 
de uma psiconeurose, so de ocorrncia muito freqente, mas deixaremos sua considerao para mais tarde.)  apenas nas neurastenias que a inquirio do paciente 
consegue desvendar os fatores etiolgicos em sua vida sexual. Esses fatores,  claro, so conhecidos dele e pertencem ao momento atual, ou, mais exatamente, ao perodo 
de sua vida que se estende desde a maturidade sexual (embora essa delimitao no cubra todos os casos). Nas psiconeuroses, esse tipo de inquirio traz pouco resultado. 
Talvez nos fornea um conhecimento dos fatores que devem ser reconhecidos como precipitantes, e que podem estar ou no ligados  vida sexual. Quando essa ligao 
existe, eles mostram no diferir, quanto a sua natureza, dos fatores etiolgicos da neurastenia, isto , falta-lhes inteiramente qualquer relao especfica com 
a causao da psiconeurose. No obstante, em todos os casos, a etiologia das psiconeuroses reside tambm no campo da sexualidade. Por um singular percurso tortuoso 
de que falarei mais adiante,  possvel chegar a um conhecimento dessa etiologia e compreender por que o paciente era incapaz de nos dizer qualquer coisa a esse 
respeito. Pois os acontecimentos e influncias que esto na raiz de toda psiconeurose pertencem, no ao momento atual, mas a uma poca da vida h muito passada,que 
, por assim dizer, pr-histrica -  poca da primeira infncia; e eis por que o paciente tambm nada sabe deles. Ele os esqueceu - embora apenas em determinado 
sentido.
         Assim, em todo caso de neurose h uma etiologia sexual; mas nas neurastenia  uma etiologia de tipo contemporneo, enquanto nas psiconeuroses os fatores 
so de natureza infantil. Esse  o primeiro grande contraste na etiologia das neuroses. Um segundo emerge ao considerarmos uma diferena na sintomatologia da prpria 
neurastenia. Aqui, por um lado, encontramos casos em que se destacam certas queixas que so caractersticas da neurastenia (presso intracraniana, propenso  fadiga, 
dispesia, constipao, irritao espinhal etc.); em outros casos, esses sinais desempenham um papel menor e o quadro clnico se compe de outros sintomas, apresentando 
todos uma relao com o sintoma nuclear, o de angstia (ansiedade, inquietao, expectativa angustiada, ataques de angstia completos, rudimentares ou complementares, 
vertigem locomotora, agorafobia, insnia, maior sensibilidade  dor, e assim por diante). Reservei para o primeiro tipo o nome de neurastenia, mas distingui o segundo 
como "neurose de angstia", e forneci as razes para essa separao em outro texto, onde tambm levei em conta o fato de que, em geral, as duas neuroses aparecem 
juntas. Para o presente propsito, basta enfatizar que, paralelamente  diferena nos sintomas dessas duas formas de doena, h uma diferena em sua etiologia. A 
neurastenia sempre pode ser reportada a um estado do sistema nervoso como o que  adquirido pela masturbao excessiva ou decorre espontaneamente de emisses freqentes; 
a neurose de angstia revela sistematicamente influncias sexuais que tm em comum o fator da continncia ou da satisfao incompleta - como o coito interrompido, 
a abstinncia ao lado de uma libido viva, a chamada excitao no consumada, e outros. Em meu breve artigo que tencionou apresentar a neurose de angstia, propus 
a frmula de que a angstia  sempre a libido que foi desviada de seu emprego |normal|.
         Quando surge um caso em que os sintomas da neurastenia e da neurose de angstia se combinam - ou seja, quando temos um caso misto -, basta nos atermos a 
nossa proposio empiricamente obtida de que a mistura de neuroses implica a colaborao de vrios fatores etiolgicos para constatarmos, em todas as situaes, 
a confirmao de nossa expectativa. A freqncia com que esse fatores etiolgicos se ligam entre si organicamente, por meio da interao de processos sexuais - por 
exemplo, coito interrompido ou potncia insuficiente no homem, paralelamente  masturbao -, bem merece uma discusso separada.
         Depois de diagnosticar com segurana um caso de neurose neurastnica e classificar seus sintomas corretamente, estamos em condies de traduzir a sintomatologia 
em etiologia; e podemos ento, confiantemente, solicitar do paciente a confirmao de nossas suspeitas. No nos devemos deixar enganar pelas negativas iniciais. 
Se sustentarmos firmemente aquilo que inferimos, acabaremos por quebrar qualquer resistncia, enfatizando a natureza inabalvel de nossas convices. Desse modo, 
aprendemos sobre a vida sexual de homens e mulheres toda sorte de coisas, que preencheriam um volume til e instrutivo; e aprendemos tambm a lamentar, por todos 
os pontos de vista, que a cincia sexual hoje em dia ainda seja desacreditada. J que os pequenos desvios de uma vita sexualis normal so por demais comuns para 
que possamos atribuir qualquer valor a sua descoberta, concederemos peso explicativo apenas s anormalidades srias e prolongadas na vida sexual de um paciente neurtico. 
Ademais, a idia de que se poderia, pela insistncia, fazer um paciente psiquicamente normal acusar-se falsamente de delitos sexuais - tal idia pode seguramente 
ser descartada como um perigo imaginrio.
         Ao se proceder dessa maneira com os pacientes, adquire-se tambm a convico de que, no que se refere  teoria da etiologia sexual da neurastenia, no h 
casos negativos. Quando a mim, pelo menos, essa convico tornou-se to firme que, nos casos em que a inquirio mostra um resultado negativo, tambm tiro proveito 
disso para fins de diagnstico. Em outras palavras, digo a mim mesmo que tal caso no pode ser de neurastenia. Desse modo, fui levado, em vrias oportunidades, a 
presumir a presena de uma paralisia progressiva em vez de neurastenia, por no ter conseguido comprovar o fato - necessrio para minha teoria - de que o paciente 
se entregava livremente  masturbao; e o curso posterior desses casos confirmou minha posio. Em outro caso, o paciente, que no apresentava nenhuma alterao 
orgnica evidente, queixava-se de presso intracraniana, dores de cabea e dispepsia, mas refutava minhas suspeitas sobre sua vida sexual de maneira franca e com 
uma certeza inabalvel; ocorreu-me ento a possibilidade de que ele tivesse uma supurao latente numa de suas cavidades nasais. Um colega meu, especialista nessa 
rea, confirmou a inferncia que eu fizera a partir dos resultados sexuais negativos de minha inquirio, retirando o pus da cavidade do paciente e aliviando-o de 
suas queixas.
         Entretanto, a existncia aparente de "casos negativos" tambm pode surgir de outra maneira. Algumas vezes, a interrogao revela a presena de uma vida 
sexual normal num paciente cuja neurose, num exame superficial, de fato se assemelha estreitamente a uma neurastenia ou uma neurose de angstia. Mas uma investigao 
mais aprofundada revela, sistematicamente, o verdadeiro estado de coisas. Por trs desses casos, tomados como neurastenia, h uma psiconeurose - histeria ou neurose 
obsessiva. A histeria, em especial, que imita tantas afeces orgnicas, pode facilmente assumir a aparncia de uma das "neuroses atuais", elevando os sintomas destas 
 categoria de sintomas histricos. Tais histerias, sob a forma de neurastenia, no so sequer muito raras. Todavia, recorrer  psiconeurose, quando um caso de neurastenia 
apresenta um resultado sexual negativo, no  uma sada fcil para o problema: a prova de que estamos certos deve ser obtida pelo nico mtodo capaz de desmascarar 
a histeria com certeza - o mtodo da psicanlise, a que logo nos referiremos.
         Entretanto, talvez haja algumas pessoas dispostas a reconhecer a etiologia sexual de seus pacientes neurastnicos, mas que, apesar disso, encaram como parcialidade 
o fato de no serem solicitadas a prestar ateno tambm a outros fatores sempre mencionados pelas autoridades como causas da neurastenia. Ora, nunca me ocorreria 
substituir pela etiologia sexual das neuroses toda e qualquer outra etiologia, e assim afirmar que estas no tm nenhuma fora atuante. Isso seria um equvoco. O 
que penso, antes,  que, alm de todos os conhecidos fatores etiolgicos j reconhecidos por essas autoridades - provavelmente de forma acertada - como conducentes 
 neurastenia, os fatores sexuais, que at hoje no foram suficientemente apreciados, tambm devem ser levados em conta. Em minha opinio, porm, esses fatores sexuais 
merecem que se lhes conceda um lugar especial na srie etiolgica. Porque s eles nunca esto ausentes de todos os casos de neurastenia, s eles so capazes de produzir 
a neurose sem nenhuma ajuda adicional, de modo que os outros fatores parecem reduzir-se ao papel de etiologia auxiliar e complementar, e s eles permitem ao mdico 
reconhecer relaes slidas entre sua natureza diversificada e a multiplicidade dos quadros clnicos. Quando, por outro lado, agrupo todos os pacientes que aparentemente 
se tornaram neurastnicos por excesso de trabalho, agitao emocional, ou por um efeito posterior da febre tifide, e assim por diante, eles no me apresentam nada 
em comum nos seus sintomas. A natureza de sua etiologia no me d nenhuma idia de que tipo de sintomas esperar, assim como, inversamente, o quadro clnico por eles 
apresentado no me faculta inferir a etiologia neles atuante.
         As causas sexuais so tambm as que mais profundamente oferecem ao mdico um pouco de apoio para sua influncia teraputica. A hereditariedade  sem dvida 
um fator importante, quando est presente; possibilita a manifestao de um forte efeito patolgico onde, de outra maneira, o resultado seria apenas um efeito muito 
fraco. Mas a hereditariedade  inacessvel  influncia do mdico; todos nascem com suas prprias tendncias hereditrias  doena e nada podemos fazer para alter-las. 
Tampouco devemos esquecer que  precisamente na etiologia das neurastenias que devemos, necessariamente, negar o primeiro lugar  hereditariedade.A neurastenia (em 
ambas as suas formas)  uma dessas afeces que qualquer um pode facilmente adquirir sem ter nenhuma tara hereditria. Se assim no fosse, o enorme crescimento da 
neurastenia de que se queixam todas as autoridades, seria impensvel. No que se refere  civilizao, entre cujos pecados as pessoas to freqentemente incluem a 
responsabilidade pela neurastenia,  bem possvel que essas autoridades estejam certas (embora o modo como isso se d difira bastante, provavelmente, do que elas 
imaginam). Mas o estado de nossa civilizao, mais uma vez,  algo inaltervel pelo indivduo. Alm disso, sendo esse um fator comum a todos os membros da mesma 
sociedade, ele nunca poder explicar a seletividade da incidncia da doena. O mdico que no  neurastnico est to exposto a essa mesma influncia de uma civilizao 
supostamente prejudicial quanto o paciente neurastnico de que tem que tratar. Sujeitos a essas limitaes, os fatores de estafa retm sua importncia. Mas o elemento 
do "excesso de trabalho", que os mdicos tanto gostam de apontar a seus pacientes como causa de suas neuroses,  com demasiada freqncia indevidamente usado.  
bem verdade que qualquer pessoa que, devido a perturbaes sexuais, tenha-se predisposto  neurastenia, tolera mal o trabalho intelectual e as exigncias psquicas 
da vida; mas ningum se torna neurtico apenas por efeito do trabalho ou da agitao. O trabalho intelectual , antes, uma proteo contra a neurastenia; so precisamente 
os mais incansveis trabalhadores intelectuais que escapam da neurastenia, e aquilo de que os neurastnicos se queixam como "excesso de trabalho que os faz adoecerem" 
no merece, em geral, ser chamado de "trabalho intelectual", seja por sua qualidade, seja por sua quantidade. Os mdicos tero que se acostumar a explicar aos empregados 
de escritrio que se "esgotaram" em suas escrivaninhas, ou s donas-de-casa para quem se tornaram pesadas demais as tarefas domsticas, que eles adoeceram, no por 
terem tentado executar tarefas facilmente realizveis por um crebro civilizado, mas porque, durante todo o tempo, negligenciaram e prejudicaram flagrantemente sua 
vida sexual.
         Alm disso, somente a etiologia sexual nos possibilita compreender todos os detalhes da histria clnica dos neurastnicos, as misteriosas melhoras em meio 
ao decurso da doena e as deterioraes igualmente incompreensveis, ambas usualmente relacionadas por mdicos e pacientes a qualquer tratamento que tenha sido adotado. 
Em meus registros, que incluem mais de duzentos casos, h, por exemplo, a histria de um homem que, uma vez fracassado o tratamento prescrito pelo mdico da famlia, 
procurou o pastor Kneipp e, durante um ano aps ter sido tratado por ele, apresentou uma extraordinria melhora no meio de sua doena. Mas quando, um ano depois, 
seus sintomas tornaram a piorar e ele voltou a Woerishofen em busca de ajuda, o segundo tratamento fracassou. Uma olhadela na crnica familiar do paciente resolveu 
o duplo enigma. Seis meses e meio aps seu primeiro retorno de Woerishofen, sua mulher lhe deu um filho. Isso significa que ele a deixara no comeo de uma gravidez 
da qual ainda no estava informado; aps seu retorno, pde praticar o coito natural com ela. Ao fim desse perodo, que teve nele um efeito curativo, sua neurose 
ressurgiu por ele ter voltado a recorrer ao coito interrompido; o segundo tratamento estava destinado ao fracasso, j que essa foi a ltima gravidez de sua esposa.
         Houve um caso semelhante em que, mais uma vez, o tratamento teve um efeito inesperado que requeria uma explicao. Esse caso revelou-se ainda mais instrutivo, 
pois exibia uma enigmtica alternncia nos sintomas da neurose. Um jovem paciente neurtico fora enviado por seu mdico a um conceituado estabelecimento hidroptico 
devido a uma neurastenia tpica. L, seu estado teve, a princpio, uma melhora constante, de modo que tudo indicava que ele receberia alta como um grato discpulo 
da hidroterapia. Mas na sexta semana ocorreu uma mudana completa: o paciente "no podia mais tolerar a gua", tornou-se cada vez mais nervoso e, por fim, deixou 
o estabelecimento aps mais duas semanas, no curado e insatisfeito. Quando se queixou a mim dessa fraude teraputica, fiz-lhe algumas perguntas sobre os sintomas 
que o tinham acometido em meio ao tratamento. Muito curiosamente, eles haviam sofrido uma mudana completa. O paciente entrara no sanatrio com presso intracraniana, 
fadiga e dispepsia; os sintomas que o perturbaram durante o tratamento tinham sido agitao, ataques de dispnia, vertigem ao caminhar e distrbios do sono. Pude 
ento dizer-lhe "Voc est cometendo uma injustia contra a hidroterapia. Voc mesmo sabia muito bem que tinha adoecido em conseqncia da masturbao prolongada. 
No sanatrio, abandonou essa forma de satisfao e, por isso, recuperou-se depressa. Ao sentir-se bem, entretanto, voc procurou imprudentemente manter relaes 
com uma dama - uma paciente do mesmo estabelecimento, suponhamos -, o que s podia levar  excitao sem satisfao normal. As belas caminhadas pelas imediaes 
do estabelecimento lhe deram ampla oportunidade para isso. Foi esse relacionamento, e no uma repentina impossibilidade de tolerar a hidroterapia, que o fez adoecer 
de novo. Alm disso, seu atual estado de sade me leva a concluir que voc est continuando a manter esse relacionamento tambm aqui na cidade." Posso garantir a 
meus leitores que o paciente confirmou o que eu dissera, ponto por ponto.
         O atual tratamento da neurastenia - que talvez seja executado com mais xito nos estabelecimentos hidropticos - tem como objetivo a melhora do estado nervoso 
atravs de dois fatores: proteo e fortalecimento do paciente. Nada tenho a dizer contra esse mtodo de tratamento, exceto que ele no leva em conta as circunstncias 
da vida sexual do paciente. Segundo minha experincia,  altamente desejvel que os diretores mdicos de tais estabelecimentos se conscientizem adequadamente de 
que esto lidando, no com vtimas da civilizao ou da hereditariedade, mas - sit venia verbo - com pessoas sexualmente aleijadas. Eles seriam ento, por um lado, 
mais facilmente capazes de explicar seus sucessos e seus fracassos, e, por outro, obteriam novos sucessos, que estiveram at agora  merc do acaso ou do comportamento 
espontneo do paciente. Se afastarmos de casa uma neurastnica que sofra de angstia e a enviarmos a um estabelecimento hidroptico, e se l, liberada de todas as 
suas obrigaes, ela for levada a tomar banhos, fazer exerccios e comer muito bem, certamente nos inclinaremos a pensar que a melhora - freqentemente brilhante 
- obtida em algumas semanas ou meses se deve ao repouso de que ela desfrutou e aos efeitos revigorantes da hidroterapia.  possvel que seja assim, mas estamos desconsiderando 
o fato de que seu afastamento de casa implica tambm uma interrupo das relaes conjugais, e que  apenas a eliminao temporria dessa causa patognica que possibilita 
a recuperao da paciente com o auxlio do tratamento favorvel. O desprezo por esse ponto de vista etiolgico  posteriormente vingado, quando o que se afigurava 
uma cura to gratificante revela-se uma recuperao muito transitria. Logo depois de o paciente retornar  vida do dia-a-dia, os sintomas da enfermidade reaparecem 
e o obrigam a passar parte de sua existncia improdutivamente, de tempos em tempos, em estabelecimentos desse tipo, ou a dirigir suas esperanas de recuperao para 
outro lugar. Portanto, est claro que, na neurastenia, os problemas teraputicos devem ser atacados, no em instituies hidropticas, mas dentro do contexto da 
vida do paciente.
         Em outros casos, nossa teoria etiolgica pode ajudar o mdico encarregado da instituio, lanando luz sobre a fonte dos fracassos que ocorrem na prpria 
instituio, e pode sugerir-lhe meios de evit-los. A masturbao  muito mais comum entre as meninas crescidas e os homens maduros do que se costuma supor, e tem 
efeito nocivo no s por produzir sintomas neurastnicos, mas tambm por manter os pacientes vergados sob o peso do que eles consideram ser um segredo vergonhoso. 
Os mdicos no acostumados a traduzir a neurastenia em masturbao explicam o estado patolgico do paciente reportando-o a algum rtulo como anemia, subnutrio, 
excesso de trabalho etc., e esperam ento cur-lo aplicando uma terapia projetada para se opor a esses estados. Para seu espanto, contudo, os perodos de melhora 
se alternam no paciente com perodos em que todos os seus sintomas pioram e so acompanhados de grave depresso. O resultado de tal tratamento , em geral, duvidoso. 
Se os mdicos soubessem que o paciente estava lutando contra seu hbito sexual, e que estava em desespero por ter sido mais uma vez obrigado a ceder a ele, se compreendessem 
como extrair dele esse segredo, torn-lo menos grave a seus olhos e apoi-lo em sua luta contra o hbito, o xito de seus esforos teraputicos bem poderia ser assim 
assegurado.
         Arrancar o paciente do hbito da masturbao  apenas uma das novas tarefas teraputicas impostas ao mdico que leva em conta a etiologia sexual dessa neurose; 
e parece que precisamente essa tarefa, tal como a cura de qualquer outro vcio, s pode ser efetuada numa instituio e sob superviso mdica. Entregue a si mesmo, 
o masturbador est acostumado, sempre que acontece alguma coisa que o deprime, a retornar a sua cmoda forma de satisfao. O tratamento mdico, nesse caso, no 
pode ter nenhum outro objetivo seno o de reconduzir o neurastnico, que agora recobrou suas foras, ao contato sexual normal. Pois a necessidade sexual, uma vez 
despertada e satisfeita por algum tempo, no pode mais ser silenciada; s pode ser deslocada por outro caminho. Alis, o mesmo se aplica a todos os tratamentos para 
romper com um vcio. Seu sucesso ser apenas aparente enquanto o mdico se contentar em privar seus pacientes da substncia narctica, sem se importar com a fonte 
de que brota sua necessidade imperativa. O "hbito"  uma simples palavra, sem nenhum valor explicativo. Nem todos os que tm oportunidade de tomar morfina, cocana, 
hidrato de cloral etc. por algum tempo adquirem dessa forma "um vcio". A pesquisa mais minuciosa geralmente mostra que esses narcticos visam a servir - direta 
ou indiretamente - de substitutos da falta de satisfao sexual; e sempre que a vida sexual normal no pode mais ser restabelecida, podemos contar, com certeza, 
com uma recada do paciente.
         Outra tarefa  colocada para os mdicos pela etiologia da neurose de angstia. Consiste em induzir o paciente a desistir de todas as formas prejudiciais 
de prtica sexual e adotar relaes sexuais normais. Esse dever, como  compreensvel, recai primordialmente sobre o mdico de confiana do paciente - seu mdico 
de famlia; e este infligir ao paciente um grave dano se se considerar respeitoso demais para interferir nesse campo.
         Uma vez que nesses casos trata-se quase sempre de questes conjugais,os esforos do mdico logo tropeam em planos malthusianos para limitar o nmero de 
concepes no casamento. Parece-me no haver dvida de que essas propostas vm ganhando cada vez mais terreno entre a classe mdia. Tenho encontrado alguns casais 
que j comearam a praticar mtodos para impedir a concepo to logo tiveram seu primeiro filho, e outros cujas relaes sexuais, desde a noite de npcias, foram 
praticadas de modo a atender a esse objetivo. O problema do malthusianismo  extenso e complexo, e no tenho inteno de abord-lo aqui da maneira exaustiva que 
seria realmente necessria para o tratamento das neuroses. Examinarei apenas qual a melhor atitude a ser tomada por um mdico que reconhea a etiologia sexual das 
neuroses em face desse problema.
         A pior coisa que ele pode fazer, obviamente - sob qualquer pretexto -,  tentar ignor-lo. Nada que seja necessrio pode estar abaixo de minha dignidade 
como mdico; e  necessrio fornecer a um casal que tencione limitar o nmero de seus filhos a assistncia da orientao mdica, se no se quiser expor um ou ambos 
os seus membros a uma neurose. No se pode negar que, em qualquer casamento, as medidas preventivas malthusianas se tornaro necessrias num ou noutro momento; e, 
do ponto de vista terico, seria um dos maiores triunfos da humanidade, uma das mais tangveis liberaes das restries da natureza a que est sujeita a espcie 
humana, se pudssemos elevar o ato responsvel de procriar filhos ao nvel de uma atividade deliberada e intencional, libertando-o de seu embaraoso envolvimento 
com a satisfao necessria de uma necessidade natural.
         O mdico perspicaz tomar a si, portanto, decidir em que condies se justifica o uso de medidas preventivas da concepo e, entre essas medidas, ter que 
separar as nocivas das inofensivas. Tudo o que impede a ocorrncia de satisfao  nocivo. Mas, como se sabe, no possumos no momento nenhum mtodo de impedir a 
concepo que preencha todos os requisitos legtimos - isto , que seja seguro e cmodo, que no diminua a sensao de prazer durante o coito e que no fira a sensibilidade 
da mulher. Isso impe aos mdicos uma tarefa prtica para cuja soluo eles poderiam concentrar suas energias com resultados compensadores. Quem preencher essa lacuna 
em nossa tcnica mdica ter preservado o prazer da vida e mantido a sade de inmeras pessoas, muito embora,  verdade, tenha tambm preparado o terreno para uma 
drstica mudana em nossas condies sociais.
         Isso no esgota as possibilidades decorrentes do reconhecimento da etiologia sexual das neuroses. O principal benefcio que dele extramos para os neurastnicos 
reside na esfera da profilaxia. Se a masturbao  a causa da neurastenia na juventude e se, mais tarde, ela adquire importncia etiolgica tambm para a neurose 
de angstia, devido  reduo de potncia que acarreta, ento a preveno da masturbao em ambos os sexos  uma tarefa que merece mais ateno do que tem recebido 
at agora. Quando refletimos sobre todos os danos, dos mais graves aos mais insignificantes, que provm da neurastenia - distrbio que, segundo dizem, est se tornando 
cada vez mais freqente -, verificamos que, positivamente,  de interesse pblico que os homens ingressem nas relaes sexuais com toda a sua potncia. Em matria 
de profilaxia, entretanto, o indivduo est relativamente desamparado. Toda a comunidade precisa interessar-se pelo assunto e dar seu apoio  criao de regulamentos 
genericamente aceitveis. No momento, estamos ainda muito longe dessa situao que prometeria alvio, e  por esse motivo que podemos justificadamente considerar 
a civilizao como tambm responsvel pela difuso da neurastenia. Muitas coisas teriam que ser mudadas.  preciso romper a resistncia de toda uma gerao de mdicos 
que j no conseguem lembrar-se de sua prpria juventude; o orgulho dos pais, que no se dispem a descer ao nvel da humanidade ante os olhos de seus filhos, precisa 
ser superado; e o puritanismo insensato das mes deve ser combatido - das mes que consideram um golpe incompreensvel e imerecido do destino que "justamente os 
filhos delas sejam os que se tornam neurticos". Mas, acima de tudo,  necessrio criar um espao na opinio pblica para a discusso dos problemas da vida sexual. 
Tem que ser possvel falar sobre essas coisas sem que se seja estigmatizado como um arruaceiro ou uma pessoa que tira proveito dos mais baixos instintos. E tambm 
aqui h trabalho suficiente para se fazer nos prximos cem anos - nos quais nossa civilizao ter que aprender a conviver com as reivindicaes de nossa sexualidade.
         O valor da elaborao de um diagnstico correto, separando as psiconeuroses da neurastenia,  tambm demonstrado pelo fato de que as psiconeuroses requerem 
uma avaliao prtica diferente e medidas teraputicas especiais. Elas aparecem em conseqncia de dois tipos de determinantes, seja independentemente, seja no rastro 
das "neuroses atuais" (neurastenia e neurose de angstia). Neste ltimo caso, estamos tratando de um novo tipo de neurose - alis, muito freqente -, uma neurose 
mista. A etiologia das "neuroses atuais" tornou-se uma etiologia auxiliar das psiconeuroses. Surge um quadro clnico em que, digamos, a neurose de angstia predomina, 
mas que contm tambm traos de neurastenia pura, de histeria e de neurose obsessiva. Quando nos confrontamos com uma mistura desse tipo, no entanto, no nos ser 
conveniente desistirmos de separar os quadros clnicos prprios de cada doena neurtica, pois, afinal, no  difcil explicar o caso da maneira que se segue. O 
lugar predominantemente ocupado pela neurose de angstia mostra que a doena surgiu sob a influncia etiolgica de uma perturbao sexual "atual" |i.e., do momento 
presente|. Mas a pessoa em questo estava,  parte isso, predisposta a uma ou mais psiconeuroses, devido a uma etiologia especial e seria em algum momento acometida 
de uma psiconeurose, espontaneamente ou pelo advento de algum outro fator enfraquecedor. Desse modo, a etiologia auxiliar da psiconeurose que ainda falta  suprida 
pela etiologia atual |corrente| da neurose de angstia.
         Nesses casos, a prtica teraputica passou a ser, muito acertadamente, a desconsiderao dos componentes psiconeurticos do quadro clnico, tratando-se 
exclusivamente da "neurose atual". Em inmeros casos  possvel superar tambm a |psico|neurose que aparece concomitantemente, desde que a neurastenia seja efetivamente 
tratada. Mas deve-se adotar uma viso diferente nos casos de psiconeuroses que aparecem espontaneamente ou que permanecem como uma entidade independente depois de 
a doena composta de neurastenia e psiconeurose ter percorrido seu curso. Quando falo no aparecimento "espontneo" de uma psiconeurose, no quero dizer que a investigao 
anamnsica no nos mostre nenhum elemento etiolgico. Sem dvida, isso pode ocorrer; mas tambm  possvel que nossa ateno seja dirigida para algum fator irrelevante 
- um estado emocional, uma debilitao devida a uma doena fsica, e assim por diante. Entretanto, deve-se ter em mente, em todos esses casos, que a verdadeira etiologia 
das psiconeuroses no se acha nessas causas precipitantes, mas permanece fora do alcance do exame anamnsico comum.
         Como sabemos, foi numa tentativa de preenher essa lacuna que se pressups uma predisposio neuroptica especial (que alis, se existisse, no deixaria 
muita esperana de xito ao tratamento de tais condies patolgicas.) A prpria predisposio neuroptica  encarada como um sinal de degenerao geral, e assim, 
esse cmodo termo mdico veio a ser copiosamente usado contra os pobres pacientes a quem os mdicos so inteiramente incapazes de ajudar. Felizmente, a situao 
 outra. A predisposio neuroptica sem dvida existe, mas devo negar que seja suficiente para a criao de uma psiconeurose. Devo ainda negar que a conjuno de 
uma predisposio neuroptica com as causas precipitantes que ocorrem em pocas posteriores da vida constitua uma etiologia suficiente para as psiconeuroses. Ao 
reportarmos as vicissitudes da enfermidade de um indivduo s experincias de seus ancestrais, fomos longe demais; esquecemos que, entre a concepo e a maturidade 
de um indivduo, h um longo e importante perodo da vida - sua infncia -, no qual se podem adquirir os germes da doena posterior. E isso  o que efetivamente 
ocorre com a psiconeurose. Sua verdadeira etiologia  encontrada nas experincias infantis, e mais uma vez - exclusivamente -, nas impresses referentes  vida sexual. 
Erramos ao ignorar inteiramente a vida sexual das crianas; segundo minha experincia, as crianas so capazes de todas as atividades sexuais psquicas, e tambm 
de muitas atividades somticas. Assim como a totalidade do aparelho sexual humano no est compreendida nos rgos genitais externos e nas duas glndulas reprodutoras, 
tambm a vida sexual humana no comea apenas na puberdade, como poderia parecer a um exame superficial. Contudo,  verdade que a organizao e a evoluo da espcie 
humana se esforam por evitar uma ampla atividade sexual durante a infncia. Aparentemente, no homem, as foras pulsionais sexuais destinam-se a ser armazenadas, 
de modo que, com sua liberao na puberdade, possam servir a grandes fins culturais. (W. Fliess.) Uma considerao dessa espcie possibilita compreender por que 
as experincias sexuais na infncia esto fadadas a ter um efeito patognico. Mas, no momento em que ocorrem, elas s produzem efeito em grau muito reduzido; muito 
mais importante  seu efeito retardado, que s pode ocorrer em perodos posteriores do crescimento. Esse efeito retardado se origina - como no poderia deixar de 
ser - nos traos psquicos deixados pelas experincias sexuais infantis. Durante o intervalo entre as experincias dessas impresses e sua reproduo (ou melhor, 
o reforo dos impulsos libidinais delas provenientes), tanto o aparelho sexual somtico como o aparelho psquico sofrem um importante desenvolvimento; e  assim 
que a influncia dessas experincias sexuais primitivas leva ento a uma reao psquica anormal e  existncia de estruturas psicopatolgicas.
         Nestas breves indicaes, no posso fazer mais do que mencionar os principais fatores em que se baseia a teoria das psiconeuroses: a natureza adiada do 
efeito e o estado infantil do aparelho sexual e do instrumento mental. Para se chegar a uma verdadeira compreenso do mecanismo pelo qual se produzem as psiconeurose, 
seria necessria uma exposio mais extensa. Acima de tudo, seria indispensvel formular como dignas de crena certas hipteses, que me parecem novas, sobre a composio 
e o funcionamento do aparelho psquico. Num livro sobre a interpretao dos sonhos em que estou agora trabalhando, terei oportunidade de tocar nesses elementos fundamentais 
para uma psicologia das neuroses, pois os sonhos pertencem ao mesmo conjunto de estruturas psicopatolgicas que as ides fixes histricas, as obsesses e os delrios.
         J que as manifestaes das psiconeuroses provm da ao retardada de traos psquicos inconscientes, elas so acessveis  psicoterapia. Mas, nesse caso, 
a terapia deve seguir caminhos diferentes do nico at hoje seguido: o da sugesto, com ou sem hipnose. Baseando-me no mtodo "catrtico" introduzido por Josef Breuer, 
elaborei quase completamente, nos ltimos anos, um processo teraputico que proponho descrever como "psicanaltico". Devo a ele grande nmero de xitos, e espero 
poder ainda aumentar-lhe consideravelmente a eficcia. As primeiras explicaes sobre a tcnica e o alcance desse mtodo foram fornecidas nos Estudos sobre a Histeria, 
escritos conjuntamente com Breuer e publicados em 1895. Desde ento, creio poder dizer que muita coisa foi alterada para melhor. Enquanto, naquela poca, declaramos 
modestamente que s podamos encarregar-nos de eliminar os sintomas da histeria, mas no de curar a histeria em si, essa distino parece-me hoje sem substncia, 
de modo que h uma perspectiva de cura genuna da histeria e das obsesses. Portanto, foi com o mais vvido interesse que li nas publicaes de colegas que, "nesse 
caso, o engenhoso processo concebido por Breuer e Freud fracassou", ou "o mtodo no realizou o que parecia prometer". Isso meu deu um pouco da sensao de um homem 
que l no jornal seu prprio obiturio, mas pode tranqilizar-se por seu melhor conhecimento dos fatos. Pois o mtodo  to difcil que, definitivamente, tem que 
ser aprendido; e no me lembro de um s de meus crticos que tenha expressado o desejo de aprend-lo comigo. Nem acredito que, como eu, eles se tenham ocupado do 
mtodo com intensidade suficiente para poderem descobri-lo sozinhos. As observaes feitas nos Estudos sobre a Histeria so totalmente insuficientes para permitir 
ao leitor o domnio da tcnica, nem pretendem de modo algum transmitir tal instruo completa.
         A terapia psicanaltica no , no momento, aplicvel a todos os casos. Tem, a meu ver, as seguintes limitaes. Requer um certo grau de maturidade e compreenso 
nos pacientes, e portanto no  adequada para os jovens ou os adultos com debilidade mental ou sem instruo. Fracassa tambm com as pessoas muito idosas porque, 
devido ao acmulo de material nelas, o tratamento tomaria tanto tempo que, ao terminar, elas teriam chegado a um perodo da vida em que j no se d valor  sade 
nervosa. Finalmente, o tratamento s  possvel quando o paciente tem um estado psquico normal a partir do qual o material patolgico pode ser controlado. Durante 
um estado de confuso histrica ou uma mania ou melancolia interpolada, nada se pode fazer por meios psicanalticos. Tais casos, contudo, podem ser tratados pela 
anlise depois de se acalmarem as manifestaes violentas pelas medidas usuais. Na prtica atual, os casos crnicos de psiconeurose so muito mais acessveis ao 
mtodo do que os casos com crises agudas, nos quais a maior nfase  posta, naturalmente, na rapidez com que as crises possam ser tratadas. Por essa razo, o campo 
de trabalho mais favorvel a essa nova terapia  proporcionado pelas fobias histricas e pelas vrias formas de neurose obsessiva.
         Que o mtodo se restrinja a esses limites se explica, em grande parte, pelas circunstncias em que tive que elabor-lo. Meu material consiste, de fato, 
em casos nervosos crnicos derivados das classes mais cultas. Acho muito provvel que seja possvel conceber mtodos complementares para o tratamento de crianas 
e das pessoas que recebem assistncia mdica nos hospitais. Devo tambm dizer que, at o momento, experimentei meu tratamento exclusivamente em casos graves de histeria 
e de neurose obsessiva; no sei dizer como ele se sairia nos casos brandos que, ao menos aparentemente, so curados ao cabo de alguns meses por algum tipo de tratamento 
inespecfico.  fcil compreender que uma nova terapia que exija muitos sacrifcios s pode contar com a procura de pacientes que j tenham tentado sem sucesso os 
mtodos geralmente aceitos, ou cujo estado justifique a inferncia de que eles nada poderiam esperar desses procedimentos teraputicos mais breves e supostamente 
mais convenientes. Assim, ocorre que fui obrigado a enfrentar de imediato as mais duras tarefas com um instrumento imperfeito. O teste se revelou extramamente convincente.
         As principais dificuldades que ainda restam no caminho do mtodo teraputico psicanaltico no se devem a ele prprio, mas  falta de compreenso, entre 
mdicos e leigos, da natureza das psiconeuroses. No passa de um corolrio necessrio dessa completa ignorncia que os mdicos se sintam justificados para usar as 
mais infundadas certezas para consolar seus pacientes ou para induzi-los a adotarem medidas teraputicas. "Venha para meu sanatrio por seis semanas", dizem eles, 
"e voc ficar livre de seus sintomas" (angstia nas viagens, obsesses, e assim por diante). Os sanatrios so, na verdade, indispensveis para acalmar os ataques 
agudos que podem surgir no curso da psiconeurose, distraindo a ateno do paciente, alimentando-o e cuidando dele. Mas, quanto  eliminao dos estados crnicos, 
no conseguem rigorosamente nada: e os melhores sanatrios, supostamente norteados por fundamentos cientficos, no fazem mais do que os estabelecimentos hidropticos 
comuns.
         Seria mais digno, e tambm mais til para o paciente - que, afinal, tem que conviver com suas aflies - que o mdico dissesse a verdade, tal como a conhece 
por sua prtica diria. As psiconeuroses, enquanto categoria, no so em absoluto doenas brandas. Quando a histeria se instala, ningum pode prever quando terminar. 
A maioria de ns se consola com a v profecia de que "um dia ela desaparecer repentinamente". A recuperao, muitas vezes, mostra ser simplesmente um acordo de 
tolerncia mtua estabelecido entre a parte doente do paciente e sua parte sadia, ou ento resulta da transformao de um sintoma numa fobia. A histeria de uma menina, 
dominada com dificuldade, revive nela quando se torna esposa, aps o breve intervalo da primeira felicidade conjugal. A nica diferena  que a outra pessoa, o marido, 
 agora movida por seus prprios interesses a guardar silncio quanto a seu estado. Mesmo quando uma doena desse tipo no acarreta nenhuma incapacidade visvel 
de os pacientes levarem sua vida, ela quase sempre impede o livre desdobramento de seus poderes mentais. As obsesses se repetem por toda a vida deles; e as fobias 
e outras restries da vontade tm sido at aqui intratveis por qualquer tipo de terapia. Tudo isso  ocultado do conhecimento do leigo. Por conseguinte, o pai 
de uma menina histrica fica horrorizado quando, por exemplo,  solicitado a concordar em que ela receba tratamento por um ano, quando talvez s tenha estado doente 
por alguns meses. O leigo est, por assim dizer, profundamente convencido de que todas essas psiconeuroses so desnecessrias; portanto, no tem pacincia com os 
processos da doena, nem nenhuma disposio de fazer sacrifcios para seu tratamento. Se, em face de um tifo que dura trs semanas, ou de uma perna quebrada que 
leva seis meses para se curar, ele adota uma atitude mais compreensiva, e se, to logo seu filho mostra os primeiros sinais de uma curvatura na espinha, ele acha 
razovel que se deva proceder a um tratamento ortopdico por vrios anos, essa diferena de comportamento se deve aos melhores conhecimentos por parte do mdico, 
que so por ele honestamente transmitidos ao leigo. A honestidade por parte do mdico e a aquiescncia voluntria por parte do leigo ho de ser estabelecidas tambm 
para as neuroses, to logo a compreenso da natureza dessas afeces se transforme num patrimnio comum do mundo da medicina. O tratamento radical desses distrbios 
requerer sempre, sem dvida, uma formao especial, e ser incompatvel com outros tipos de atividade mdica. Por outro lado, a essa classe de mdicos, que acredito 
que se amplie no futuro, abre-se a perspectiva de obter resultados notveis, assim como um discernimento satisfatrio da vida mental da espcie humana.
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
       O MECANISMO PSQUICO DO ESQUECIMENTO (1898)
         
         
         ZUM PSYCHISCHEN MECHANISMUS DER VERGESSLICHKEIT
         
         (a)EDIES ALEMS:
         1898 Mschr. Psychiat. Neurol., 4 (6), 436-443. (Dezembro.)
         1952 G.W., 1, 519-27.
         
         (b)TRADUO INGLESA:
         "The Psychical Mechanism of Forgetfulness"
         
         A presente traduo, de Alix Strachey, parece ter sido a primeira para o ingls.
         
         O episdio que  objeto deste artigo ocorreu durante a visita de Freud  costa do Adritico em setembro de 1898. Enviou a Fliess uma breve narrativa dele, 
quando de seu retorno a Viena, em carta datada de 22 de setembro (Freud, 1950a, Carta 96), e relatou, poucos dias depois (27 de setembro, ibid., Carta 91), ter enviado 
este artigo  revista em que foi publicado logo em seguida. Esta foi a primeira histria publicada de um ato falho e Freud a transformou na base do captulo de abertura 
de seu trabalho mais longo sobre o assunto, trs anos depois (1901b); a Introduo do Editor ingls a este ltimo (Edio Standard Brasileira, Vol. VI, IMAGO Editora, 
1976) discute toda essa questo mais minuciosamente. O presente artigo s foi reeditado aps a morte de Freud, mais de cinqenta anos depois de sua primeira publicao. 
Havia uma pressuposio genrica, com base nas observaes de Freud no incio do primeiro captulo de Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana, Ibid., ver em [1], 
de que este artigo no passasse de um rascunho da verso posterior. A comparao efetiva dos dois trabalhos mostra agora que apenas as linhas principais do tema 
so as mesmas, que a argumentao est aqui disposta de modo diferente, e que o material  ampliado em um ou dois pontos.
         
         O MECANISMO PSQUICO DO ESQUECIMENTO
         
         O fenmeno do esquecimento, que eu gostaria de descrever e em seguida explicar neste artigo, j foi sem dvida experimentado por qualquer um em si prprio 
ou observado em outras pessoas. Afeta, em particular, o uso dos nomes prprios - nomina propria - e se manifesta da seguinte maneira. Em meio a uma conversa, vemo-nos 
obrigados a confessar  pessoa com quem falamos que no conseguimos descobrir um nome que desejaramos mencionar naquele momento, o que nos fora a pedir sua ajuda 
- em geral, ineficaz. "Como  mesmo o nome dele? Eu sei to bem! Est na ponta da lngua. De repente, me escapou." Um inequvoco sentimento de irritao, semelhante 
ao que acompanha a afasia motora, junta-se ento a nossos esforos adicionais para descobrir o nome que sabemos ter estado em nossa mente apenas um minuto antes. 
Nas situaes caractersticas, dois traos concomitantes merecem ser notados. Em primeiro lugar, a concentrao enrgica e deliberada da funo que chamamos de ateno 
se revela impotente, por mais que persista, para descobrir o nome esquecido. Em segundo lugar, em vez do nome que estamos procurando, surge prontamente um outro 
nome, que reconhecemos ser incorreto e rejeitamos, mas que insiste em retornar. Ou ento, em vez do nome substituto, encontramos em nossa memria uma nica letra 
ou slaba que reconhecemos ser parte do nome que estamos buscando. Dizemos, por exemplo: "Comea com 'B'." Quando finalmente conseguimos, de um modo ou de outro, 
descobrir o nome buscado, verificamos que, na grande maioria dos casos, este no comea com "B" e nem sequer contm essa letra.
         A melhor tcnica para captar o nome que falta , como se sabe, "no pensar nele" - isto , desviar dessa tarefa a parcela da ateno sobre a qual se exerce 
controle voluntrio. Passado algum tempo, o nome desaparecido "irrompe" na mente; e o sujeito no consegue impedir-se de enunci-lo em voz alta, para grande espanto 
do interlocutor, que j se havia esquecido do episdio e que, de qualquer forma, se interessara muito pouco pelos esforos do locutor. "Escute",  provvel que diga, 
"no faz muita diferena qual  mesmo o nome do homem; continue com sua histria". Durante o tempo todo, at que a questo seja esclarecida, e mesmo depois do desvio 
intencional |de sua ateno|, a pessoa fica preocupada a um ponto que, a rigor, no pode ser explicado pelo volume de interesse que o caso todo possua.
         Em alguns casos em que eu prprio passei por essa experincia de esquecer nomes, consegui, atravs da anlise psquica, explicar a mim mesmo a seqncia 
de eventos; e agora descreverei detalhadamente o caso mais simples e ntido desse tipo.
         Durante minhas frias de vero, fiz certa vez uma viagem de trem da encantadora cidade de Ragusa at uma cidadezinha prxima, na Herzegovina. A conversa 
com meu companheiro de viagem girou, como era natural, em torno da situao dos dois pases (Bsnia e Herzegovina) e das caractersticas de seus habitantes. Eu falava 
sobre as vrias peculiaridades dos turcos que l viviam, tais como descrevera, anos antes, um amigo e colega que vivera entre eles por muitos anos como mdico. Pouco 
depois, nossa conversa voltou-se para o tema da Itlia e das pinturas, e tive oportunidade de recomendar enfaticamente a meu companheiro que algum dia visitasse. 
Orvieto, para l contemplar os afrescos do fim do mundo e do Juzo Final com que fora decorada uma das capelas da catedral por um grande artista. Mas o nome do artista 
escapou-me e no consegui lembr-lo. Exerci minhas faculdades de recordao, fazendo desfilar pela memria todos os detalhes do dia que passara em Orvieto, e me 
convenci de que nem sequer a mais ntima parte dele fora obliterada ou se tornara vaga. Pelo contrrio, eu era capaz de evocar os quadros com maior nitidez sensorial 
do que me era comum. Vi diante de meus olhos, com nitidez especial, o auto-retrato do artista - com o rosto srio e as mos cruzadas -, que ele pusera no canto de 
um dos quadros, prximo ao retrato de seu predecessor na obra, Fra Angelico da Fiesole; mas o nome do artista, geralmente to familiar para mim, permanecia obstinadamente 
oculto, sem que meu companheiro de viagem pudesse me ajudar. Meus esforos contnuos no tiveram nenhum xito, a no ser pela evocao dos nomes de dois outros artistas, 
que eu sabia no serem os nomes corretos. Eram eles Botticelli e, em segundo lugar, Boltraffio. A repetio do som "Bo" em ambos os nomes substitutos talvez levasse 
um nefito a supor que esse som pertencia tambm ao nome esquecido, mas tomei cuidado de passar ao largo dessa expectativa.
         Como no tivesse qualquer acesso a livros de consulta em minha viagem, tive que suportar por vrios dias esse lapso de memria e o tormento interno a ele 
associado, que recorria todos os dias com intervalos freqentes, at que esbarrei num italiano culto que me libertou desse sofrimento ao dizer-me o nome: Signorelli. 
Eu prprio pude acrescentar o primeiro nome do artista, Luca. Imediatamente, minha lembrana ultrantida dos traos do mestre, tal como representados em seu retrato, 
esmaeceu-se.
         Que influncias me teriam levado a esquecer o nome Signorelli, que me era to familiar e que se grava to facilmente na memria? E que caminhos teriam levado 
a sua substituio por Botticelli e Boltraffio? Uma breve excurso de volta s circunstncias em que ocorrera o esquecimento bastou para lanar luz sobre ambas as 
questes.
         Pouco antes de chegar ao assunto dos afrescos na catedral do Orvieto, eu estivera contando a meu companheiro de viagem algo que ouvira de meu colega, anos 
antes, sobre os turcos da Bsnia. Estes tratam os mdicos com respeito especial e exibem, em marcante contraste com nosso prprio povo, uma atitude de resignao 
ante os desgnios do destino. Se um mdico tem que informar a um pai de famlia que um de seus parentes est  morte, a resposta : "Herr |Senhor|, que se h de 
fazer? Se houvesse uma maneira de salv-lo, sei que o senhor o ajudaria." Outra lembrana prxima disso estava em minha memria. Esse mesmo colega me falara da suprema 
importncia que esses bosnianos atribuem aos prazeres sexuais. Certa vez, um de seus pacientes lhe disse: "Sabe, Herr, se isso acabar, a vida no vale mais nada." 
Naquela ocasio, pareceu ao mdico e a mim que se podia presumir que os dois traos de carter do povo bosniano assim ilustrados estivessem estreitamente ligados. 
Mas, ao relembrar essas histrias em minha viagem para Herzegovina, suprimi a segunda, em que se abordava o tema da sexualidade.Foi logo depois disso que o nome 
Signorelli me escapou e os nomes Botticelli e Boltraffio apareceram como substitutos.
         A influncia que tornara o nome Signorelli inacessvel  memria, ou, como costumo dizer, aquilo que o "recalcara", s podia proceder da histria que eu 
havia suprimido sobre o valor atribudo  morte e ao gozo sexual. Se assim fosse, deveramos poder descobrir as idias intermedirias que serviram para ligar os 
dois temas. A afinidade entre o contedo deles - de um lado, o Juzo Final, o "Dia do Juzo", e de outro, a morte e a sexualidade - parece muito superficial; e j 
que se tratava do recalcamento da lembrana de um nome, era provvel, a julgar pelas aparncias, que a conexo estivesse entre um e outro nome. Ora, "Signor" significa 
"Herr |Senhor|", e "Herr" est tambm presente no nome "Herzegovina". Alm disso, decerto no era irrelevante que ambos os comentrios dos pacientes por mim recordados 
contivessem um "Herr" como forma de dirigir-se ao mdico. A traduo de "Signor" por "Herr" fora, portanto, o meio pelo qual a histria que eu havia suprimido arrastara 
consigo para o recalcamento o nome que eu estava procurando. Todo o processo fora claramente facilitado pelo fato de que, nos ltimos dias passados em Ragusa, eu 
falara italiano continuamente - isto , acostumara-me a traduzir mentalmente do alemo para o italiano.
         Quando tentei recuperar o nome do artista, resgatando-o do recalcamento, a influncia do lao em que o nome se enredara no intervalo fez-se inevitavelmente 
sentir. De fato, descobri o nome de um artista, mas no o correto. Era um nome deslocado, e a orientao do deslocamento fora dada pelos nomes contidos no tema recalcado. 
"Boticelli"; contm as mesmas slabas finais que "Signorelli; portanto, as slabas finais - que, diversamente da primeira parte da palavra, "Signor", no podiam 
estabelecer uma ligao direta com o nome "Herzegovina" - tinham retornado; mas a influncia do nome "Bsnia", regularmente associado com o nome "Herzegovina", evidenciara-se 
ao dirigir a substituio para dois nomes de artistas que comeavam com a mesma slaba, "Bo": "Botticelli" e, depois, "Boltraffio".Verifica-se, pois, que a descoberta 
do nome "Signorelli" sofrera a interferncia do tema que estava por trs dele, no qual apareciam os nomes "Bsnia" e "Herzegovina".
         Para que esse tema pudesse produzir tais efeitos, no seria bastante que eu o tivesse suprimido uma vez na conversa - coisa que se deu por motivos casuais. 
Devemos, antes, presumir que o prprio tema estivesse tambm intimamente ligado a fluxos de representaes em mim presentes em estado de recalque - isto , fluxos 
de representaes que, a despeito da intensidade do interesse nelas depositado, deparassem com uma resistncia que os impedisse de serem elaborados por uma dada 
instncia psquica, e portanto, de se tornarem conscientes. Que isso realmente se aplicou, na poca, ao tema "morte e sexualidade",  algo de que tenho muitas provas 
que no preciso abordar aqui, extradas de minha prpria auto-observao. Mas posso chamar ateno para uma conseqncia dessas representaes recalcadas. A experincia 
ensinou-me a insistir em que todo produto psquico  elucidvel e at mesmo sobredeterminado. Conseqentemente, pareceu-me que o segundo nome substituto, "Boltraffio", 
exigia outra determinao, pois, at ali, apenas suas letras iniciais tinham sido explicadas, por sua assonncia com "Bsnia". Recordei-me ento de que essas representaes 
recalcadas nunca me haviam absorvido mais do que algumas semanas antes, depois de ter recebido uma certa notcia. O lugar onde a notcia me chegou chamava-se "Trafoi", 
e esse nome  por demais semelhante  segunda metade do nome "Boltraffio" para no ter tido um efeito determinante em minha escolha deste ltimo. No pequeno diagrama 
esquemtico que se segue |Fig. 1|, tentei reproduzir as relaes agora trazidas  luz.
         
         
         Fig. 1
         Talvez no deixe de haver um interesse intrnseco em se poder perscrutar a histria de um evento psquico desse tipo, que est entre os mais triviais distrbios 
que podem afetar o controle do aparelho psquico, e que  compatvel com um estado de sade psquica sem outras perturbaes. Mas o exemplo aqui elucidado ganha 
um enorme interesse adicional ao sabermos que ele pode servir como nada menos do que um modelo dos processos patolgicos a que devem sua origem os sintomas psquicos 
das psiconeuroses - histeria, obsesses e parania. Em ambos os casos, encontramos os mesmos elementos e a mesma interao de foras entre esses elementos. Do mesmo 
modo que aqui e por meio de associaes superficiais similares, um fluxo de representaes recalcado se apodera, na neurose, de uma ingnua impresso recente e a 
faz imergir com ele no recalque. O mesmo mecanismo que faz os nomes substitutos "Botticelli" e "Boltraffio" emergirem de "Signorelli" (uma substituio por meio 
de representaes intermedirias ou conciliatrias) rege tambm a formao das representaes obsessivas e das paramnsias paranicas. Alm disso, vimos que esses 
casos de esquecimento tm a caracterstica de liberar um desprazer contnuo at o momento em que o problema  resolvido - uma caracterstica que seria ininteligvel 
a no ser por isso, e algo que |no exemplo que mencionei| foi de fato ininteligvel para a pessoa com quem eu estava falando |ver em [1]|; mas h uma completa analogia 
com isso no modo pelo qual os conjuntos de representaes recalcadas ligam sua capacidade de gerar afeto a algum sintoma cujo contedo psquico parece, em nosso 
julgamento, inteiramente inadequado a tal liberao de afeto. Finalmente, a dissoluo de toda a tenso pela comunicao do nome correto por uma fonte externa , 
em si mesma, um bom exemplo da eficcia da terapia psicanaltica, que visa a corrigir os recalques e deslocamentos e que elimina os sintomas pela reinstalao do 
verdadeiro objeto psquico.
         Portanto, entre os vrios fatores que contribuem para o fracasso de uma recordao ou para uma perda de memria, no se deve menosprezar o papel desempenhado 
pelo recalcamento, e isso pode ser demonstrado no s nos neurticos, mas tambm (de modo qualitativamente idntico) nas pessoas normais. Pode-se afirmar, muito 
genericamente, que a facilidade (e em ltima instncia, tambm a fidelidade) com que dada impresso  despertada na memria depende no s da constituio psquica 
do indivduo, da fora da impresso quando recente, do interesse voltado para ela nessa ocasio, da constelao psquica no momento atual, do interesse agora voltado 
para sua emergncia, das ligaes para as quais a impresso foi arrastada etc. - no s de coisas como essas, mas tambm da atitude favorvel ou desfavorvel de 
um dado fator psquico que se recusa a reproduzir qualquer coisa que possa liberar desprazer, ou que possa subseqentemente levar  liberao de desprazer. Assim, 
a funo da memria, que gostamos de encarar como um arquivo aberto a qualquer um que sinta curiosidade, fica desse modo sujeita a restries por uma tendncia da 
vontade, exatamente como qualquer parte de nossa atividade dirigida para o mundo externo. Metade do segredo da amnsia histrica  desvendado ao dizermos que as 
pessoas histricas no sabem o que no querem saber; e o tratamento psicanaltico, que se esfora por preencher tais lacunas da memria no decorrer de seu trabalho, 
leva-nos  descoberta de que a tarefa de resgatar essas lembranas perdidas enfrenta certa resistncia, que tem de ser contrabalanada por um trabalho proporcional 
a sua magnitude. No caso de processos psquicos que so basicamente normais, no se pode, naturalmente, alegar que a influncia desse fator tendencioso na revivescncia 
das lembranas de algum modo supere, regularmente, todos os outros fatores que devem ser levados em conta.
         Como respeito  natureza tendenciosa de nosso recordar e esquecer, vivi, no faz muito tempo, um exemplo instrutivo - instrutivo pelo que traiu -, do qual 
gostaria de acrescentar um relato. Eu tencionava fazer uma visita de vinte e quatro horas a um amigo que, lamentavelmente, mora muito longe, e estava repleto de 
coisas para lhe contar. Antes disso, porm, senti-me na obrigao de visitar uma famlia conhecida em Viena, da qual um dos membros se mudara para a cidade em questo, 
de modo a levar comigo seus cumprimentos e recados para o parente ausente. Eles me disseram o nome da pension onde ele morava, assim como o nome da rua e o nmero 
da casa, e, em vista de minha memria precria, escreveram o endereo num carto, que coloquei em minha carteira. No dia seguinte, ao chegar  casa de meu amigo, 
anunciei: "S tenho um dever a cumprir que pode atrapalhar minha estada com voc;  uma visita, e ser a primeira coisa que vou fazer. O endereo est em minha carteira". 
Para meu espanto, contudo, no o achei l. Assim, no final das contas, eu tinha que recorrer a minha memria. Minha memria para nomes no  particularmente boa, 
mas  incomparavelmente melhor do que para nmeros e algarismos. Posso fazer visitas mdicas a uma casa por um ano inteiro e, ainda assim, se tiver que ser levado 
at l por um cocheiro, terei dificuldade em recordar o nmero da casa. Nesse caso, porm, eu o gravara especialmente; ele estava ultrantido, como que para zombar 
de mim - pois nenhum trao do nome da pension ou da rua ficara em minha lembrana. Eu havia esquecido todos os dados do endereo que poderiam servir como ponto de 
partida para descobrir a pension; e, contrariando muito meu hbito, retivera o nmero da casa, que era intil para esse fim. Por conseguinte, no pude fazer a visita. 
Consolei-me com notvel rapidez e dediquei-me inteiramente a meu amigo. Ao retornar a Viena e me postar diante da minha escrivaninha, eu soube, sem um momento de 
hesitao, o lugar em que, em minha "distrao", eu pusera o carto com o endereo. O fator atuante em minha ocultao inconsciente da coisa fora a mesma inteno 
que atuara em meu ato curiosamente modificado de esquecimento.
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       LEMBRANAS ENCOBRIDORAS (1899)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         BER DECKERINNERUNGEN
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1899 Mschr. Psychiat. Neurol., 6 (3), 215-30. (Setembro.)
         1925 G.S., 1, 465-88.
         1952 G.W., 1, 531-54.
         
         (b)TRADUO INGLESA:
         "Screen Memories"
         1950 C.P., 5, 47-69 (Trad. de James Strachey.)
         
         A presente traduo  uma reedio ligeiramente revista da que foi publicada em 1950.
         
         Uma carta indita de Freud a Fliess, de 25 de maio de 1899, narra que, naquela data, este artigo fora enviado ao editor do peridico em que apareceria mais 
tarde, naquele mesmo ano. Freud acrescenta que ficara imensamente satisfeito durante sua produo, fato que considerava um mau pressgio para seu futuro destino.
         O conceito de "lembranas encobridoras" foi aqui introduzido por Freud pela primeira vez. Sem dvida fora trazido  baila por seu exame do caso especfico 
que ocupa a maior parte do artigo, caso esse a que ele aludira numa carta a Fliess de 3 de janeiro de 1899 (Carta 101). Entretanto, esse tema estava intimamente 
relacionado com vrios outros que j vinham ocupando sua mente por muitos meses - de fato, desde que ele se envolvera em sua auto-anlise, no vero de 1897 -, problemas 
referentes ao funcionamento da memria e suas distores,  importncia e raison d'tre das fantasias,  amnsia que cobre nossos primeiros anos de vida e, por trs 
de tudo isso,  sexualidade infantil. Os leitores das cartas a Fliess encontraro muitas abordagens da presente discusso. Ver, por exemplo, os comentrios sobre 
as fantasias no Rascunho M, de 25 de maio de 1897, e na Carta 66, de 7 de julho de 1897. As lembranas encobridoras analisadas por Freud ao final do Captulo IV 
da edio de 1907 de Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901b) remontam a esse mesmo vero de 1897.
          curioso que o tipo de lembrana encobridora predominantemente examinado neste artigo - o tipo em que uma lembrana anterior  usada como uma tela para 
encobrir um evento posterior - quase desaparece da literatura subseqente. O que passou desde ento a ser considerado como o tipo usual - aquele em que um acontecimento 
anterior  encoberto por uma lembrana posterior - mal chega a ser mencionado aqui, embora passasse a ser o tipo abordado por Freud, de maneira quase exclusiva, 
apenas dois anos depois, no captulo de Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana acima mencionado. (Ver tambm nota de rodap, ver em [1].)
         O interesse intrnseco deste artigo foi imerecidamente obscurecido por um fato externo a ele. No era difcil adivinhar que o incidente nele descrito era 
realmente autobiogrfico, o que se converteu numa certeza aps o aparecimento da correspondncia com Fliess. Muitos dos detalhes, entretanto, podem ser encontrados 
nos escritos publicados de Freud. Assim, as crianas da lembrana encobridora eram, de fato, seu sobrinho John e sua sobrinha Pauline, que aparecem em vrios pontos 
de A Interpretao dos Sonhos (1900a). (Cf., por exemplo, Edio Standard Brasileira, Vol. V, ver em [1], [2], [3], [4] [5], IMAGO Editora, 1972.) Eram filhos de 
seu meio-irmo mais velho, mencionado no Captulo X de Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901b), ibid., Vol. VI, ver em [1], IMAGO Editora, 1976. Esse irmo, 
depois da disperso da famlia em Freiberg, quando Freud tinha trs anos, estabeleceu-se em Manchester, onde Freud o visitou aos dezenove anos de idade - e no aos 
vinte, como implicado aqui (ver em [1]) -, visita essa a que  feita uma aluso na mesma passagem de Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana, e tambm em A Interpretao 
dos Sonhos (ibid., Vol. V, ver em [1], IMAGO Editora, 1972). Sua idade na ocasio da primeira volta a Freiberg era tambm um ano menos do que a aqui indicada. Ele 
estava com dezesseis anos, como nos diz na "Carta ao Burgomestre de Prbor" (1931e), ibid., Vol. XXI, ver em [1], IMAGO Editora, 1974. Ficamos sabendo, tambm por 
essa fonte, que a famlia com que se hospedou chamava-se Fluss, e uma das filhas dessa famlia, Gisela,  a figura central da presente histria. O episdio  integralmente 
descrito no primeiro volume da biografia de Ernest Jones (1953, 27-9 e 35-7). 
         
         LEMBRANAS ENCOBRIDORAS
         
         No curso de meu tratamento psicanaltico de casos de histeria, neurose obsessiva etc., tenho freqentemente lidado com recordaes fragmentrias dos primeiros 
anos da infncia, que permaneceram na memria dos pacientes. Como mostrei em outros textos, deve-se atribuir grande importncia patognica s impresses dessa poca 
da vida. Mas o tema das lembranas da infncia est, de qualquer modo, destinado a ser de interesse psicolgico, pois elas pem em notvel relevo uma diferena fundamental 
entre o funcionamento psquico das crianas e dos adultos. Ningum contesta o fato de que as experincias dos primeiros anos de nossa infncia deixam traos inerradicveis 
nas profundezas de nossa mente. Entretanto, ao procurarmos averiguar em nossa memria quais as impresses que se destinaram a influenciar-nos at o fim da vida, 
o resultado , ou absolutamente nada, ou um nmero relativamente pequeno de recordaes isoladas, que so freqentemente de importncia duvidosa ou enigmtica.  
somente a partir do sexto ou stimo ano - em muitos casos, s depois dos dez anos - que nossa vida pode ser reproduzida na memria como uma cadeia concatenada de 
eventos. Da em diante, porm, h tambm uma relao direta entre a importncia psquica da experincia e sua reteno na memria. O que quer que parea importante 
por seus efeitos imediatos ou diretamente subseqentes  recordado; o que quer que seja julgado no essencial  esquecido. Quando consigo relembrar um acontecimento 
por muito tempo aps sua ocorrncia, encaro o fato de t-lo retido na memria como uma prova de que ele causou em mim, na poca, uma profunda impresso. Surpreendo-me 
ao esquecer uma coisa importante, e talvez me sinta ainda mais surpreso ao recordar alguma coisa aparentemente irrelevante.
          apenas em certos estados mentais patolgicos que torna a deixar de aplicar a relao mantida, nos adultos normais, entre a importncia psquica de um 
evento e sua reteno na memria. Por exemplo, o histrico habitualmente mostra uma amnsia em relao a algumas ou todas as experincias que levaram  instalao 
de sua doena, as quais, por isso mesmo, tornaram-se importantes para ele, e que, independentemente disso, podem ter sido importantes por si mesmas. A analogia entre 
esse tipo de amnsia patolgica e a amnsia normal que afeta nossos primeiros anos de vida parece-me fornecer um valioso indcio da ntima ligao que existe entre 
o contedo psquico das neuroses e nossa vida infantil.
         Estamos to acostumados a essa falta de lembrana das impresses infantis que tendemos a desconsiderar o problema subjacente a ela, e nos inclinamos a explic-lo 
como uma conseqncia bvia do carter rudimentar das atividades mentais das crianas. Na verdade, porm, uma criana normalmente desenvolvida de trs ou quatro 
anos j exibe uma ampla margem de funcionamento mental altamente organizado, tanto em suas comparaes e inferncias quanto na expresso de seus sentimentos; e no 
h nenhuma razo evidente pela qual a amnsia deva incidir sobre esses atos psquicos, que no so menos importantes do que os de idade posterior.
         Antes de abordarmos problemas psicolgicos ligados s mais antigas lembranas da infncia, seria essencial,  claro, fazer uma coleta de material, enviando 
circulares a um nmero bastante grande de adultos e descobrindo que espcie de recordaes eles so capazes de fornecer desses primeiros anos. Um primeiro passo 
nessa direo foi dado em 1895 por V. e C. Henri, que circularam um formulrio de perguntas por eles preparado. Os resultados altamente sugestivos desse questionrio, 
que colheu respostas de cento e vinte e trs pessoas, foram publicados pelos dois autores em 1897. No tenho inteno de discutir, no momento, o assunto como um 
todo, e assim me contentarei em enfatizar os poucos pontos que me permitiro introduzir a idia do que denominei de "lembranas encobridoras".
         A idade a que o contedo dessas primeiras lembranas da infncia costuma remontar  o perodo entre dois e quatro anos. (Esse  o caso de oitenta e oito 
pessoas na srie observada pelos Henris.) H alguns indivduos, entretanto, cujas lembranas recuam ainda mais - at mesmo ao perodo antes de completarem seu primeiro 
aniversrio; por outro lado, h aqueles cujas recordaes mais antigas remontam apenas aos seis, sete ou mesmo oito anos. No h nada, por ora, que mostre o que 
mais est relacionado com essas diferenas individuais; mas convm notar, dizem os Henris, que uma pessoa cuja primeira recordao remonta a uma idade muito tenra 
- ao primeiro ano de vida, talvez - ter tambm a seu dispor outras lembranas isoladas dos anos seguintes, e poder reproduzir suas experincias como uma cadeia 
contnua a partir de um ponto mais recuado no tempo - por exemplo, a partir dos cinco anos - do que  possvel para outras pessoas, cuja primeira lembrana data 
de poca posterior. Assim, em casos particulares, no apenas a data do aparecimento da primeira recordao, mas tambm toda a funo da memria, pode ser avanada 
ou retardada.
         Um interesse muito especial prende-se  questo do contedo usual dessas primeiras lembranas da infncia. A psicologia dos adultos nos levaria necessariamente 
a esperar que fossem selecionadas como dignas de recordao as experincias que tivessem despertado alguma emoo poderosa ou que, em virtude de suas conseqncias, 
tivessem sido reconhecidas como importantes logo aps sua ocorrncia. E, de fato, algumas das observaes coligidas pelos Henris parecem atender a essa expectativa. 
Eles relatam que o contedo mais freqente das primeiras lembranas da infncia constitui-se, de um lado, das situaes de medo, vergonha, dor fsica etc. e, de 
outro, de acontecimentos importantes como doenas, mortes, incndios, nascimentos de irmos e irms etc. Poderamos, portanto, inclinar-nos a presumir que o princpio 
que rege a escolha das lembranas  o mesmo, tanto no caso de crianas quanto de adultos.  compreensvel - embora esse fato merea ser explicitamente mencionado 
- que as lembranas retidas da infncia evidenciem, necessariamente, a diferena entre o que desperta o interesse da criana e o do adulto. Isso explica facilmente 
por que, por exemplo, uma mulher relata lembrar-se de diversos acidentes ocorridos com suas bonecas quando ela contava dois anos de idade, mas no tem nenhuma recordao 
dos eventos srios e trgicos que possa ter observado na mesma poca.
         Agora, entretanto, estamos diante de um fato diametralmente oposto a nossas expectativas e que fatalmente nos assombra. Somos informados de que h algumas 
pessoas cujas recordaes mais remotas da infncia relacionam-se com eventos cotidianos e irrelevantes, que no poderiam produzir qualquer efeito emocional nem mesmo 
em crianas, mas que so recordados (com demasiada nitidez, fica-se inclinado a dizer) em todos os detalhes, enquanto outros acontecimentos aproximadamente contemporneos 
no foram retidos em sua memria, mesmo que, segundo o testemunho de seus pais, tenham-nos comovido intensamente na ocasio. Assim, os Henris mencionam um professor 
de filologia cuja lembrana mais antiga, situada entre os trs e quatro anos, mostrava-lhe uma mesa posta para uma refeio e, sobre ela, uma bacia com gelo. Na 
mesma poca, ocorreu a morte de sua av, o que, de acordo com seus pais, foi um rude golpe para o garoto. Mas o atual professor de filologia no tem nenhuma recordao 
dessa perda; tudo de que se lembra daqueles dias  a bacia de gelo. Outro homem relata que sua lembrana mais antiga  um episdio durante um passeio a p, no qual 
ele quebrou um galho de rvore. Ele acredita que ainda  capaz de identificar o local onde isso ocorreu. Havia vrias outras pessoas presentes, e uma delas o ajudou.
         Os Henris descrevem tais casos como sendo raros. Segundo minha experincia, que em sua maior parte,  verdade, baseia-se em neurticos, eles so bastante 
freqentes. Um dos sujeitos da investigao dos Henris fez uma tentativa de explicar a ocorrncia dessas imagens mnmicas cuja inocncia as torna to misteriosas, 
e sua explicao me parece extremamente pertinente. Ele acha que, nesses casos, a cena relevante pode ter sido retida na memria apenas incompletamente, e essa talvez 
seja a razo de parecer to pouco esclarecedora: as partes esquecidas continham, provavelmente, tudo o que era digno de nota na experincia. Posso confirmar a veracidade 
dessa concepo, embora prefira dizer que esses elementos da experincia foram omitidos, em vez de esquecidos. Tenho conseguido com freqncia, por meio do tratamento 
psicanaltico, descobrir as partes que faltam numa experincia infantil, provando assim que a impresso da qual no se reteve mais do que um fragmento na memria, 
uma vez restaurada em sua ntegra, mostra efetivamente confirmar o pressuposto de que as coisas mais importantes  que so recordadas. Isso, entretanto, no fornece 
nenhuma explicao para a notvel escolha feita pela memria entre os elementos da experincia. Devemos primeiro indagar por que se suprime precisamente o que  
importante, retendo-se o irrelevante; e no encontraremos uma explicao para isso enquanto no tivermos investigado mais a fundo o mecanismo desses processos. Verificaremos 
ento que h duas foras psquicas envolvidas na promoo desse tipo de lembranas. Uma dessas foras encara a importncia da experincia como um motivo para procurar 
lembr-la, enquanto a outra - uma resistncia - tenta impedir que se manifeste qualquer preferncia dessa ordem. Essas duas foras opostas no se anulam mutuamente, 
nem qualquer delas predomina (com ou sem perda para si prpria) sobre a outra. Em vez disso, efetua-se uma conciliao, numa analogia aproximada com a resultante 
de um paralelogramo de foras. E a conciliao  a seguinte: o que  registrado como imagem mnmica no  a experincia relevante em si - nesse aspecto, prevalece 
a resistncia; o que se registra  um outro elemento psquico intimamente associado ao elemento passvel de objeo - e, nesse aspecto, o primeiro princpio mostra 
sua fora: o princpio que se esfora por fixar as impresses importantes, estabelecendo imagens mnmicas reprodutveis. O resultado do conflito, portanto,  que, 
em vez da imagem mnmica que seria justificada pelo evento original, produz-se uma outra, que foi at certo ponto associativamente deslocada da primeira. E j que 
os elementos da experincia que suscitaram objeo foram precisamente os elementos importantes, a lembrana substituta perde necessariamente esses elementos importantes 
e, por conseguinte,  muito provvel que se nos afigure trivial.Ela nos parece incompreensvel porque nos inclinamos a buscar a razo de sua reteno em seu prprio 
contedo, ao passo que essa reteno se deve, de fato,  relao que existe entre seu contedo e um contedo diferente, que foi suprimido. H entre ns um dito corrente 
sobre as falsificaes, no sentido de que, em si mesmas, elas no so feitas de ouro, mas estiveram perto de algo realmente feito de ouro.  bem possvel aplicar 
essa mesma comparao a algumas das experincias infantis retidas na memria.
         H numerosos tipos possveis de casos em que um contedo psquico aparece em lugar de outro, e estes se manifestam numa multiplicidade de constelaes psicolgicas. 
Um dos casos mais simples  obviamente o que ocorre nas lembranas infantis que nos interessam aqui - isto , o caso em que os elementos essenciais de uma experincia 
so representados na memria pelos elementos no essenciais da mesma experincia. Trata-se de um caso de deslocamento para alguma coisa associada por continuidade; 
ou, examinando-se o processo como um todo, de um caso de recalcamento acompanhado de substituio por algo prximo (seja no espao ou no tempo). Em outra oportunidade 
tive ocasio de descrever um exemplo muito semelhante de substituio ocorrida na anlise de uma paciente que sofria de parania. A mulher em questo tinha alucinaes 
com vozes que lhe repetiam longas passagens do romance Die Heiterethei, de Otto Ludwig. Mas as passagens escolhidas pelas vozes eram as mais insignificantes e irrelevantes 
do livro. A anlise mostrou, contudo, que havia outras passagens na mesma obra que tinham suscitado na paciente os mais aflitivos pensamentos. O afeto aflitivo motivara 
a construo de uma defesa contra essas idias, mas os motivos para lev-las adiante recusaram-se a ser suprimidos. O resultado foi uma conciliao, pela qual as 
passagens inocentes emergiam na memria da paciente com fora e nitidez patolgicas. O processo que aqui vemos em ao - conflito, recalcamento e substituio envolvendo 
uma conciliao - retorna em todos os sintomas psiconeurticos e nos fornece a chave para compreendermos sua formao. Portanto, no deixa de ter importncia que 
possamos mostrar o mesmo processo em ao na vida mental de indivduos normais. O fato de esse processo influenciar, nas pessoas normais, precisamente a escolha 
de suas lembranas infantis parece proporcionar mais um indcio das ntimas relaes em que vimos insistindo entre a vida mental das crianas e o material psquico 
das neuroses.
         Os processos da defesa normal e patolgica e os deslocamentos em que resultam so claramente de grande importncia. Mas, ao que eu saiba at hoje os psiclogos 
no fizeram nenhum estudo sobre eles, e resta ainda definir em que camadas da atividade psquica e em que condies eles entram em ao.  bem possvel que a razo 
dessa negligncia esteja no fato de que nossa vida mental, na medida em que  objeto de nossa percepo interna consciente, nada nos mostra desses processos, salvo 
pelos casos que classificamos de "raciocnio falho" e por algumas operaes mentais que visam produzir um efeito cmico. A assero de que  possvel deslocar uma 
intensidade psquica de uma representao (que  ento abandonada) para outra (que da por diante desempenha o papel psicolgico da primeira)  to desnorteante 
para ns quanto certas caractersticas da mitologia grega - por exemplo, quando se diz que os deuses vestem algum de beleza como se esta fosse um vu, enquanto 
ns pensamos apenas num rosto transfigurado por uma mudana de expresso.
         As investigaes adicionais dessas lembranas infantis irrelevantes ensinaram-me que elas podem tambm originar-se de outras maneiras, e que uma insuspeitada 
riqueza de significados se oculta por trs de sua aparente inocncia. Quanto a esse aspecto, porm, no me contentarei com uma simples assero, mas fornecerei um 
relato pormenorizado de um caso particular que me parece o mais instrutivo dentre um nmero considervel de casos similares. Seu valor  seguramente aumentado pelo 
fato de relacionar-se com algum que de modo algum  neurtico, ou que s o  muito levemente.
         O sujeito dessa observao  um homem de instruo universitria, com trinta e oito anos de idade. Embora sua profisso se situe em campo muito diferente, 
ele passou a se interessar por questes psicolgicas desde a ocasio em que consegui livr-lo de uma leve fobia por meio da psicanlise. No ano passado, ele me chamou 
ateno para suas lembranas infantis, que j tinham desempenhado certo papel em sua anlise. Aps estudar a pesquisa efetuada por V. e C. Henri, ele me forneceu 
o seguinte relato sumarizado de sua prpria experincia.
         "Disponho de um bom nmero de antigas lembranas da infncia, que posso datar com grande certeza, pois, por volta dos trs anos de idade, deixei o lugarejo 
onde nascera e me mudei para uma grande cidade; e todas essas minhas lembranas relacionam-se com meu lugar de nascimento e correspondem, portanto, ao segundo e 
terceiro anos de minha vida. Em sua maioria, so cenas curtas, mas muito bem conservadas e providas de todos os detalhes da percepo sensorial, em completo contraste 
com minhas lembranas dos anos adultos, s quais falta inteiramente o elemento visual. Dos trs anos em diante, minhas recordaes tornam-se mais escassas e menos 
claras; h lacunas nelas que devem cobrir mais de um ano; e creio que  s depois dos seis ou sete anos que o fluxo de minhas lembranas torna-se contnuo. As lembranas 
anteriores  poca em que deixei minha primeira residncia dividem-se em trs grupos. O primeiro grupo consiste em cenas que meus pais me descreveram repetidamente 
desde ento. Quanto a estas, no sei ao certo se j tinha sua imagem mnmica desde o incio, ou se s a reconstru depois de ouvir uma dessas descries. Posso assinalar, 
entretanto, que h tambm acontecimentos dos quais no tenho nenhuma imagem mnmica, apesar de terem sido freqentemente relatados com mincias por meus pais. Atribuo 
mais importncia ao segundo grupo. Este compreende cenas que no me foram descritas (pelo menos ao que eu saiba), algumas das quais, na verdade, no poderiam ter-me 
sido descritas, j que no voltei a encontrar os outros participantes delas (minha bab e meus companheiros de brincadeiras) desde sua ocorrncia. Logo chegarei 
ao terceiro grupo. No que se refere ao contedo dessas cenas e  conseqente razo de serem lembradas, gostaria de dizer que no estou inteiramente perdido. A rigor, 
no posso sustentar que as lembranas que retive sejam lembranas dos acontecimentos mais importantes desse perodo, ou dos que eu hoje reputaria como os mais importantes. 
No tomei conhecimento do nascimento de uma irm dois anos e meio mais nova que eu, e minha partida, minha primeira viso da estrada de ferro e a longa viagem de 
charrete at ela - nada disso deixou qualquer trao em minha memria. Por outro lado, consigo lembrar-me de duas pequenas ocorrncias durante a viagem de trem; estas, 
como o senhor se lembrar, emergiram na anlise de minha fobia. Mas o que mais deveria ter-me impressionado foi um ferimento em meu rosto, que causou considervel 
perda de sangue e devido ao qual um cirurgio teve que me dar alguns pontos. Ainda posso sentir a cicatriz resultante desse acidente, mas no sei de nenhuma lembrana 
que o aponte, nem direta nem indiretamente.  verdade que eu talvez tivesse menos de dois anos nessa poca.
         "Decorre da que no sinto nenhuma surpresa diante dos quadros e cenas desses dois primeiros grupos. Sem dvida, so lembranas deslocadas cujo elemento 
essencial, na maioria dos casos, foi omitido. Mas em alguns ele  ao menos sugerido, e em outros, -me fcil complet-lo seguindo certos indcios. Ao faz-lo, consigo 
estabelecer uma slida conexo entre os fragmentos separados das lembranas e chegar a uma compreenso clara de qual foi o interesse infantil que recomendou essas 
ocorrncias especficas a minha memria. Isso no se aplica, entretanto, ao contedo do terceiro grupo, que no discuti at aqui. Vejo-me a defrontado por um material 
- uma cena bastante longa e vrios quadros menores - com o qual no consigo fazer nenhum progresso. A cena me parece bem irrelevante, e no posso compreender por 
que se fixou em minha memria. Deixe-me descrev-la para o senhor. Vejo uma pradaria retangular com um declive bastante acentuado, verde e densamente plantada; no 
relvado h um grande nmero de flores amarelas - evidentemente, dentes-de-leo comuns. No topo da campina h uma casa de campo e, frente a sua porta, duas mulheres 
conversam animadamente - uma camponesa com um leno na cabea e uma bab. Trs crianas brincam na grama. Uma delas sou eu mesmo (na idade de dois ou trs anos); 
as duas outras so meu primo, um ano mais velho que eu, e sua irm, que tem quase exatamente a minha idade. Estamos colhendo as flores amarelas e cada um de ns 
segura um ramo de flores j colhidas. A garotinha tem o ramo mais bonito e, como que por um acordo mtuo, ns - os dois meninos - camos sobre ela e arrebatamos 
suas flores. Ela sobe correndo a colina, em lgrimas, e a ttulo de consolo a camponesa lhe d um grande pedao de po preto. Mal vemos isso, jogamos fora as flores, 
corremos at a casa e pedimos po tambm. E de fato o recebemos; a camponesa corta as fatias com uma longa faca. Em minha lembrana, o po tem um sabor delicioso 
- e nesse ponto a cena se interrompe.
         "Ora, o que h nessa ocorrncia para justificar o dispndio de memria que ela me acarretou? Em vo quebrei a cabea para descobrir. Ser que a nfase est 
em nosso comportamento desagradvel para com a garotinha? Ser que a cor amarela dos dentes-de-leo - uma flor que hoje,  claro, estou longe de admirar - me agradou 
tanto assim? Ou ser que, em conseqncia de minha corrida pela grama, o po me pareceu to mais saboroso do que de hbito, a ponto de me deixar uma impresso inesquecvel? 
Tambm no consigo descobrir nenhuma ligao entre essa cena e o interesse que (como pude descobrir sem qualquer dificuldade) mantinha unidas as outras cenas de 
minha infncia. Grosso modo, parece-me que alguma coisa no est muito certa nessa cena. O amarelo das flores  um elemento desproporcionalmente destacado na situao 
como um todo, e o gosto saboroso do po me parece exagerado de maneira quase alucinatria. No consigo deixar de me lembrar de uns quadros que vi certa vez numa 
exposio de um teatro de variedades. Certas partes desses quadros, e naturalmente as menos apropriadas, em vez de serem pintadas, destacavam-se em trs dimenses 
- por exemplo, as anquinhas das damas. Bem, o senhor saberia indicar algum meio de encontrar uma explicao ou interpretao para essa lembrana redundante de minha 
infncia?"
         Achei recomendvel perguntar-lhe desde quando se ocupava com essa recordao: se achava que ela vinha retornando periodicamente a sua lembrana desde a 
infncia, ou se ela teria emergido em alguma ocasio posterior que pudesse ser recordada. Essa pergunta foi tudo o que se fez necessrio para que eu contribusse 
para a soluo do problema; o resto foi descoberto por meu prprio colaborador, que no era nefito em tarefas desse tipo.
         -Eu ainda no havia pensado nisso, respondeu ele. - Agora que o senhor levantou a questo, parece-me quase com certeza que essa lembrana infantil nunca 
me ocorreu em meus primeiros anos. Mas lembro-me tambm da ocasio que levou  recuperao dessa e de muitas outras recordaes de minha tenra infncia. Quando tinha 
dezessete anos e estava na escola secundria, voltei pela primeira vez a minha terra natal para passar frias com uma famlia que fora nossa amiga desde aquela poca 
remota. Sei muito bem da abundncia de impresses que se apossou de mim nessa ocasio. Mas vejo agora que terei que contar-lhe um longo trecho de minha histria: 
ele  pertinente a isso e o senhor mesmo o suscitou com sua pergunta. Portanto, escute. Meus pais eram originalmente pessoas abastadas e que, imagino, viviam com 
bastante conforto naquele cantinho de provncia. Quando eu tinha cerca de trs anos, o ramo industrial em que meu pai trabalhava sofreu uma catstrofe. Ele perdeu 
todos os seus bens e fomos forados a deixar a localidade, mudando-nos para uma cidade grande. Seguiram-se alguns anos longos e difceis, dos quais, parece-me, nada 
 digno de ser lembrado. Nunca me senti realmente  vontade na cidade. Acredito agora que nunca me livrei da saudade dos lindos bosques prximos de nossa casa, onde 
(como me diz uma de minhas recordaes daqueles dias) eu costumava fugir de meu pai, quase antes mesmo de aprender a andar. Aquelas frias aos dezessete anos foram 
minhas primeiras frias no campo e, como j disse, hospedei-me com uma famlia da qual ramos amigos e que tinha conseguido uma grande ascenso social desde nossa 
mudana. Pude comparar o conforto reinante por l com nosso prprio estilo de vida em casa, na cidade. Mas no adianta continuar a fugir do assunto: devo admitir 
que houve outra coisa que me excitou poderosamente. Eu estava com dezessete anos e na famlia com que me hospedei havia uma filha de quinze anos, por quem me apaixonei 
imediatamente. Esse foi meu primeiro amor, e foi bastante intenso, mas eu o mantive em completo segredo. Passados alguns dias, a menina voltou a sua escola (de onde 
tambm viera passar frias em casa), e foi essa separao, depois de um contato to breve, que realmente levou minha saudade ao auge. Passei muitas horas em caminhadas 
solitrias pelos bosques adorveis que havia redescoberto, e passava o tempo construindo castelos no ar. Curiosamente, eles no se relacionavam com o futuro, mas 
procuravam melhorar o passado. Que bom se a bancarrota no tivesse ocorrido! Ah, se eu tivesse ficado e crescido no campo, e me tornado forte como os rapazes da 
casa, os irmos de minha amada! E se tivesse seguido a profisso de meu pai, e finalmente casado com ela, pois a teria conhecido intimamente por todos aqueles anos! 
 claro que eu no tinha a menor dvida de que, nas circunstncias criadas por minha imaginao, eu a teria amado to apaixonadamente quanto de fato me parecia am-la 
nessa poca.  estranho, porque agora, quando a vejo vez por outra - ela se casou com uma pessoa daqui - ela me  extraordinariamente indiferente. No entanto, lembro-me 
muito bem que, durante um bom tempo depois disso, eu era afetado pela cor amarela do vestido que ela estava usando quando nos encontramos pela primeira vez, em toda 
parte onde visse a mesma cor.
         Isso soa muito parecido com seu comentrio entre parnteses de que voc no gosta mais do dente-de-leo comum. No acha que pode haver uma ligao entre 
o amarelo do vestido da menina e o amarelo ultrantido das flores em sua cena infantil? |Cf. nota de rodap 3, ver em [1].|
         - possvel, mas no era o mesmo amarelo. O vestido era mais de um marrom-amarelado, mais parecido com a cor do goivo. Mas posso dar-lhe pelo menos uma 
idia intermediria que talvez lhe seja til. Numa ocasio posterior, quando estava nos Alpes, vi como certas flores que tm uma colorao clara nas plancies adquirem 
tons mais escuros em grandes altitudes. Se no estou muito equivocado, encontra-se freqentemente, nas regies montanhosas, uma flor muito semelhante ao dente-de-leo, 
mas que  amarelo-escura, o que coincidiria exatamente com a cor do vestido da jovem de quem eu tanto gostava. Mas ainda no terminei. Vou lhe falar agora de uma 
segunda ocasio que avivou em mim certas impresses da infncia, e que data de poca no muito distante da primeira. Eu tinha dezessete anos quando revi minha cidade 
natal. Trs anos depois, durante as frias, fui visitar meu tio e reencontrei seus filhos, que tinham sido meus primeiros parceiros de brincadeiras - os mesmos dois 
primos, o menino um ano mais velho que eu a a menina de minha idade, que aparecem na cena infantil com os dentes-de-leo. Essa famlia deixara minha cidade natal 
na mesma poca que ns e prosperara numa cidade muito distante.
         E voc voltou a se apaixonar - dessa vez por sua prima -, e se entregou a um novo grupo de fantasias?
         -No, dessa vez as coisas foram diferentes. Nessa poca eu estava na universidade e era escravo de meus livros. No me sobrava nada para minha prima. Tanto 
quanto posso perceber, no tive nenhuma fantasia semelhante nessa ocasio. Mas creio que meu pai e meu tio haviam arquitetado um plano pelo qual eu deveria trocar 
o tema obscuro de meus estudos por alguma coisa de maior valor prtico, estabelecer-me, depois de concluir meus estudos, no lugar onde meu tio morava, e desposar 
minha prima. Sem dvida, quando perceberam o quanto eu estava absorto em minhas prprias intenes, o plano foi abandonado; mas imagino que eu certamente me dera 
conta de sua existncia. S mais tarde, quando j era um cientista inexperiente, duramente pressionado pelas exigncias da vida, e quando tive que aguardar muito 
tempo at conseguir uma colocao aqui,  que devo ter pensado, algumas vezes, que meu pai tivera boas intenes ao planejar aquele casamento, para compensar a perda 
em que a catstrofe inicial tinha envolvido toda a minha existncia.
         Nesse caso, tendo a acreditar que a cena infantil que estamos examinando tenha emergido nessa poca, quando voc estava lutando pelo po de cada dia - desde, 
naturalmente, que voc possa confirmar minha idia de que foi durante esse mesmo perodo que teve seu primeiro contato com os Alpes.
         -Sim,  isso mesmo: o montanhismo era o nico divertimento que eu me permitia nessa poca. Mas ainda no consigo acompanhar seu raciocnio.
         J chego l. O elemento que voc mais enfatizou em sua cena infantil foi o fato de o po feito no interior ter um sabor to delicioso. Parece claro que 
essa representao, que equivalia quase a uma alucinao, correspondia a sua fantasia na vida confortvel que teria levado se tivesse ficado no campo e casado com 
aquela moa |de vestido amarelo| - ou, em linguagem simblica, de como seria doce o sabor do po pelo qual voc vinha tendo de lutar to arduamente nos ltimos anos. 
Tambm o amarelo das flores aponta para essa mesma moa. Mas h ainda alguns elementos da cena infantil que s podem estar relacionados com a segunda fantasia - 
a de desposar sua prima. Jogar fora as flores em troca do po no me parece ser um mau disfarce para o esquema que seu pai lhe tinha preparado: voc deveria desistir 
de suas idias impraticveis e dedicar-se a uma ocupao "po com manteiga", no  mesmo?
         -Ento, parece que combinei os dois conjuntos de fantasias sobre como minha vida poderia ter sido mais fcil: de um lado, o "amarelo" e o "po feito no 
campo" e, de outro, as flores jogadas fora e as pessoas reais envolvidas.
         Sim. Voc projetou as duas fantasias uma na outra e fez delas uma lembrana infantil. O elemento das flores alpinas constitui, por assim dizer, um selo 
indicando a data da fabricao. Posso garantir-lhe que as pessoas muitas vezes constroem essas coisas inconscientemente - quase como obras de fico.
         -Mas, se  assim, no houve nenhuma lembrana infantil, apenas uma fantasia recolocada na infncia. No entanto, sinto que a cena  autntica. Como se explica 
isso?
         Em geral, no h nenhuma garantia quanto aos dados produzidos por nossa memria. Mas estou pronto a concordar com voc em que a cena  autntica. Nesse 
caso, voc a selecionou dentre inmeras outras da mesma espcie ou no, porque, graas a seu contedo (em si mesmo irrelevante), ela se prestava bem para representar 
as duas fantasias, to importantes para voc. Uma recordao como essa, cujo valor reside no fato de representar na memria impresses e pensamentos de uma data 
posterior cujo contedo est ligado a ela por elos simblicos ou semelhantes, pode perfeitamente ser chamada de "lembrana encobridora". De qualquer modo, voc deixar 
de se sentir surpreso pela freqente repetio dessa cena em sua mente. Ela no pode mais ser considerada inocente, j que, como descobrimos,  a conta certa para 
ilustrar os mais importantes pontos crticos de sua vida, a influncia das duas mais poderosas foras motivacionais - a fome e o amor.
         -, ela representou bem a fome. Mas, e o amor?
         No amarelo das flores, a meu ver. Mas no posso negar que, nessa sua cena infantil, o amor  representado com muito menos destaque do que eu poderia esperar 
com base em minha experincia prvia.
         -No, o senhor est enganado. A essncia dela  a representao do amor. Agora estou entendendo pela primeira vez. Pense um instante! Tirar as flores de 
uma menina significa deflor-la. Que contraste entre o despudor dessa fantasia e minha timidez na primeira ocasio, e minha indiferena na segunda.
         Posso assegurar-lhe que a timidez juvenil costuma ter como complemento esse tipo de fantasias despudoradas.
         -Mas, nesse caso, a fantasia que se transformou nessas lembranas infantis no seria uma fantasia consciente de que eu pudesse lembrar-me, e sim uma fantasia 
inconsciente, no ?
         Pensamentos inconscientes que so um prolongamento dos pensamentos conscientes. Voc pensa consigo mesmo, "Ah, se eu tivesse casado com fulana", e por trs 
desse pensamento h um impulso a formar um quadro daquilo em que realmente consiste esse "estar casado".
         -Agora posso prosseguir sozinho. A parte mais sedutora de todo esse assunto para um molecote  o quadro da noite de npcias. (Que lhe importa o que vem 
depois?) Mas esse quadro no pode arriscar-se  luz do dia: a atitude predominante de acanhamento e respeito perante a mocinha o mantm suprimido. Assim, ele permanece 
inconsciente...
         E resvala para uma lembrana infantil. Voc tem toda razo.  precisamente o elemento grosseiramente sensual da fantasia que explica por que ela no evolui 
para uma fantasia consciente, devendo antes contentar-se em se transformar alusivamente e sob um disfarce floreado numa cena infantil.
         -Mas o que eu gostaria de saber  por que justamente numa cena infantil?
         Por sua inocncia, talvez. Voc seria capaz de imaginar um contraste maior com essas intenes de agresso sexual grosseira do que uma brincadeira infantil? 
Entretanto, h fundamentos mais gerais que tm uma influncia decisiva na promoo do deslizamento dos pensamentos e desejos recalcados para lembranas infantis, 
pois voc constatar que a mesma coisa acontece invariavelmente nos pacientes histricos. Alm disso,  como se a prpria recordao do passado remoto fosse facilitada 
por algum motivo prazeroso: forsan et haec olim meminisse juvabit.
         -Sendo assim, perdi toda a confiana na autenticidade da cena dos dentes-de-leo. Eis como vejo tudo isso: nas duas ocasies em questo, e com o apoio de 
motivos realistas muito compreensveis, ocorreu-me o seguinte pensamento: "Se eu tivesse desposado essa ou aquela moa, minha vida se teria tornado muito mais agradvel." 
A corrente sensual de minha mente se apossou do pensamento contido na prtase e a repetiu em imagens de um tipo capaz de proporcionar a mesma satisfao sensual 
atual. Essa segunda verso do pensamento permaneceu inconsciente, graas a sua incompatibilidade com a predisposio sexual dominante; mas o prprio fato de permanecer 
inconsciente permitiu-lhe persistir em minha mente muito depois de as mudanas na situao real se terem desfeito por completo da verso consciente. Segundo uma 
lei geral, como diz o senhor, a orao que permanecera inconsciente procurou transformar-se numa cena infantil que, por sua inocncia, poderia tornar-se consciente. 
Para isso, ela teve que sofrer uma nova transformao, ou melhor, duas novas transformaes. Uma destas eliminou o elemento passvel de objeo na prtase, expressando-o 
figurativamente; a segunda imps  apdose uma forma passvel de representao visual - usando, para esse fim, as representaes intermedirias de "po" e de "ocupaes 
po-com-manteiga" |prosaicas|. Vejo que, ao produzir uma fantasia como essa, eu estava promovendo, por assim dizer, a realizao dos dois desejos recalcados - de 
defloramento e de conforto material. Mas agora que dei uma explicao to completa dos motivos que me levaram  produo da fantasia dos dentes-de-leo, no posso 
deixar de concluir que estou lidando com uma coisa que nunca aconteceu, mas foi injustificada e sub-repticiamente introduzida em minhas lembranas infantis.
         Vejo que preciso tomar a defesa da autenticidade dela. Voc est indo longe demais. Aceitou minha afirmao de que toda fantasia suprimida dessa espcie 
tende a deslizar para uma cena infantil. Mas suponha agora que isso no possa ocorrer, a menos que haja um trao mnmico cujo contedo oferea  fantasia um ponto 
de contato - como se andasse meio caminho at ela. Uma vez encontrado um ponto de contato desse tipo - no presente caso, foi o defloramento, o retirar as flores 
-, o contedo remanescente da fantasia  remodelado com a ajuda de todos os pensamentos intermedirios legtimos - tome o po como um exemplo -, at que possa encontrar 
outros pontos de contato com o contedo da cena infantil.  muito possvel que, no decorrer desse processo, a prpria cena infantil tambm sofra mudanas; considero 
certo que tambm  possvel promover falsificaes da memria dessa maneira. No seu caso, a cena infantil parece apenas ter tido algumas de suas linhas gravadas 
mais profundamente: pense na nfase exagerada no amarelo e na qualidade excessivamente saborosa do po. Mas a matria-prima era utilizvel. No fosse por isso, no 
teria sido possvel que essa lembrana particular, em vez de quaisquer outras, ganhasse acesso  conscincia. Nenhuma cena desse tipo lhe teria ocorrido como uma 
lembrana infantil, ou talvez lhe ocorresse alguma outra - pois voc sabe como  fcil para nossa engenhosidade construir pontes de ligao entre dois pontos quaisquer.E 
afora seu sentimento subjetivo, que no estou inclinado a subestimar, h mais uma coisa que depe a favor da autenticidade de sua lembrana dos dentes-de-leo. Ela 
contm elementos que no foram solucionados pelo que voc me disse e que, a rigor, no se coadunam com o sentido requerido pela fantasia. Por exemplo, seu primo 
ajudando-o a roubar as flores da garotinha - faz algum sentido para voc o pensamento de ser ajudado num defloramento? ou o da camponesa e da bab defronte  casa?
         -No que eu possa perceber.
         Logo, a fantasia no coincide completamente com a cena infantil. Baseia-se nela apenas em certos pontos, e isso depe a favor da autenticidade da lembrana 
infantil.
         -O senhor acha que uma interpretao como essa, de uma lembrana infantil aparentemente inocente,  aplicvel com freqncia?
         Muito freqentemente, em minha experincia. Que tal nos divertimos verificando se os dois exemplos dados pelos Henris podem ser interpretados como lembranas 
encobridoras, ocultando experincias e desejos subseqentes? Refiro-me  lembrana da mesa posta para uma refeio, com uma bacia de gelo sobre ela, que se sups 
ter alguma ligao com a morte da av do sujeito, e  outra lembrana, de uma criana quebrando um galho de rvore durante um passeio e sendo ajudada por algum.
         Ele refletiu um pouco e respondeu:
         -No consigo deduzir coisa alguma da primeira.  muito provvel que se trate de um caso de deslocamento em ao; mas  impossvel adivinhar os passos intermedirios. 
Quanto ao segundo caso, eu teria condies de fazer uma interpretao, se a pessoa envolvida no fosse um francs.
         No estou acompanhando seu raciocnio. Que diferena isso faz?
         -Muita diferena, j que o passo intermedirio entre uma lembrana encobridora e aquilo que ela esconde tende a ser fornecido por uma expresso verbal. 
Em alemo, "quebrar um galho"  uma expresso vulgar muito comum para designar a masturbao. A cena equivaleria, portanto, a recolocar na primeira infncia uma 
tentao a se masturbar - com a ajuda de algum - efetivamente ocorrida num perodo posterior. Mesmo assim, isso no se ajusta, pois na cena infantil havia diversas 
outras pessoas presentes.
         Ao passo que a tentao dele a se masturbar deve ter ocorrido na solido e em segredo.  justamente esse contraste que me inclina a aceitar sua viso: mais 
uma vez, ele serve para tornar a cena inocente. Voc sabe o que significa vermos, num sonho, "uma poro de estranhos", como acontece to freqentemente nos sonhos 
de nudez em que nos sentimos to terrivelmente embaraados? Nada mais, nada menos, do que o sigilo, que ali se expressa novamente por seu oposto. Entretanto, nossa 
interpretao permanece como uma brincadeira, j que no sabemos se um francs reconheceria uma aluso  masturbao nas palavras casser une branche d'un arbre ou 
em alguma expresso apropriadamente retificada.
         Essa anlise, que reproduzi to acuradamente quanto possvel, ter, espero, esclarecido at certo ponto o conceito de "lembrana encobridora" como aquela 
que deve seu valor enquanto lembrana no a seu prprio contedo, mas s relaes existentes entre esse contedo e algum outro que tenha sido suprimido.  possvel 
distinguir diferentes classes de lembranas encobridoras, conforme a natureza dessa relao. Encontramos exemplos de duas dessas classes entre o que se descreve 
como as primeiras lembranas da infncia - isto , se incluirmos na categoria de lembranas encobridoras as cenas infantis incompletas, que so inocentes justamente 
por sua incompletude. Pode-se prever que as lembranas encobridoras tambm ho de ser formadas de resduos de lembranas relativas a etapas posteriores da vida. 
Quem quer que tenha em mente seu trao caracterstico - a saber, que elas so extremamente bem lembradas, mas seu contedo  completamente irrelevante - evocar 
facilmente vrios exemplos dessa espcie de sua prpria memria. Algumas dessas lembranas encobridoras, versando sobre eventos posteriores da vida, devem sua importncia 
a uma ligao com experincias da juventude que permaneceram suprimidas. Tal ligao  o reverso da existente no caso que analisei, onde uma lembrana infantil foi 
explicada por experincias posteriores. A lembrana encobridora pode ser descrita como "regressiva" ou "progressiva", conforme exista uma ou outra relao cronolgica 
entre o encobrimento e a coisa encoberta. De outro ponto de vista, podemos distinguir as lembranas encobridoras positivas das negativas (ou lembranas refratrias), 
cujo contedo estabelece uma relao antittica com o material suprimido. Todo esse assunto merece um exame mais completo, porm devo contentar-me em assinalar que 
h processos complicados - processos que, alis, so inteiramente anlogos  formao dos sintomas histricos - envolvidos na construo de nosso estoque de lembranas.
         Nossas primeiras lembranas infantis sero sempre um tema de especial interesse, porque o problema mencionado no incio deste artigo (o fato de as impresses 
de maior importncia para todo o nosso futuro geralmente no deixarem quaisquer imagens mnmicas atrs de si) leva-nos a refletir sobre a origem das lembranas conscientes 
em geral. A princpio, sem dvida, tendemos a isolar as lembranas encobridoras que so objeto deste estudo como elementos heterogneos entre os resduos das recordaes 
infantis. No que concerne s imagens remanescentes,  provvel que adotemos o ponto de vista simplista de que elas emergem simultaneamente a uma experincia, como 
conseqncia imediata da impresso por ela causada, e que, da por diante, retornam de tempos em tempos, de acordo com as leis de reproduo conhecidas. Uma observao 
mais minuciosa, entretanto, revela certos traos que no combinam com essa concepo. H, sobretudo, o seguinte aspecto: na maioria das cenas infantis importantes 
e, em outros aspectos, incontestveis, o sujeito se v na recordao como criana, sabedor de que essa criana  ele mesmo; no entanto, v essa criana tal como 
a veria um observador externo  cena. Os Henris chamam devidamente a ateno para o fato de que muitos dos que participaram de sua pesquisa enfatizaram expressamente 
essa peculiaridade das cenas infantis. Ora,  evidente que tal quadro no pode ser uma repetio exata da impresso originalmente recebida, pois, na poca, o sujeito 
estava em meio  situao e no prestava ateno a si mesmo, mas sim ao mundo externo.
         Sempre que numa lembrana o prprio sujeito assim aparecer como um objeto entre outros objetos, esse contraste entre o ego que age e o ego que recorda pode 
ser tomado como uma prova de que a impresso original foi elaborada.  como se um trao mnmico da infncia se retraduzisse numa forma plstica e visual em poca 
posterior - na poca do despertar da lembrana. Mas nenhuma reproduo da impresso original jamais penetrou na conscincia do sujeito.
         H um outro fato que proporciona uma prova ainda mais convincente em favor dessa segunda viso. Dentre vrias das lembranas infantis de experincias importantes, 
todas com nitidez e clareza similares, h algumas cenas que, quando verificadas (por exemplo, pelas recordaes dos adultos), revelam ter sido falsificadas. No 
que sejam completas invenes; so falsas no sentido de terem transposto um acontecimento para um lugar onde ele no ocorreu -  o caso de um dos exemplos citados 
pelos Henris -, ou de terem fundido duas pessoas numa s, ou substitudo uma pela outra, ou ento as cenas como um todo do sinal de serem combinaes de duas experincias 
separadas. A simples impreciso da recordao no desempenha aqui um papel considervel, em vista do alto grau de intensidade sensorial de que as imagens so dotadas 
e da eficincia da funo da memria nos jovens; a investigao detalhada mostra, antes, que esses falseamentos das lembranas so tendenciosos - isto , que servem 
aos objetivos de recalque e deslocamento de impresses abjetveis ou desagradveis. Segue-se, portanto, que essas lembranas falsificadas tambm devem ter-se originado 
num perodo da vida em que se tornou possvel conferir um lugar na vida mental a esse tipo de conflitos e aos impulsos ao recalcamento - muito posterior, portanto, 
ao perodo a que pertence seu contedo. Mas tambm nesses casos a lembrana falsificada  a primeira de que tomamos conhecimento: a matria-prima dos traos mnmicos 
de que a lembrana foi forjada permanece desconhecida para ns em sua forma original.
         O reconhecimento desse fato deve reduzir a distino que traamos entre as lembranas encobridoras e outras lembranas derivadas de nossa infncia. Com 
efeito, pode-se questionar se temos mesmo alguma lembrana proveniente de nossa infncia: as lembranas relativas  infncia talvez sejam tudo o que possumos. Nossas 
lembranas infantis nos mostram nossos primeiros anos no como eles foram, mas tal como apareceram nos perodos posteriores em que as lembranas foram despertadas. 
Nesses perodos de despertar, as lembranas infantis no emergiram, como as pessoas costumam dizer; elas foram formadas nessa poca. E inmeros motivos, sem qualquer 
preocupao com a preciso histrica, participaram de sua formao, assim como da seleo das prprias lembranas.
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       NOTA AUTOBIOGRFICA (1901 |1899|)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         (a) EDIO ALEM:
         1901 Em Biographisches Lexicon hervorragender Aerzte des neuzehnten Jahrhunderts |Lxico Biogrfico dos Mdicos Eminentes do Sculo XIX|, de J. L. Pagel, 
Berlim e Viena, Coluna 545.
         
         Parece que essa nota nunca foi reeditada e que esta traduo, de James Strachey,  a primeira em ingls.
         
         As evidncias internas mostram que esta nota deve ter sido escrita no outono de 1899.  interessante por mostrar a viso que Freud supunha ter adotado sobre 
suas atividades s vsperas da publicao da obra que iria revolucionar sua posio no mundo cientfico. As numerosas abreviaes do original foram grafadas por 
extenso.
         
         NOTA AUTOBIOGRFICA
         
         FREUD, SIGM., Viena. Nascido a 6 de maio de 1856, em Freiberg, na Morvia. Estudou em Viena. Aluno de Brcke, o fisiologista. Formatura |grau de mdico|, 
1881. Aluno de Charcot em Paris, 1885-6. Habilitao |nomeao como Privatdozent|, 1885. Trabalhou como mdico e Dozent na Universidade de Viena a partir de 1886. 
Indicado como Professor Extraordinarius, 1897. Antes disso, Freud produziu textos sobre histologia e anatomia cerebral e, subseqentemente, trabalhos clnicos sobre 
neuropatologia; traduziu obras de Charcot e Bernheim. Em 1884, "ber Coca" |"Sobre a Coca"|, artigo que apresentou a cocana  medicina. Em 1891, Zur Auffassung 
der Aphasien |Sobre a Interpretao das Afasias|. Em 1891 e 1893, monografias sobre as paralisias cerebrais infantis, que culminaram em 1897 no volume sobre esse 
assunto no Handbuch de Nothnagel. Em 1895, Studien ber Hysterie |Estudos sobre a Histeria| (com o Dr. J. Breuer). Desde ento Freud voltou-se para o estudo das 
psiconeuroses, especialmente da histeria, e numa srie de trabalhos mais curtos enfatizou a importncia etiolgica da vida sexual para as neuroses. Desenvolveu tambm 
uma nova psicoterapia da histeria, sobre a qual muito pouca coisa tem sido publicada. Um livro, Die Traumdeutung |A Interpretao dos Sonhos|, est no prelo.
         
         
         
         
         BIBLIOGRAFIA E NDICE DE AUTORES
         
         |Os ttulos de livros e peridicos aparecem grifados; os ttulos de artigos, entre aspas. As abreviaturas esto de acordo com a World List of Scientific 
Periodicals (Londres, 1952). Outras abreviaturas usadas neste volume sero encontradas na Lista ao final desta bibliografia. Os nmeros em negrito referem-se a volumes; 
os comuns, a pginas. No caso dos ttulos de Freud, as letras adicionais s datas de publicao esto de acordo com os ttulos correspondentes na bibliografia completa 
dos escritos de Freud a ser includa no ltimo volume da Edio Standard Brasileira.
         Quanto aos autores no-tcnicos e aos autores tcnicos dos quais no se menciona nenhuma obra especfica, ver o ndice Remissivo.|
         
         
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unternommene Studienreise nach Paris und Berlin".|
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         LISTA DE ABREVIATURAS
         G.S.         = Freud, Gesammelte Schriften (12 vols.), Viena, 1924-34.
         G.W.         = Freud, Gesammelte Werke (18 vols.), Londres, a partir de 1940.
         C.P.         = Freud, Collected Papers (5 vols.), Londres, 1924-50.
         Ed. Standard        = Freud, Edio Standard (24 vols.), Rio de Janeiro, a partir de         1970.
         S.K.S.N.         = Freud, Sammlung kleiner Schriften zur Neurosenlehre (5 vols.),
                 Viena, 1906-22.
         S.P.H.         = Freud, Selected Papers on Hysteria and Other Psychoneuroses,
                 Nova York, 1909-20.
         
         
         
         
         
         



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  Primeiras Publicaes Psicanalticas -  Sigmund Freud
